Espaço do Leitor

Filosofia contemporânea X Deus

Caros amigos do Veritatis Splendor
Sou aluno de filosofia da UFPB João Pessoa PB e antes de entrar para o curso, todo mundo dizia que o curso de Filosofia leva a pessoa a ser ateu. Essa informação que recebi, de certa forma me deixou de olrelha em pé me colocando assim meio que na defensiva, afinal eu não conhecia o inimigo que estava me dando.
Hoje, passado quase um ano eu pude tirar algumas conclusões:
1º No meio universitário, as pessoas se tornaram críticas ao extremo em relação ao Deus dos cristãos, substituindo por um deus cósmico, gnóstico quando no caso dizem acreditar em Deus.
2º Muitos se dizem católicos, mas ao mesmo tempo criticam a igreja e não aceitam a autoridade do Papa, não querem vê nem pintado de ouro, principalmente esse que aí está Bento XVI. E aproveitando a colocação acima, faço uma pergunta : O que falta para a igreja se posicionar concretamente diante de tantas heresias, cometidas tantas vezes por sacerdotes e leigos e considerar essas pessoas NÃO CATÓLICAS?
3º Em relação ao meu curso, o nome mais falado é o de Friedrich Nietzsche aquele que “MATOU DEUS”. O cara é admirado, mas os seus seguidores, digo de passagem que não estou generalizando, pois existem pessoas sérias que estudam os pensamentos de Nietzsche, mas no meio do alunado ele me parece servir como uma pessoa que na verdade enche o ego de alunos que querem ser na verdade polêmicos, aparecer, se dizer seguidor das idéias de Nietzsche tudo porque ele tem um pensamento contrário a fé cristã e isso é polêmico. É como dizer assim: Veja aquele jovem, ele é seguidor de Nietzsche e lembre-se Nietzsche “MATOU DEUS”, logo, o jovem é da moda, e controrverso.
4º Essa última questão é a que acho mais importante e é em relação a mim, eu que entrei na defensiva para o curso de Filosofia. Eu perguntei a um professor: Como a filosofia moderna e contemporânea trata das coisas da fé? Dei um exemplo: sabemos que a filosofia cristã foi desenvolvida colocando Cristo no centro de tudo e no decorrer dos tempos essa filosofia em que Jesus é Deus, definiu que Jesus Cristo está presente na hóstia consagrada; e aí ocorre um fenômeno que chamamos transubstanciação, o pão que se transforma em Carne, o Corpo de Cristo. É em princípio um pensamento que o homem teve e definiu como verdade, para nós por inspiração divina e diante das Sagradas Escrituras, logo após ocorrem fenômenos sem explicação pela razão, o milagre de Lanciano. E a ciência não explica. O professor então me disse que a filosofia não explica isso.
MINHAS CONCLUSÕES: Estou cada vez mais convicto do que acredito por que diante do acima exposto, fica claro que se Deus não existe, não existe milagre e um milagre católico cristão diga-se de passagem, que coloca Deus como Verdade Suprema e infalível.
Eu agora é que pergunto: como Deus morreu se Ele atua nas nossas vidas de forma que a ciência ou a razão não explica?
Eu tô muito tranquilo e continuarei meu curso (Jório).

Prezado Jório

A paz de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo!

Agradecemos pela confiança em nos escrever.

De fato, o meio universitário normalmente é hostil à religião, e muitas vezes chega a ser anticristão mesmo, particularmente no que diz respeito à Igreja Católica, considerada “conservadora”, “retrógrada”, “ultrapassada” etc. Não é à toa que muitos católicos, inclusive professores (lamentavelmente), tentam “adaptar” a fé católica aos tempos modernos, quando lemos na Bíblia que, ao contrário, não podemos nos conformar com este mundo (Rm. 12,2), devemos, sim, ser sal, que dá sabor e evita a podridão, e luz, que ilumina e mostra o caminho a ser seguido (Mt. 5,13-16). Os católicos (e cristãos em geral) que são transigentes com relação à fé, isto é, que abrem mão dos genuínos princípios da fé cristã para serem aceitos pelo mundo moderno (consentindo com o aborto, a homossexualidade, o sexo livre, o socialismo etc.), esses até são tolerados no meio acadêmico. Como você mesmo observeou, há muitos que se dizem católicos, mas que se unem àqueles que julgam a Igreja como “ultrapassada” e vêem o Papa Bento XVI como um “reacionário”. A rigor, tais pessoas nem podem ser consideradas católicas de fato, já que a irrestrita obediência ao Papa e ao Magistério é uma condição sine qua non para que alguém possa ser considerado católico. Quanto à Igreja tomar uma posição com relação a tais pessoas, é importante observar que, em algumas situações, a excomunhão é automática (latae sententiae), como no caso do aborto (Cân. 1398 do Código de Direito Canônico) e do comunismo* (cf. “Decreto contra o comunismo”, do S. Ofício, 28 jun. [1º jul] 1949, Denzinger, 3865), mas separar o joio do trigo não é algo simples, pois pessoas equivocadas, seja por ignorância ou por má intenção mesmo, encontram-se espalhadas e infiltradas por toda a Igreja, desde as paróquias e dioceses e até os seminários (cada vez mais dominados por modernistas e adeptos da teologia da libertação) e demais organismos eclesiásticos. Cabe-nos fazer a nossa parte, a saber, conhecer a verdadeira doutrina católica, seguir os ensinamentos oficiais da Igreja e rezar, na certeza de que as portas do inferno jamais prevalecerão contra a Igreja de Cristo (Mt. 16,18).

