Respostas Católicas

Em torno do conceito de evolução

Juan Carlos Ossandón Valdés

                O original deste texto foi publicado em Espanhol na revista Philosophica, de Santiago do Chile, e constou de um Suplemento Doutrinário do número 50 da revista Iesus Christus.

Introdução

Em um artigo de divulgação, um cientista norte-americano nos apresentou o que podemos chamar de ?a versão popular da evolução?:

Consideramos atualmente a evolução como um processo contínuo. Os elementos evoluem a partir do Hidrogênio: surgem moléculas inorgânicas e orgânicas. Estas últimas reagem entre si para produzir sistemas do tipo do DNA; sistemas do tipo de vírus evoluem em direção a formas celulares e estas evoluem formando plantas e animais pluricelulares. Finalmente, aparece o homem. (G. W. Beadle, Saturday Review, 14 de novembro de 1959 ? ano do centenário da publicação de A Origem das Espécies de Charles Darwin ? citado por Raymond J. Nogar, ?La evolución y la filosofia cristiana?, tr. I. Antich, Herder, Barcelona, 1967, p. 243).

Esta visão popular sustenta, além disso, que tudo está cientificamente demonstrado, que é um fato real e não uma mera hipótese, pelo que não cabe a discussão a não ser em nível de detalhe referente aos mecanismos que comandam o processo, às datas em que aparecem os animais e vegetais, e outros pormenores que logo serão elucidados.

Porém parece que os cientistas desejam algo mais, como assevera Teilhard de Chardin:

A evolução é uma teoria, um sistema, ou uma hipótese? É muito mais do que tudo isso. É uma condição geral a que devem obedecer todas as teorias, todas as hipóteses, todos os sistemas; uma condição que eles devem satisfazer doravante para que possam ser levados em consideração e para que possam ser corretos. (El fenómeno humano, citado por Nogar, op. cit., p. 245).

Desta forma, a evolução abandona o mundo da ciência no qual nasceu, e invade o mundo da lógica. E nele atinge a esperada posição que tinha o princípio da contradição na lógica aristotélica, que até então ninguém havia posto em discussão. Entretanto, com tudo isto não se disse tudo ainda. Em 1959 reuniram-se 50 renomados cientistas em Chicago para celebrar o centenário da publicação de A Origem das Espécies de Charles Darwin. Julian Huxley esteve presente a essa magna assembléia que reuniu a nata da sociedade científica contemporânea, e deu a última palavra em matéria de exaltação à evolução:

No tipo de pensamento referente à evolução não há lugar para seres sobrenaturais (espirituais) capazes de afetar o curso dos acontecimentos humanos, e nem há necessidade deles. A Terra não foi criada. Foi formada por evolução. O corpo humano, a mente, a alma, e tudo o que surgiu, incluindo as leis, a moral, as religiões, os deuses, etc., é inteiramente o resultado da evolução mediante seleção natural.? (Evolution after Darwin, citado por Nogar, op. cit., p. 246).

J. C. Mansfiel solicitou, ainda, que os estudantes de nível médio fossem também embebidos do pensamento evolucionista, de tal modo que se acostumassem a pensar tudo em termos de processo e não de situação estática. (Citado por Nogar, op. cit., p. 244).

Assistimos, pois, ao triunfo de Heráclito. O Padre Raymond Nogar, O. P., fervoroso partidário da evolução, de quem retiramos estas notas, não se exime de fazer ver a influência, às vezes decisiva, do pensamento evolucionista na filosofia contemporânea, especialmente no historicismo, no marxismo, e no existencialismo. Podemos dizer, pois, que o pensamento humano destes dois últimos séculos está profundamente marcado pela doutrina da evolução.

Entretanto, E. Gilson, em seu recente estudo sobre a biologia à luz da filosofia, nos adverte:

As palavras têm a sua importância. A palavra ?Evolução? prestou sobretudo o serviço de ocultar uma idéia. (De Aristóteles a Darwin e vice-versa, in A. Clavería, Eunsa, 2ª ed., Pamplona, 1967).

Parece que estamos sonhando! Um dos maiores filósofos do século XX, um dos maiores historiadores do pensamento filosófico, chegou à conclusão de que existe uma palavra, ?evolução?, mas não existe a idéia correspondente! E essa ausência de idéia é a chave do pensamento contemporâneo! Semelhante desastre nunca haviam presenciado os séculos!

Raymond Nogar, O. P., confessa que a evolução, ao sair do campo biológico, onde nasceu, perdeu seu caráter de conceito unívoco para converter-se em um conceito equívoco; em outras palavras, o termo ?evolução? não representa uma idéia definida, mas sim uma multidão de idéias. Vale dizer, este partidário da evolução biológica reconhece o mesmo fato que Gilson denunciou com tanto vigor.

Creio, portanto, que é conveniente assumir a tarefa de esclarecer este conceito, para assim compreender um pouco melhor, se couber, o seu uso na atualidade.

 

1. A inspiração

Em primeiro de julho de 1858 foram lidos na Real Sociedade Linneana de Londres dois trabalhos. O primeiro era de Charles Darwin, e o segundo de Alfred Wallace. Assim nasceu publicamente o que hoje se conhece como ?Teoria da Evolução?. Darwin e Wallace haviam trabalhado de forma inteiramente independente, o primeiro viajando pela América do Sul, e o segundo pelo Arquipélago Malaio, mas haviam chegado à mesma conclusão: a variedade atual observável no reino animal e vegetal não era produto da infinita sabedoria do Deus da Bíblia, mas sim o resultado da seleção natural.

Vejamos como Wallace nos relata o mecanismo que tornou possível a diversificação das espécies:

A vida dos animais selvagens é uma luta pela sobrevivência. Requer o exercício pleno de todas as suas faculdades e energias para conservar a própria existência e cuidar da prole recém-nascida. A possibilidade de procurar alimento durante as estações menos propícias, e de se livrar das investidas de seus inimigos mais perigosos, são as condições primordiais que determinam a existência tanto dos indivíduos como de toda a espécie. … Imenso deve ser o número dos que morrem a cada ano; e como a existência de cada animal depende dele mesmo, os que morrem devem ser os mais fracos. … E pelo contrário, os que prolongam a sua existência serão somente os mais perfeitos em saúde e robustez. … Como indicamos no princípio, é uma luta pela sobrevivência na qual hão de sucumbir sempre os mais fracos e de organização mais imperfeita. (1)

O Professor Brncic nos relembra como a visão da seleção natural do século passado estava carregada de sangue, garras e dentes, e se justificava assim a bárbara competição social e econômica com o simples dizer que ?o mais forte deve sobreviver e o mais fraco deve ser aniquilado?. (2)

Enquanto eu lia as proposições de Wallace, tinha a impressão de que essa visão da natureza me era familiar, e já tinha sido desenvolvida antes por outro pensador. De fato, trata-se da idéia que Thomas Hobbes, o pai do liberalismo, havia tido da natureza humana. É o Homo hominis lupus (O homem, lobo do homem) dos liberais, o estado de guerra total que Hobbes supõe como condição natural do homem. (3) Por isso, permito-me discordar de Brncic: não é a evolução que impõe à sociedade uma economia e uma política desumanas, mas foi o liberalismo que inspirou a teoria da evolução e a impôs aos  biólogos.

O próprio Darwin reconheceu que a leitura casual de um renomado liberal foi decisiva para a elaboração de sua teoria:

Em outubro de 1839, isto é, quinze anos antes de começar minhas pesquisas sistemáticas, o acaso fez com que eu lesse, por recreação, o livro de Malthus sobre as populações. Estando bem preparado para apreciar a luta pela sobrevivência que ocorre em todas as partes, devido às minhas prolongadas e contínuas observações sobre os hábitos dos animais e as plantas, ocorreu-me de repente que, sob essas circunstâncias, as variações favoráveis tenderiam a ser preservadas, e as desfavoráveis a ser destruídas. O resultado seria a formação de novas espécies. (4)

Limoges pensa que o conceito que Darwin recebeu de Malthus foi o da pressão opressiva que esta luta pela sobrevivência exerce sobre os seres vivos, gerando uma guerra implacável entre eles. (5) Por curiosa coincidência, Wallace também leu Malthus, e reconheceu em sua carta a A. Newton em 1887 que foi esse autor liberal quem o inspirou na formulação da teoria, antes de conhecer Darwin. (6)

Hoje, os estudiosos acreditam que esta teoria foi descoberta por biólogos e impôs-se pelas suas comprovações científicas. A verdade é muito diferente: ela foi inspirada pelo pensamento político liberal e imposta pela pressão exercida em nome da ciência. Como sustenta Gilson, é uma estranha teoria que goza de um caráter singular: é um híbrido composto por uma doutrina filosófica e uma lei científica. Deste modo, goza da generalização própria da filosofia, e da certeza demonstrativa da ciência; em uma palavra, ?é praticamente indestrutível?. (7)

