Autor: Alessandro Lima*.

Rafael, famoso artista italiano do período da renascença, é o responsável por um dos quadros mais fantásticos da arte universal: A Escola de Atenas.

Sua obra constitui um verdadeiro estudo da maneira pela qual os gregos antigos concebiam e representavam o mundo. É quase impossível olhar para esta obra e não perceber o senso estético de harmonia que salta do conjunto de tanto quanto dos detalhes. Podemos identificar os diversos personagens históricos e suas respectivas idéias expressas da maneira pela qual se postam e nos gestos que denotam. No centro da obra vemos Platão e Aristóteles lado a lado. O primeiro gesticula com a mão apontando para cima – sinal de sua metafísica, de sua filosofia centrada no ideal. O segundo aponta para frente – sinal de sua física, sua ética da conveniência, seu mundo filosófico baseado na experiência.

A famosa teoria do mundo das idéias – que fundamenta a filosofia platônica – ensina que o mundo é a representação diminuída e prejudicada do mundo superior, que é mais belo e perfeito, onde a perfeição e a beleza expressão potencialmente seus atributos. Segundo esta teoria a alma desenvolve os conceitos perfeitos acerca de toda a Verdade. No entanto, uma vez inserida no mundo das coisas observa nele a expressão deturpada do mundo superior, e à sua volta restam apenas meras figuras da realidade luminosa (cf. 1Cor 13,12).

O mundo para Aristóteles é lógico, onde a experiência possui lugar para desenvolver conceitos e classes, relações e dimensões. Constatou com a metafísica suas proposições que pareciam derivar do conjunto de experiências reais, catalogadas e classificadas para dar origem a uma visão teórica do mundo em que se vive, isto é, um modelo.

Em sua obra “Ética a Nicômaco”, pode-se verificar que a Ética é uma adaptação do indivíduo ao meio em que vive, que define suas regras de comportamento baseadas no modelo que percebe de sua realidade, passando então a guiar-se por elas: o bom é o adequado.

Rafael de forma brilhante capturou detalhes destas idéias e expressou-as em sua obra. No composto harmônico de sua pintura é possível identificar a noção do perfeito vindo das idéias para a visão e da visão para as idéias.

Assim como as idéias de Platão e Aristóteles, a obra de Rafael é a expressão de um modelo pelo qual o artista se palpava para entender o mundo.

Muito antes de Rafael na pintura, antes de Platão e de Aristóteles, antes dos mitos de explicação do mundo e das coisas o homem usava modelos como

formas de interferir na realidade.

Muitas pinturas rupestres demonstrando cenas de caça, identificadas no período paleolítico-superior, têm sido concebidas como modelos que o homem pré-histórico

usava para planejar, avaliar ou comunicar a sua sabedoria.

Entretanto é preciso reconhecer que os modelos apenas refletem parte das realidades.

A obra de Rafael, a Escola de Atenas é uma obra rara, perfeita em cores e métricas; genial na interpretação da tradição dos gregos. No entanto é preciso conhecimento para apreciar tal obra em sua totalidade. Quem não possui o conhecimento adequado terá sérios problemas para entender o quadro, e muito possivelmente será conduzido a idéias falsas do que o autor da obra realmente quis expressar.

O mesmo acontece com a Sagrada Escritura. Ela é a Escola de Atenas que Deus nos entregou através da Igreja, porém muito mais complexa, sintuosa e encantadora que a obra de Rafael, e por isso também muito mais suscetível a ser entendida de forma errada se o leitor não possui o conhecimento adequado. Para entender a Sagrada Escritura, não basta saber a cultura helênica como na Escola de Atenas, mas é preciso conhecer o seu berço, isto é, o corpo doutrinário onde ela surgiu, que é a Tradição dos Apóstolos. Foi da Tradição dos Apóstolos que a Igreja escreveu e usou critérios para discernir quais livros a formariam.

Todo aquele que quiser se deliciar nas letras sagradas deve procurar conhecer com amor a Tradição dos Apóstolos, que está presente na obra dos Santos Padres da Igreja. Querer entender a Sagrada Escritura por ela mesma é como querer entender a Escola de Atenas sem o conhecimento adequado.

Para saber mais sobre a obra Escola de Atenas clique aqui.

* O autor é arquiteto de software, professor, escritor, articulista e fundador do Apostolado Veritatis Splendor.

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