I CONFERÊNCIA DOS PADRES DO DESERTO

 

O Abade Moisés e o Escopo e o Fim do Monge (condensado da tradução de D. Timóteo Amoroso Anastácio)

Diálogo entre o Abade Moisés e os monges Cassiano e Germano

CASSIANO: No deserto de Scete moravam os mais ilustres Pais de monges e de toda a perfeição. Entre todas aquelas exímias flores, rescendia de modo mais suave, tanto pela ascese quanto pela contemplação, o abade Moisés. Desejoso de ser formado à sua escola, fui à sua procura no deserto, em companhia do santo abade Germano. Com este, desde os primeiros exercícios da milícia espiritual, vivi em tão estreita companhia, tanto no mosteiro como no deserto, que todos diziam, para significar a nossa amizade e comum propósito, que éramos um só espírito e uma só alma em dois corpos. Juntos, rogamos com muitas lágrimas ao mesmo abade uma conversa de edificação. Bem conhecíamos o seu rigor e sabíamos que não consentia em abrir as portas da perfeição senão àqueles que a desejavam com fé e a procuravam de coração contrito. Pois não devia acontecer que a mostrasse a quem não a queria ou que só mornamente a desejasse, expondo, assim, a indignos, que as acolheriam com fastio, aquelas realidades necessárias que só devem ser reveladas a quem tem sede de perfeição, pois, do contrário, pareceria ele incorrer no vício de vanglória ou mesmo no crime de traição. Cansado de nossos rogos, ele, afinal, começou a falar.

MOISÉS: Toda arte e toda a disciplina tem um escopo, ou fim particular, e um “telos”, isto é, um fim próprio. É fixando neste os olhos, que o zeloso pretendente de qualquer arte sustenta, sem perturbação e de boa vontade, todos os trabalhos, perigos e prejuízos. O lavrador, por exemplo, arrostando os raios ardentes do sol ou geadas e neves, infatigavelmente rasga a terra e com o vai-e- vem do arado amanha as glebas bravias. Assim fazendo, ele conserva o seu escopo, que é purgar a terra de todas as sarças e libertá-las de ervas daninhas, até que a torne, pelo seu trabalho, fina e solta como areia. Ele não espera conseguir de outro modo o seu fim, que consiste em searas copiosas e colheitas abundantes, para que possa, daí em diante, levar uma vida segura ou aumentar o seu patrimônio. De bom grado, esvazia o celeiro cheio de grãos e com instante trabalho os semeia nos sulcos amolecidos. Contemplando as futuras searas, ele não sente a diminuição de agora. Também os que vivem do comércio, não temem os azares do mar nem se apavoram com qualquer perigo, quando, alçados pela esperança do vôo ligeiro, são provocados ao lucro, que é o seu fim. O mesmo acontece com os que se inflamam com a ambição da carreira militar, ao divisar ao longe o seu fim, que são as honras e o poder. São insensíveis aos perigos e às mortes das campanhas e não se deixam abater pelos sofrimentos e riscos atuais, nem pelas aflições e guerras do momento, pois ambicionam a dignidade, que é o fim que se propõem.

Assim também, a nossa profissão. Ela tem igualmente o seu escopo e o seu fim próprio. Por este fazemos todos os trabalhos, sem cansaço e até com alegria. Para obtê-lo, não nos fatiga a privação dos jejuns, achamos prazer na lassidão das vigílias, não nos enfastia a contínua leitura e meditação das Escrituras, nem nos deixamos assustar pelo trabalho incessante, pela nudez e privação de tudo, nem pelo horror desta vastíssima solidão. É, sem dúvida, por causa deste mesmo fim, que abandonastes o afeto dos pais e desprezastes a pátria e as delícias do mundo, atravessando tantas regiões para chegar até nós, homens rústicos e ignorantes, que vivemos na aspereza deste ermo.

CASSIANO: Como insistisse em nossa resposta, dissemos que tudo isso tolerávamos por causa do reino dos céus.

MOISÉS: Muito bem, disse ele, falastes corretamente sobre o fim. Mas, antes de mais nada, deveis saber qual é o nosso escopo, isto é, a firme determinação a que devemos aderir sem cessar, para podermos atingir o nosso fim. Em toda arte e disciplina, como já disse, tem precedência um certo escopo, isto é, um propósito da alma, uma incessante intenção da mente. Se alguém não o guardar com perseverante empenho, não poderá chegar ao fim desejado.

