Espaço do Leitor

Sobre a missa e o culto aos santos

Olá,



Poderia esclarecer a seguinte dúvida: quando olhamos a história da Igreja Católica vemos que até os meados do séc.III a igreja era uma pouco diferente da atual no que diz respeito as seguintes coisas: as missas na verdade eram cultos, não havia culto aos mortos e nem aos santos … Então lhe pergunto porque houve essa alteração? Poderia me dizer em que parte da Bíblia está que devemos cultar aos mortos e aos santos?

Obrigado

Caro André Luiz,

É muito comum, entre os protestantes, a afirmativa de que a Igreja Romana apostatou da fé após a Pax Constantiniana, ocorrida no século quarto. Em tua mensagem, você afirma que a Igreja primitiva (existente até meados do século 3º) difere da atual em duas coisas: a Missa e o Culto aos Santos.

Primeira pergunta: porque cargas d’água você data a “apostasia” no terceiro século e não no quarto? Ora, no tempo por você assinalado, os cristãos eram martirizados justamente para não apostatarem da fé.

É verossímel a afirmação de que estes mártires, ao mesmo tempo em que morriam para não apostatarem, tornaram-se, eles mesmos, os pais de todos os apóstatas?

Segunda pergunta: para você, apenas a Missa e o culto aos santos é que nos diferenciam da “Igreja Primitiva”? Tudo o demais permanece idêntico para você? A que Igreja você pertence?

Bem, adentrando o mérito da tua questão, pode-se dizer que a tua afirmação de que, antes de meados do século III, as missas eram “cultos” é absolutamente inverídica. Sempre e sempre, as Missas foram Missas. Os tais “cultos” (dos quais, suponho, você participa) é que jamais existiram até que qu Lutero resolveu se revoltar contra Roma.

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Leia, por exemplo, um escrito datado de 150 d. C., em que São Justino descreve como eram, a final de contas, estes “cultos” cristãos:

No dia em que se chama dia do sol se reúnem em um mesmo lugar quer os que habitam na cidade, quer os que habitam nos campos.

Lêem-se as memórias dos Apóstolos e os escritos dos Profetas. Quando o leitor termina, aqule que nos preside toma a palavra para incitar e exortar à imitação de coisas tão belas.

Depois, levantamos e oramos por nós mesmos … e por todos os outros estejam onde estiverem, a fim de que sejamos achados justos em nossas vidas e em nossas ações e sejamos fiéis aos mandamentos para alcançar a salvação eterna.

Depois. levam-se pão e uma taça com vinho e água misturados àquele que preside. Este os toma e faz subir louvores e glória ao Pai do Universo, em nome de Seu Filho e do Espírito Santo, e rende graças (eucaristia) largamente porque fomos julgados dignos de tais dons.

Após a ação de graças por parte daquele que preside, e após o povo responder “Amém”, os que entre nós se chamam diáconos distribuem a todos os que estão presentes o pão e o vinho “eucaristizados”.

 

Se você, meu caro André, já assistiu alguma Missa, deve ter reconhecido a descrição acima. Portanto, já no segundo século, os cristãos celebravam exatamente como nós, católicos, celebramos ainda hoje.

Mas, como desgraça pouca é bobagem, neste mesmo escrito de São Justino, fica claro e evidente qual era o significado, para os primeiros cristãos, do pão e do vinho consagrado:

“Pois não tomamos estes alimentos como se fossem pão comuns ou uma bebida ordinária, senão que, da mesma forma que Cristo, nosso Salvador, fez-se carne e sangue por causa de nossa salvação, da mesma forma aprendemos que o alimento sobre o quel se recitou a ação de graças, que contém as palavras de Jesus, e com o qual se alimentam nosso sangue e nossa carne, é precisamente a carne e o sangue dAquele mesmo Jesus que se encarnou.”

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Ou seja: a celebração cristã, desde o princípio, era idêntica às Missas atuais na forma e no conteúdo. Portanto: eram, rigorosamente falando, Missas e não “cultos”.

Você também afirma que até meados do séc. III não se venaravam os santos.

Posso, novamente, discordar?

Veja este texto datado de meados do século 2º mostrando o equívoco da tua afirmação:

“Ignoravam eles (os Judeus) que não poderíamos jamais abandonar Cristo, que sofreu pela salvação de todos aqueles que são salvos no mundo, como inocente em favor dos pecadores, nem prestamos culto a outro. Nós O adoramos porque é o Filho de Deus.

“Quanto aos mártires, nós os amamos justamente como discípulos e imitadores do Senhor, por causa da incomparável devoção que tinham para com seu rei e mestre.

“Pudéssemos nós também ser seus companheiros e condiscípulos!

“(…) Vendo a rixa suscitada pelos judeus, o centurião colocou o corpo no meio e o fez queimar, como era costume. Desse modo, pudemos mais tarde recolher seus ossos (de Policarpo), mais preciosos do que pedras preciosas e mais valiosos do que o ouro, para colocá-lo em lugar conveniente. Quando possível, é aí que o Senhor nos permitirá reunir-nos, na alegria e contentamento, para celebrar o aniversário de seu martírio, em memória daqueles que combateram antes de nós, e para exercitar e preparar aqueles que deverão combater no futuro.” (Martírio de Policarpo 18 +- 160 D.C)

Só isto já é o bastante!

E então, meu caro Luis? Será que você seguirá em sua cegueira e permanecerá firme na crença de que os primeiros cristãos celebravam “cultos protestantes” e não cultuavam seus santos? Ou será que você, abrindo os olhos para a verdade, entenderá que os cristãos desde o princípio, sempre foram católicos e, como católicos, celebravam já a Santa Missa, alimentando-se, verdadeiramente do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo, celebrando, desde sempre, a memória dos que já se foram?

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Para o bem de tua alma, espero que a segunda opção seja a que venha se verificar.

Fique com Deus,

Alexandre.