Thomas Robert Malthus (1766-1834) formou-se conforme os ideais do iluminismo, o que entretanto não lhe impediu de ser ordenado pastor anglicano. A leitura de Adam Smith o convenceu da necessidade de ordenar a vida citadina para combater a pobreza e, fiel à inspiração central da economia liberal, convenceu-se de que a culpa da pobreza é dos próprios pobres. A extraordinária afeição deles pelo vício, e especialmente a sua tendência de procriar mais filhos do que podem alimentar, provoca um ciclo de miséria e morte. Em face deste aumento explosivo da população, a natureza responde com pobreza, guerra, epidemias, etc., de modo a controlar  a população e fazê-la voltar aos limites toleráveis pela produção de alimentos. Por isso Malthus é um apóstolo da campanha contra a preocupação das autoridades para aliviar a situação dos mais desprovidos, pois essa política tradicional só perpetua a miséria e a corrupção. David Ricardo, John Stuart Mill e outros renomados economistas liberais do século seguiram as suas doutrinas. Toda a crítica marxista está orientada contra essa visão da economia, não por ser injusta, mas porque, aceitando-a como verdadeira, procura levá-la de imediato ao seu desenlace final. A conhecida ?lei de bronze do salário? nada mais é do que a expressão econômica da teoria das populações de Malthus.

Darwin, pois, leu em Malthus que os seres vivos se multiplicam mais rapidamente do que os recursos alimentares. Esta situação provoca uma guerra sem quartel em que sempre triunfa o mais forte. Isto é o que a natureza procura a fim de aperfeiçoar-se a si mesma, e por isso a luta pela sobrevivência é positiva e tem como resultado ? isso é o que acrescenta Darwin ? novas espécies mais perfeitas que as anteriores.

Observemos que Darwin reconhece que Malthus lhe inspirou a teoria ?quinze meses antes de começar minhas (suas) pesquisas sistemáticas?, o que nos revela que não foi a biologia, mas sim a política liberal a verdadeira inspiradora da teoria da evolução. À parte da confissão de Darwin, realcemos algumas provas. Dado que o liberalismo havia impregnado a sociedade européia de meados do século, o triunfo da nova teoria era inevitável: a livre competição era o dogma fundamental da existência, até no nível vegetal. Com efeito, Malthus escreveu:

No reino animal e no reino vegetal a natureza distribuiu com mão rica e pródiga as sementes da vida. Em comparação, foi parca quanto ao espaço e à alimentação necessários para fazê-los crescer. Os germes da vida contidos em nosso pequeno planeta, se tivessem suficiente alimento e lugar para se estender, poderiam encher milhões de mundos em alguns milhares de anos. … Nos animais e plantas, os seus efeitos são o desperdício de sementes, a enfermidade e a morte prematura. No homem, a miséria e o vício. (8)

O seu cálculo foi muito conservador. Estima-se hoje que uma simples bactéria necessita menos de uma semana para produzir uma massa de bactérias do tamanho do planeta Terra. (9)  Já em 1844, o biólogo Verhulst havia apresentado um trabalho na Academia Real de Bruxelas, em que desenvolvia a teoria de que as espécies animais e vegetais apresentam uma curva de crescimento que não é constante. Após um início lento, segue-se um crescimento rápido, para finalmente estabilizar-se quase completamente. (10)

Enquanto a teoria de Malthus inspirava a evolução e as políticas anti-natalidade da atualidade, os cientistas estavam demonstrando que as idéias de Verhulst e de M. T. Sadler eram as corretas. Experiências realizadas com plantas e animais a partir do fim da primeira guerra mundial demonstraram completamente que toda população está regulada por fatores internos e externos variáveis, sendo os principais o espaço e a alimentação. Deste modo, a população regula a sua própria fertilidade e o fenômeno temido por Malthus nunca se produz. (11)

Podemos concluir, pois, que a idéia que inspirou a teoria da evolução é um erro biológico nascido da aplicação de uma falsa teoria política a um campo que não lhe era próprio. (12) 

 

2. O conceito

A palavra evolução provém do Latim, onde significa ?desenvolvimento?, ?desenrolamento?, ou ?desdobramento?. Vale dizer, supõe-se que não se cria nada novo, mas que se faz aparecer o que já estava presente, embora oculto. Por isso, Poetarum evolutio, para Cícero, será a leitura dos poetas, seja porque se teria de desenrolar o rolo escrito, seja porque o leitor se limitaria a manifestar o que ali estava latente.

Já na antigüidade foi apresentada uma doutrina estritamente evolucionista. Para a antiga Stoa, o fundamento de todas as coisas era o fogo, como para Heráclito; hoje esse fundamento foi substituído pela concepção de uma lei imanente universal, um ?logos?, que rege o universo inteiro como o destino, e que contém em si a semente de tudo o que aparecerá no mundo. E por isso, ele é chamado de ?logos spermatikós?, e as suas sementes serão os ?logoi spermatikoi?, e terão exatamente uma função análoga à das idéias exemplares de Platão. Muito agradaria a Santo Agostinho esta teoria, que traduz literalmente as rationes seminales criadas por Deus simul, todas juntas, mas que aparecerão paulatinamente, cada uma a seu tempo devido, segundo a Providência divina haja determinado. (13) Seguindo a Santo Agostinho, São Boaventura e Malebranche manterão que, terminada a criação no primeiro instante, nada novo aparecerá jamais com independência desse ato criador. É curioso ver esta mesma doutrina defendida por um notável biólogo, Charles Bonnet (1720-1793), que a aplica à ontogênese, ou formação do ser vivo, e que supõe que na semente está tudo o que aparecerá posteriormente no adulto em estado de involução, se puder ser admitida esta expressão. Com esta doutrina, Bonnet se opunha a Aristóteles, para quem a ontogênese cria órgãos novos graças à força que possui a forma para eles. (14)

Infelizmente parece que Bonnet foi o último que usou a palavra evolução no seu sentido próprio. A partir do século XIX esta palavra poderá significar qualquer coisa, mas certamente é certo que não significa a única coisa que deveria significar, isto é, que o que agora vemos já estava realmente presente, embora oculto, esperando o momento propício para aparecer.

Entretanto, certos cientistas e filósofos, mais filósofos do que cientistas, desenvolveram nestes últimos séculos uma teoria que, em sentido lato, ainda podemos chamar de evolução. Refiro-me a Lamarck, Spencer, Bergson e Teilhard de Chardin. É tal a confusão reinante, que muitos pensam que estes autores sustentam a mesma teoria que Darwin e Wallace, apesar de diferirem em alguns pontos. Um dos poucos que tentou infrutiferamente durante toda a sua vida clarear as idéias, foi Spencer, o verdadeiro criador de uma teoria integral de evolução universal, filosófica, não científica, que teve, porém, de reconhecer, com desespero, em 1880, que havia perdido a batalha. Sua teoria era atribuída a Darwin; a seleção natural, que a destruía era considerada a sua causa; e para cúmulo dos males, era atribuída a Darwin a teoria que ele mesmo havia rechaçado. (15)

Não se tem a intenção de entrar aqui no detalhe das hipóteses desses autores. Diremos somente que talvez a mais coerente e bem formulada dentre elas seja a de Bergson.

Possivelmente a única idéia compartilhada por todos os transformismos e evolucionismos modernos seja a que Spencer expressou melhor do que ninguém, em seus famosos princípios primeiros, onde parte de uma lei suprema da natureza ? a da evolução ? e logo lhe atribui leis particulares que sempre consistirão no trânsito do menos complexo para o mais complexo, e isso por necessidade interna. Como bom filósofo moderno, Spencer não dá prova alguma de suas famosas leis, talvez por considerá-las demasiado evidentes. Resulta disso que a evolução é um processo progressivo, aperfeiçoador, cujos frutos são sempre melhores à medida que o próprio processo vai se realizando.

Foi Bergson quem identificou a evolução com o progresso, sendo seguido por Teilhard de Chardin. Foi Bergson, porém, quem melhor exprimiu a necessidade de um princípio responsável pela evolução. O seu justamente famoso élan vital, princípio criador, ordenador, organizador da matéria, dirigiria a evolução através de seus múltiplos e inumeráveis elementos que são os diversos seres vivos. Embora tenhamos que ampliar o conceito de ?evolução? para aplicá-lo a estas teorias, já que o resultado final não está realmente contido no momento inicial como seria exigido, existe sem dúvida um elemento unificador, que permanece sempre o mesmo: energia, força ou causa da própria evolução, responsável pelas mudanças que ela dirige com consumada sabedoria, e que por isso mesmo, de algum modo podemos dizer que já os contêm em potencial antes de serem desenvolvidos. Por isso merecem o título de evolução, se bem que em um sentido lato e não estrito.