Pois, como eu disse, o lavrador, tendo por fim próprio viver do proveito de colheitas abundantes com segurança e largueza, exerce o seu escopo ou determinação ao purgar de sarças e ervas inúteis o seu campo, só confiando em atingir o fim almejado, a opulência, se, antes de obtê-lo já de algum modo o possua em seu trabalho e sua expectativa. Igualmente o mercador. Não abandona o desejo de adquirir mercadorias, pois é por seu intermédio que pode mais rendosamente acumular riqueza. Em vão cobiçaria o lucro, se não tomasse o caminho que a ele conduz. Os que ambicionam as honras deste mundo, através de determinadas dignidades, escolhem antes os cargos e carreiras a que devem dedicar-se para poder chegar, pelo caminho certo, ao fim que é a desejada dignidade. Assim, o fim último da nossa via é o reino de Deus. Mas, qual seja o escopo, deve-se cuidadosamente procurar. Se não o soubermos com clareza, em vão nos cansaremos em nossos esforços, pois os que viajam sem caminho certo, só conseguem o labor da jornada, não o avanço.

O fim último da nossa profissão, como já dissemos, é o reino de Deus ou dos céus. Quanto ao nosso escopo, é a pureza de coração sem a qual é impossível alguém alcançar aquele fim. Portanto, fixando neste escopo o olhar que nos dirige, orientamos a nossa corrida por uma linha certa, de modo que se o nosso pensamento se desviar um pouquinho, nós o retificamos, voltando logo a contemplá-la, como a uma norma. Revertendo os nossos esforços a esse signo único, ele nos avisará imediatamente, caso o nosso espírito se desvie ainda que pouco da direção proposta. É como os que são hábeis no manejo de armas de arremesso.

Quando querem demonstrar sua perícia diante de um rei deste mundo, esforçam-se por lançar dardos ou flechas em pequenos escudos onde são pintados os prêmios. Estão certos de não poder alcançar o seu fim, o prêmio cobiçado, senão visando diretamente ao alvo. Ganharão o prêmio se puderem realizar o escopo proposto. Se este lhes for subtraído da vista, seja qual for o desvio que afaste o olhar imperito da direção correta, eles não perceberão que se apartaram daquela linha, porque lhes falta o sinal certo que lhes aprove a correção do tiro ou acuse a sua falha. E assim, ao lançarem no ar e no vácuo seus inúteis arremessos, estão impedidos de distinguir por que erraram ou se enganaram, pois carecem de qualquer indicação do desvio, e o seu olhar confuso não pode ensinar como, desde então, corrigir ou recuar a linha acertada. Assim também a nossa profissão. seu fim, segundo o Apóstolo, é a vida eterna, conforme, suas próprias palavras: “Tendes por fruto a santidade, e por fim a vida eterna”. Rom. 6, 22 Quanto, porém, ao nosso escopo, é a pureza de coração, que ele merecidamente chama de santidade, sem a qual aquele fim não poderia ser atingido. É como se dissesse em outras palavras: `Tendes o vosso escopo na pureza de coração, e o vosso fim na vida eterna’. Falando, aliás, desse escopo, o mesmo Apóstolo emprega o próprio termo, isto é, escopo, de modo bem significativo: “Esquecendo o que está para trás, e lançando-me para frente, eu sigo sem parar até o fim, para a recompensa a que fui chamado do alto”. Fil 3,13-14 O texto grego é mais claro ainda, trazendo: “katá skopón diwko”, isto é: “eu sigo até o fim, segundo o escopo”, vale dizer, segundo a determinação que me propus, como se dissesse: “Por este propósito, pelo qual esqueço o que ficou para trás, isto é, os vícios do velho homem, eu me esforço por chegar ao meu fim, que é a recompensa celeste”.

Assim sendo, devemos abraçar com toda a energia o que pode nos encaminhar ao escopo da pureza de coração, e evitar tudo que dela nos separa, como pernicioso e nocivo. É ela a razão de tudo que fazemos e suportamos. É por ela que abandonamos parentes, pátria, honrarias, riqueza, delícias e qualquer prazer deste mundo, para guardar continuamente a pureza de coração. Se nos propomos esta intenção, os nossos atos e pensamentos sempre irão direto à sua conquista. Mas se ela não estiver constantemente diante dos nossos olhos, não só os nossos trabalhos se tornarão vazios e instáveis e sem nenhum proveito, mas também se levantarão pensamentos de toda sorte e contrários entre si. Pois é inevitável que a alma, não tendo a que voltar e a que se fixar de preferência, mude a cada hora e a cada minuto, ao sabor da variedade dos impactos que sofre, e logo se transforme, em virtude das influências de fora, na disposição que primeiro lhe ocorra.