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Ademais, o meio acadêmico de um modo geral é caracterizado pela presunção, pela arrogância e pela rebeldia contra Deus. Podemos dizer que tudo começou com Adão, ou seja, desde os primórdios, quando o homem, rebelando-se contra Deus, pretendeu deter o conhecimento do bem e do mal e tornar-se igual a Deus. Essa tentação sempre esteve presente ao longo da história da humanidade, mas emergiu com força especial no século XVII, com Descartes (1596-1650) e o advento da filosofia moderna, quando a razão humana começou a ser colocada no lugar de Deus. O racionalismo conheceu seu ápice com Kant (1724-1804), que pretendeu estabelecer os limites do conhecimento humano ao ponto de dizer aquilo em que podíamos crer ou não. Já no século XIX, o racionalismo entrou em crise, quando pensadores como Schopenhauer, Nietzsche e Kierkegaard começaram a perceber que a razão, por si só, não dava conta de todas as complexidades da condição humana e por isso não poderia oferecer respostas satisfatórias para as questões mais agudas da existência. Seguiu-se então o existencialismo, marcado predominantemente pelo desespero e pelo ateísmo. De meados do século XX até os nossos dias, temos visto, de um lado, o crescimento do relativismo, fruto da descrença tanto na razão quanto em Deus, o que se traduz na idéia de que “tudo é relativo”, ou seja, não há verdades absolutas nem definitivas; e do outro lado, o avanço de um certo cientificismo, apregoado por homens como Richard Dawkins, para quem é à ciência, e tão-somente a ela, que cabe dar as respostas de que a sociedade precisa e indicar o caminho a seguir. Esse então é o quadro que o estudante encontra quando ingressa na universidade, particularmente nos cursos de ciências humanas: pessimismo, ceticismo, descrença em Deus, antropocentrismo, rejeição e até revolta contra os valores tradicionais da fé e da civilização (dos quais a Igreja Católica tem sido a mais fiel depositária, o que explica o ódio que ela desperta em seus detratores), enfim, um ambiente altamente propício para a apostasia.

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Você está certíssimo em permanecer firme na fé católica e fiel à Igreja fundada pelo próprio Deus Filho em pessoa. Podemos dizer que a Igreja, com seus inesgotáveis tesouros espirituais e com os exemplos de sabedoria e de fé que os santos e santas têm dado ao longo dos séculos, é uma das maiores demonstrações da misericórdia e do amor de Deus pela humanidade, não nos deixando a sós e à deriva, ao contrário, dando-nos a Igreja como Mãe e Mestra a nos ensinar o modo correto de viver e o caminho mais seguro rumo ao Céu.

Mas Nosso Senhor Jesus Cristo nos advertiu: “vigiai e orai, para que não entreis em tentação” (Mt. 26,41). Lembremos também do que São Paulo escreveu a Timóteo: “Porque virá tempo em que os homens já não suportarão a sã doutrina da salvação. Levados pelas próprias paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajustarão mestres para si. Apartarão os ouvidos da verdade e se atirarão às fábulas.” (II Tim. 4,3-4). E finalmente, lemos no Catecismo da Igreja Católica que “antes do advento de Cristo, a Igreja deve passar por uma provação final que abalará a fé de muitos crentes. A perseguição que acompanha a peregrinação dela na terra desvendará o ‘mistério da iniqüidade’ sob a forma de uma impostura religiosa que há de trazer aos homens uma solução aparente aos seus problemas, à custa da apostasia da verdade” (n. 675). Há fortes indícios de que esse tempo, de que falam São Paulo e o Catecismo, já começou. Porém, estejamos ou não no “princípio das dores” (Mc. 13,8), perseveremos em oração e firmes na verdadeira Igreja de Cristo sobre a terra, para que não sejamos pegos desprevenidos quando Ele voltar ou quando Ele nos chamar à Sua presença. Para tanto, devemos não só vigiar e orar, mas também tomar todo o cuidado para não cairmos nas ciladas do diabo, as quais se encontram em grande quantidade no meio acadêmico, onde você se encontra hoje. Não que devamos adotar uma postura antiintelectualista, de forma alguma. Pelo contrário, à Igreja devemos a fundação das mais antigas universidades além de grandes progressos nas diversas áreas do conhecimento. Fé e razão devem andar lado a lado, como duas asas que elevam o espírito humano até Deus. Se atentarmos para essas coisas, resistiremos firmes quando as tempestades vierem, como uma casa edificada sobre a rocha.

