Espaço do Leitor

Leitor deseja mais espiritualidade no cotidiano

[Leitor NÃO autorizou a publicação de seu nome no site] Nome do leitor: M.

Mensagem

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Caros Gostaria imensamente de receber uma orientação quanto a vida espiritual. Minha vida é simples como a maioria das pessoas: cuidados com a casa, animais e trabalho externo. Sinto falta de espiritualizar mais esses trabalhos, que me parecem tão terrenos, cheios de preocupações desnecessárias. Queria estar em comunhão contante com Deus, vendo e sentindo além do dia-a-dia. Como fazer?  Agradece a

M.

Cara M.,

A paz de Cristo para você e para os seus. Agradeço pela confiança depositada no Veritatis Splendor. Alegro-me em poder ajudá-la no que for possível.

Caríssima, primeiramente é preciso pensar no sentido de cada coisa que fazemos. Se eu lhe perguntasse por que você simplesmente não larga tudo, e deixa de fazer o que te parece tão terreno e cheio de preocupações necessárias, o que responderia? Não estou sugerindo que largue tudo. Pelo contrário, é onde você está que o sentido vai ser descoberto. Estou apenas fazendo com que pense naquilo que realmente faz com que “suporte” a vida simples da maioria das pessoas. Podemos, por exemplo, ter um marido, ou um filho para cuidar. Talvez precisemos cuidar de um mãe ou pai mais idoso. Ou talvez precisemos cuidar sozinhos da casa e dos animais, e ainda trabalhar, por não ter ninguém que nos ajude. Não sei a sua situação de vida, estou apenas dizendo que um sentido pode ser encontrado exatamente onde você está, da maneira que vive, com as pessoas de seu convívio.

Acima de tudo, Deus pode e deve ser um grande sentido para nossa vida. Pelo seu desejo de receber uma orientação quanto à vida espiritual, vê-se que Deus já faz parte dela. Então, deixemos que Ele seja tudo para nós, efetivamente. Se você mora sozinha e não tem ninguém por perto, o sentido para o trabalho e para as coisas do cotidiano pode ser uma ajuda aos mais necessitados, através de uma das muitas instituições de trabalho humanitário que a Igreja ou mesmo o poder público possui. Ou ainda trabalhos de evangelização, de catequese. Sempre há uma paróquia, um movimento, ou uma pessoa precisando de ajuda espiritual ou material. Amando ao próximo com gestos concretos, e entregando tudo a Deus, fica mais fácil enxergar o sentido nas coisas, pois não fomos criados por Deus para viver só para nós mesmos. Temos necessidade de transcendência, de amar verdadeiramente, de doar a vida.

Se você tem marido, familiares, ou amigos mais próximos, tudo pode e deve começar por eles mesmos. Assim, cuidar da casa deixará de ser um simples serviço cotidiano, e se tornará serviço aos irmãos mais próximos. E se você conseguir enxergar aí um serviço a Deus, toda sua vida estará espiritualizada, até mesmo nos mais humildes e corriqueiros trabalhos.

“Então o Rei dirá aos que estão à direita: – Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim. Perguntar-lhe-ão os justos: – Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos? Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar? Responderá o Rei: – Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.” (Mt 25, 34-40)

 
“Estar com fome e dar de comer”. “Acolher o peregrino”. “Vestir quem está nu”. “Visitar os enfermos”. Tudo isso nos remete a atos concretos que podem dar mais sentido aos pequenos acontecimentos de nossa vida. Podemos, sim, e até devemos, visitar uma prisão ou hospital. Ou ainda doar roupas e alimentos para os mais necessitados. Porém, quantas vezes é justamente o nosso próximo, aquele de dentro de casa, que está “sedento” e “faminto” de uma ação que transmite amor…  Às vezes nem precisamos de palavras para demonstrar todo o amor. Às vezes basta um gesto, como por exemplo lavar a louça do café, ou cuidar dos animais… Gestos que serão tão mais valorizados por Deus quanto menos valorizados forem pelos homens…

