Artigos (por Leandro Martins de Jesus)

Versões do Antigo Testamento

A. Textos Pré-Massorético e Massorético

É um trabalho que surge do fim do primeiro século em diante, transmitindo o texto hebraico, [em tese] livre de corrupção. O texto do Velho Testamento fixou-se pela tradição, e a versão massorética trazia as variantes anotadas na margem. O hebraico era escrito sem o uso das vogais até o século VII. Entre os séculos VII a X os doutores judeus colocaram as vogais no texto.

B. Versões Semíticas

1. Targuns – Em primeiro lugar se coloca os Targuns, devido ao fato de utilizar uma linguagem que mais se aproxima do original hebraico. Após a volta dos judeus do Cativeiro da Babilônia, uma grande parte havia perdido o domínio da própria língua, sendo-lhes necessário não só ler as Escrituras no original como dar-lhe a verdadeira significação. Dessa forma, era feita a tradução parafraseada numa série de targuns (interpretações) na língua caldaica ou no dialeto oriental aramaico. Os targuns eram numerosos e os que chegaram até nós já são da Era Cristã. Os mais antigos são os da Lei e dois referentes ao Pentateuco anteriores ao século VII.

2. Pentateuco Samaritano – Foi escrito num dialeto da família hebraica, utilizando caracteres do antigo hebraico. Eusébio de Cesareia e Cirilo de Jerusalém fazem referências a cópias deste manuscrito. Por muito tempo pensou-se que tudo havia sido perdido, mas no princípio do século XVII foi enviada uma cópia de Constantinopla a Paris. O valor dessa obra chegou a ser superestimado, mas já não se julga que seja superior ao texto hebraico. A cópia samaritana é valorosa para a determinação da história das vogais hebraicas.

C. Versões Gregas

1. Septuagentina – A versão chamada dos LXX (Setenta), ou Septuagentina, ou ainda Alexandrina, foi feita no Egito por judeus de Alexandria. Aristeas, um escritor da Corte de Ptolomeu Filadelfo II[1] (285-247 a.C.) conta em uma pseudocarta, que esta versão foi feita por setenta e dois judeus (seis de cada tribo) mandados a Alexandria no ano de 285 a.C. por Eleazer a pedido de Demétrio Falário, o bibliotecário do rei e completada em setenta e dois dias. Não se pode precisar que se tenha ocorrido verdadeiramente dessa maneira que a história nos chega. Quanto ao tempo em que se completou, não existe prova alguma. Uma análise crítica da obra mostra que esta contém muitas palavras greco-egípcias, e que o Pentateuco está traduzido com maior exatidão do que os outros livros. Os principais códices manuscritos dos LXX são: o Vaticano (B); o Sinaítico; o Alexandrino (A) e os fragmentos do Códice Efraimita (C). Entre as edições impressas dos LXX, pode-se citar a Complutensiana (1517), que segue em muitos trechos a versão hebraica massorética e a Hexapla de Orígenes; a Aldina (1518), que apresenta muitas variantes do Códice do Vaticano (B); a Romana ou Vaticana (1587) baseada no Códice do Vaticano (B); a Grabiana (1707 a 1720) que foi baseada principalmente no Códice Alexandrino (A) e a edição crítica de Cambridge (1887–1894).

2. Hexapla de Orígenes – Na primitiva Igreja Cristã[2] a versão dos LXX era de grande estima, embora certos escritores buscassem o texto hebraico para confirmar seu texto. No intuito de corrigi-la, Orígenes (185-254), um dos grandes teólogos da Igreja Católica do século III, compôs a sua Hexapla ou Versão das seis colunas (em meados de 228 d.C.). Esta versão continha além da Versão dos LXX, as traduções gregas do Antigo Testamento feitas por: Áquila do Ponto (130 d.C.); Teodoto de Éfeso (160 d.C.) e Símaco, um samaritano (218 d.C.). As duas colunas restantes continham o texto hebraico e a sua tradução em caracteres gregos. Esta obra era constituída de 50 volumes e perdeu-se provavelmente no saque de Cesareia, feito pelos sarracenos em 653 d.C. Eusébio[3] de Cesareia (260-339) havia copiado a coluna formada pelo texto da versão dos LXX, com as correções ou adições dos outros tradutores aos quais Orígenes havia recorrido. O texto hexaplariano como é conhecido, foi publicado em Paris no ano de 1714.