Daí vem que já vimos que muitos, depois de ter deixado as maiores riquezas, não só em quantias de ouro e prata, mas igualmente em propriedades magníficas, se deixam perturbar, depois disso, por causa de um canivete, um estilete, uma agulha, uma pena de escrever. Se tivessem mantido o olhar invariavelmente fixo naquela pureza de coração, jamais teriam admitido em coisas tão pequenas o que radicalmente rejeitaram em bens consideráveis e preciosos. Pois acontece muitas vezes que não poucos guardam com tanto ciúme um volume, que não permitem a ninguém sequer de leve o ler ou tocar. E assim encontram ocasião de impaciência e de morte onde eram estimulados a ganhar a recompensa de paciência e de caridade. Depois de terem distribuído todos os seus bens por amor de Cristo, eles retém em coisas mínimas o antigo afeto do seu coração e se deixam por elas, muitas vezes, encher-se de fortes cóleras, como os que, não tendo a caridade do Apóstolo, se tornam de todo infrutuosos e estéreis. O santo apóstolo o previa, em espírito, quando disse: “Ainda que eu distribuísse todos os meus bens para o alimento dos pobres, e entregasse meu corpo às chamas, se eu não tiver a caridade, de nada me serve”. I Cor 13,3

Prova-se, assim, com clareza, que não se alcança de imediato a perfeição pelo simples despojamento e pela renúncia de toda riqueza e honraria, senão houver aquela caridade cujos membros descreve o Apóstolo, pois é só na pureza de coração que ela consiste. Pois o que é não invejar, não se encher de orgulho, não se irritar, não agir mal, não ir atrás do próprio interesse, não ter prazer com a injustiça, não levar em conta o mal (I Cor. 13,4ss) e o resto, senão oferecer sempre a Deus um coração perfeito e sincero, e guardá-lo imune de quaisquer perturbações? É, portanto, pela pureza do coração que tudo devemos fazer e apetecer. Por ela, temos de ir atrás da solidão. Por ela, saibamos que nos cumpre assumir jejuns, vigílias, trabalhos, despojamento, leitura e outras virtudes, para, graças a isto, tornar e conservar livre de más paixões o nosso coração, galgando por estes degraus a perfeição da caridade. E se eventualmente não pudermos, em virtude de alguma legitima e necessária ocupação, realizar o ritual dos nossos rigores costumeiros, não vamos por motivos de tais observâncias cair na tristeza ou na ira ou indignação, pois é para vencer tais coisas que teríamos feito o que foi omitido. Não é tão grande o lucro do jejum, quanto os dispêndios da ira; nem tanto o fruto que se colhe com a leitura, quanto o dano que sofremos com o desprezo de um irmão. Convém, portanto, fazer por causa do nosso escopo principal, isto é, a pureza do coração, que é a caridade, todas aquelas coisas secundárias, jejuns, vigílias, anacorese, meditação das Escrituras, e não desbaratar por causa delas esta virtude principal, pela qual, se a guardarmos intacta em nós, nada nos poderá fazer mal, ainda que se omita por necessidade algo secundário.

De resto, não nos servirá de nada fazer todas as coisas, se nos deixarmos privar daquela que chamamos principal e para cuja aquisição tudo deve ser feito. Se alguém, com efeito, se apressa a arranjar e preparar as ferramentas de qualquer arte, não é para as possuir ociosas nem para fundar na mera posse dos instrumentos o fruto deles esperado, mas sim para adquirir realmente, por seu serviço, a maestria e o produto daquela arte, de que são eles os meios. Assim, os jejuns, as vigílias, a meditação das Escrituras, o despojamento e a privação de todos os recursos não constituem a perfeição, mas são instrumentos da perfeição, pois se não é neles que está o fim dessa disciplina, é por eles que se chega ao fim. É, portanto, em pura perda que alguém multiplicará tais exercícios, se neles detiver a intenção do seu coração, como se fossem o sumo bem, deixando de fixar no fim pelo qual se justificam aquelas práticas, todo o esforço da sua virtude. Possuiriam os instrumentos daquela disciplina, mas ignorariam o seu fim, no qual consiste todo o fruto.

