Biografias

Taciano, o Sírio

Taciano, o Sírio, nasceu provavelmente, por volta do ano 120, em “terra dos assírios” de família pagã.

Educado aprimoradamente na cultura grega, pesquisador inquieto, estudou várias religiões e se iniciou nos mistérios. Mais tarde, por volta de 152, conheceu as Escrituras cristãs e se converteu ao cristianismo, provavelmente, em Roma. Foi em Roma que Taciano encontrou Justino mártir, freqüentou sua escola e se destacou como discípulo brilhante. 0 melhor é deixar que ele mesmo nos forneça as informações sobre seu itinerário cultural. No cap. 35 de seu Discurso aos gregos, diz: “Exponho-vos tudo isso, não porque soube de outros, mas porque percorri muitas terras, professei como mestre vossas próprias doutrinas, pude examinar muitas artes e idéias e, por fim, vivendo em Roma, pude contemplar detidamente a variedade de estátuas que para lá vós exportastes. (…) dando adeus à altivez dos romanos, ao frio palavrório dos atenienses e aos contraditórios sistemas de vossa filosofia, aderi finalmente à nossa filosofia bárbara”. No cap. 29 desta mesma obra, Taciano fala mais explicitamente das razões que o levaram à conversão ao cristianismo: “Tendo visto isso tudo, e também depois que me iniciei nos mistérios e examinei as religiões de todos os homens, instituídas por eunucos efeminados, encontrando entre os romanos aquele que eles chamam de Júpiter Lacial, que se compraz em sacrifícios humanos e no sangue dos executados;( … ) entrando em mim mesmo, comecei a perguntar-me de que modo ser-me-ia possível encontrar a verdade. Em meio às minhas graves reflexões, caíram-me casualmente nas mãos algumas Escrituras bárbaras, mais antigas que as doutrinas dos gregos e, se considerarmos os erros destes, são realmente divinas. Tive que acreditar nelas, por causa da simplicidade de sua língua, pela maturidade dos que falam, pela fácil compreensão da criação do universo, pela previsão do futuro, pela excelência dos preceitos e pela unicidade de comando do universo. Com a alma ensinada pelo próprio Deus, compreendi que a doutrina helênica me levava para a condenação; a bárbara, porém, livrava-me da escravidão do mundo e me afastava de muitos senhores e tiranos infinitos. Ela nos dá, não o que não tínhamos recebido, mas o que, uma vez i recebido, o erro nos impedia de possuir”.

Veja também  Romano da Síria, o Melodista

Após a morte de seu mestre, Justino, por volta de 165, Taciano começou a se afastar da Igreja, inclinando-se para a heresia encratita (ou continente). Esta heresia acentua o pessimismo quanto à queda do homem, despreza a matéria, tem o matrimônio como fornicação e prega a abstinência da carne e do vinha. Seu rigorismo na observância desta abstinência levou-o a substituíra vinho pela água na celebração da eucaristia. Esse costume levou-o e a seus seguidores a receberem o apelido de aquáticos”.

Ireneu de Lião, fornecendo simultaneamente dados pessoais sobre Taciano, descreve assim esta heresia: “Provindo de Saturnino e de Márcião os que se chamam encratistas pregavam a abstinência do matrimônio, rejeitando a antiga criação de Deus e acusando tranqüilamente aquele que fez o homem e a mulher para procriar os homens; eles introduziram a abstinência daquilo que, fora animado, na sua ingratidão para Deus que fez o universo, e negaram a salvação do primeiro homem. Eis, pois o que foi inventado por ele, quando certo Taciano foi o primeiro a introduzir esta blasfêmia. Este ultimo, que tinha sido ouvinte de Justino, durante o tempo que esteve com ele, não manifestou nada de semelhante. Mas, após seu martírio, ele se desviou da Igreja, se elevou no pensamento que era mestre e se orgulhou como se fosse diferente de todos os outros; deu caráter particular à sua escola, imaginou coes invisíveis, como os discípulos de Valentim; pregou que o casamento era uma corrupção e fornicação semelhantemente a Marcião e a Saturnino” (Adv. haer 1, 28,1).

Eusébio de Cesaréia nos fala de Taciano em conexão com a heresia encratista: “Esta heresia estava então começando a brotar, introduzindo na vida uma falsa doutrina, estranha e corrupta. Deste desvio, é tradição que seu autor foi Taciano” (DE, 18).

Conforme informações de Epifânio, Taciano teria retornado ao Oriente, onde difundiu suas concepções encráticas de Antioquia até a Pisídia: “Sucedendo a estes (aos severianos-rigoristas) se levantou tal Taciano ( … ). A princípio, como quem vinha dos gregos e pertencia a cultura helênica, foi companheiro de Justino, o filósofo. varão santo e amigo de Deus Taciano, a princípio, enquanto esteve ao lado de Justino mártir, levou boa conduta e se manteve na fé; mas, assim que morreu Justino, como cego levado pela mão e abandonado de s eu guia se precepita no abismo por sua cegueira e não para até dar-se a morte, assim também Taciano. Era sírio de origem, segundo a tradição vinda até nós, e estabeleceu sua escola desde o princípio na Mesopotâmia, ( … ) até o ano 12 de Antonino, o César, por sobrenome Pio. E foi assim que passando depois da morte de Justino à região do Oriente e estabelecendo-se ali, caindo em perversas idéias, também ele introduziu segundo os contos de Valentim, certos eões e principias e emissores. A maior atividade de sua pregação se estendeu desde Antioquia de Dafne até as partes da Cilícia e, sobretudo, à Pisídia” (Panarion, 46-47).