A teoria transformista, por outro lado, é algo completamente distinto. Aqui não existe uma força interna que dirija o processo, não há algo que permaneça o mesmo através do tempo, e do qual se possa dizer com propriedade que evolui. O transformismo supõe um novo ser vivo, que nasce certamente do anterior, mas graças mais a transformações que este sofre, do que causa. É neste sentido que deveríamos interpretar a Lamarck, Darwin e Wallace. Teríamos também de aí juntar a imensa maioria dos cientistas que na atualidade se declaram evolucionistas. Entretanto, como as idéias carecem de clareza, e são muitas as objeções que a teoria transformista tem levantado nos últimos anos, na hora das explicações, muitos deles pendem para um evolucionismo mais ou menos lato.

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A atenção deverá ter sido chamada  para a repetição do nome de Lamarck. A sua hipótese é evolucionista ou criacionista?! Na verdade poderá tanto ser uma como outra, tudo dependendo do alcance dado à sua explicação central. É sabido que em sua hipótese a causa de mudança é a adaptação ao ambiente, que pressiona o ser vivo e o obriga a transformar-se, de onde se dizer que a necessidade cria o órgão. Este é um dos disparates mais famosos na história do pensamento humano, cujo êxito nos leva a pensar muito mal da qualidade intelectual dos que o aceitaram. E isso porque enquanto não existir órgão não há função, e enquanto não houver função não há necessidade, o que se resume na relação entre o órgão e a função. A função não é mais do que a atividade do órgão: poderia haver uma atividade sem o órgão correspondente? Pelo menos no mundo biológico, é impossível! (16)

Em conseqüência, a teoria de Lamarck pode ser interpretada de dois modos: seria evolucionista se a adaptação proviesse da força do ser vivo que desenvolve uma de suas possibilidades latentes ao encontrar um ambiente propício; seria transformista se o ambiente impõe ao ser vivo uma nova estrutura que ele estava longe de poder criar. Qual foi o pensamento íntimo de Lamarck? É muito difícil precisá-lo, se bem que nos inclinemos pela evolução. De fato, este notável biólogo cria que Deus havia criado os primeiros seres vivos e os havia orientado para a evolução.

Etienne Gilson descobriu que Darwin não usou o termo ?evolução? que designa, segundo o consenso atual, a sua própria hipótese, não que não o conhecesse, mas porque não representava a sua idéia. O mais surpreendente é que Francis Darwin, seu filho, para fazer passar seu pai como evolucionista, teve de suprimir um trecho da sua ?Autobiografia?, justamente aquele em que Darwin fala de Spencer e sua filosofia. Nele Darwin assinalava que as conclusões a que Spencer chegara ?nunca me convenceram?; que suas generalizações fundamentais ?são de tal natureza que não me parecem de utilidade alguma?. Finalmente, termina o seu juízo com uma frase lapidar: ?De qualquer maneira, não foram de nenhuma utilidade para mim?.(17) Em suma, a leitura de uma verdadeira teoria evolucionista deixou Darwin completamente apático. Compreende-se, então a necessidade de suprimir aquela página da autobiografia do ?criador da teoria da evolução?!

Parece que a palavra que satisfazia a Darwin era ?transmutation?. Realmente este termo exprime cabalmente o que a sua mente havia engendrado. Poderíamos expressá-lo assim: Existe no mundo uma variedade incrível de espécies animais e vegetais. Qual a causa disso? Ao observar como os criadores de animais e plantas na Inglaterra, sua terra natal, conseguiam maravilhas graças à seleção dos reprodutores mais aptos para o fim a que se propunham,  pensou que a natureza podia fazer o mesmo.

O procedimento da natureza merecia ser chamado de ?seleção natural?. Muitas perguntas se acumulam em seu pensamento enquanto escuta a descrição da seleção. É possível uma seleção sem um selecionador? Como se realiza a seleção? Qual é o seu efeito? Incomodado por essa e outras perguntas, Darwin mudou várias vezes o sentido da expressão, e terminou reconhecendo que ela era tão somente uma metáfora. A estas alturas, parece absolutamente incrível que o que explica tudo na biologia moderna seja tão somente uma metáfora! (18)

Já vimos a descrição que faz Wallace da seleção natural, e dissemos que era uma aplicação curiosa da concepção liberal da natureza humana concebida como a de uma fera sangüinária. Lamentavelmente, a biologia mudou o seu conceito de fera, e se distanciou da visão liberal. Não existem tais feras sanguinolentas, sedentas de sangue. Cada espécie cumpre um papel insubstituível em seu meio, de modo a manter incólume o equilíbrio natural. Quantas vezes o homem teve de lamentar ter extinguido algum carnívoro! Na Patagônia foi desastroso ter acabado com eles, pois isso permitiu a proliferação dos coelhos, que se tornaram uma praga. Pensa-se agora que o melhor será importar carnívoros para restabelecer o equilíbrio.

Na luta pela existência sobrevive o mais apto. A isto Darwin denomina seleção natural. Da maneira como a seleção artificial dos criadores ingleses consegue novas variedades ou raças mais aptas para um propósito previamente determinado, Darwin supôs que a natureza fazia o mesmo. Entretanto, nada há de mais improvável. É muito discutível que a morte selecione em algum sentido. É verdade que um ser defeituoso, incapaz de viver, morre, e assim é eliminado. Por outro lado, um que é apto para suportar uma determinada enfermidade pode não o ser para outra. As mortes acidentais selecionariam o que? De qualquer forma, uma seleção natural só seria compreensível se tivesse sido planejada por uma inteligência.

Dizíamos há pouco que os autores modernos ignoram completamente a diferença que existe entre uma teoria transformista e uma teoria evolucionista. À guisa de exemplo, daremos algumas definições que aparecem em livros modernos, e veremos como são confundidas as duas teorias.

Em 1959 reuniram-se em Chicago cinqüenta cientistas em um congresso em homenagem ao autor de ?A Origem das Espécies?, no centenário da publicação do livro. Conseguiram então se pôr de acordo com uma definição tão vaga que conseguisse contornar as suas diferenças, deixando-as na penumbra:

A evolução pode ser definida em termos gerais como um processo unidirecional e irreversível que no transcurso do tempo gera novidade, diversidade e níveis de organização mais elevados.

Notemos que não se menciona a seleção natural nem a adaptação ao meio. Tampouco se fala das mutações. Tudo isso pela total falta de acordo sobre esses particulares. Entretanto, ao dizer que o processo é unidirecional e irreversível, afasta-se da concepção de Darwin e se aproxima mais da de Spencer.

Nesse mesmo congresso interveio o Professor C. H. Waddington, da Universidade de Edimburgo, que trouxe um esquema de como se produz realmente a evolução. Nele, há a interveniência de uma nova noção. Segundo a sua hipótese, os seres de uma geração selecionam o ambiente, que por sua vez os pressiona e faz desenvolver potências latentes que farão aparecer novos órgãos na geração seguinte, e assim sucessivamente. (20) Temos assim claramente tipificada uma evolução no estilo de Lamarck e Bergson, e muito distante da concepção de Darwin, da qual só permanece o termo ?seleção natural?, cujo conteúdo, porém, tem variado fundamentalmente, até se tornar exatamente o oposto do que significava. Por isso, não nos surpreende o mínimo, como explicação última do processo, que o Padre Raymond Nogar, O. P., partidário decidido da seleção natural darwinista a destrua completamente ao concluir que ?a evolução não é outra coisa que um caso de inadaptabilidade. … É, na realidade, o modo de adaptação e persistência da espécie.? (21) A única coisa que nos surpreende nesse dominicano ilustre é que, depois destas palavras, continue crendo na evolução, porque, se ele tiver razão, não se poderia jamais sair da espécie original, se bem que ela aceitasse novas versões. Uma espécie que se adapta ao ambiente não deixa de ser o que é, mas o que Darwin queria explicar era a destruição das espécies para dar origem a outras novas. Além do mais, resulta convincente que um indivíduo real se adapte a um determinado meio, mas como se daria uma adaptação universal?

François Jacob, prêmio Nobel de Medicina em 1965, apresenta-nos a sua concepção de evolução:

Todos os organismos passados, presentes e futuros descendem de um só organismo, ou de alguns raros sistemas vivos que se transformaram espontaneamente. … As espécies derivaram-se umas das outras por seleção natural dos melhores reprodutores. (22)

Temos assim expressa fielmente a teoria de Darwin. Notemos, sim, que Jacob estabelece sem qualquer comprovação a formação espontânea dos primeiros seres vivos, os que obviamente não se originaram graças à evolução.

Chama a atenção fortemente que a evolução se origine em ?sistemas vivos que se transformaram espontaneamente?, porque o mesmo autor assinalou em outra página de seu mesmo livro: ?Basta uma experiência relativamente simples para refutar a geração espontânea?. (23)  Desta forma, a origem dos seres vivos permanece refutada pela biologia contemporânea.

