O nefando “monge” Marcelo Barros, de Goiás, escreveu uma respostinha atrevida ao documento Ecclesia de Eucharistia, do Santo Padre João Paulo II. Como filho de súdito do Santo Padre, respondo-lhe. O texto a que respondo está em negrito (e pode ser lido na íntegra no fim desta página, clicando-se aqui); minha resposta está em texto normal.

Esta cartinha desaforada escrita ao Papa é provavelmente o exemplo mais claro e preciso do que é modernismo, chamado por S. Pio X a síntese de todas as heresias. O traço marcante do modernismo é a sua atribuição de novos e cambiantes significados a termos ortodoxos. Assim, para o modernista, não apenas a fé deve mudar, como os nomes pelos quais designamos as verdades de fé podem e devem ser reinterpretados de modo a que signifiquem algo completamente diferente.

Tomo assim um remédio contra enjôo e a comento:

Eucaristia: comunhão ou ato de exclusão?

O primeiro problema já se revela no título, em que o autor procura colocar uma aparente escolha “dialética” (no mau sentido, o marxista) entre comunhão e “ato de exclusão”. Esta falsa escolha só se sustenta se “comunhão” for compreendida não como a livre adesão de cada um, seguindo o influxo da graça e movido pelo Espírito, ao Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja, mas como uma construção humana. Em outras palavras: para a Fé católica, comunhão é união em Cristo. Esta união é sobrenatural e ocorre na ordem da graça; é a graça de Deus que nos une na Fé. Para o modernista, contudo, “comunhão” é algo totalmente diferente. A comunhão não é feita ao aceitarmos a graça da conversão, sim – de um certo modo – por decreto. “Comunhão” passa a ser sinônimo de “companheirismo”, “solidariedade”, etc., significando não a união em Cristo mas a aceitação irrefletida e indiferenciada de alguém em uma roda de amigos.

Sendo assim, vendo as coisas nestes termos, o Clube do Bolinha está “em comunhão”, mas comete um “ato de exclusão” ao não aceitar a Luluzinha. Esta “comunhão” meramente natural deveria, evidentemente, estar aberta a todos, na medida em que seu centro não é Deus e seu instrumento não é a graça sobrenatural. Segundo esta noção modernista de “comunhão”, é perfeitamente possível – e até desejável – estar “em comunhão” com satanistas, politeístas… de fato, com qualquer um, desde que se o aceite como membro de um grupo (ou seja, desde que não se o “excluda”). Não há necessidade de partilhar a mesma Fé, não há necessidade sequer de crer em Deus. A única necessidade é ser aceito. Não é, assim, uma união que vem de cada um que é tocado pelo Espírito e abraça a Fé e os Sacramentos, tornando-se parte do Corpo de Cristo, sim uma união meramente natural, operada por uma simples decisão de aceitar ou não a um terceiro em um dado meio.

A Eucaristia, nesta visão, não é nada senão um símbolo, um ícone, uma espécie de “aperto de mão secreto” da maçonaria ou do Clube do Bolinha. Pode ser um ícone mais bonitinho (alimentação, nutrição, com-pão-nheirismo – é daí que vem a palavra -, etc.), mas no fundo não há diferença entre a Eucaristia e um aperto de mão.

Perguntas de um monge ao papa

Não posso deixar de sorrir ao pensar o que faria S. Bento se lesse esta carta. É no entanto triste que – como outros que o precederam – este senhor use de seu título de “monge” – ao qual ele atribui um significado extremamente distante do que lhe foi dado, por exemplo, por São Bento… – para fomentar o escândalo, fazendo crer que o que ele prega é pregado de uma certa forma em nome da Igreja.

Caro irmão João Paulo II,

Uma linha acima era “papa” (pai). Agora é “irmão”. No resto da carta o estilo é mais para “escuta aqui, meu filho”…

A sua carta sobre a eucaristia está provocando questionamentos em mim e em muitos cristãos.

