A experiência de Paulo na primitiva comunidade cristã é de caráter único. Partindo de uma rígida ortodoxia farisaica, o Apóstolo dos gentios experimenta, na visão às portas de Damasco, a dimensão intrínseca do ser eclesial, a sua identificação com o Cristo a quem ele perseguia (At 9,3-5). Esse fato vai marcar profunda e duradouramente a sua teologia. Nunca mais será capaz de olhar para uma comunidade cristã como para um simples agrupamento de pessoas. Lá há algo mais; uma unidade indestrutível, fundamentada na unidade do próprio Cristo. Paulo não vai se cansar de repetir essa lição. Por isso resultam tão dolorosas, para ele, as divisões entre os cristãos; divisões de todos os tipos que ele teve de enfrentar. Primeiramente, na controvérsia entre judaizantes e “modernizantes”; depois na rivalidade entre os diversos pregadores (Apolo, Cefas, o próprio Paulo…); mais tarde, entre carismáticos e não-carismáticos; finalmente, entre escravos e livres.

O princípio fundamental da teologia da unidade no pensamento paulino encontra-se formulado na Epístola aos Gálatas: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gi 3,28). Aqui parecem emergir os problemas concretos das comunidades paulinas: o elitismo judeu contra o espírito de dominação helenístico; a sociedade desigual e escravocrata contra as revoltas libertárias; o machismo alicerçado pela legislação romana contra a conduta extremamente livre das mulheres do patriciado. Diante dessas diferenças aparentes, Paulo indica o único e verdadeiro centro de unidade: Cristo Jesus. Nele, todos são uma coisa só. Quase parece escutar-se aqui o pedido do próprio Jesus: “Que todos sejam uma coisa só!”

O FUNDAMENTO DA UNIDADE: A IDENTIDADE COM CRISTO, NO ÚNICO CORPO

Como dizíamos, para Paulo a experiência de Damasco foi o ponto de partida para sua construção da teologia da unidade. A identificação que o próprio Cristo lhe manifestara (“Eu sou Jesus, a quem tu estás perseguindo”; At 9,5) abriu, perante os seus olhos, um horizonte inesperado. Havia um único Corpo, com uma única vida que se difundia por todos os membros. Havia uma comunicação misteriosa, mas real. A rigor, nem se poderia falar de indivíduos, pois no Corpo todos ficam unificados: “Assim também acontece com Cristo” (1Cor 12,12), exclama Paulo, quebrando o ritmo da frase, que exigiria logicamente um “assim também acontece convosco”. O sujeito da unidade não é a soma dos cristãos, mas o Cristo que os incorpora e os faz seus. Ainda mais, nesse Corpo, o princípio vital é o mesmo Espírito que impulsionou Jesus em sua vida: “Pois fomos todos batizados num só Espírito para ser um só corpo, judeus e gregos, escravos e livres, e todos bebemos de um só Espírito”. E, ao lado do batismo, o outro grande sacramento, a Eucaristia, participação no Corpo e no Sangue do Senhor, também alicerça a unidade: “Já que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, visto que todos participamos desse único pão” (1Cor 10,17).

Para Paulo, essa união íntima, profunda entre os membros da Igreja, não fica num vago afeto ou numa realidade escondida, que permaneça conhecida unicamente por Deus. Ao contrário, trata-se de algo que, pela sua própria natureza, deve traduzir-se também na ordem externa, visível. A primeira Epístola aos Coríntios, que acabamos de citar, tem uma meta muito clara: “Eu vos exorto, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo: guardai a concórdia uns com os outros, de sorte que não haja divisões entre vós; sede estreitamente unidos no mesmo espírito e no mesmo modo de pensar” (1Cor 1,10). As divisões, quando existem, têm, de acordo com a teologia paulina, um efeito purificador: “Ouço dizer que, quando vos reunis em assembléia, há entre vós divisões, e, em parte, o creio. É preciso que haja até mesmo cisões entre vós, a fim de que se tornem manifestos entre vós aqueles que são comprovados” (1Cor 11,18-19). A meta, porém, é a unidade no único Corpo, a comunhão em torno ao Cristo. “Cristo estaria dividido?” (1Cor 1,13).