É também altamente interessante que a evolução não ocorra paulatinamente como desejava Darwin, mas sim ?pela introdução sobre a terra, de tempos em tempos, de novos grupos de plantas e animais? (24) , e que ?se a formação do mundo vivo se produziu sob o efeito de causas que ainda operam hoje em dia, deve ser possível vê-las em ação sob certas condições.? (25) Isso é exatamente o que desejaríamos ver, mas ninguém jamais o viu.

Certamente os cientistas têm feito todo o possível para produzir a evolução em seus laboratórios, e nada conseguiram. Foram usados raios-X, alfa, beta e gama, ultravioleta e diversas substâncias químicas que se mostraram essencialmente ativas. Todos conhecemos um caso de mutação no homem: o mongolismo provocado pelo surgimento de um segundo gene que duplica um dos genes do par 21. As experiências mais famosas foram as realizadas com a mosca das frutas, a Drosophila melanogaster, que deram origem a uma incrível quantidade de mutações, incluindo moscas sem asas. Essa pobres moscas nos recordam a mutação humana que deu origem ao mongolismo. A respeito do assunto, há cientistas que fizeram algumas observações: Em primeiro lugar, trata-se de uma situação totalmente artificial, em que se provocam condições a que nunca foram elas submetidas na natureza; em segundo lugar, todas são e continuam a ser moscas, nunca tendo se conseguido criar uma espécie nova; em terceiro lugar, a maioria das mutações provocou a morte das moscas; e finalmente, as experiências envolveram 50 mil gerações que resistiram com êxito a prova, conseguindo manter sua condição de moscas contra todos os ataques sofridos no laboratório. Transportando as 50 mil gerações de moscas para comparar com a vida humana, isso equivaleria a um milhão de anos. Desta maneira, as experiências em laboratório deixaram contentes gregos e troianos, pois todos encontram nelas a comprovação empírica de suas próprias teorias.

Voltemos, porém, ao nosso prêmio Nobel, digno representante do evolucionismo darwinista. Curiosamente, interpretando o sentir de Darwin, Jacob volta a se afastar totalmente do transformismo para cair no evolucionismo. De fato, ele nos diz que ?a capacidade dos seres para modificar-se em suas formas, suas propriedades, seus costumes, é inerente a todos os viventes.? (26) E esta parece ser a causa da evolução; isto é, regressamos a Lamarck e abandonamos Darwin. Unimos então a essa capacidade a luta pela sobrevivência e o seu corolário da seleção natural, com o que voltamos a Darwin e obtemos a visão que este prêmio Nobel nos dá da teoria atual da evolução das espécies.

Em filosofia esse tipo de soluções recebe o nome de ?ecleticismo?. Certos pensadores não notam a incompatibilidade que existe em opor diversas teses, e as unir. Deste modo se obtêm soluções muito satisfatórias para mentes pouco exigentes, mas elas duram pouco. Logo se percebe que os elementos que entraram na síntese tendem a se separar, porque realmente não se produziu uma síntese, e a nova hipótese fica destruída. Por isso compreendemos a dureza do juízo de Gilson com a qual iniciamos nossas considerações.

3. A espécie

O título do famoso livro de Darwin era A Origem das Espécies. Hoje em dia, a teoria que se supõe que o livro defende é chamada de A Evolução das Espécies. Por isso, tendo visto o que significa o termo evolução, resta-nos averiguar o que se quer dizer com o vocábulo espécie. Species significava primitivamente ?olhada?, ?vista?, ?golpe de vista?.

Parece que Cícero usou esse termo para traduzir a palavra grega ,4*@.. Trata-se, obviamente, da idéia platônica que posteriormente deu origem às famosas species impressa e species expressa da escolástica. Não é este, entretanto, o significado que a biologia atual herdou. Como todos sabemos, Aristóteles negou a existência extra-mundana das idéias platônicas, e as incorporou como forma aos entes corpóreos. Brota daqui um conceito de espécie que reúne a todos os seres vivos que realizam uma mesma forma substancial. Este sentido é muito próximo ao usado hoje pelas ciências e é o que prevalecia na biologia anterior a Darwin. Linneu procurou classificar estas espécies. Não obstante,

?ainda hoje, um século depois de Darwin, o problema das espécies permanece submetido a muito estudo ativo e a uma longa controvérsia.? (27)

A pergunta, então, é muito simples: Existem espécies? Dado que elas evoluem, é necessário que existam; de outro modo, a teoria se limitaria a explicar a origem de algo que não existe. (28)

Em Platão e Aristóteles não há problema com o conceito, porém se trata de uma noção filosófica. Talvez por isso mesmo os cientistas se defrontam com problemas insolúveis quando o abordam.

Já Buffon havia chegado à conclusão de que não existem espécies definidas com precisão, e que a natureza simplesmente não se presta a estas divisões que os cientistas lhe impõem. Na verdade, na natureza só há indivíduos, e os gêneros, ordens, classes ?só existem em nossa imaginação?. (29)

O curioso é que o mesmo Buffon afirma em outro lugar que só existem as espécies, o indivíduo não sendo nada.

Gilson nos diz que todos os classificadores dos séculos XVII e XVIII pensavam que quanto mais indivíduos se conhecessem, menos espécies se encontrariam. (30) Tal foi o caso do próprio Lamarck:

?Durante muito tempo pensei que havia espécies constantes na natureza, e que elas estavam constituídas por indivíduos que pertenciam a cada uma delas. Agora estou convencido de que eu estava errado com relação a esse assunto, e de que na natureza realmente não existe nada mais do que indivíduos.? (31)

A Darwin ocorreu o mesmo, até publicamente ter confessado a impossibilidade de distinguir uma espécie de uma variedade, e os terríveis problemas que os classificadores enfrentam, até o ponto extremo de que

?O termo espécie chega, assim, a não ser nada mais que uma abstração mental inútil que implica e requer um ato de criação distinto?.

Impõe-se, pois, esclarecer esse conceito, para saber do que estamos procurando a origem, e como se dá a sua evolução.

Os autores modernos registram que já se classificou mais de um milhão de espécies animais, pelo que se torna necessário reconhecer a sua existência, por mais enigmática que ela possa nos parecer. Na hora de definí-las, realmente as oscilações são notáveis.

Um dos estudiosos do tema, que pude consultar, dá-nos várias pinceladas para que possamos construir um conceito mais ou menos bem delineado. A primeira observação que nos proporciona é de que as espécies são ?comunidades de reprodução?. Essas comunidades, porém são geneticamente fechadas, isto é, não permitem uma reprodução com membros de outra espécie. Por isso é impossível falar de espécie onde não existe  reprodução sexual. Finalmente, nos é assegurado que são processos especiais de adaptação que dão origem às espécies, pelo que podemos considerá-las como adaptações bem sucedidas. (32)

Podemos observar que nesse estudo não se faz menção das características de forma que unem os membros de uma mesma espécie, o que no fundo era o que se tinha recebido de Aristóteles, e que tudo foi reduzido a uma característica exterior ao próprio animal. O aspecto grave dessa redução é que ela torna ininteligível falar de espécie onde não houver reprodução sexual, o que deixa de fora todo o mundo unicelular, tanto de animais quanto de vegetais.

Até este ponto falta-nos um critério simples de classificação, e esse mesmo autor nos diz que ?o número de categorias de classificação é indefinido e arbitrário?. (32) Como a espécie é uma dessas categorias, resulta que elas são arbitrárias. E deve ser assim, já que ?se descobriu um número cada vez maior de casos nos quais fica difícil ou impossível dizer se duas populações constituem espécies distintas, ou então raças da mesma espécie?, ( 34) de tal modo que ?a denominação dada às espécies é uma concessão a nossos costumes e a nossos mecanismos neurológicos? quando se trata de reprodução assexuada de qualquer tipo. (35)

Talvez o caso de Dobzhansky seja extremo. Porém semelhante é também o conceito de Simpson, de De Candolle, de Calman, etc. (36) Alguns deles agregam a noção de parentesco, que se deduz da afirmação de que todos os membros de uma mesma espécie descendem de um único antepassado. Mas se a evolução fosse real, tal hipótese seria comum a todos os seres vivos, e todos constituiriam uma só e única espécie. Outros acrescentam a noção da semelhança entre os membros de uma espécie, semelhança maior do que teriam com um membro de qualquer outra espécie. Tal conceito nos recorda fortemente de Aristóteles, para quem a forma comum era reconhecida por semelhanças fundamentais, essenciais, que produziriam uma identidade essencial entre todos os membros. Infelizmente, é tal a quantidade de detalhes que atraem a atenção do biólogo, e tais as diferenças entre os indivíduos, que muitos classificadores se sentem sobrecarregados pela complexidade do real e renunciam a este critério.