D. Antigas Versões Latinas

1. Vetus Latina – Entre as mais antigas versões baseadas nas versões dos LXX, temos a “Vetus Latina” feita na África, e muitas vezes transcritas total ou parcialmente em várias províncias do Império Romano. Pelas diferenças que se encontram nas cópias, alguns acreditam que existiram diversas versões, porém a hipótese mais aceita é que se trata de revisões da mesma tradução original.

2. Ítala – A mais importante das revisões da Vetus Latina fez-se na Itália, com o fim de corrigir os provincianismos e outros pequenos defeitos da versão africana. Santo Agostinho refere-se a ela em seu escrito “De Doctrina Cristiana” 2, chamando-a de Ítala. São Jerônimo[4] a considera em geral muito boa. Em seu texto predomina traços do Códice Alexandrino (A) e, baseando-se em citações de Tertuliano[5], presume-se que a versão seja do final do século II d.C.).

3. Vulgata – Devido a diversidade de cópias e as suas imperfeições, a pedido do Papa S. Dâmaso (366-384), São Jerônimo foi incumbido da tarefa de fazer a revisão dos textos das cópias latinas, como Orígenes havia feito a revisão da Septuagentina. Utilizou para isso a Hexapla de Orígenes, para corrigir todo o Velho Testamento. Quando estava prestes a terminar esta correção, São Jerônimo decidiu fazer uma tradução em latim, feita diretamente do texto hebraico. Consagrou o melhor do seu tempo a esta obra, completando-a em 404 d.C. aproximadamente:

– “Entre os tradutores antigos da Bíblia, São Jerônimo foi o último deles, embora tenha sido o primeiro no mérito: não só por ter podido se valer do trabalho dos seus antecessores, mas sobretudo porque, pela prática constante, adquiriu domínio tal das línguas bíblicas (hebraico, aramaico e grego) que entre os antigos cristãos não se conhece igual. Acrescente-se um conhecimento igualmente único da literatura exegética tanto judaica, quanto cristã. Com bagagem de cultura literária incomum, com ótima preparação e excelentes critérios, pôs mãos ao árduo trabalho. Começou por corrigir os Evangelhos latinos (em Roma, em 384), auxiliado para isso pelos melhores códices gregos, transferindo-se depois para a Palestina (em 386) (…) Estendeu o mesmo trabalho de paciente revisão (…) aos livros do Antigo Testamento; mas tendo terminado uma parte deles, sobretudo os Salmos, que passaram depois à Vulgata, compreendeu que prestaria um serviço muito melhor à Igreja, fazendo uma nova versão diretamente do texto hebraico. E sem esmorecer diante das ingentes dificuldades, e sem se cansar no longo e áspero caminho, a ela se dedicou com admirável constância pelo espaço de uns quinze anos, de 390 a 404, até o acabamento feliz da obra” (Bíblia Sagrada. São Paulo. 1982, pag. 13).

Uma reverencia supersticiosa à versão dos LXX, fez com que muitos não aceitassem a obra de Sãs Jerônimo, mas a tradução foi conquistando espaço e ganhando destaque, e no tempo de Gregório Magno (Papa de 690 a 604), já tinha igual autoridade e foi dignificada com o nome de Vulgata (“versio Vulgata” = a versão corrente):

– “As traduções de São Jerônimo não encontraram imediatamente no mundo latino a acolhida que mereciam. A propagação devida em parte às dificuldades da época, foi lenta, mas em constante progresso, de sorte que dois séculos depois Santo Isidoro de Sevilha[6] (636) pôde escrever que ela já estava em uso em toda a Igreja do Ocidente, e mais tarde o renascimento carolíngio consagrou-lhe definitivamente o triunfo sobre as antigas versões latinas. Formou-se assim entre o séc. V e IX, a versão que propriamente é chamada ‘Vulgata'” (Bíblia Sagrada. São Paulo. 1982, p.13-14).

