Concluí meu primeiro artigo (CI, Dez. ’99, pp. 11-13) comentando que o catolicismo aceita e então vai além das interpretações ortodoxa e protestante da profissão de fé de Pedro: “Tu és o Cristo o Filho de Deus vivo”, e da resposta de Cristo: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt. 16.16,18). Mas como podem os ortodoxos e protestantes vir a reconhecer a extensão total da prerrogativa de Pedro e sua continuação na Igreja, isto é, de que “a comunhão das Igrejas particulares com a Igreja de Roma, e de seus bispos com o Bispo de Roma é – no plano de Deus – um requisito essencial para a comunhão plena e visível” (João Paulo II, Ut unum sint, No. 97)?

Há dois caminhos abertos para um diálogo frutífero entre católicos e os outros cristãos neste assunto. O primeiro é chamar a atenção para o que já foi alcançado; o segundo, é mostrar o papel do papado de maneira que levará ortodoxos e protestantes a reconhecê-lo como uma característica essencial de sua compreensão de Igreja.

Orthodoxos

Comecemos com os Ortodoxos. A própria palavra é susceptível de ter vários significados, cada um dos quais relevantes para nosso tópico. O sentido fundamental de ortodoxia é “doutrina correta”, e nesse sentido todo cristão desejará reclamá-la como a sua própria.

Em segundo lugar, ela veio a designar os cristãos na tradição litúrgica, teológica e espirital conhecida como “a Igreja grega”, incluindo sob esse título não somente gregos mas também sérvios, ucranianos, russos, e assim por diante; em resumo, a maioria daqueles grupos cristãos que têm suas origens, direta ou indiretamente, no Mediterrâneo Oriental. Em terceiro lugar, em seu uso mais específico, “Ortodoxo” designa os cristãos cujo bispo está em união com o Bispo de Constantinopla (Istanbul), assim como “Católico” identifica os cristãos cujo bispo está em união com o Bispo de Roma.

O que nem sempre é referido é que se pode ser Ortodoxo no segundo sentido e ser simultaneamente católico; isto é, um cristão pode seguir totalmente a fé e prática da “Igreja grega” e ainda estar sob um bispo que está em comunhão com Roma, e não Constantinopla (cf. Ut unum sint, No. 60). Os católicos ucranianos, por exemplo, o maior grupo nessa situação, podem declarar corretamente que são ortodoxos no sentido de estarem completamente no Oriente, na tradição “Ortodoxa”. Esses cristãos, e há muitos deles, foram jocosamente chamados de “uniates”, mas sua existência é uma demonstração de que o catolicismo e a ortodoxia não são essencialmente incompatíveis. A Igreja Católica é de fato a única Igreja que contém dentro de si cristãos do Oriente e do Ocidente, honrando ambas tradições como complementares, não contraditórias.

Assim, como católico posso declarar como minha não apenas todas as formas de cristianismo que estavam unidas na Igreja universal, “Católica”, antes da divisão entre Constantinopla e Roma em 1054, mas também a Tradição Oriental que continuou desde então. Em outras palavras, o catolicismo é realmente, aqui e agora, uma instância evidente de sucesso ecumênico. Em resposta àqueles ortodoxos que negam a compreensão católica do papado, podemos indicar milhões de seus correligionários que a aceitaram sem abandonar a ortodoxia.

É claro, tais argumentos não têm efeito na maioria dos cristãos orientais. Há um desprezo pelo Ocidente entre eles que remonta, entre outras coisas, ao saque e conquista brutais de Constantinopla pela Quarta Cruzada em 1204 e a subseqüente ocupação da cidade por latinos (europeus ocidentais). Tais lembranças, rezemos para que sejam curadas com o tempo. Teologicamente, no entanto, a defesa do papado pode se desenvolver entre declarações e réplicas: nós, declarando-o como desenvolvimento legítimo; eles, vendo-o como uma corrupção. O que está disponível é uma demonstração de que o papado, como exercido hoje, é um elemento vital e essencial da Igreja primitiva que foi perdido na Ortodoxia mas preservado no Catolicismo. Essa demonstração está em uma consideração do magistério ativo; isto é, na solene autoridade do magistério da Igreja.

Um magistério ativo

Durante os primeiros sete séculos de sua existência, a Igreja exibiu uma alegre confiança em sua pregação, culto e sua vida institucional. Especialmente no Oriente, entre os cristãos de língua grega e síria, e sob a liderança de seus bispos, a Igreja apresentava o Evangelho para o mundo greco-romano de uma forma que podia compreender e aceitar. Novas formas de culto se desenvolveram, a teologia floresceu, e novidades ousadas como a vida monástica foram lançadas.

A Igreja estava viva. Em sua variedade e número, tais experiências requeriam controle e definição, e coube aos bispos dirigir a exuberante energia em evidência por toda parte. Sua tarefa era testar e exortar, suprimindo o que era inadequado e acolhendo o que era correto. Ainda hoje os próprios nomes destes Pais da Igreja – Basílio, Gregório, Cirilo, Ambrósio, Agostinho, Atanásio… – lembram tanto católicos como ortodoxos aqueles tempos exultantes. Como bispos eles governavam suas dioceses, reunindo-se em sínodos regionais ou concílios universais quando surgiam questões maiores sobre doutrina ou disciplina. Ainda celebramos o primeiro destes concílios gerais quando rezamos o Credo de Nicéia. É então aparente que uma característica essencial da Igreja primitiva era um magistério ativo por meio do qual a Igreja local e universal falava ao mundo, preservando intacto o depósito da fé e a Ortodoxia Oriental.