Veja também  O que dizer das acusações do ex-padre Aníbal Pereira dos Reis?

De tudo isto, não deixa de ser surpreendente escutar do próprio Dobzhansky e de muitos outros biólogos, que a única coisa segura é a existência das espécies, e que estas são as que desde tempos imemoriais o senso comum dos camponeses identificou como tais. (37) Todas as demais categorias da classificação são arbitrárias; as espécies, assim, são naturais e estão separadas umas das outras por fronteiras intransponíveis, até o extremo de não haver  intermediários entre elas. Cada espécie está separada da outra por um hiato biológico, o que se explica porque cada uma delas seria um cume adaptativo separado das outras por vales adaptativos. Em outras palavras, só as espécies que existem neste momento são viáveis, e seres intermediários não existem simplesmente porque não lhes seria possível viver. (38) Sem dar-se conta, Dobzhansky deitou por terra uma das idéias mais acariciadas de Darwin: a evolução ser um processo lento em que variações imperceptíveis vão-se somando ano a ano até fazer emergir uma nova espécie. Esta idéia era importantíssima porque era a resposta que sempre os evolucionistas davam aos que, com certa inquietude, perguntam: Por que nunca se viu aparecer uma nova espécie?

De fato, as espécies descritas por Aristóteles há 2400 anos nada evoluíram. O Professor Haldane destacou que alguns caracteres, como o comprimento dos ossos, ?não mostram mudanças evolutivas apreciáveis na maioria das espécies no decorrer de dez mil anos?. (39) Para o cúmulo, outro biólogo nos adverte:

?as partes do cérebro, filogeneticamente antigas, em oposição ao neo-córtex, mudaram muito pouco nos últimos cinqüenta milhões de anos de evolução dos mamíferos?. (40)

A existência de híbridos apresenta problemas muito difíceis para essa idéia da separação genética das espécies. Assim, seria possível que as espécies não fossem o que hoje consideramos como tais, mas sim os gêneros, ou até as famílias. É certo que a maioria dos híbridos é estéril, mas existem híbridos fecundos, e, o que é ainda mais surpreendente, acontece terem descendentes que retornam à espécie primitiva. Produz-se assim um fenômeno curioso de fecundidade através de uma espécie intermediária. (41)  Estes e outros fenômenos análogos fazem com que nos enchamos de dúvidas com relação à certeza que nos leva a privilegiar as espécies em detrimento das demais categorias da classificação biológica.

Gilson, mais uma vez, propõe pelo menos um bom curso de história da filosofia medieval onde se estude o famoso problema dos universais. Em face da perplexidade dos mais eminentes cientistas da atualidade, ele nos recorda as perplexidades dos  filósofos do mundo antigo:

?Assidet Boetius stupens de hac lite

Audiens quid hic et hic asserat perite

Et quid cui faveat non discernit rite

Nec praesumit solvere litem definite.? (42)

 

Ou, traduzindo:

 

Boécio, estupefato, assiste a este debate

Escutando o que diz este e aquele com perícia

E a quem dar a razão não discerne como é devido

Nem pretende resolver definitivamente a questão

 

Tem-se a impressão de que os nossos biólogos, entre Platão e Aristóteles, ao não saber que partido tomar, aderiram a ambos. É bom recordar que o primeiro a sustentar que só existem indivíduos na natureza foi Aristóteles.

Tampouco compreendemos que se favoreça tanto a existência da espécie com relação ao gênero, à família, etc. Se bem que a reprodução possa constituir um bom critério para os seres vivos atuais, de nada serve para os paleontologistas, de modo que eles desconhecem se estão tratando de espécies, variedades, etc. (43)  O próprio Darwin nos disse: ?considero que o termo espécie foi dado arbitrariamente, por motivos de conveniência, para reunir grupos de indivíduos que se assemelhem intimamente entre si. … O termo variedade, por sua vez, em comparação com as meras diferenças individuais, também se aplica arbitrariamente por questão de conveniência.? (44)

Infelizmente, talvez se tenha de estender este raciocínio a todos os graus da classificação animal e vegetal, com o que a origem das espécies seria a origem de uma arbitrariedade.

 

4. A causa

Por que as espécies evoluem, em vez de se manterem constantes? Seja o que for uma espécie, e seja o que for a evolução, é claro que se está falando de uma mudança, e essa mudança requer uma causa que a proporciona. Desde o início os biólogos têm-se esforçado por descobrir essa causa e compreender o seu funcionamento.

Comecemos por Lamarck, que se destaca como o pai da teoria moderna. Para ele, são as circunstâncias que determinam e provocam todo o processo.

?Não são os órgãos, isto é, a natureza e a forma das partes do corpo de um animal, que dão lugar aos seus costumes; é da sua maneira de viver e das circunstâncias em que se encontrou o indivíduo, que provém o que, com o tempo, constituiu a forma de seu corpo?. (45)

As circunstâncias mudam, mas elas não mudam o organismo do ser vivo; as necessidades novas que ele experimenta neste novo ambiente é o motor que impulsiona o organismo a mudar e desenvolver faculdades e partes de que carecia na circunstância anterior. Temos, então, que os costumes criam as necessidades, as quais, diante de um novo ambiente, obrigam o ser vivo a criar novas estruturas para satisfazê-las. Notemos que é a força interior do animal a verdadeira causa da criação da nova forma ou órgão, porém impulsionada pela necessidade; necessidade que, por sua vez foi impelida pela circunstância. As novas formas se herdam, e assim, pouco a pouco, a partir dos seres simples que a natureza criou, chegamos, finalmente, aos seres atuais de grande complexidade.

Lamarck triunfa ao nos apresentar organismos atrofiados pela falta de uso; só falta a outra metade de sua teoria: que o uso produza um novo órgão. Cuvier (1769-1832), no elogio fúnebre a Lamarck desvendou o ponto fraco da sua teoria: como pode o exercício produzir um órgão novo, que não pode exercitar-se senão depois de haver sido produzido? Daí ter surgido o adágio falsamente atribuído a Lamarck, de que ?a necessidade cria o órgão?, que, não obstante, expressa bem o fundo de seu pensamento. (46)

Observemos como o pensamento íntimo de Lamarck é evolucionista, pois é o impulso interior o principal no processo; de fato, as circunstâncias desempenham um papel tal que bem pode ser considerado como transformista, como dissemos mais acima.

Os cientistas modernos se descartam de Lamarck com uma simples frase: ?Hoje em dia sabe-se que os caracteres adquiridos não se herdam?, (47) afirmação esta que fere a mais de uma teoria além da de Lamarck.

Podemos dizer que Spencer, o verdadeiro criador do evolucionismo, como vimos, seja seguidor de Lamarck quanto à causa do processo. De fato, para ele, tudo provém de uma causa interior que busca adaptar-se às circunstâncias; como estas mudam, seus esforços dão resultados distintos.

Darwin estava convencido de que a principal característica da vida é a escassez. Assim tinha lido em Malthus, e assim acreditava. A natureza se protege produzindo uma abundância enorme de seres vivos, que deverão combater entre si pelos escassos alimentos. Isso significará o triunfo dos mais perfeitos, dos mais bem adaptados. E assim, pouco a pouco, vão se aperfeiçoando as espécies até darem origem a outras espécies novas. A prova tinha Darwin nas maravilhas da seleção artificial nas criações de gado da Inglaterra, como na de seu pai, que recebeu como herança.

Diferentemente de Lamarck, para quem a causa era mais interna do que externa, para Darwin a causa era mais externa do que interna. Ele considerava o ser vivo como infinitamente plasmável, e seriam os impulsos exteriores que fariam aparecer novos aspectos, e a seleção natural, filha da luta pela sobrevivência, dirigiria todo o processo. Para ele, toda a explicação de Lamarck era um absurdo, e a de Spencer o deixava indiferente. Na verdade, ele nunca explicou a origem absoluta das espécies, mas sim, supondo que elas existissem, quis explicar porque chegaram elas a ser o que hoje em dia são; vale dizer, tratou do aspecto atual delas. (48)  À parte a sua constante comparação com a seleção artificial, Darwin nunca se aprofundou nessa questão. Parece que ele acreditava em variações espontâneas que se iriam somando até produzir uma nova espécie. (49)  O êxito de sua doutrina deveu-se exclusivamente à sua filiação liberal.

S. A. Barnett reconhece isso explicitamente em seu volume de homenagem a Darwin: ?Darwin mesmo não formulou nunca (sua teoria de seleção natural) de um modo logicamente válido.? (50)

O seu princípio de que sobrevive o mais apto não passa de um círculo vicioso, porque é mais apto quem sobrevive. Entretanto, para que houvesse evolução, teve de aceitar o que também Lamarck preconizava, isto é, a herança dos caracteres adquiridos, neste caso justamente dos que servissem como vantagem, e permitissem que o indivíduo pudesse procriar e sobreviver. Sem esta herança, não há seleção natural exeqüível, nem evolução possível.