Que o Senhor o abençoe!

Fraternalmente,
Marcos M. Grillo

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CORREÇÃO: O citado “Decreto contra o comunismo” foi ab-rogado por ocasião da promulgação do atual Código de Direito Canônico (CDC), de acordo com o Cân. 6 do referido CDC. _________
EM TEMPO: À guisa de complemento, acrescentamos a mensagem abaixo, enviada pelo leitor Hilton Deives Valeriano:

Prezado professor Alessandro Lima, a Paz de nosso Senhor Jesus Cristo!
Li a bela resposta do Marcos Grillo ao leitor Jónio Aragão sobre a filosofia contemporânea e sua hostilidade à Deus. Estou enviando um complemento. Se o senhor achar últil pode encaminhar ao leitor. Eu também passei pela experiência que ele relatou. Obrigado. Segue o complemento:

Quando ingressamos em um curso de filosofia, temos de entrar em contato com diversas obras de diversos pensadores. Obras que representam correntes filosóficas diversas e muitas vezes antagônicas. Um dos maiores equívocos cometidos em relação ao estudo de filosofia é a falsa opinião de que esse estudo seria hostil à religião ou levaria ao ateísmo. A filosofia como um todo não é hostil à religião, o que não impede a existência de correntes filosóficas hostis à religião. O grande problema é que em muitos cursos – a maioria – os professores fazem questão dessa importante diferença não ser percebida pelos alunos. Também existe um outro problema grave: existe moda na filosofia. Qual é a moda do momento? Nietzche, Derrida, Deleuze, Foucault e o eterno Marx! O problema não é estudar esses pensadores, e sim expor suas teorias como se fossem a verdade absoluta do pensamento filosófico ocidental. Lamentavelmente isso ocorre. Quem estuda filosofia deve perceber e estar atento quando um professor apresenta o pensamento de um filósofo como se fosse a última palavra sobre a realidade. Se o assunto é existencialismo, o único pensador estudado é Sartre. Quanto reducionismo. Vejamos grandes pensadores existencialistas cristãos: Gabriel Marcel, Karl Jaspers, Leon Chestov, Nicolas Berdiaeff. A religião não tem importância para o pensamento filosófico contemporâneo? Cito alguns gigantes tantas vezes negligenciados nos cursos de filosofia: Xavier Zubiri, Miguel de Unamuno, Edith Stein, Paul Ricoeur (prêmio Paulo VI entregue pelas mãos do Papa João Paulo II), Ortega y Gasset, Emmanuel Mounier, Max Scheler, Jacques Maritain, Julián Marías, Emmanuel Lévinas (para a arrogância de qualquer nietzchiano a leitura de Totalidade e Infinito), Manuel García Morente, Martin Buber, Jean Guitton. A filosofia moderna é uma criação independente da filosofia medieval? Leia os estudos de Étienne Gilson, leia Raízes da modernidade do grande filósofo brasileiro Padre Henrique Cláudio de Lima Vaz (leia também seus escritos filosóficos e verá a diferença entre um pensador e um comentador). Seu professor só ensina Descartes? Leia também Pascal e Malebranche. Heidegger é divinizado pelo seu professor? Leia suas influencias cristãs: Gênese da ontologia fundamental de Martin Heidegger – magnífico livro do jesuíta J. A. MacDowell. Não nos tornamos cegos pelo estudo da filosofia. Nos tornamos cegos pela soberba. A Igreja Católica sempre defendeu o estudo da filosofia. Estude o pensamento filosófico do Papa João Paulo II. Muitos de seus livros são marcados por uma síntese original entre a fenomenologia, tomismo e personalismo. Leia sua bela Encíclica Fides et Ratio. Mas nunca se esqueça que só existe um único e verdadeiro Mestre: Cristo Jesus.

Atenciosamente,
Hilton Deives Valeriano