O texto da Vulgata foi composto em parte da antiga versão latina (Cinco deuterocanônicos do Antigo Testamento: I e II Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc, com a carta de Jeremias); em parte da edição revista por São Jerônimo (os Salmos, o Antigo e Novo Testamentos); e é também uma nova tradução feita diretamente do hebraico (todo o Antigo Testamento hebraico, exceto os Salmos, Tobias e Judite). São Jerônimo estava familiarizado com os exegetas hebraicos incorporando muitas das suas interpretações na Vulgata, mas geralmente seguia-se a versão dos LXX, mesmo quanto o texto diferia do hebraico. Com o passar do tempo, o texto da Vulgata perdeu um pouco da sua pureza devido às cópias e introduções de antigas versões; porém, nobres doutores revisaram o texto, reconduzindo-o à primitiva integridade. Citamos a revisão efetuada pelo sábio Alcuíno (735–808 d.C.), ordenada por Carlos Magno e a de Lanfranc. Com o passar do tempo começaram a surgir novamente, textos de valor discutíveis, principalmente após a “Reforma Protestante”. Assim sendo, a Sessão IV de 08 de abril de 1546, do Concílio Ecumênico de Trento, após definir o Cânon das Sagradas Escrituras, decretou que a Vulgata seria a versão autêntica, e que fosse impressa com a máxima correção. Os Papas desde Pio IV (1559 a 1565) até Clemente III (1592 a 1605) nomearam consecutivamente quatro comissões para este fim, culminando na edição publicada em 1590 por Sixto V (Papa de 1585 a 1590), posteriormente substituída pela edição publicada em 1592 por Clemente VIII (Papa de 1592 a 1605), edição conhecida como “Sixto –Clementina”. Depois houve mais duas edições vaticanas, em 1593 e 1598, as quais são a base de todas as versões posteriores até os dias atuais. O mais importante e célebre manuscrito da Vulgata é o Codex Amiatinus, do final do século VII, que está em Florença, Itália, na Biblioteca Laurentiana.

E. Siríaca ou Versão Aramaica Ocidental

1. Peshita – Peshita significa “correta ou simples”. Esta versão foi feita diretamente do hebraico e concorda rigorosamente com o Texto Massorético. Não se pode afirmar em que tempo e onde foi feita esta tradução; presume-se que os cristãos da Síria, obtiveram a Escritura em sua própria língua. Pelo exame da tradução acredita-se que os tradutores eram judeus–cristãos, que traduziram o Velho Testamento do original hebraico. Esta versão continha todos os livros canônicos do Velho e Novo Testamentos, exceto 2Pedro, 2-3João, Judas e o Apocalipse. O texto difere das principais classes de manuscritos.

F. Outras Versões Antigas

1. A “História Eclesiástica” de Eusébio de Cesareia, coloca a versão da Etiópia no ano de 330 d.C. O texto baseia-se totalmente na versão dos LXX e segue as variantes do códice Alexandrino.

2. A maior parte do Velho Testamento existe nos dialetos cópticos do Egito. A época mais provável em que essas versões foram feitas são os séculos III ou IV d.C., com alguma possibilidade de que possam ser também dos séculos I ou II d.C. São baseados na versão dos LXX, seguindo as variantes do códice Alexandrino. Os tradutores são desconhecidos.

3. A versão Gótica da Bíblia, foi feita por Ulfilas, bispo dos Ostrogodos, que esteve no Concílio de Constantinopla I (maio a junho de 381 d.C.). É uma tradução da versão dos LXX, de considerável valor crítico, embora se restem apenas alguns fragmentos desta versão.

4. A versão Armênia foi feita em meados do século V d.C., baseada na versão Siríaca. Mais tarde, foi revista segundo a versão dos LXX, sendo traduzida pelo patriarca Mesrob.

5. A versão Gregoriana foi feita no século VI d.C., através de cópias da versão Armênia.

6. A versão Eslava ou Eslavônica foi feita em meados do século IX d.C., pelos irmãos católicos Cirilo e Metódio de Tessalônica, missionários da Bulgária e Moravia, que traduziram as Escrituras para a língua eslava (ou eslavônica). Considera-se como proveniente da versão dos LXX, embora alguns testemunhos antigos indiquem que a tradução foi feita do latim.

7. As versões Árabes de diversos livros das Escrituras foram traduzidas da versão dos LXX entre os séculos VIII e XII d.C, segundo diversos escritores; porém os livros de Jó, Crônicas, Juízes, Rute, Samuel, e algumas partes de outros livros, foram traduzidas da versão Siríaca (Peshita).