TODA A OBRA DE CRISTO TEM UM SENTIDO RECONCILIADOR

A teologia do Corpo se desenvolve nas grandes epístolas paulinas (Romanos e Coríntios), em torno da solidariedade dos membros, porque participantes de uma única vida. Mas essa teologia atinge um desenvolvimento ulterior nas chamadas “epístolas do cativeiro” sobretudo Efésios e Colossenses. Nelas aparece uma nova argumentação. Já não se trata de fundamentar a unidade entre os cristãos e referi-la a Cristo. Há algo mais. Toda a criação passa a ter sentido na medida em que se unifica na “recapitulação” em Cristo. Este é “a cabeça” e já não se identifica pura e simplesmente com o Corpo. O cristão continua a ser membro de um único corpo, mas esse corpo é a Igreja, como que a mediar a unidade. A Cabeça dá a vida ao Corpo, mas se distingue dele.

Não vamos entrar na polêmica sobre a autoria destas cartas, se diretamente de Paulo ou não, sobretudo a carta aos Efésios, embora a crítica atual tenha revisto, em grande parte, suas posições e se incline majoritariamente pela afirmativa. O que nos interessa sublinhar é que representam uma evolução ulterior e harmônica da teologia paulina do Corpo e que, para as comunidades cristãs, foram e são parte integrante do cânon do Novo Testamento.

Pois bem, nessa teologia evoluída, não só a vida da comunidade cristã mas a criação inteira tem um sentido de unidade em Cristo. O mistério da vontade eterna do Pai, “para levar o tempo a sua plenitude”, consiste em “em Cristo encabeçar (ou recapitular) todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra” (Ef 1,10).

Daí se deduz bem claramente que todo esforço para construir a unidade, não só interna e na caridade, mas também externa e social, é parte do plano eterno de Deus. A própria paixão de Cristo tem um sentido reconciliador e unificador. “Ele é a nossa paz: de ambos os povos fez um só, tendo derrubado o muro de separação e suprimido em sua carne a inimizade – a Lei dos mandamentos expressa em preceitos – a fim de criar em si mesmo um só Homem Novo, estabelecendo a paz, e de reconciliar a ambos com Deus em um só Corpo, por meio da cruz, na qual ele matou a inimizade. Assim, ele veio e anunciou paz a vós que estáveis longe e paz aos que estavam perto, pois, por meio dele, nós, judeus e gentios, num só Espírito, temos acesso junto ao Pai” (Ef 2,14-18).

A mesma visão unitária se repete na Epístola aos Colossenses: “Ele (Cristo) é a cabeça da Igreja, que é o seu Corpo. Ele é o Princípio, o Primogênito dos mortos (tendo em tudo a primazia), pois nele aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude e reconciliar por ele e para ele todos os seres, os da terra e os dos céus, realizando a paz pelo sangue de sua cruz” (Cl 1,18-20). A conseqüência que daí se tira é a mesma das grandes Epístolas: “Aí não há mais grego e judeu, circunciso e incircunciso, bárbaro, cita, escravo, livre, mas Cristo é tudo em todos” (Cl 3,11).

CONSEQÜÊNCIAS DA TEOLOGIA PAULINA DA UNIDADE

A teologia paulina da unidade representa um desafio a todas as nossas divisões, porque elas se apresentam como a maior contradição possível com a obra de Cristo e com seu “mistério”. No fundo acabam por negar todo o sentido da criação. Quem tem o Espírito de Cristo deve procurar a unidade com todas as suas forças. Por isso, brota espontânea a exortação de Ef 4,1-6: “Exorto-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, a andardes de modo digno da vocação a que fostes chamados: com toda humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros com amor, procurando conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados: há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos”. As razões invocadas pelo autor da Epístola, para uma comunidade concreta (a de Colossos) continuam válidas para nós, hoje. Também hoje devemos dizer que há um só Corpo. E é evidente que não se trata de algo invisível, mas de algo bem concreto, daquilo que a Constituição dogmática Lumen Gentium, sobre a Igreja, do Concílio Vaticano II chama “a única Igreja de Cristo, que no Símbolo confessamos una, santa, católica e apostó- lica… constituída e organizada neste mundo como uma sociedade visível” (n. 8). É uma “comunidade de fé, esperança e caridade constituída como organismo visível pelo qual Cristo difunde a verdade e a graça a todos” (ibid.).