Graças ao bom Senhor Deus; já é um primeiro passo: questionar a diferença entre a heresia que prega e a Verdade que lhe é pregada pode levá-lo a abraçar a conversão. Não devemos esquecer que errar é humano: se São Paulo pôde se converter após ter participado da morte de Santo Estêvão, também podemos ter a esperança de um dia termos elevado aos altares São Marcelo Barros, penitente. Errare humanum est; perseverare satanicum.

Por isso, tomo a liberdade de comentar como a compreendi e lhe faço algumas perguntas. Em primeiro lugar, quero agradecer e valorizar o seu testemunho de fé e de amor ao ministério. É bom saber como senhor interpreta a fé e a missão da Igreja.

Melhor ainda seria saber que não se trata de interpretação pessoal, mas de reiteração da Fé da Igreja, que é a Fé dos Apóstolos, que é o ensino de Cristo necessário à salvação.

É baseado neste mesmo amor que tentarei resumir alguns pontos sobre os quais gostaria de conversar com o senhor:

1 A Igreja vive da Eucaristia ou do amor solidário ao povo?

Da Eucaristia, evidentemente. Isso é como perguntar se o homem vive da nutrição que ingere ou do movimento de suas mãos: sem nutrição não há movimento. O amor da Igreja ao povo decorre da Eucaristia, não o contrário. Assim como o movimento das mãos que levam uma fruta à boca é subordinado à alimentação, até mesmo o amor ao povo que leva a Igreja a propagar e difundir a Fé – e com ela a celebração do Santo Sacrifício – é subordinado a este Sacrifício.

“A Eucaristia é o próprio núcleo do mistério da Igreja” (n. 1). Isso é verdade no plano dos sinais. Os sacramentos são sinais eficazes que contêm aquilo que eles sinalizam, mas não deixam de ser sinais. Será que esta carta não confunde o sinal com a realidade?

Não, em absoluto. A confusão está na mente do modernista. Explico: o modernismo, como o nome indica, é um fruto do pensamento moderno. O pensamento moderno tem como sua nota principal a negação da ontologia, ou seja, do que as coisas são. Para o moderno – qualquer moderno: o marxista, o capitalista, o modernista… – a resposta à pergunta “o que é isso” é a mesma resposta que é dada à pergunta “o que isso faz”. Assim, o marxista vê um comerciante como “burguês explorador”; o capitalista o vê como “motor da economia”. Nenhum dos dois o vê como um ser humano.

No caso do modernismo, que é uma forma pseudo-religiosa do pensamento moderno (e pode abrigar marxistas e capitalistas, diga-se de passagem; não é necessário ser “de esquerda” para ser modernista), esta ignorância total e deliberada da ontologia faz com que a Eucaristia seja vista não como sinal visível e eficaz de uma realidade invisível (afinal, a realidade invisível é negada), sim como sinal visível e “eficaz”… da sinalização. E o que sinalizaria ela? Não, certamente, o Sacrifício de Cristo, que sabemos na Fé católica que é sinalizado por ela como o brilho, a fumaça e o calor sinalizam o fogo (ou seja, não se trata de representação iconográfica, mas de marca distintiva de que aquilo está realmente ali). Para o modernista, a Eucaristia significaria (no sentido meramente iconográfico, já que a ausência de percepção ontológica que não a determinada pelos acidentes de relação o impede de perceber a realidade sobrenatural) o com-pão-nheirismo, a doação de alimento físico, etc.

Assim, para o pobre herege, é escandaloso dizer que “[a] Eucaristia é o próprio núcleo do mistério da Igreja”. Isso seria, para ele, como dizer que “o desenho de uma foice cruzada por um martelo é o próprio núcleo da Revolução marxista”: seria a confusão de um símbolo (no sentido meramente iconográfico) com a realidade de que ele seria ícone. Não é assim que a banda toca, porém. Não se trata de um ícone, sim de um sinal sensível (como o meu rosto barbudo, meu bafo de onça – são seis e meia da matina, perdão – e o barulho de meus pés quando caminho são sinais sensíveis de minha presença).

