Eu fiquei profundamente feliz com a retirada da excomunhão aos Bispos da SSPX, é uma importante etapa para que a Igreja busque o triunfo da “hermenêutica da continuidade” afinal, quer queiramos ou não, a Fraternidade, com sua organização e estrutura, ao dialogar com o Papa, prometendo obediência ao Santo Padre, buscará, sob o pastoreiro do Vigário de Cristo, conhecer e defender, de forma clara e sincera, a Tradição, sem que para isso tenha que rejeitar ou diminuir ensinamentos tão belos e profundos.

Não obstante, alguns pontos devem ser esclarecidos. Na carta escrita por D. Fellay ele diz: “Graças a este gesto, os católicos do mundo inteiro unidos à Tradição não serão mais injustamente estigmatizados e condenados por ter mantido a Fé de seus pais. A Tradição católica não está mais excomungada”. Assumo que não gostei do tom utilizado pelo Bispo, Sucessor dos Apóstolos de fato. Seu pronunciamento tende a concluir que a SSPX era a guardiã da Tradição, como se a fé dos nossos pais não mais existisse junto a Igreja pós-conciliar, na Roma de João Paulo II e Bento XVI. SSPX não é sinônimo de “Tradição católica”, os Bispos da SSPX não estão mais excomungados, mas a Tradição sempre existiu na Sé de Pedro! Vale ainda frisar que é comum encontrar pronunciamentos de membros da Fraternidade, inclusive Bispos, defendendo a nulidade da excomunhão, ou seja, como conciliar essa atitude com o pedido para que a pena fosse retirada? Ou é nula ou, de fato existiu, e precisa ser levantada. Ademais, dentro dessa visão quase apocalíptica – SSPX como única bastiã da Tradição -, havia, logicamente, estado de necessidade, entretanto, para qualquer católico fiel ao Santo Padre, a ortodoxia doutrinária e a fé pura e integral sempre estiveram presentes no papado, antes ou depois do Vaticano II.

Me entristece saber que a SSPX, ao longo dos anos, criou um séqüito de críticos profissionais ao Vaticano II, alguns chegando ao ponto de relacionar o Santo Padre com a condenação do Concílio, logo Bento XVI, um dos seus grandes entusiastas . A SSPX tem uma enorme importância, assim como a FSSP, IBP etc, que é ajudar no triunfo da correta hermenêutica conciliar, como busca o Papa! Essa é a forma sadia e ortodoxa de resgatar as tradições perdidas, e não por meio da destruição do Concílio!

Ninguém desmerece o grande acontecimento, ao contrário, a retirada das excomunhões é um passo muito importante para o restabelecimento do espírito cristão na nossa Civilização. Com isso o Papa ganha mais um forte braço nessa luta. Entretanto, esse diálogo não se faz pela condenação do Vaticano II – a não ser que o Papa afirme que nas centenas de vezes que defendeu o Concílio na verdade esteve enganado e que o Concílio não só era falível como, de fato, errou – mas sim pela busca de uma correta interpretação dos seus documentos, sem rompimento com a Igreja pré-conciliar.

Ademais, o que deve ser levado em conta, e o que temos defendido, é que a retirada da excomunhão não serve como um atestado de ortodoxia e fidelidade para a SSPX, é um grande passo, isso é inconteste, mas o primeiro passo em caminho a uma união total e completa, sem restrições, sem diferenças, sem sequer uma vírgula a mais ou a menos!

O mesmo Papa que retirou a excomunhão em Janeiro aprovou a Canção Nova em Novembro! A FSSPX não se reconhece como filha da mesma Igreja da Canção Nova, daí a importância do diálogo; se por um lado grandes grupos precisam captar o espírito de fidelidade aos ensinamentos tradicionais, litúrgicos e doutrinários, o que se perdeu com a “hermenêutica da ruptura”, do outro lado rad-trads necessitam se submeter humildemente ao Magistério e ao Papa, sem interpretações pessoais e conclusões próprias, se aliando a “hermenêutica da continuidade”. Tudo isso para que assim, por meio dessas positivas transformações pensadas pelo Papa, vejamos um dia D. Fellay celebrando a Santa Missa junto com o Vigário de Cristo, seja no rito ordinário ou extraordinário, mostrando a glória da Igreja Una e Católica!

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