Os americanos têm uma expressão ótima para as pessoas que concordam com tudo o que se lhes diz: são os “homens-sim”, os yes men.

Muita gente fica satisfeita ao ascender social ou profissionalmente, justamente por aumentar o número de “homens-sim” em torno.

Para quem se interessa em ouvir o contraditório, no entanto, este é um perigo que se tenta evitar. Pensando na maioria e em seu desejo de jamais ser contrariada, os gigantes da internet – Google e Facebook, principalmente – desenvolveram “algoritmos-sim” em seus mecanismos de busca e na exibição das atualizações e notícias. Sem que percebamos, eles filtram as notícias que exibem, de modo a mostrar cada vez mais as que pareçam nos agradar.

O resultado é que, na internet, é cada vez mais difícil sair de um mundinho pequeno em que todo mundo pensa exatamente igual à gente. Quem é de esquerda acha quase apenas notícias com este viés, para quem é católico o Facebook parece habitado exclusivamente por aqueles que os franceses chamam de grénouilles de bénitier (“sapinhos da pia de água benta”), e por aí vai.

A coisa está indo tão longe que está difícil se manter informado pela internet. É preciso procurar com força, descobrir páginas de notícias com uma linha editorial com que não concordemos e ir propositadamente lá, fazer, em suma, um esforço consciente para não se ver em um mundo criado à nossa imagem e semelhança.

Esse sempre havia sido um perigo nas megalópoles, onde é possível nunca passar do “bom dia” com pessoas que não ouçam a mesma música, vistam as mesmas roupas e tenham as mesmas ideias. A internet, contudo, enquanto foi terra de ninguém, ao mesmo tempo oferecia a possibilidade de achar quem partilhasse gostos raros (lembro a minha felicidade ao descobrir uma lista de discussão sobre judaísmo do século I, 16 anos atrás!) e o encontro frequente com o diferente. Nela, encontrávamos a todo instante modos de ver o mundo tão radicalmente diversos dos nossos que podiam nos forçar a examinar nossos próprios valores.

Com o desenvolvimento da tecnologia, contudo, a mesma fraqueza humana que nos faz torcer o nariz para o diferente no mundo real transformou o mundo virtual numa imensidão de guetos que não se comunicam. Ao mesmo tempo, a expressão concisa do Twitter e das imagens legendadas, quase sempre dizendo algo com que já concordávamos (ou não os receberíamos…), dificulta ainda mais o confronto de ideias e o repensar das certezas.

É no confronto que a verdade se sobressai das opiniões. Busquemo-lo.

Facebook Comments