Dizer que a eucaristia é o núcleo do mistério da Igreja não é como afirmar que o eixo do amor entre duas pessoas é o carinho corporal?

Não; é como dizer que a união conjugal é o núcleo da geração da prole. Notem como ele confunde ícone e sinal sensível: o carinho corporal é ícone do amor.

O núcleo do mistério da Igreja é a eucaristia ou é a solidariedade, tradução do termo grego ágape?

A Eucaristia, de que decorre a caridade (ágape). Sem a Eucaristia, a caridade não é verdadeira caridade; a verdadeira caridade é a que é feita em Deus, com Deus e por Deus. A “caridade” espírita, por exemplo, não é caridade verdadeira.

Não é mais correto dizer que a Igreja vive do amor solidário, serviço e testemunho ao Reino de Deus e isso se expressa como sinal na eucaristia e nos outros sacramentos?

Não. A Eucaristia, que é o sinal sensível (ou seja, aquilo por que sabemos que há a Real Presença) do amor-caridade (ágape) de Nosso Senhor, que Se entregou por nós, espalha a Sua luz por toda a Igreja. Alguns de seus reflexos são o amor solidário para com o próximo (em Deus, com Deus e por Deus, não diretamente do João ao José, pelo João e pelo José e só), o serviço ao próximo, o testemunho (aliás, de que é este testemunho? É, e deve ser, testemunho de Cristo. É este o problema da “caridade” espírita: ela é testemunho não de Cristo, mas do Chico Xavier, de Dona Gasparetto, do Seu Joaquim do Centro…; sem Cristo como eixo, como princípio e como fim, a caridade é testemunho apenas de si mesmo).

A carta dedica um número (o 20) à relação entre a eucaristia e “a responsabilidade pela terra presente”. Diz que, no 4º Evangelho, o relato do lava-pés “ilustra o profundo significado do sacramento”. Lembra que Paulo chama de “indigna” a comunhão de uma comunidade que participe da Ceia em contexto de discórdia e de indiferença pelos pobres (Cf. 1 Cor 11). Entretanto, só toca nesta relação entre eucaristia e justiça no final do capítulo 1, como se fosse conseqüência da eucaristia e não o seu pressuposto fundamental. O que isso denota como visão de Igreja e da fé?

Isso denota que, graças ao bom Senhor Deus, o Santo Padre está com a cabeça firmemente plantada sobre os ombros: a justiça *é* conseqüência da Eucaristia, pois a Eucaristia sinaliza (como o calor, a fumaça e o brilho sinalizam o fogo, como minha aparência visível, cheiro e barulho sinalizam que eu estou presente) a Cristo. A justiça humana decorre de Cristo, presente entre nós na Eucaristia. Note-se, mais uma vez, a confusão entre sinal sensível e ícone.

2 A Missa, sacrifício a que Deus?

Vou dar só uma dica: “ouve, Israel, o Senhor vosso Deus é o único Deus”…

Na carta, o senhor cita várias vezes o Concílio Vaticano II e alguns documentos do magistério romano recente, mas a doutrina ali expressa sobre a eucaristia é a do Concílio de Trento no século XVI, que o senhor julga ser atual e propõe como referência dogmática para a Igreja toda (n. 9).

Não, não mesmo. O Santo Padre não “julga” que o Concílio de Trento é “atual”. O Santo Padre *sabe* que o Concílio de Trento (como o de Éfeso, o de Jerusalém, os de Nicéia…) é permanente. A Fé, ao contrário do que querem os modernistas, não muda jamais. A Fé da Igreja de hoje é a mesma Fé da Igreja de há quinhentos anos, que é a mesma de há mil, mil e quinhentos, mil e novecentos… Isso porque a Fé da Igreja é a Fé em Cristo, e Ele é o mesmo ontem, hoje e sempre.

