Espaço do Leitor Respostas a Leitores (por Carlos Ramalhete)

Presença “física” de Cristo no Santíssimo

Um amigo me escreveu perguntando:

– Sem querer diminuir em nada ( antes uma boa morte ) a Eucaristia, eu pergunto se e adequado falar de presenca “fisica” de Jesus na Eucaristia.

Creio que o primeiro problema que nós temos que enfrentar é a questão de nomemnclatura.

O que é física (logo, o que é “presença física”)?

Segundo o nosso bom Caldas Aulete, física é a “ciência que tem por objeto o estudo das propriedades dos corpos e das leis que tendem a modificar o seu estado ou movimento, sem contudo lhes modificar a natureza”, e metafísica a “ciência ou o conjunto das ciências que estudam a essência das coisas, os primeiros princípios e causa do que existe”

Esta divisão vem desde Aristóteles, e convém ser tida em mente durante esta discussão, que afinal é sobre onde ocorre esta divisão entre física e metafísica.

Afinal, pelo que pudemos ver acima, a diferença é que a física ocupa-se basicamente do acidental (as propriedades dos corpos e seu movimento), enquanto a metafísica ocupa-se do essencial (sua substância, o que eles são).

Assim a pergunta poderia ser colocada da seguinte maneira: “Cristo está também acidentalmente no Santíssimo Sacramento, e como?”

A presença essencial de Cristo no Santíssimo não está em discussão, evidentemente. Para evitar confusão entre o que é essência e o que é acidente, esclareçamos a diferença: a essência é o que a coisa é. Quando perguntamos “o que é isso”, respondemos (“pão”, “vinho”, “batata”…) dando o nome da essência.

O acidente é a aparência (mais exatamente as propriedades físicas) da coisa. Assim “ter cara de”, “cheirar como”, “ter peso de”, “ter consistência de” são acidentes.

Se nós pegarmos por exemplo um ser humano, veremos que apesar de ser (em essência – “ser” em latim é “essere”) a mesma pessoa aos 2 e aos oitenta anos de idade, ele provavelmente não tem praticamente nada em comum acidentalmente (mas tem acidentes intrínsecos, como o fato de ter corpo com aparência, ter peso, etc).

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Assim os seus acidentes (peso, aparência, etc.) se modificaram (se transformaram), mas não a sua essência.

Abrindo um parênteses: um outro exemplo que ajuda a dirimir simultaneamente algumas dúvidas é o da Igreja. Diz o CVII que a Igreja de Cristo “subsistit in” a Igreja Católica. O que isto significa? Significa que a substância da Igreja Católica é a Igreja de Cristo, e à pergunta “o que é a Igreja Católica?”, devemos responder “A Igreja de Cristo”. Em Igrejas cismáticas e em “comunidades eclesiais” (seitas organizadas de maneira a imitar a Igreja) só há uma presença acidental da Igreja de Cristo (parece a Igreja, como uma imagem parece o santo mas não o é – na Tilma de Nossa Senhora de Guadalupe está uma presença meramente acidental de nossa Senhora), derivada (como o acidental é derivado do essencial) da presença essencial que é a Igreja Católica (é por intermédio da Igreja que um sacramento ministrado por cismáticos ou hereges tem efeito, por exemplo). Fecha parênteses.

No caso da transubstanciação das Sagradas Espécies, o que ocorre é que a essência se modifica. Essencialmente não há mais pão e vinho, apenas acidentalmente. Por vezes, por exemplo em Lanciano, pode haver também uma mudança acidental, em que além da transubstanciação há tbm uma transformação acidental e os acidentes de pão e vinho desaparecem.

A transubstanciação, porém, ocorre de maneira “espiritual”, isto é, não acidental (visível, táctil, etc.), apenas essencial. Não se trata de ilusão ou de transignificação (“é o corpo e sangue da Cristo para quem crê e para quem não crê é apenas pão e vinho”), mas de real transubstanciação, ou seja, mudança de uma essência (pão ou vinho) em outra (Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo), sem modificação acidental nas espécies de pão e vinho.