Hoje em dia sabe-se que a seleção natural é conservadora e procura manter uma espécie em sua mais original pureza. (51)  Além disso, ela carece de qualquer sentido onde não existe reprodução sexual, o que deixa fora de seu âmbito o imenso mundo dos unicelulares. Interessantes experiências foram demonstrando que a seleção encontra limites que não pode ultrapassar, por mais esforços que faça o selecionador. Simplesmente os animais preferem morrer a continuar mudando.

Bergson acredita que o evolucionismo de Spencer, o mais bem sucedido, deve ser atualizado. E embora a sua teoria não tenha sido demonstrada, ?o testemunho da anatomia comparada, da embriologia e da paleontologia?  constitui algo imponente. (52)  Entretanto, é completamente impossível explicar o resultado final por pequenas mudanças adaptativas, ou por seleção natural. Como já foi demonstrado, em um animal ou vegetal, todos os seus elementos estão correlacionados, de modo a admitir somente algumas poucas mudanças. Se a mudança lhe for imposta, ele prefere morrer. Aqui Bergson descobre, ou melhor dizendo, redescobre, a noção de finalidade, cara à filosofia que reconhece a paternidade de Aristóteles. Infelizmente, como afirma Gilson, ?esta nova noção devia a sua novidade ao que era uma volta à antiga finalidade imanente de Aristóteles, excetuadas as formas que a tornavam possível.? (53)

As formas aristotélicas seriam assim substituídas pelo elan vital, espécie de universal presente de todo ser vivo; presença incompreensível para os aristotélicos que continuam pensando que o único que existe na natureza é o indivíduo. Só falta explicar porque o elan vital produz organismos. A resposta fica indefinida. Bergson só tenta uma solução por via da adaptação, porém a resposta última está fora de seu alcance pela sua concepção da inteligência e da razão. Em todo caso, será ele sempre reconhecido como o filósofo que melhor apontou as deficiências do mecanicismo.

No início deste século XX, a teoria da evolução passou por uma crise aguda. Não se podia encontrar uma causa de todo o processo, pois as explicações de seus criadores, que já lembramos, eram insuficientes. Porém uma descoberta extraordinária permitiu renascer e fazer surgir o que agora chamamos de neo-darwinismo. O achado salvador foi a descoberta das mutações: ?agora torna-se claro que a evolução se produz pela mutação de genes, realizada pela fecundação aleatória das células germinativas? (54).

Realizada a mutação, a herança, que é absolutamente conservadora, a reproduz, e a seleção natural rejeita a inconveniente para deixar trânsito livre para a mais apta. Isso é o neo-darwinismo. O que Darwin desconhecia, o como se produz uma mudança herdável, é conhecido hoje, e será a seleção natural que julgará o que será conservado e o que será eliminado.

Ultimamente se descobriu que as mutações são causadas por alterações no DNA, que são muito raras, e que são herdadas se afetam os genes e  cromossomos responsáveis pela reprodução de um indivíduo. A experiência demonstra que as mutações que afetam órgãos fundamentais são sempre letais; só podem ter êxito as que afetam caracteres acessórios. Disto se depreende que elas não poderiam produzir espécies novas, mas sim unicamente variedades dentro de uma mesma espécie. A razão última está em que cada órgão mantém relação com todos os demais. Assim, o surgimento de uma nova espécie requer um número enorme de mutações simultâneas, todas se dando no mesmo sentido funcional e ao mesmo tempo. Claro que uma mutação será funcional em um dado contexto e letal em outro. Por isso não é possível prever se ela será letal ou funcional. As mutações podem explicar talvez o surgimento de raças ou subespécies, mas não se compreende como, por mero acidente fortuito, possam aparecer órgãos novos e uma remodelação total de um animal. (55)

Continuamente estão sendo feitas experiências para a criação de novas raças e toda a sorte de híbridos para melhorar as culturas agrícolas e a alimentação humana. Tem-se descoberto, assim, a imensa influência do meio como o mais decisivo na criação de raças melhores segundo as exigências práticas do homem.

Entretanto, apareceram dois fenômenos convergentes e inesperados. Por um lado, as primeiras transformações são conseguidas rapidamente, mas a partir de certo nível os esforços passam a ser menos produtivos, até se tornarem completamente inúteis. Por outro lado, as novas raças melhoradas, se forem abandonadas à sua própria sorte, logo regressam à sua condição primitiva, e se perde todo o trabalho. Existe algo, pois, nas espécies, que com enorme tenacidade se opõe a todas essas manipulações humanas, permitindo êxitos incríveis dentro de certos limites, e nada mais. (56)

Entre os biólogos que atualmente pesquisam o tema e defendem a evolução darwinista, um dos poucos que aderem às idéias de Darwin é o Professor E. Mayr. Ele nega que basta a mutação genética para que ocorra a evolução. A evolução raramente é fruto de mutação. A aquisição de uma nova função em uma estrutura preexistente é a verdadeira causa. Neste ponto intervém especialmente o ambiente e a seleção natural para confirmar as transformações vantajosas. (57) Vemos que este professor de Oxford une, assim, a teoria de Darwin com a de Lamarck. No mesmo sentido Waddington reforça ainda mais a tese lamarquista da importância dos esforços adaptativos do próprio organismo, o que o levaria a desenvolver potencialidades latentes. (58)  Certamente Darwin teria estremecido ao ouvir das potencialidades latentes, que destroem a sua seleção natural e convertem o processo em um desenvolvimento propriamente evolutivo cuja causa eficiente é preferentemente interior; por outro lado, Lamarck e Spencer teriam se sentido muito bem interpretados.

A teoria da seleção natural sofreu um rude golpe quando Francis Galton (1822-1911) descobriu a regressão, segundo a qual os caracteres selecionados pelos criadores regressam a seu estado primitivo quando cessa a seleção. Em função disso, Hugo De Vries (1848-1935) decidiu que a seleção só era possível aos saltos, e não pouco a pouco como queria Darwin, mas em virtude de mutações que fizessem aparecer repentinamente organismos inteiramente novos: ?a seleção por si só não conduz à origem de novas espécies? (59)

H. J. Müller (1890-1967) dedicou-se com intensidade ao trabalho com mutações provocadas em laboratório. Observou então que a maioria delas eram desfavoráveis, e chegou à conclusão de que a seleção natural se incumbia de eliminá-las, e daí começou a imaginar a criação de um homem perfeito, a partir de seleção natural de mutações.

Suas teorias serviram enormemente a Hitler para os seus sonhos de uma raça pura, com base na teoria do ?gene silvestre? debilitado por genes de outras raças que o teriam contaminado, e que, se fosse conseguido voltar à sua pureza primitiva, finalmente daria lugar ao homem perfeito. (60)

Os japoneses Kimura e Ohno criticaram fortemente os que sustentam a evolução com base na seleção natural. Ambos os pesquisadores insistem no papel conservador da mesma, que favorece aos melhor adaptados. Para estes autores, unicamente a mutação aleatória do DNA pode escapar da rigorosa vigilância que a seleção natural impõe, e dar origem à evolução. Conseqüentemente retornam eles à posição de De Vries segundo a qual a evolução se produz por grandes saltos, por remodelações completas que fazem aparecer organismos totalmente novos que, submetidos à seleção natural, dão origem às raças e subespécies. (61)

O matemático e biólogo G. Salet submeteu essa hipótese ao cálculo matemático de probabilidades, e às leis dos grandes números inventada por Borel. O resultado foi catastrófico para essa nova hipótese. Acontece que não é possível esperar que se produza um evento quando sua probabilidade é inferior a 10-200. Conhecida a complexidade do DNA e o encadeamento de mutações necessárias para produzir um órgão novo, a probabilidade de que tal coisa ocorra é muito inferior àquele valor. Desta maneira, conclui Salet, a evolução com base em mutações é um mito que carece de qualquer base científica. Porém nada significaria a ocorrência de um órgão novo. Como já destacou Bergson, e antes dele muitos biólogos, dentre os quais Vialleton, um ser vivo é uma correlação de órgãos. Devido a isso, é necessário o ser vivo ser planejado em seu todo para que possa ser viável. Certamente podem ser produzidas mutações que façam variar as raças dentro de uma espécie, e talvez até mesmo as espécies dentro de um gênero, e até poderia ser possível que se fizessem variar os gêneros dentro de uma família. Embora nada disto seja seguro nem esteja comprovado, talvez fosse possível. Está comprovada tão somente a variação das raças no interior de uma espécie. Entretanto, ascender a categorias superiores da classificação biológica é absolutamente impossível. (62)

Veja também  A apologética é divisiva?

