Quando Nosso Senhor Jesus Cristo, voltando-se para Simão Bar Jonas, anunciou-lhe que, desde então, seu nome seria Pedro, revelou-se, por debaixo deste novo nome, uma profunda realidade que, sempre e sempre, se faria presente na vida da Igreja por Ele criada. A partir de então, em Pedro e em seus sucessores, os católicos encontrariam a “Rocha” na qual se apoiariam nos momentos de crise, a âncora que, diversas vezes, evitaria que a Barca se afundasse.

A história da Igreja está repleta de episódios em que os Papas mantiveram-se firmes contra os perigos de todo o tipo, mesmo quando, à sua volta, tudo o mais parecia desabar. Como se esquecer dos atos e palavras do próprio São Pedro no Concílio de Jerusalém? Como não se lembrar da verdadeira Reforma feita por São Gregório VII, salvando a Igreja do caos em que se encontrava? Como não se lembrar dos apelos de Urbano II para que se iniciassem as Cruzadas, permitindo-se o acesso dos cristãos aos locais mais santos de nossa santíssima fé? Como não agradecer a Deus a corajosa defesa de toda a Europa contra os muçulmanos feita por São Pio V, conclamando os fiéis católicos para lutar em Lepanto?

O Papado é, com certeza, a mais gloriosa e influente instituição da história. E, em nossos dias, reinando Bento XVI, a glória e influência dos Papas se mantêm, mesmo num mundo embriagado e decadente como no que hoje vivemos.

Não podemos negar que a crise na Igreja é, talvez, a mais devastadora de todas. Mesmo boa parte da hierarquia perdeu, completamente, o senso de catolicismo, deixando à deriva as ovelhas que lhe foram confiadas. Os pontos mais elementares de nossa fé precisam ser novamente expostos e, quando o são, tal exposição gera polêmica mesmo entre os bispos e cardeais. A liturgia católica se encontra em tal situação que falar-se em “crise” não é mais apropriado, pois o que hoje se vivencia é uma verdadeira “desintegração” litúrgica que, pura e simplesmente, não encontra paralelo em qualquer período da história.

Contudo, Deus escolheu para reinar, neste momento, um Papa que se coloca novamente  como uma “Rocha”, na qual todos nós, católicos fiéis e defensores apaixonados da fé, podemos nos apoiar. A sucessão de pronunciamentos e de atos de Sua Santidade no sentido do resgate da cristandade é tão vertiginosa que acompanhá-la é um desafio. Aliás, é de todo sintomático que o Papa Bento XVI esteja trazendo ao seu redor todos os católicos firmes na fé, ao mesmo tempo em que angaria, mundo afora, o ódio de protestantes, judeus, muçulmanos e liberais.

Há quanto tempo um Papa não agradava apenas aos fiéis mais comprometidos, desapontando e desagradando todos os inimigos da Igreja? Isto, por si só, é a prova incontestável de que ele, Bento XVI, se preocupa apenas com sua missão, não se preocupando com aquilo que, dele, dirão os jornais de hoje e os livros de história de amanhã.

Como todos sabem, em Julho de 2.007, o Papa lançou aquele que talvez seja o mais importante documento eclesiástico desde o fim do Concílio do Vaticano II: o Summorum Pontificum. Ao lançá-lo, o Papa sabia que tal gesto, salvando a liturgia católica da desintegração absoluta, salvaria a própria fé de se desintegrar absolutamente. Por meio dele, muitos terão acesso ao mais belo e elevado Rito Litúrgico da Igreja, e a multiplicação das celebrações segundo o Missal de 1.962 acabará por trazer de volta a sanidade litúrgica mesmo às celebrações segundo o Missal de Paulo VI.

Quando a liturgia católica se recuperar, a própria fé voltará a florescer, e, superada a crise, a Igreja estará pronta para, novamente, lançar-se à conquista do mundo para o seu Senhor.

Contudo, como era de se esperar, muitos bispos colocaram-se contra a aplicação do Summorum Pontificum. Em meio a berros desprovidos de qualquer substância, lançaram eles mão de um argumento bastante singelo: a volta da Missa Tradicional ressuscitaria uma oração anti-semita rezada na Sexta-feira Santa.

A oração era a que se segue:

“Oremus et pro Iudaeis: ut Deus et Dominus noster auferat velamen de cordibus eorum; ut et ipsi agnoscant Iesum Christum Dominum Nostrum.

Oremus.  Flectamus Genua.  Levate.  …

Omnipotens sempiternae Deus, qui Iudaeos etiam a tua misericordia non repellis: exaudi preces nostras, quas pro illius populi obcaecatione deferimus; ut agnita veritatis tuae luce, quae Christus est, a suis tenebris eruantur.  Per eundem Dominum.

