Espaço do Leitor

Leitor indaga sobre o fim propiciatório da santa missa

Caros amigos do Veritatis Splendor,

estudo a doutrina católica em casa por meio desses sites apologéticos e livros doutrinários. Apesar de muito ler, estou com uma dúvida a cerca do aspecto “propiciatório” da Missa, ou seja, que Cristo “aplaca a ira divina” na missa, dando devida “propiciação” pelos nossos pecados.

Esses termos são muito técnicos e eu não os compreendo bem. Se os nossos pecados são perdoados na confissão sacramental, ou por um simples ato de contrição, qual a utilidade da Missa nesse aspecto? A confissão então só é validada caso o fiel tenha assistido a Missa? Qual é a relação desses dois sacramentos?


Caríssimo sr. Ivan, estimado em Cristo,

Obrigado por sua confiança depositada em nosso apostolado.

A Santa Missa, como o sacrifício da Cruz, que lhe é idêntico em essência, diferindo do mesmo apenas no modo do oferecimento, tem vários fins: é culto latrêutico, eucarístico, propiciatório, impetratório, e reparatório. É culto latrêutico porque toda a Missa é um ato de suprema adoração (latria) a Deus. É culto eucarístico porque a Missa se reveste de significado de ação de graças (eucaristia significa “ação de graças”) a Deus. É culto propiciatório porque se trata do mesmo e único sacrifício de Cristo oferecido na Cruz pelo perdão de nossos pecados, aplacando a justa ira de Deus em vista de nossas iniqüidades e restabelecendo nossa amizade com Ele. É, igualmente, culto impetratório pela oportunidade que se apresenta durante a Santa Missa de suplicarmos toda sorte de graças a Deus, Nosso Senhor. Enfim, é culto reparatório porque satisfaz as penas devidas pelos pecados já perdoados, i.e., repara as conseqüências do pecado (o pecado em si é apagado pelo caráter propiciatório). Alguns enumeram os fins como quatro, colocando o propiciatório e o reparatório (ou expiatório) como um só, dado que ambos se referem ao pecado e suas conseqüências. Essa divisão é meramente pedagógica e não nos interessa na presente resposta. Vamos a ela, pois!

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O senhor disse bem: pela absolvição que se segue à confissão sacramental, somos perdoados. Todavia, os sacramentos são sinais visíveis da graça invisível, que realizam aquilo que significam. É a graça que nos perdoa, sendo os sacramentos apenas os canais pelos quais ela passa. A graça, por sua vez, nos é conquistada por Cristo, Nosso Senhor, no alto da Cruz. Da Cruz nos vem a graça, da Cruz nos vêm os sacramentos, da Cruz, portanto, nos vem a salvação. Graça, Cruz e sacramentos não competem como modos de salvação. O que nos perdoa e torna dignos diante de Deus é a graça, a qual foi merecida por Jesus Cristo em Sua Cruz, e nos é dada mediante os sacramentos.

Ora, bem sabemos que a Missa e a Cruz são o mesmo e único sacrifício, mantendo uma unidade substancial. É por isso que dizemos que a Missa nos salva, que a Missa nos conquista a graça, que a Missa é propiciatória. Se é da Cruz que nos chega a graça, e a Missa e a Cruz são um só evento místico e sacramental, podemos dizer que somos salvos pela Missa, que da Missa nos vem a graça, na Missa Cristo no-la merece para que sejamos aceitos por Deus Pai.

Todos os sacramentos brotam da Cruz. Todos os sacramentos, então, brotam da Santa Missa. Somos perdoados no Batismo? Sim, pela graça nele comunicada, graça essa conquistada na Cruz, que se faz presente na Missa. Somos perdoados na Reconciliação, mediante a absolvição do sacerdote? Sim, pela graça nela comunicada, graça essa conquistada na Cruz, que se faz presente na Missa.

Outrossim, além de conquistar a graça suficiente para que sejamos perdoados (no Batismo e na confissão sacramental) do pecado mortal, a Santa Missa pode nos perdoar do pecado venial, se a assistimos com as devidas disposições.

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Isso no aspecto propiciatório.

Já no reparatório, sabemos que, embora perdoados dos pecados, resta-nos satisfazer por suas conseqüências. A culpa (o pecado em si) é perdoado pela graça comunicada nos sacramentos, mas a pena temporal por eles devida, deve ser reparada de alguma forma, pelas boas obras, pelas orações, pelas mortificações, pelas penitências impostas pelo sacerdote etc. A Missa, não só nos conquista a graça para o perdão do pecado mortal (quer a assistamos ou não) e nos perdoa de fato do pecado venial (se a assistimos com reta intenção, arrependimento e desejo de perdão), como também nos pode mitigar a pena pelos pecados devida, ou mesmo satisfazer por toda ela.

Por que a Missa aplaca a ira divina? Seria essa ira um castigo justo pelos nossos pecados, ou o simples livramento de nossas almas da condenação eterna? A nossa pena temporal também é apagada na Missa?

A ira divina é causada pela infinita injustiça feita pelo pecado. Deus, Nosso Senhor, fica ofendido pelo pecado mortal, e o foi pela primeira desobediência de Adão e Eva, permanecendo em ira pelo estado de pecado em que se encontrou a humanidade. Mas, apesar de Sua justa ira, o Criador também é misericordioso e mandou Jesus Cristo, Seu Filho único, para morrer por nós, por nossas faltas. Deus, assim, é aplacado em Sua ira pelo sacrifício de um homem (pois o homem O ofendeu) e de um Deus (dado que, pecando, o homem não seria santo o suficiente para oferecer um sacrifício perfeito, de valor infinito, proporcional à infinita gravidade de nossas ofensas a Ele).

Aplacando a ira divina, a Santa Missa nos livra do pecado, nos merece a graça, a qual nos é comunicada pelos sacramentos, pela fé e pela oração. Também a pena temporal é apagada ou, ao menos, mitigada, como já respondi antes.

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Estou muito confuso e, através dessas perguntas, creio que vocês já têm uma idéia da minha questão.

Obrigado desde já.

Salve Maria Santíssima!

Espero ter ajudado a desfazer a confusão. Que Deus o abençoe pelas mãos maternais da Santíssima Virgem!

Submeto-me às suas orações, enquanto lhe asseguro minhas pobres preces.

Em Cristo, fraterno e caloroso abraço,


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