Veja também  Atenágoras de Atenas - Vida e Obra

Taciano morreu, provavelmente, por volta do ano 180, em lugar ignorado.

Obras

Segundo testemunhas da antiguidade, Taciano teria escrito várias obras. Na cap. 15 de seu próprio Discurso contra os gregos, ele menciona um tratada Sobre os animais que, apesar do nome, deveria ser um tratado de antropologia natural. No cap. 16 da mesma obra, afirma ter escrito um trabalha sobre os demônios. Clemente de Alexandria cita um texto de uma obra de Taciano Sobre a Perfeição segundo os preceitos do Salvador, em Stromata 3,81,lss. Tratar-se-ia de uma obra ascética encrática, de caráter gnóstico. Nela Taciano interpreta 1Cor 7,5 no sentido que só a abstenção do matrimônio une a Deus, enquanto o uso do matrimônio significa comunhão de incontinência e de fornicação com o diabo. Propõe Cristo como modelo, virgem e continente (e pobre) contrapondo o homem novo (Cristo e os cristãos continentes) ao homem velha (Adão, condenado e os incontinentes). Eusébio de Cesaréia diz que tal Rodão -confessa de si mesmo ter sido, em Roma, discípulo de Taciano e afirma que este redigiu um Livro de Problemas no qual promete expor as passagens obscuras e ocultas das divinas Escrituras” (HE, V, 13,8). No mesmo capitulo, afirma Eusébio que “Taciano, ( … ) depois de compor diversos livros, pôs-se também com os demais em ordem de batalha contra a heresia de Marcião ( … )”. Mas de todos os seus escritos somente dois foram conservados: Discurso contra os gregos e Diatéssaron.

0 Diatéssaron

Esta obra assegurou-lhe grande renome, sobretudo no Oriente, até o séc. V. Trata-se da fusão dos quatro evangelhos para formar um único evangelho (tò dià tessarón euangélion). Segundo alguns, o livro deveria ser chamado Diapente, isto é, evangelho tirado dos cinco. porque Taciano teria usado também o apócrifo evangelho segundo os Hebreus.

Veja também  São Cirilo de Jerusalém

As inúmeras versões provam o sucesso desta obra. Ela foi, de fato, o “evangelho” usado pela igreja siríaca até o séc. V. Santo Efrém a comentou, entre os anos 360 a 370. Esta obra exerceu ainda influência importante na tradução dos textos dos evangelhos canônicos. Embora a obra tenha traços das tendências heréticas de seu autor (encratista anti-judaica, docetista) nunca foi condenada pela Igreja. Sua composição se deu, com toda probabilidade, depois que Taciano retornou ao Oriente, anterior, com certeza, ao ano 254.

Discurso contra os gregos

De todas as suas obras, é a única que nos restou por inteiro. Trata-se de um ataque impiedoso contra a cultura * filosofia gregas, de um lado, e de um esforço por mostrar * superioridade do cristianismo, de outro. Assim ele combate, veementemente, tanto a mitologia como a poesia, a retórica, a filosofia e as artes gregas. Os gregos não têm do que se orgulhar: tudo o que possuem de bom, de belo, de verdadeiro, devem-no aos “bárbaros”, isto é, à filosofa, à sabedoria e à religião implantadas por Moisés e vividas, plenamente, agora, pelos cristãos. Taciano une, nesta obra, nacionalismo oriental, fé cristã de convertido, especulação teológica, intransigência, ironia e desprezo para com seus adversários. Ao contrário de seu mestre, Justino, Taciano expressa uma acentuada aversão pela filosofia grega, vangloriando-se de ser “bárbaro” e de ter encontrado a verdade e a salvação em escritos “bárbaros”, isto é, na Bíblia. 0 texto revela autor inquieto, violento e passional. Seu estilo é, freqüentemente, obscuro, acumulando argumentos nem sempre coerentes. Apesar disso, a obra teve sucesso e parece ter sido útil para muitos cristãos, conforme testemunho de Eusébio: -Taciano deixou grande número de escritos, entre os quais muitos mencionam sobretudo o célebre Discurso contra os gregos. E neste, fazendo memória dos tempos antigos, aí-irma que Moisés e os profetas hebreus são mais antigos do que os mais célebres entre os gregos. Este Discurso parece ser, realmente, o mais belo e útil de todos os seus escritos” (HE, IV, 29,7).

A data de composição vacila, para os especialistas, entre 170 e 172.