Esta é uma característica da Igreja primitiva que a Ortodoxia perdeu porque lhe falta um centro efetivo de unidade. Os bispos ensinam, é claro, mas de maneira fragmentada. Divididos entre si freqüentemente por amargas rivalidades nacionais, estão limitados a repetir o que foi dito e feito no passado. A lirurgia, as regras de jejum, a formulação de doutrinas, ensinamentos morais: tudo isto está congelado na forma em que assumiram nos dias de Basílio e Gregório.

Mas ser verdadeiramente a Igreja dos Pais é ter a confiança de que a Igreja hoje permanece sob a direção do Espírito Santo e portanto está investida para continuar o tipo de desenvolvimento que tanto enriqueceu a Igreja primitiva quando se movia dos confins do judaísmo para o mundo inteiro. Em outras palavras, o cristianismo precisa de seus bispos para proclamar o Evangelho para uma nova cultura, a cultura em que vivemos, e que, como aquela dos gregos e romanos, contém boas coisas a serem celebradas, e males a serem corrigidos. Esta característica da Igreja, que assegura a seus membros que estão em continuidade com a Igreja dos Apóstolos e os primeiros séculos cristãos, falta e muito na ortodoxia.

A conseqüência é uma paralisia que impede, por exemplo, a adaptação das leis extremamente rigorosas de jejum às necessidades da vida moderna, ou, em uma questão não religiosa, a mudança para um calendário mais acertado (os Ortodoxos ainda usam um calendário impreciso do tempo de Júlio César, rseultando que as estações do ano gradualmente mudam. O Natal atualmente bem em janeiro, ainda está avançando. Seus tataranetos deverão acabar celebrando-o em junho).

Hoje é somente no catolicismo que um magistério ativo continua em plena operação. Exercido apropriadamente, a função do papado deve atrair a atenção favorável da Igreja Ortodoxa como veículo pelo qual o Espírito Santo possa trazer a Boa Nova para o homem moderno, como trouxe para o povo no passado.

Lutero, Calvino, e outros

Mil anos de história compartilhada são uma forte base para a unidade entre Oriente e Ocidente, à medida em que as diferenças do passado são reexaminadas e resolvidas. Entretanto, não parece haver esperança de se chegar a um acordo entre o entendimento católico e protestante sobre a Igreja. Os Reformadores, seguindo o slogan “somente a Bíblia”, insistiram que “os concílios gerais podem errar e erraram”; isto é, que o magistério não é o guardião divinamente indicado do autêntico ensinamento cristão. Esta atitude parece representar um impasse. A solução para para esta dificuldade, para ser efetiva, deve vir do que é comum à compreensão católica e protestante da verdade do Evangelho.

Examinemos duas características do Protestantismo: a responsabilidade do indivíduo de aceitar e agir segundo a Palavra de Deus; e a necessidade de reformar à luz da Palavra de Deus o que está errado ou desatualizado. Com relação à primeira coisa, individualismo, notamos que pode algumas vezes significar nada mais do que o truísmo de que somente eu posso decidir por mim mesmo: seja a evidência para o Evangelho, seja a conclusão que tiro dele, obviamente somente eu posso dizer sim ou não para Deus. O escândalo do Protestantismo não é, portanto, em salvaguardar a necessidade de um comprometimento individual com Cristo; o escândalo reside nas radicais discordâncias religiosas que surgiram e continuam a surgir entre esses indivíduos, cada um declarando ser guiado pelo único e mesmo Espírito Santo. O que é necessário é uma prova pela qual o indivíduo possa evidar iludir-se pensando que ele é o único juiz da verdade do Evangelho: “Provai os espíritos para ver se são de Deus” (1 Jo 4,1).

Os Protestantes reconhecem pela metade esta necessidade de se agruparem em denominações. O diálogo ecumênico também, por lutar pela unidade externa, veio a reconhecer a necessidade de um centro dessa unidade, mesmo que relutantemente garantindo um papel de algum tipo ao papado para atingi-la. É nesta busca pela unidade cristã que entra a prova dos espíritos mencionada por São João. O indivíduo deve provar suas idéias contra a fé que vem a nós dos Apóstolos, que foi expressa nas Escrituras, e que foi e continua sendo articulada pelo ensinamento da Igreja. O papel dos bispos e do Papa, portanto, pode ser expresso em termos que preservam a supremacia das Escrituras e honram a fidelidade do indivíduo a elas mas, ao mesmo tempo, evitam o escândalo da discordância.

O segundo elemento do Protestantismo, a necessidade de reforma contínua, pode ser tratada brevemente. Que o episcopado e o papado podem funcionar como instrumentos de reforma e renovação da Igreja já foi recentemente demonstrado pelo Concílio Vaticano II. O ponto é que o importante trabalho de renovação requer não simplesmente a voz profética do reformador mas também a orientação do magistério, para provar o espírito de renovação, certamente, mas também para assegurar a continuidade com o passado e colocar o selo apostólico nos novos caminhos. Assim é evitada a anarquia do Protestantismo, e preservada a unidade visível da Igreja.

Uma declaração excelente do papel ecumênico do papado é a encíclica Ut unum sint (1995), a encíclica de João Paulo II sobre a Igreja, na qual ele distingue cuidadosamente o necessário papel de Pedr e seus sucessores na Igreja, expressando ao mesmo tempo um desejo de remover de seu exercício as características secundárias que suscitaram suspeitas entre não-católicos.

Pe. Daniel Callam, sacerdote da Congregação de São Basílio (C.S.B.), é diretor do Departamento de Teologia da Universidade de São Tomé, Houston, Texas.

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