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NOTAS

[1] Rei egípcio de Alexandria no século II a.C, que se orgulhava de possuir em sua rica biblioteca todos os “livros do mundo”.
[2] Quando se diz “Primitiva Igreja Cristã” ou “Igreja Primitiva”, entenda-se a única Igreja Cristã existente na época: Católica Apostólica (vide nota de rodapé nº 5). “As primeiras Igrejas surgiram como comunidades fundadas pelos apóstolos (54 d.C.). Do núcleo fundado por Pedro em Roma, originou-se todo o cristianismo no Ocidente, que posteriormente foi dividido em arquidioceses, dioceses e províncias eclesiásticas, em comunhão com a Sé Romana, a partir de 70 d.C.” (Revista Superinteressante, Nº 181, págs. 22-23).
[3] Bispo Católico de Cesareia na Palestina. Por volta do ano 300 d.C. escreveu a primeira História da Igreja. Nasceu na Palestina, em Cesareia; foi discípulo de Orígenes (184-254). Escreveu sua “Crônica”, a “História Eclesiástica”, a “Preparação Evangélica” e a “Demonstração Evangélicas”. Foi perseguido pelo imperador romano Diocleciano.
[4] Viveu de 347 a 420 d.C.; é considerado “Doutor Bíblico”. Em 379, foi ordenado sacerdote pelo Bispo Paulino de Antioquia. De 382 a 385, foi secretário do Papa S. Dâmaso, por cuja ordem vez a revisão latina da Bíblia, conhecida como “Vulgata”, levando aproximadamente 34 anos para terminar. Em S. Jerônimo destacam-se a austeridade, o temperamento forte, a erudição e o amor à Igreja e à Sé de Pedro.
[5] Tertuliano de Cartago (+220 d.C.), norte da África, era advogado em Roma quando, em 195, converteu-se ao Cristianismo, passando a servir à Igreja de Catargo como catequista. Combateu as heresias do Gnosticismo, mas se desentendeu com a Igreja. É autor da frase: “o sangue dos mártires é semente de novos cristãos”.
[6] Viveu de 560 a 636 d.C.; foi Bispo e Doutor da Igreja. Nasceu em Sevilha, foi educado por seu irmão São Leandro, bispo de Sevilha. É chamado também “o último Padre da Igreja do Ocidente”. A sua obra “Etimologias”, composta de 20 volumes, é uma síntese de todo o saber antigo e do seu tempo.

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BIBLIOGRAFIA:

– ANGUS, Joseph e GREEN Samuel G. História Doutrina e Interpretação da Bíblia. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1951.
– AQUINO, Felipe. Escola da Fé I – A Sagrada Tradição. Lorena – SP: Cléofas, 2000.
– AQUINO, Felipe. Escola da Fé II – A Sagrada Escritura. Lorena – SP: Cléofas, 2000.
– AQUINO, Felipe. Escola da Fé III – O Sagrado Magistério. Lorena – SP: Cléofas, 2001.
– BATTISTINI, Francisco. A Igreja do Deus Vivo – Curso Popular sobre a Verdadeira Igreja. 29ª ed., Petrópolis: Vozes, 1998.
– Bíblia Sagrada. 47º ed. São Paulo: Ave Maria, 1985.
– Bíblia Sagrada. 38º ed. São Paulo: Edições Paulinas, 1982
– SARMENTO, Francisco de Jesus Maria. Minidicionário Compacto Bíblico. 3º ed., São Paulo: Ridiel, 2001.
– SILVA, Rogério Amaral. A Fundação da Igreja Católica por Nosso Senhor Jesus Cristo. ACI Digital – Agência Católica de Imprensa na América Latina. Disponível em: www.acidigital.com.br. Acesso em 16/06/2004.
– SILVA, Severino Celestino. Pequena História das Traduções Bíblicas. Disponível em www.nossosãopaulo.com.br. Acesso em 01/07/2004.
– (Autor Desconhecido).Como a Bíblia foi escrita. ACI Digital – Agência Católica de Imprensa na América Latina Disponível em www.acidigital.com.br. Acesso em 16/06/2004.
– (Parte integrante do opúsculo: A Formação da Bíblia ao Longo dos Séculos e a Importante Participação da Igreja Católica neste Processo, de autoria de Leandro Martins de Jesus, 2005).

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