Tudo, pois, que pode perturbar a pureza e a tranqüilidade da mente, ainda que pareça útil e necessário, deve ser evitado como prejudicial . Com esta norma poderemos escapar à dispersão dos pensamentos extravagantes e atingir, seguindo a justa direção, o fim querido. Este, portanto, deve ser para nós o principal esforço, esta a invariável intenção do coração, para que a mente sempre esteja fixa em Deus e nas coisas divinas. Tudo o que disto se afasta, mesmo que seja grande, deve ser julgado secundário ou mesmo ínfimo, ou por certo nocivo. De modo muito belo, o Evangelho traça uma figura deste espírito e deste modo de agir, no episódio de Maria e Marta. Enquanto Marta prestava um serviço absolutamente santo, pois era ao próprio Senhor e a seus discípulos que ela ministrava, e Maria, somente atenta à doutrina espiritual, estava fixa aos pés de Jesus, que ela, beijando, ungia com o perfume duma boa confissão, é ela a preferida pelo Senhor, por ter escolhido a melhor parte, e uma parte que não lhe podia ser tirada. Marta, com efeito, toda ocupada nos piedosos cuidados do seu serviço doméstico, vendo-se incapaz de cumpri-lo sozinha, pede ao Senhor a ajuda da irmã: “Não te importas que minha irmã me deixe servir sozinha? Dize-lhe, pois, que me ajude”. Lc. 10,40 Não era a uma obra vil, mas a um louvável ministério, que ela chamava Maria. E, no entanto, que resposta ouviu do Senhor? “Marta, Marta, estás preocupada e te perturbas por muitas coisas. Não há necessidade senão de poucas, e até mesmo uma só basta. Maria escolheu a boa parte, que não lhe será tirada” Lc. 10, 41-42

Vedes, portanto que o Senhor colocou o bem principal só na “theoria”, isto é, na contemplação divina. Segue-se que as outras virtudes, ainda que as proclamemos necessárias e úteis e boas, nós a julgamos de segundo grau, porque todas são praticadas para a obtenção desta só. Dizendo o Senhor: “Estás preocupada e te perturbas por muitas coisas; não há necessidade senão de poucas e até mesmo uma só basta”; ele colocou o sumo bem não na ação, embora louvável e abundante de frutos, mas na contemplação dEle mesmo, que é, na verdade, simples e una. Ele afirmou que poucas coisas são necessárias para a perfeita bem-aventurança, isto é, aquela “theoria” que começa pela consideração do exemplo de uns poucos santos Elevando-se desta contemplação, aquele que ainda se acha em progresso, chegará também a esse único assim chamado, isto é, à visão de Deus só, com a sua graça. Ultrapassando, com efeito, os atos e ministérios maravilhosos dos santos, ele já passa a nutrir-se da beleza e do conhecimento de Deus: “Maria escolheu a boa parte, que não lhe será tirada”. É preciso considerar isto mais cuidadosamente. Quando Ele disse: “Maria escolheu a boa parte”, embora se cale a respeito de Marta e não pareça censurá-la, ao louvar aquela, declara esta inferior. E quando diz “que não lhe será tirada”, mostra que desta pode-se tirar a sua parte, um serviço corporal não pode perseverar sempre com o homem, ao passo que a ocupação de Maria, esta, como Ele ensina, em tempo algum pode findar.

CASSIANO: Ficamos muito perturbados com esta palavra. Pois que, dissemos nós, então o labor dos jejuns, a solicitude da leitura, as obras de misericórdia, de justiça, de piedade e afeição humana, nos serão tiradas e não permanecerão com os seus autores? Mas, sobretudo, não foi o próprio Senhor que prometeu o reino dos céus em retribuição a tais obras, ao dizer: “Vinde, benditos do meu Pai, entrai na posse do reino que está preparado para vós desde a origem do mundo. Pois tive fome, e me desde de comer; tive sede, e me deste de beber”. Mt. 25, 34-35 E o resto? Como enfim, será tirado o que introduz no reino os seus praticantes?