O Concílio de Trento é, sim, perfeitamente válido e deve ser ouvido hoje, porque a Fé não muda. Não se trata de ser “atual”, como é “atual” esta ou aquela moda em roupas ou música. Não se trata de seguir o tempo. A Igreja, por sua própria natureza, acompanha-nos, a nós que vivemos no tempo, sem estar submetida a ele. Ela nos dá hoje e nos ensina hoje o mesmo que deu e ensinou a cada cristão desde Pentecostes. Podemos nos “atualizar” em nossas roupas, nos meios de transporte que usamos, em nossa vida material e tecnológica, mas a Verdade atemporal é sempre a mesma. A Igreja, justamente, é quem nos dá a firme “âncora” atemporal à qual nos agarramos para sobrevivermos às procelas de nossos tempos.

Como o senhor está ao par de todo o trabalho teológico que, nos últimos séculos, tem sido elaborado sobre a eucaristia, deduzo que o senhor, simplesmente, não acha importante esta evolução.

É uma falsa dedução. Há enorme diferença entre “achar importante” e aceitar incondicionalmente em prejuízo da Verdade. Eu “acho importante” que haja hoje em dia, por exemplo, um movimento que busca redefinir o matrimônio como um mero contrato de exclusividade mútua em favores sexuais: é importante por ser um sinal dos tempos. Não é, contudo, aceitável ou, muito menos, um “progresso” que isso esteja ocorrendo. É exatamente por isso, por considerar que há sim importância nas barbaridades que vêm sendo pregadas pelo autor da carta a que respondo e seus companheiros, que o Santo Padre deu-se ao trabalho de escrever esta Encíclica. Ele poderia dizer simplesmente “leiam o que foi definido em Trento. Ele preferiu, porém, tendo em vista que a heresia que abraçam nega Trento por ter sido escrito há quase quinhentos anos, escrever novamente a mesma coisa para que não possam dizer que “a Igreja mudou”, “o ensino mudou”… ou, horresco referens, “Cristo mudou”.

Ao contrário, até na linguagem, recua em relação ao Vaticano II. Fala do “santo sacrifício da Missa” e não da Ceia do Senhor, como chama os ministros de sacerdotes e não de presbíteros.

Não se trata de “recuo”, mas de clarificação. Exatamente por terem muitos passado a pregar exclusivamente o aspecto de Ceia da Santa Missa, em detrimento da Verdade, tornou-se necessário enfatizar que a Missa é sim o Sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo tornado novamente presente de forma incruenta.

A teologia é clara: “A missão torna presente o sacrifício da cruz. Não o repete, nem o multiplica. O que se repete é a celebração memorial” (n 12). Se é assim, será que, hoje, a linguagem sacrificial ainda é a mais adequada para expressar a verdade do memorial? Não está presa a uma cultura, presente no Novo Testamento, ligada ao judaísmo da época e a outras religiões?

Note-se, mais uma vez, a confusão entre sinal sensível e ícone. Trata-se incontestavelmente de um sacrifício, não de um ícone do com-pão-nheirismo. Sacrifícios, quaisquer sacrifícios, são compreensidos por qualquer homem em qualquer circunstância. O próprio autor desta carta a que respondo aceita de bom grado que seja dito que “fulano se sacrifica por sua família”; isso faz parte da natureza humana, da grandeza que torna o homem capaz de responder ao chamado divino e deixar de lado o seu bem-estar e seu conforto para agir em prol de quem ele ama.

Como, hoje, falar de Deus Amor se trata de um Pai que precisa que o Filho morra para reconciliar-se com a humanidade?

Justamente por tratar-se de entregar a Si mesmo por amor. É para isso que aponta cada pequeno sacrifício que fazemos, é para isso que aponta cada ato heróico de quem se sacrifica por outro, de quem perdoa e, por vezes, engole seco para aceitar de volta quem o ofendeu mas ainda é por ele amado.