Para achar uma causa adequada para a evolução, resta-nos tão somente o recorrer a Deus. A evolução nasceu para negar que Deus tivesse criado espécies diferentes desde o primeiro instante, e foi defendida com ardor pelos ateus. Hoje em dia, o máximo que poderia salvá-la seria que a criação se expressasse, pela vontade de Deus, mediante uma evolução. O único problema reside em que a biologia tem que encontrar uma causa biológica para fundamentar a sua tese, e isso não se achará na noção de criação.

 

5. Observações finais

             Tentando clarear um pouco a confusão que esta exposição terá deixado, gostaríamos de distinguir três posições diante do problema da visão que o mundo biológico nos apresenta como um desafio à imaginação com a inumerável diversidade de espécies, variedades e indivíduos, sempre diferentes entre si.

Diremos, então, que a primeira posição adotada nos tempos modernos foi classificada de fixismo. É certo que este nome e a sua caracterização nos foram impostos pelos evolucionistas, mas conservemos a palavra. Podemos dizer que é uma postura coerente. Uma espécie é o que na natureza fica delimitado pela definição que se dá a ela. Da mesma forma, os gêneros, famílias, etc., são todos definidos pelas suas características fundamentais que são possuídas em forma exclusiva pelo grupo. Supõe-se que as espécies tenham sido criadas pela Inteligência Infinita, que lhes deu o lugar no mundo e a sua função na natureza.

Como se trata de uma postura filosófica e teológica, a ciência não pode refutá-la nem descartá-la. Tão somente pode apresentar certas dificuldades. A primeira resulta do fato de que não é possível dar uma definição perfeita de espécie, gênero, etc. Podemos definir um animal qualquer? Limitamo-nos a descrevê-lo de forma incompleta, na maioria das vezes A outra dificuldade resulta do fato de que a paleontologia nos apresenta o panorama de uma variedade extraordinária através dos séculos. Ter-se-ia de supor criações distintas? É sensato pensar que o Criador intervém de modo extraordinário de tempos em tempos? Nenhuma destas dificuldades é insuperável, mas não deixam de incomodar a maioria dos cientistas atuais, que não olham com bons olhos para esta postura.

A segunda posição é a teoria da evolução, no estilo de Spencer, Bergson, Teilhard, etc. Embora esteja expressa em forma muito mais rigorosa que o transformismo darwinista, ela enfrenta uma dificuldade grave: o que evolui?  Uma espécie é, em sentido estrito, um universal. Por isso tal teoria seria inteligível em um universo platônico, mas não em um aristotélico. Como o que evolui permanece de alguma maneira, não resta outra solução a não ser a proclamação da existência do universal dentro do singular, no mais puro estilo do realismo medieval exagerado.

Para os que estão familiarizados com o grande embate entre Guilherme de Champeaux e Abelardo, esta teoria resulta ininteligível.

A terceira teoria é o transformismo de Darwin e Wallace, confundido com o evolucionismo de Spencer e Lamarck, de tal modo que já se torna impossível conseguir a sua diferenciação. Poderíamos dizer que esta explicação é coerente, se não supusesse um universal existindo no ato em um singular. Entretanto, parece-nos que ela nada explica enquanto não determina claramente a causa da evolução ou transformação que afetaria os indivíduos até transmutá-los tão radicalmente que tivesse de definí-los de outra maneira.

Esclarecidas as três posturas, convém que façamos ainda algumas observações finais.

É bastante simples falar de evolução das espécies quando se conhece apenas um número mínimo dentre elas. Mayr calculou em 1 milhão o número de espécies de animais, das quais conhecemos melhor os vertebrados, que não passam de 35 mil. Entre essas espécies se tem conseguido conhecer ?evoluções? notáveis dentro de certos limites. Porém entre os insetos, por exemplo, com 815 mil espécies, existem abismos que separam os diversos grupos, e nossa ignorância é quase total. Já vimos a descrição da seleção natural feita por Wallace, e sua acomodação aos tigres, porém a sua total inadequação aos vegetais, nos quais não há nenhuma seleção em qualquer sentido inteligível do termo.

Muitos partidários da evolução reconhecem que ignoramos completamente o como da transformação das espécies. Supõe-se que existam leis que a regem, mas elas são inteiramente desconhecidas. E mais ainda, Gilson faz notar que tanto o conceito de ?espécie? como de ?evolução? são filosóficos e estranhos à biologia. (63)

Jean Rostand, prêmio Nobel de Medicina, agnóstico, declara sua fé na evolução. E é uma fé, e não ciência, porque ?deixa sem resposta deliberadamente a formidável questão da origem da vida e … só propõe soluções ilusórias para o problema não menos formidável, da natureza das transformações evolutivas. … Estamos ainda esperando uma sugestão suficiente com relação às causas das transformações das espécies. … Quando falamos de evolução, supomos a existência de uma natureza imaginária, dotada de poderes radicalmente diferentes de tudo o que é conhecido cientificamente. … Creio firmemente … que os mamíferos procedem dos répteis, e os répteis dos peixes, mas …  prefiro deixar vaga a origem dessas escandalosas metamorfoses, a acrescentar à sua inverossimilhança uma interpretação ilusória.? (64)

Não só se trata de uma ilusão, que em outro lugar ele chama de ?conto de fadas para adultos?, mas sim de algo ininteligível. Na melhor das hipóteses poderíamos dizer que morre uma espécie e aparece outra, mas com que direito garantimos que a primeira causou a segunda? (65) Aristóteles jamais imaginou que uma espécie se transformasse em outra, e com razão, pois para uma espécie mudar isso significa que teria de deixar de existir, (66)  o que é óbvio para quem tenha o conceito aristotélico de espécie que se identifica com a sua definição. Se altero a definição, simplesmente defino outra coisa.

Tudo isto faz com que Salet afirme que, no fundo, a evolução é tão só uma explicação verbal do mesmo tipo da tão ridicularizada explicação segundo a qual o ópio faz dormir porque possui uma ?vis dormitiva?. (67)  No fundo se oculta a ignorância sobre a origem da vida e das espécies com essa ?vis evolutiva?.(68)

No final das contas, reconhecemos com Dobzhansky  que uma espécie é um cume adaptativo, isto é, um animal que sobrevive graças a ter um conjunto de órgãos perfeitamente relacionados entre si. Entretanto, querem nos fazer crer que ele provém de outro animal que carecia desses órgãos, e que possuía outros. E como sobreviveria ele, se era distinto do atual? E se sobrevivia era porque ele era um cume adaptativo, e então, o que o impeliu a mudar? (69)

A última palavra na teoria evolutiva moderna fundamenta-se na importância conferida às mutações. Elas se produziriam por puro acaso e seriam a causa da evolução. Sabemos que elas não podem afetar órgãos essenciais nem criar órgãos inteiramente novos; elas se limitam a modificar caracteres acessórios. Salet demonstra a impossibilidade matemática de uma evolução devida a essa causa, e nos dá muitos exemplos, dos quais citaremos um só.

Suponhamos que vamos produzir a cadeia beta da hemoglobina do sangue. Trata-se de uma cadeia de proteínas. Os aminoácidos que constituem as proteínas pertencem a 20 tipos. Com essas proteínas teremos de formar os 146 monômeros que formam a cadeia. O número de possibilidades é de 10190. Como a cadeia tem de se formar ao acaso, vamos supor que conseguimos, por mutações, produzir um exemplar de cada uma das proteínas possíveis. Cada proteína ocupará um recipiente isolado, e as colocaremos tão juntas entre si que conseguiremos 1010  proteínas por centímetro cúbico. Para pôr em um recipiente todas as proteínas, necessitaríamos de um frasco cúbico que tivesse uma aresta de 1039 anos-luz. O universo conhecido, porém, tem aproximadamente 1010 anos-luz de extensão. Portanto, necessitamos, para produzir por acaso esta única cadeia de proteínas, um universo 1029 vezes maior do que o atual. Isso revela que a mutação ao acaso não é explicação possível, por absoluta falta de espaço.

Ao mesmo resultado se chega ao considerar o fator tempo. Salet calcula que, supondo uma reprodução no fantástico ritmo de 1014 por segundo, ritmo impossível na realidade, seriam necessários 10500  anos para realizar todos os estados possíveis de um gene com mil pares de nucleotídeos, correspondente a um gene de tipo médio. Isso significa que também não haveria tempo para isso acontecer. (70)

A tudo isto se pode responder que, se as mutações fossem dirigidas de alguma maneira, e não ao acaso, não seria necessário tanto tempo nem tanta matéria para que se produzisse a evolução. Porém, quem a dirigiria? Novamente Deus vem salvar a teoria da evolução. Entretanto, há uma dificuldade. Os partidários do evolucionismo imposto por Deus à criação insistem em que Ele atua de conformidade com as leis naturais que Ele mesmo impôs às Suas criaturas. Quais são essas leis? Não conhecemos nenhuma, e como poderemos afirmar que elas existem? Recorrer a Deus permite salvar uma teoria teológica, mas não uma teoria biológica. (71)

Mais de uma pessoa perguntará como é possível que quase todos os cientistas sejam evolucionistas hoje em dia. Se essa curiosa hipótese enfrenta tantas dificuldades, por que tantas pessoas ainda garantem a sua vigência? Creio que a resposta é tão óbvia que não necessita maiores indagações. Ocorre que evolução é um fato da experiência normal de qualquer pessoa, sem necessidade de estudar ciência alguma. E isto em sentido rigorosíssimo. Da criança ao adulto, em qualquer das espécies melhor conhecidas por nós, ocorre uma evolução que não chama a atenção de ninguém.