Por que, pois, buscar a unidade? Porque não há como fugir à tarefa de continuar a obra de Cristo.

O ideal, de acordo com a teologia paulina, não é o triunfo de um extremo contra o outro, de uma parte contra a outra. Do que se trata é de reconciliar, unificar, recapitular tudo em torno do Cristo, centro verdadeiro de unidade para todo o universo.

RECONCILIAÇÃO E LIBERTAÇÃO

A reconciliação que Paulo propõe não é uma ignorância dos conflitos. As duras palavras com que ele condena, por exemplo, as divisões em Corinto não se referem unicamente à própria divisão, mas também a suas raízes: a soberba de ter sido ensinado por um pregador mais famoso, de ter maior quantidade de bens e permitir-se assim uma refeição mais abundante, de possuir carismas superiores aos dos outros etc.

No nosso tempo, na América Latina, desenvolveu-se, cada vez mais claramente, a consciência de que a raiz da maioria das divisões se encontra na injustiça social, alicerçada no egoísmo humano. A opressão, a marginalização, a exploração impedem a unidade entre opressores e oprimidos, entre marginalizantes e marginalizados, entre exploradores e explorados. Por isso, se queremos verdadeiramente promover a reconciliação entre todos os homens, teremos de empenhar-nos ativamente na libertação de toda injustiça e de toda opressão.

Já Paulo, na Epístola aos Gálatas, enumera, entre as “obras da carne”, “ódio, rixas, ciúmes, ira, discussões, discórdia, divisões, invejas…” (Gl 5,20). Numa visão semelhante, as Conclusões da 3ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (Documento de Puebla) afirmam:

“A uma atitude pessoal de pecado, à ruptura com Deus que degrada o homem, corresponde sempre, no plano das relações interpessoais, a atitude de egoísmo, de orgulho, de ambição e inveja que geram injustiças, dominação e violência em todos os níveis; corresponde à luta entre individuos, grupos, classes sociais e povos, bem como a corrupção, o hedonismo, a exacerbação sexual e a superficialidade nas relações mútuas. Conseqüentemente, estabelecem-se situações de pecado que, em nível mundial, escravizam a tantos homens e condicionam adversamente a liberdade de todos. Temos de nos libertar deste pecado: do pecado que destrói a dignidade humana. Libertarmo-nos participando da vida nova que Jesus Cristo nos traz” (nn. 328-329).

“Surgem dois elementos complementares e inseparáveis: a libertação de todas as servidões do pecado pessoal e social, de tudo o que transvia o homem e a sociedade e tem sua fonte no egoísmo, no mistério da iniqüidade, e a libertação para o crescimento progressivo no ser; pela comunhão com Deus e com os homens, que culmina na perfeita comunhão do céu, onde Deus é tudo em todos e não haverá mais lágrimas” (n. 482).

A procura da unidade não se restringe às questões intra-eclesiais. O que divide não são só problemas teológicos ou de organização eclesiástica. A própria história das divisões entre os cristãos mostrou quantos elementos geográficos, políticos e culturais se misturaram no aparecimento das diversas confissões. Um sadio ecumenismo não poderá nunca esquecer que a unidade que pretendemos é, sim, externa e visível, além de animada pela caridade e alicerçada na vida única de Cristo. Mas, por isso mesmo, nunca poderemos deixar de lutar para que sejam removidos os obstáculos para a unidade, também na ordem temporal. A luta pela justiça entre os homens de todas as raças e cores, de todas as culturas e latitudes é também uma luta por essa unidade que deve culminar na recapitulação de tudo em Cristo. Por isso, o movimento ecumênico não pode ficar restrito ao diálogo teológico. Também deve promover o encontro entre os cristãos no campo dos direitos humanos, da defesa dos oprimidos, da promoção da justiça, da libertação integral do homem. Como veremos, o testemunho comum de cristãos de diversas denominações não se restringe à recitação de fórmulas de fé comuns, mas abrange também a ação em favor da justiça. Ecumenismo e Teologia da Libertação se encontram num objetivo comum: defender a dignidade da pessoa humana, para conseguir a unidade em Cristo.

Facebook Comments

Livros recomendados

EuSermão da montanha, OO capital: Livro 1 – O processo de produção do capital (Vol. 2)