MOISÉS: Eu não disse, respondeu o abade Moisés, que o prêmio da boa obra nos deva ser tirado, porque o mesmo Senhor declara: “Aquele que der a um desses pequeninos um cálice de água fresca, porque é um dos meus discípulos, em verdade vos digo, não perderá a sua recompensa”, Mt. 10, 42 mas sim que lhe será tirada a ação, atualmente exigida pela necessidade corporal, pelos ataques da carne ou pelas desigualdades deste mundo. A assiduidade da leitura e as aflições do jejum para purificar o coração e castigar a carne, só tem utilidade na vida presente, enquanto “a carne tem concupiscência contra o espírito”. Gal. 5, 17

Vemos, aliás, que não raro esse exercício já nesta vida cessa para aqueles que estão esgotados pelo excessivo trabalho, ou pela doença e pela velhice, e não podem ser perpetuamente praticados. Quanto mais cessarão no futuro, quando “este corpo corruptível se revestir de corruptibilidade”, I Cor. 15, 53 e esse corpo agora “animal” ressuscitar “espiritual” (I Cor. 15, 44), e a carne começará a não mais ter concupiscência contra o espírito? Sobre isto, igualmente, o Apóstolo se pronuncia com clareza: “O exercício corporal tem utilidade limitada, mas a piedade, (é a caridade, sem dúvida, que deve-se entender), é útil para tudo, pois ela tem a promessa da vida presente e futura”. I Tim. 4, 8 Dizer que tem uma utilidade limitada, é declarar claramente que ela nem se pratica todo o tempo, nem pode por si só conferir, a quem se esforça, a suma perfeição. O limite, com efeito, pode referir-se às duas coisas, vale dizer, tanto à brevidade do tempo, já que o exercício corporal não pode ser coeterno ao homem nem na vida presente nem na futura; como, igualmente à pouca utilidade obtida pelos exercícios corporais, porque a maceração corporal produz um certo começo de progresso, mas não a própria perfeição da caridade, e é esta que tem a promessa da vida atual e futura. Julgamos, pois, necessário o exercício dessas obras, porque sem elas é impossível subir ao cume da caridade.

As obras de caridade e misericórdia, como as chamais, são também necessárias neste tempo, enquanto ainda reina a desigualdade. Mas dessas obras nem mesmo seria de esperar a sua prática, se não houvesse, aqui em baixo, um numero muito grande de pobres, necessitados e enfermos, produzido pela injustiça dos homens, daqueles, quero dizer, que retiveram para o seu uso exclusivo, sem contudo, realmente servir-se delas, as coisas que o criador comum concedeu a todos. Enquanto, pois, grassar neste mundo uma tal desigualdade, aquela ação tão necessária aproveitará a quem a exercer, dando ao bom coração e à benevolência fraterna o prêmio da herança eterna. Mas no século futuro, reinando a igualdade, ela cessará. Já não mais haverá ali diferenças que exijam a sua prática, mas todos passarão da multiplicidade da ação à caridade de Deus e à contemplação das coisas divinas, numa perpétua pureza de coração.

É a isto que, desde este século, se dedicam com todas as forças, aqueles que só querem cuidar da ciência e da purificação de sua mente. Consagrando-se, enquanto se acham na condição carnal e corruptível, ao ofício em que haverão de permanecer depois de a ter deixado, eles atingem aquela promessa ao Senhor, nosso Salvador, que diz: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”. Mt. 5, 8

Por que vos admirais da transitoriedade daqueles serviços acima enumerados? O próprio Apóstolo nos descreve como passageiros até os mais sublimes carismas do Espírito Santo. Somente a caridade, como ele nos indica, permanece sem fim: “As profecias serão abolidas, as línguas cessarão; a ciência será destruída”. I Cor. 13, 8 Mas, quanto à caridade, diz ele: “A caridade não passará jamais”. I Cor. 13, 8 Todos os dons, com efeito, nos são dados em razão da utilidade e da necessidade, por algum tempo, devendo, sem dúvida, desaparecer logo que se consumar a presente economia. A caridade, porém, não será jamais interrompida. Não é só neste mundo que ela opera em nós de modo útil, mas também no futuro. Depois de deposto o fardo das necessidades corporais, ela permanecerá ainda mais eficaz e mais excelente, para que, sempre imune de qualquer desgaste, possa aderir a Deus, na eterna incorruptibilidade, de modo ainda mais ardente e mais intenso.

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