Será que a fé não é mais ampla do que a explicação da fé em conceitos teológicos, sempre ligados a uma cultura determinada?

A fé é mais ampla que sua explicação, sem dúvida, mas “mais ampla que” não significa “em contradição com”. Aceitando, em prol do argumento, que os conceitos sempre estejam ligados a uma cultura determinada, é então mister fazer com que os mesmíssimos conceitos, com o mesmíssimo sentido, sejam transmitidos de maneira adequada. Isso pode, por vezes, tornar necessária a introdução de elementos de outra cultura (como foi o caso da introdução de elementos gregos do pensamento aristotélico na cultura latina, levada a cabo magistralmente por São Tomás, a quem o Concílio de Trento tanto deve); em outras ocasiões, é possível usar metáforas e elementos de outra cultura, transformando-a (não é o conceito que deve ser transformado, mas a cultura), para que o conceito – que é adequado à natureza humana por ser Verdade Revelada, não apenas a uma cultura particular – seja apreendido integral e perfeitamente.

Por que impor a todos uma interpretação da fé como se fosse a própria fé,

Não se trata de “uma interpretação da fé”. O Santo Padre não está pedindo que todos usem o termo polonês para Eucaristia, por exemplo. Ele está afirmando a Fé, contra as interpretações particulares errôneas.

principalmente quando esta forma de falar da eucaristia já não diz nada a muitos católicos e nos divide dos irmãos de outras Igrejas que, no passado, já foram por isso condenados?

Exatamente por isso. Se estas pobres pessoas foram privadas do consolo e do alimento que as salva, mais razão há para que estes lhes sejam dados.

Não seria mais de acordo com a fé na eucaristia, seguir o conselho do papa João XXIII e afirmar a fé de um modo que una os irmãos e não nos divida?

Olha a confusão entre ícone e sinal sensível aí de novo. Se a expressão “fé na eucaristia” (assim mesmo, tudo em minúsculas) for compreendida como fé em um ícone do com-pão-nheirismo, a pergunta faz pleno sentido. Se, porém, lermos a expressão de modo católico, ou seja, compreendendo que a Fé na Eucaristia é a Fé na Real Presença em Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo entre nós sob as espécies eucarísticas, vemos que a união só pode ser feita quando os pobres coitados que foram privados da Verdade, do Pão Vivo Que desceu dos Céus, O aceitarem e diante d’Ele se ajoelharem.

3 Celebração eucarística dominical e celibato
O senhor insiste em que a eucaristia é essencial e depende do sacerdote ordenado que a celebra. Repete que as comunidades não podem celebrá-la sem o padre e que os cultos dominicais sem padre não substituem a eucaristia. No Brasil, são milhares de comunidades católicas que, cada domingo, não têm padre e fazem o culto da Palavra. O senhor sabe por que todas estas comunidades não têm padre e por que algumas só recebem visita de um padre duas vezes por ano. É por que o senhor não aceita abrir mão do celibato obrigatório e ordenar como presbíteros homens casados, dignos e preparados para o ministério.

Por tratar-se de uma falsa solução, que causaria mais problemas que solucionaria. Os cismáticos orientais, que têm um clero secular casado, têm ainda mais problemas vocacionais que o Rito Latino. Mulher nenhuma – ou ao menos pouquíssimas – quer ser mulher de um padre e ver o marido dedicar todo o seu tempo à Igreja. O celibato é o que foi aconselhado por Nosso Senhor – celibatário, por São Paulo – idem – e por inúmeros Santos ao longo da História da Igreja. Mais ainda, em tempos de hipervalorização da sexualidade humana, um padre casto é um exemplo, uma luz que brilha e mostra que a castidade é sim possível e desejável.

E não reconhece a validade do ministério de padres que casaram e, com alegria, aceitariam exercer o ministério.

Eles fizeram esta escolha, sabendo das condições.

Sem falar que, na América Latina, a Igreja Católica é a única das Igrejas ocidentais históricas que não aceita ordenar mulheres.