Que tal começarmos a refletir sobre o sentido mais profundo de tudo que fazemos? Quem sabe no final possamos reconhecer o que realmente faz com que não “larguemos tudo”… Acredito que nossa alma é capaz de vislumbrar um sentido maior em cada ato mais simples da vida cotidiana. A fome dos homens do nosso tempo é fome de sentido, fome de significado, de razão para viver. Esse sentido, como você mesmo reconhece, só pode ser encontrado, em última instância, em Deus. Esse sentido pode, sim, permear cada ato de cada dia, por mais corriqueiro e insignificante que seja. Então, nossa vida será bem diferente…

Penso também que a leitura da vida de alguns santos poderá ajudá-la. Penso particularmente em Santa Teresinha e São Josemaría Escrivá.

Com Santa Teresinha podemos aprender que cada gesto que fazemos, por menor que seja, pode se revestir de um valor inestimável aos olhos de Deus, se for feito com amor, e entregue ao Senhor como oferenda. Até mesmo apanhar uma agulha que caiu no chão… O que fez de Santa Teresinha Doutora da Igreja e Padroeira das Missões, se ela faleceu aos 24 nos, sem nunca ter saído do Carmelo? Ela aprendeu a entregar cada pequena ação e sofrimento de seu dia a dia no convento, por amor, aos irmãos e a Deus. Seu belíssimo livro autobiográfico, “História de uma alma”, está disponível nas livrarias católicas, e pode ser encontrado também na Internet. O Manuscrito C contém o relato de alguns pequenos atos de caridade de Teresinha no convívio com as irmãs do Carmelo.

Podemos aprender muito também com São Josemaría Escrivá, fundador do Opus Dei. Esqueça as difamações e absurdos que se fala sobre o Opus Dei, são falsidades. Escrivá tem escritos belíssimos que tratam das coisas corriqueiras e do trabalho comum, e que podem lhe ajudar. Há escritos seus disponíveis também na Internet. Sua mensagem central sobre o trabalho, por exemplo, pode ser simplificadamente resumida nas citações abaixo:

E depois, quem foi que disse que, para falar de Cristo, para difundir a sua doutrina, é preciso fazer coisas esquisitas, estranhas? Faze a tua vida normal; trabalha onde estás, procurando cumprir os deveres do teu estado, acabar bem as tarefas da tua profissão ou do teu ofício, superando-te, melhorando dia a dia. Sê leal, compreensivo com os outros e exigente contigo mesmo. Sê mortificado e alegre. Esse será o teu apostolado”. (Amigos de Deus, 273)

Persuadi-vos de que não é difícil converter o trabalho num diálogo de oração. É só oferecê-lo e pôr mãos à obra, que já Deus nos escuta e nos alenta. Alcançamos o estilo das almas contemplativas, no meio do trabalho cotidiano! Porque nos invade a certeza de que Ele nos olha, ao mesmo tempo que nos pede um novo ato de auto-domínio: esse pequeno sacrifício, o sorriso para a pessoa inoportuna, esse começar pela tarefa menos agradável, mas mais urgente, o cuidar dos pormenores de ordem, com perseverança no cumprimento do dever, quando seria tão fácil abandoná-lo, o não deixar para amanhã o que temos que terminar hoje: tudo para dar gosto a Ele, ao nosso Pai-Deus!” (Amigos de Deus, 67)

A comunhão constante com Deus, por você desejada, pode não ser assim muito fácil, pois o inimigo de Deus e o mundo moderno possuem várias maneiras de tentar nos afastar dessa união. Porém esteja certa que seu desejo profundo não passa despercebido aos olhos de Deus. Despeço-me desejando que as graças do céu caiam sobre você, e recomendo o Apostolado Veritatis Splendor às suas orações.

Em Cristo,

Daniel Pinheiro

 

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