“Espiritual” significa assim “não-acidental”.

Ora, isso quereria por acaso dizer que os acidentes de Nosso Senhor Jesus Cristo não estariam presentes no Santíssimo Sacramento, mas apenas Sua Essência?

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Pelo contrário; diz o Teólogo: “Os acidentes do Corpo de Cristo estão neste Sacramento por concomitância real, e assim os acidentes do Corpo de Cristo que Lhe são intrínsecos estão neste Sacramento.” (Summa Theologica, III,76,5)

Ou seja, Nosso Senhor Jesus Cristo está presente no Santíssimo Sacramento não apenas de forma essencial, mas também de forma acidental, concomitantemente com os acidentes do pão e do vinho (que, estes, não são mais presentes em essência), nos acidentes que Lhe são intrínsecos.

E como pode ocorrer isto, já que um acidente é algo limitado no tempo e no espaço (ou seja, é uma característica de um corpo que pode ser percebida, medida, etc.)?

Cristo seria “transportado” dentro do Santíssimo? Ele estaria contido “dentro” do Santíssimo, logo limitado no espaço (“Cristo mede cinco centímetros de diâmetro”)?!

Não. Ele está presente, como no-lo explica o Teólogo (ST III,76,4), também dimensionalmente (acidentalmente, portanto), mas não em sua maneira própria (o todo no todo e parte na parte – nariz no lugar do nariz e braço no lugar do braço), sim – miraculosamente – da maneira própria à substância. A substância não é contida em um determinado lugar nem “mede” tantos centímetros, mas sim está toda contida no todo e em cada parte. A substância do ar, por exemplo, está tão presente na atmosfera como um todo quanto no ar presente em uma caixa fechada.

Assim, Ele não está “contido” no Santíssimo, nem mede tantos centímetros de diâmetro, mas está lá acidentalmente de modo concomitante com a presença meramente acidental do pão e do vinho, além de Sua presença em essência.

Não há um “jesuzinho” de alguns milímetros (com braço no lugar do braço e nariz no lugar do nariz – o todo no todo e cada parte em cada parte) dentro de cada partícula nem cada partícula tem apenas parte do todo (ou seja, Ele não está acidentalmente lá em sua maneira própria), mas há essencial e acidentalmente Cristo todo inteiro (Corpo, Sangue, Alma e Divindade) em cada partícula do Santíssimo (logo, na maneira da substância, que é estar o todo em cada parte e no todo).

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Assim, como responder à pergunta original (“Cristo está também acidentalmente no Santíssimo Sacramento, e como?”)?

Cristo está também acidentalmente (“fisicamente”) no Santíssimo Sacramento, mas na maneira da substância, ou seja, sem estar sujeito à divisão (“parte em cada parte”; ao contrário, está o todo em cada parte). Apesar disso, a Sua dimensão acidental está presente concomitantemente à dimensão acidental do pão e do vinho, com a diferença de estar esta segundo a sua maneira própria e Aquela segundo a maneira da substância.

Assim podemos dizer que Cristo é presente fisicamente no Santíssimo Sacramento, mas de maneira miraculosa (na maneira da substância), não afetada portanto pelos fenômenos físicos que normalmente afetariam acidentes outros (e afetam os acidentes presentes de pão e vinho, que se corrompem, etc).

Não podemos, portanto, dizer que Cristo “está fisicamente presente” no Santíssimo Sacramento se por isso queremos dizer que Ele está presente na Sua maneira própria (ou seja, retendo as propriedades próprias aos corpos e obedecendo às leis que tendem a modificar o seu estado ou movimento).

Eu sugeriria, aproveitando que nossa língua tem esta deliciosa diferença ntre “ser” (“essere” => essência) e “estar” (“estado” => acidente), dizer que Cristo “é presente fisicamente no Santíssimo Sacramento” (é presente acidentalmente – porém na maneira da substância e não em Sua maneira própria – além da presença essencial), mas não “está presente fisicamente no Santíssimo Sacramento” (não está presente acidentalmente em sua maneira própria).