“Igrejas ocidentais históricas”? O que é isso? Ah, sim, seitas mais velhinhas, claro. Ora, qual será o próximo “exemplo” a ser seguido? O Maníaco do Parque?

O que para o senhor é mais importante: a eucaristia dominical, como o senhor ensina na encíclica, ou manter como lei obrigatória o costume latino do celibato obrigatório?

O celibato sacerdotal é reflexo da Eucaristia. A crise de vocações não vêm do celibato, o que faz a sua aboliçõa ser um afalsa solução. Ela vem da negação do sacerdócio por parte dos com-pão-nheiros do autor da carta a que respondo, e onde eles foram alijados das posições de poder de que se haviam apoderado não há crise vocacional. É até interessante constatar que a Fraternidade de São Pedro, fundada pessoalmente pelo Santo Padre João Paulo II e dedicada à celebração da Missa Tridentina, tem mais vocações que todas as Arquidioceses americanas somadas.

4 Ceia de inclusão e de amor
O senhor liga a eucaristia à pessoa de Jesus para afirmar o seu “sacrifício” mas não faz referência à sua vida concreta.

Com que então o Sacrifício não é parte de Sua vida concreta? O que seria, então?

Não lembra como ele comeu com pecadores e com gente de má vida.

Comer é uma coisa: dar-Se por alimento é outra. Mesmo quando comeu com pecadores e “gente de má vida” Nosso Senhor disse a eles que não mais pecassem. Depois, ao instituir a Eucaristia, Ele o fez diante apenas dos Doze (entre os quais estava “um monge”, oops, Judas, é bem verdade), e ensinou a São Paulo que “quem come e bebe indignamente do Corpo e Sangue de Cristo será réu de Seu Corpo e Seu Sangue”, alertando contra a profanação das Sagradas Espécies.

Ele fez de suas refeições, sinais de inclusão e de profecia do Reino de Deus que acolhe a todos, especialmente os mais deserdados e excluídos.

Desde que, é claro, se convertam. Além disso, “Suas refeições” são no máximo figura da Eucaristia que viria. Agora sim é ícone.

Por causa da noção de sacerdócio que a nossa Igreja desenvolveu, o senhor repete o que já aparecia na declaração Dominus Jesus e distingue os cristãos uns dos outros.

Graças a Deus.

Só reconhece como “Igrejas” as ortodoxas e chama as Igrejas evangélicas de “comunidades eclesiais”.

Isso.

E proíbe que católicos comunguem em celebrações eucarísticas destas igrejas “para não dar aval a ambigüidades sobre algumas verdades da fé” (n. 44). O que esta noção de Igreja tem a ver com a eclesiologia do Concilio Vaticano II?

Tudo. Não tem nada a ver, contudo, com a falsa eclesiologia boffista que se afirmou “estar no espírito do Concílio”.

Como continuar o caminho ecumênico com mais este recuo?

Este é o único modo de contnuar o caminho ecumênico, como já foi dito, aliás, no próprio Concílio. Ecumenismo não é nem pode ser um falso irenismo; o ecumenismo não pode ser feito às custas da Verdade. Ecumenismo verdadeiro é trazer a todos para a Verdade.

Por que desconhecer e claramente desprezar os acordos ecumênicos já feitos entre algumas Igrejas? O Documento de Lima sobre batismo, eucaristia e ministério (1983) é ignorado. O acordo com a Igreja Luterana sobre a justificação é praticamente passado para trás.

Não, em absoluto. O que é negado (não “ignorado” ou “passado para trás”) é a extensão arbitrária do reconhecimento de alguns pontos em comum a uma falsa comunhão plena.

Por que? O que é mais importante a clareza intelectual ou a caridade e o testemunho do amor?