Os cientistas do século passado que aplicaram esta experiência normal às espécies, não suspeitavam nem remotamente em que confusão estavam se colocando. Semelhantemente, os medievais do século XI quando ingenuamente se defrontaram com a famosa questão: os universais são res ou são verba?, não suspeitavam a profundidade metafísica de uma pergunta lógica aparentemente trivial. Penso que os bons cientistas continuam ainda ignorando absolutamente o gravíssimo problema metafísico que agitaram com a sua inocente extensão de um fato da experiência imediata às enigmáticas realidades que são as espécies.

Alguns evolucionistas estão reconhecendo que, no fundo, o único que podem afirmar é que os organismos mudam pela influência do meio, sem atrever-se a determinar a extensão e a profundidade de tais mudanças.

E isto parece ser a única coisa que sensatamente se pode garantir. (72)  Porque ?quando um nome pode significar tudo, na verdade já não significa nada. … Quando um mesmo termo designa tudo, incluindo o seu oposto, nenhuma discussão científica séria é possível?.(73)

Referências

1.        Wallace, Alfred Russel (1823-1913): On the tendency of varieties to depart indefinitely from the original type, cit. Brncic em ?Fundamentos de la teoría de evolución biológica?, Ed. Universitaria, Santiago de Chile, 1979, pp. 85-86.

2.        Brncic, Danko, op. cit., p. 38. Cf.: Mac Rae, D.: ?El Darwinismo y las ciencias sociales? in Barnett et. al.: ?Un siglo después de Darwin?, vol. I, ?La Evolución?, trad. F. Cordón. Alianza, Madri, 5ª ed., 1982, p. 162.

3.        ?Leviathan?, I e XIII, pp. 104-109, Bobbs-Merrill, 1958.

4.        Brncic, op. cit., p. 35. O texto de Darwin foi retirado de sua ?Autobiografia?.

5.        Gilson, op. cit., p. 185, nota 91.

6.        Idem, p. 184.

7.        Idem, p. 162.

8.        Malthus, T.: ?An Essay…?, cap. I, citado por Gilson in op. cit., pp. 182-183.

9.        Villée, Claude: ?Biologie?, p. 145, cit. por Hübner, Jorge I. in: ?El mito de la explosión demográfica?, J. Almendros, Buenos Aires, 1968, p. 68. M. T. Sadler, no ano 1830, rebate a teoria de Malthus (Hübner, op. cit. p. 70).

10.     ?Recherches mathématiques sur la loi d?accroissement de la population?, cit. por Hubner, in op. cit., p. 70.

11.     Cf.: Hübner, op. cit., p. 67-116.

12.     Cf.: Mac Era, D.: ?El Darwinismo y las Ciencias Sociales?, in Barnet et al., op. cit., p. 167 e p. 172.

13.     ?De Gen ad Litt.?, VII, 28, 42 ? ?De Diversis quaest.?, 83, p. 24.

14.     Gilson. op. cit., pp. 118-122.

15.     Cf.: Gilson, op. cit., pp. 160-162 e 145-153.

16.     Cf.: Salet, G., ?Azar y certeza?, Alhambra, tr. J. Garrido, Madri, 1975, p. 246 e seguintes.

17.     Gilson: op. cit., pp. 158-159.

18.     ?No sentido literal da palavra não há dúvida de que o termo seleção natural seja um termo equivocado?, Darwin, in ?El origen de las especies?, cit. por Brncic, in op. cit.

19.     Nogar: 1, c., p. 26.

20.     Idem, p. 290 e seguintes.

21.     Idem, p. 330. Cf.: p. 336.

22.     Jacob, F.: ?La Lógica de lo Viviente?, Ed. Universitaria, tr. J. Mordoch, Santiago de Chile, 1972, p. 19.

23.     Idem, p. 9.

24.     Idem, p. 152.

25.     Idem, p. 153.

26.     Idem, p. 158.

27.     Dobzhzansky, Th.: ?La idea de especie después de Darwin?, in Barret et al.: ?Un siglo después de Darwin?, trad. F. Cordón, 5ª ed., 1982, p. 39.

28.     Gilson: op. cit., p. 315.

29.     Idem, p. 92.

30.     Idem, pp. 92-93.

31.     Citado por Charlier, H: ?Sur l?histoire du transformisme? in ?Itinéraires?, nº 165, p. 42.

32.     Dobzhzansky, Th.: op. cit., pp. 37-82.

33.     Idem, p. 71.

34.     Idem, p. 81.

35.     Idem, p. 81.

36.     Nogar: op. cit., p. 322.

37.     Dobzhansky, Th.: op. cit., p. 39 (?pelo menos 9 vezes em cada 10?).

38.     Idem, p. 63.

39.     Barnett: op. cit.: Prólogo, p. 9.

40.     Hudson Hoagland: ?Biology, Brains and Insight?, cit. por Gilson, in op. cit., p. 224.

41.     Dobzhansky, Th.: op. cit., p. 74 e seguintes.

42.    ?Boécio, estupefato, assiste a este debate

Escutando o que diz este e aquele com perícia

E a quem dar a razão não discerne como é devido

Nem pretende resolver definitivamente a questão?

Com estes versos, Godofredo de San Victor (1194) alude à hesitação de Boécio entre Platão e Aristóteles.

43.     Sherwood R. A.: ?Darwin y el registro fósil?, in Barnett, op. cit., p. 81.

44.     Citado por Crowson, R. A.: ?Darwin y la clasificación?, in Barnett, op. cit., p. 27.

45.     Citado por Gilson: op. cit., p. 100. Cf.: estudo deste autor, p. 98 a 115.

46.     Gilson: op. cit., p. 107. Embora a reflexão seja de Gilson, inspira-se em Cuvier.

47.     Brncic, op. cit., p., 24.

48.     Gilson: op. cit., p. 312.

49.     Idem, op. cit.

50.     Barnett: op. cit., Prólogo, p. 8.

51.     Idem, p. 9.

52.     Bergson: ?La Pensée et le Mouvant?, cit. por Gilson, op. cit., p. 212.

53.     Idem, p. 227.

54.     Gavin De Beer: ?Darwin y la embriología?, in Barnett, op. cit. p. 140.

55.     Cf.: Salet, G., op. cit., p. 91-99. Deveriam ser consultados também os capítulos 9, 10, 11 e 12: pp. 183-239.

56.     Cf.: Hammond John: ?Darwin y la cria de animales?, in Barrett, op. cit., p. 7-26.

57.     Nogar, op. cit., p. 291.

58.     Idem, op. cit.

59.     Rothlammer: ?El desarrollo de las teorías evolutivas de Darwin?, Ed. Universitarias, Santiago de Chile, 1981, p. 24.

60.     Idem, pp. 41-44.

61.     Idem, pp. 48-50.

62.     Salet dedica principalmente sua obra ?Azar y certeza? ao desenvolvimento e à fundamentação dessas idéias. Para isso, explica pormenorizadamente o funcionamento do ADN, e o cálculo matemático utilizado.

63.     Gilson: op. cit., p. 206.

64.     Cit. por Salet, op. cit., p. 450.

65.     Gilson: op. cit., p. 222.

66.     Idem, p. 316.

67.     Salet: op. cit., p. 114.

68.     Charlier, H.: ?Sur l?histoire de transformisme?, in revista ?Itinéraires?, nº 165, p. 24.

69.     Gilson: op. cit., p. 181.

70.     Salet: op. cit., p. 258 e seguintes.

71.     Idem pp. 356 e seguintes.

72. Ftr.: Thompon, W. R., ?The status of evolutionary theory? en ?Laval Th. & Ph.?, vol. VIII, nº 2, Quebec, 1952, citado por Martinéz, B. J., in ?Noo?, ano V, nº 28, Buenos Aires, dezembro de 1943, p. 172.

73. Freund, J.: ?Théorie et utopie? in ?Philosophie et politique?, Bruxelas, 1981, p. 14, citado por Massim C. I., in ?El renacer de las ideologías?, in ?Idearium?, Mendoza, 1984, p. 12.