VIII. A Soberba (15)

Capítulo 17

A soberba é um tumor da alma, cheio de pus. Se maduro, explodirá, emanando terrível fedor.

O resplandor do relâmpago anuncia o estrondo do trovão e a presença da vanglória anuncia a soberba.

A alma do soberbo alcança grandes altitudes e, daí, cai no abismo.

Sofre de soberba o apóstata de Deus, quando atribui às suas próprias capacidades as coisas bem sucedidas.

Como aquele que cai numa teia de aranha [e aí fica preso], assim cai aquele que se apóia nas suas próprias capacidades.

A abundância de frutos dobra os ramos da árvore; a abundância de virtudes humilha a mente do homem.

O fruto caído na terra é inútil para o lavrador e a virtude do soberbo não é aceita por Deus.

A cana sustenta o ramo carregado de frutos e o temor de Deus [sustenta] a alma virtuosa. Como o peso dos frutos quebra o ramo, também a soberba abate a alma virtuosa.

Não entregues tua alma à soberba e não terás fantasias terríveis. A alma do soberbo é abandonada por Deus e se converte em objeto de maligna alegria dos demônios. À noite, imagina manadas de bestas que o assaltam e, durante o dia, vê-se alterado por pensamentos vis. Quando dorme, facilmente se sobressalta e, quando vela, se assusta com a sombra de um pássaro. O sussurar das copas das árvores aterroriza o soberbo e o som da água destroça a sua alma. Aquele que efetivamente tem se oposto a Deus, rejeitando sua ajuda, vê-se depois assustado por vulgares fantasmas.

 

Capítulo 18

A soberba precipitou o arcanjo do céu (=Lúcifer) e, como um raio, o fez espatifar-se [junto com outros] sobre a terra.

A humildade, ao contrário, conduz o homem para o céu e o prepara para fazer parte do côro dos anjos.

“De que te orgulhas, ó homem, quando por natureza sois barro e pó e por que te elevas sobre as nuvens?

Contempla tua natureza, porque sois terra e cinza, e em breve voltarás ao pó, agora soberbo e, dentro de pouco, verme.

Para que elevas a cabeça que daqui a pouco cairá por terra?”

Grande é o homem socorrido por Deus; uma vez abandonado, reconheceu a debilidade da natureza. Não possuís nada que não tenhas recebido de Deus; não desprezes, portanto, o Criador.

Deus te socorre; não rejeites ao Benfeitor. Chegaste ao topo da tua condição, porém, Ele te tem guiado; tens agido retamente, segundo a virtude, e Ele te tem conduzido. Glorifica a quem te elevou, para permanecerdes seguro nas alturas; reconhece Aquele que tem a mesma origem que a tua, porque a substância é a mesma e não rejeites, por jactância, este parentesco.

 

Capítulo 19

Humilde e moderado é aquele que reconhece este parentesco; porém, o Criador (16) fez tanto a Ele como o soberbo.

Não desprezes o humilde: efetivamente ele está mais seguro que tu, caminha sobre a terra e não se precipita; porém, aquele que se eleva mais para o alto, quando cai se espatifa.

O monge soberbo é como uma árvore sem raízes e não suporta o ímpeto do vento.

Uma mente sem jactância é como uma cidade bem fortificada e quem a habita será incapturável.

Um sopro arrasta a pena e o insulto leva o soberbo à loucura.

Uma bolha [de sabão] levada pelo vento desaparece e a memória do soberbo perece.

A palavra do humilde adoça a alma, enquanto que a do soberbo está cheia de jactância.

Deus acolhe a oração do humilde; ao contrário, se exaspera com a súplica do soberbo.

A humildade é a coroa da casa e mantém seguro quem ali entra.

Quando te elevares ao topo da virtude, precisarás de muita segurança. Aquele que efetivamente cai, rapidamente se recupera; porém, aquele que se atira de grandes alturas, corre risco de morte.

A pedra preciosa brilha no bracelete de ouro e a humildade humana resplandece nas muitas virtudes.

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Notas:

15. O termo Hyperephanía provém do superlativo hypér e phaíno, “o que aparece”: aquele que aparece como mais do que é, arrogância, orgulho.

16. Evágrio emprega o termo Demioyrgós que, na tradução grega, equivale ao trabalhador manual ou a divindade que criava o mundo a partir de uma matéria pré-existente. Parece que aqui é usado no sentido de “Deus Criador”, embora esta acepção não seja totalmente clara.

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