A verdadeira caridade e o verdadeiro testemunho, que necessitam de clareza. Testemunhar vagos sentimentos de com-pão-nheirismo não é testemunho do amor, sim do respeito humano (que é, lembro sempre, pecaminoso). Não há caridade verdadeira sem ter Cristo por princípio, meio e fim, e não há como tê-la negando a Cristo e ao que Ele ensina, deixando de reconhecê-l’O e substituindo Sua Real Presença por mero ícone de com-pão-nheirismo.

Será que “a clareza sobre algumas verdades da fé” é mais importante do que a acolhida mútua e a unidade real vivida por cristãos que pensam diferente mas celebram com grande respeito e carinho o memorial do Senhor, neste contexto de um mundo dividido e no qual as religiões representam forças de oposição e não de unidade?

É, pois esta “unidade real” é meramente natural e cambiante, ao passo que as Verdades de Fé são eternas e imutáveis. “Respeito e carinho” podem ser uma gracinha, mas não são nem poderiam ser substituto adequado para Deus Nosso Senhor.

5 Pergunta final
Formado na teologia e espiritualidade do Concílio Vaticano II, reconheço o senhor como bispo de Roma e primaz da unidade entre as Igrejas mas não como um super-bispo ou definidor da fé das pessoas.

O que já é uma negação do Concílio Vaticano II. Eis outra confusão, esta proposital, entre o Concílio verdadeiro e o bestialógico que fez algum sucesso moderado nos anos setenta ao apresentar-se como “espírito do Concílio”. Graças a Deus esses hippies velhos já estão se aposentando e não conseguiram seguidores (bom, tem uma meia-dúzia de três ou quatro aqui e ali, mas a esta altura do campeonato estão quase todos ocupados demais em alguma burocracia do governo federal).

Aceito o primado do papa como ministério querido por Deus, mas isso não inclui a nomeação dos bispos, nem a definição de um direito universal, ou um catecismo de doutrinas que todos os católicos do mundo devam crer.

Ah, então o papado é só “queridice”: “ah, querido, você é tão fofinho, mas dane-se”?!

Por que impor a todas as Igrejas um modelo único de ministérios e uma única liturgia: a romana?

Ninguém falou nada disso. As liturgias orientais continuam em plena força.

Não estaria mais de acordo com a verdade da eucaristia promover a vida e a liberdade de todos?

E é isso que esta encíclica faz. Mentira não é sinônimo de “vida”, e abuso do livre-arbítrio não é sinônimo de “liberdade”. O que o Santo Padre prega é a verdadeira Vida, a verdadeira Liberdade.

Seria o testemunho: cremos que, assim como as muitas espigas formam um só pão, Deus faz da diversidade das Igrejas e da variedade das celebrações, a unidade de uma só comunhão.

Lindo, desde que ele se atenha às Igrejas verdadeiras e deixe de lado “pastores” protestantes fazendo malabarismos com pão Pullman e Ki-Suco.

Deixo ao senhor e aos irmãos que lerem estas linhas estas perguntas e fico orando por nossa Igreja para que seja como afirmaram, um dia, os bispos da América Latina: “uma Igreja autenticamente pobre, missionária e pascal, desligada de todo o poder temporal e corajosamente comprometida na libertação de todo o ser humano e de toda a humanidade” (Medellin. 5, 15a).

É o que o Papa está fazendo, meu caro, é o que o Papa está fazendo. É difícil perceber isso quando se está aprisionado, acorrentado a besteiras passageiras. É um caso clássico de síndrome de Estocolmo, quando os seqüestrados se apegam aos seqüestradores e temem a liberdade: o pobre autor desta carta a que respondo está há tanto tempo preso a uma teia de mentiras e meias-verdades que se apavora ao ver a porta que se abre e a Liberdade verdadeira que vem.

O irmão Marcelo Barros

“Irmão”? Certamente não no Cristo, que ele nega. Será ele um polonês disfarçado? Marcelo Wojtila, irmão separado ao nascer? 😉

Facebook Comments

Livros recomendados

Poesia Reunida: 1985-1999O Inferno e Seus TormentosAs crônicas de Nárnia