Como se pode observar, o argumento era bastante revelador. Se obedientes fossem estes que se opuseram ao Summorum Pontificum, ao invés de vetar (contra todo o direito) as Missas Tridentinas, tê-las-iam aceito enquanto pediriam ao Papa a alteração da prece. Afinal, a oração é realizada uma única vez por ano, pelo que, ainda que fosse anti-semita, sua existência não justificaria opor-se à toda Liturgia Tradicional.

O Vaticano, então, anunciou que a bendita oração seria alterada. Muitos se preocuparam, vendo neste ato uma capitulação católica às exigências do politicamente correto. E, após muita especulação, finalmente a nova oração pela conversão dos judeus veio à tona. O texto é o que segue:

Oremus et pro Iudaeis. Ut Deus et Dominus noster illuminet corda eorum, ut agnoscant Iesum Christum salvatorem omnium hominum.

 

Oremus.
Flectamus genua.

Levate.

Omnipotens sempiterne Deus, qui vis ut omnes homines salvi fiant et ad agnitionem veritatis veniant, concede propitius, ut plenitudine gentium in Ecclesiam Tuam intrante omnis Israel salvus fiat. Per Christum Dominum nostrum. Amen.

Poderíamos traduzi-lo da seguinte forma:

Oremos pelos judeus. Que o Deus e Senhor Nosso ilumine seus corações, para que conheçam a Jesus Cristo salvador de todos os homens.

Oremos.


De joelhos.

Levantem-se.

Deus onipotente e eterno, que desejais que todos os homens se salvem e conheçam a verdade, concede, por vossa misericórdia, que assim que a plenitude dos gentios tenham entrado na Vossa Igreja, todo Israel possa ser salvo. Por Cristo, Senhor Nosso. Amém.”

Como se vê, Sua Santidade extirpou aqueles termos que os recalcitrantes insistiam em acusar de serem anti-semita (velamen de cordibus eorum; illius populi obcaecatione), mantendo, contudo, intacta a intenção pela qual a Santa Igreja ora pelos judeus: para que conheçam a Jesus Cristo, Salvador de todos os homens, e para que Israel se converta, salvando-se.

Assim, ao fazer as modificações na Oração Pela conversão dos Judeus, Bento XVI retirou, daqueles que se recusam a obedecê-lo quanto ao retorno da Liturgia Tradicional, mesmo o arremedo de argumento que tinham. E, quando for lançado pela Comissão Ecclesia Dei o prometido documento que esclarece a Summorum Pontificum, toda e qualquer objeção à Missa Tridentina já estará, de antemão, fadada ao insucesso.

Conforme anotado por Michel J. Matt (articulista do site www.remnantnewspaper.com), cujas matizes tradicionalistas o tornam insuspeito, a alteração da oração é, sob o ponto de vista da defesa da liturgia tradicional, inclusive melhor do que se o Papa, pura e simplesmente, mantivesse a anterior. Afinal, os modernistas sempre poderiam afirmar que esta, sendo anterior ao CVII, sintetiza uma visão abandonada pela Igreja e não mais consentânea com estes belos tempos modernos. Poderiam afirmar que se trata de uma verdadeira relíquia de tempos obscuros, mantidas pela Igreja apenas para satisfazer os setores mais tradicionalistas.

Agora, não mais poderão dizê-lo. A nova oração, por óbvio, não é pré-Conciliar. Inclusive, é mais nova do que o próprio Concílio, apontando no sentido da continuidade entre este a Tradição anterior.

Com seu pontificado, Bento XVI deixa claro que a Igreja continua onde sempre esteve, e que nenhuma mudança de essência ocorreu seja durante o Concílio, seja nos anos que se seguiram, lançando um verdadeiro orvalho refrescante em tantos quanto lutam pela sã doutrina e pela restauração da cristandade.

Nesse momento, como era de se esperar, o mundo todo se volta contra o Papa. As críticas e as pressões que pesam sobre este ancião de 80 anos são humanamente insuportáveis. Somente pela Graça de Deus é que Bento XVI avança, fazendo avançar, consigo, toda a causa católica.

É dever de todo católico, neste momento, orar por nosso Pontífice, defendendo-o e apoiando-o em seus gestos e em suas decisões. Tais gestos e decisões se destinam a salvar a Igreja e, com ela, a salvar o mundo. E, exatamente por isto, as portas do Inferno se lançam contra Pedro.

Nesta guerra, devemos nós, soldados rasos e inúteis, utilizar a arma de nossas orações e, tal qual peões num tabuleiro de xadrez, defender nosso Rei ainda que a custo de nossas vidas, tendo, desde já, a certeza que, por meio do ministério petrino, as portas do Inferna não prevalecerão contra a Esposa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

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