Espaço do Leitor Respostas a Leitores (por Carlos Martins Nabeto)

A Bíblia não é a autoridade suprema para o cristão?

Recebi um e-mail de um irmão protestante me questionando sobre vários assuntos, em especial sobre a eventual autoridade suprema da Bíblia para o cristão. Disponibilizo a seguir os argumentos do nosso caro irmão separado (na cor azul) juntamente com as respostas que enviei (na cor preta).

Amo o irmão em JESUS, pelo mesmo ter zelo na obra do Senhor.

Obrigado e saiba que a recíproca é verdadeira. É em momentos como este que demonstramos na prática – e não só na teoria – que verdadeiramente amamos os nossos semelhantes da mesma forma que a nós mesmos.

Sou da opinião que devemos sempre continuar conhecendo as Sagradas Escrituras. Meditar sobre elas dia e noite.

Concordo em parte com a sua opinião. Creio que devemos conhecer a Palavra de Deus (que não se restringe somente à Bíblia) e, além de meditá-la, praticá-la dia e noite.

[Lemos] Em II Reis 18:4 – “Tirou os altos, quebrou as colunas, e deitou abaixo a Asera; e despedaçou a [serpente] de bronze que Moisés fizera (porquanto até aquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso), e chamou-lhe Neüstã”.

O texto acima não condena a imagem em si, mas a função que acabou tomando uma vez que o seu sentido original foi deturpado pelos israelitas. Passou de objeto de veneração (=respeito, sinal) a sujeito de adoração (ocupando o lugar de Deus). Logo, a Bíblia não condena a imagem (aliás foi o próprio Deus que ordenou sua confecção em Nm 21,8: “FAZE uma serpente de bronze…”) pois como poderia Deus se contradizer se, anteriormente, em Ex 20,4, proibira a confecção de imagem de escultura? Porque Ex 20,4 trata da imagem como sujeito de adoração e em Nm 21,8 a imagem é mero objeto de veneração (como ainda o são hoje as imagens existentes nos templos católicos). A destruição da imagem da serpente, em 2Rs 18,4, mostra exatamente o momento em que a imagem deixa de ser objeto de veneração (não condenável por Deus) e passa a ser sujeito de adoração (condenável por Deus, porque somente Ele é digno de ser adorado).

[Também lemos em] I Timóteo 2:5 – “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os [homens], Cristo Jesus, homem”. Olha o que Maria diz [em] Lucas 1:46-48 – “Disse então Maria: ‘A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito exulta em Deus meu Salvador; porque atentou na condição humilde de sua serva. Desde agora, pois, todas as gerações me chamarão bem-aventurada'”.

E quem disse que nós, católicos, cremos que Maria é nossa Salvadora ou Mediadora??? Maria era uma criatura, como qualquer um de nós, mas que encontrou uma graça especial e muito particular diante do Altíssimo. Por isso nós, católicos, mais que qualquer outra Igreja, proclamamos por todo mundo a bem-aventurança de Maria e seu exemplar comportamento como modelo do cristão, como ela mesma profetizou, INSPIRADA pelo Espírito Santo (Mt 1,48). E ela recebe um carinho todo especial da nossa parte porque foi a Mãe do Redentor, aquela que, humildemente, disse “Sim” ao seu Senhor.

Meu irmão, oro para que o Espírito Santo de Deus o ilumine para que você venha entender o plano de salvação de nosso Deus.

E eu também oro para que você consiga compreender a verdadeira mensagem do Evangelho, porque “nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação” (cf. 2Pd 1,20), que é o que parece que você não está observando neste momento.

Se existir purgatório, o sacrificio de nosso Senhor Jesus de nada valeu.

Você está fazendo uma afirmação falsa. Se crêssemos em reencarnação então sim, você poderia dizer, com toda a razão, que o sacrifício de Cristo teria sido em vão. O purgatório é uma condição para que a alma dos que JÁ SE ENCONTRAM SALVOS (cf. 1Cor 3,15) possa se libertar dos resquícios do pecado e possa contemplar Deus face a face (cf. Mt 5,8); trata-se, portanto, de um estado de purificação e não de um lugar intermediário.

Procure saber sobre os concílios da igreja Católica.

Sobre isso eu já li e aceito a autoridade e decisões de todos eles, inclusive do Concílio Apostólico, que lemos em At 15. Leia 1Tm 3,15: quem é o fundamento e coluna da verdade? é a Bíblia? Não! É a Igreja. A ela foi dada autoridade (Mt 18,17), através de seus dirigentes (Mt 16,19; 18,18). Não é possível amar a Deus sem amar a sua noiva, a Igreja (Ap 19,7).

A autoridade suprema é a Sagrada Escritura.

Meu Deus, que deturpação foi feita da Palavra de Deus!! Ora, se SOMENTE a Bíblia é a suprema fonte de autoridade para o cristão, então ela tem que falar isso explicitamente. E onde ela diz isso??? “Examinai as Escrituras” (cf. Jo 5,39), de Gênese ao Apocalipse, e diga-me em que ponto ela afirma ser a “suprema autoridade” para o cristão. Faço-te, então, as perguntas[*]:

 

  • Onde Jesus ordena que a fé cristã seja baseada EXCLUSIVAMENTE na Bíblia?
  • Onde Jesus ordena seus apóstolos a escreverem algo? Por que, então, Jesus não escreveu nada, e apenas ordenou seus discípulos pregarem (=oralmente) o Evangelho?
  • Onde, no Novo Testamento, os apóstolos orientam às futuras gerações cristãs que sua fé deverá ser baseada APENAS na Bíblia?
  • Se Jesus condenasse a tradição oral, por que mandou seus discípulos e ouvintes a seguirem e obedecerem a tradição dos escribas, quando estes estivessem ensinando na “cátedra de Moisés” (Mt 23,2)?
  • Se São Paulo condenasse toda tradição oral, por que ele ordena aos tessalonicenses a se manterem firmes na tradição que receberam, seja ela por palavra (=tradição oral) ou por carta (=por escrito) [2Ts 2,15)? E por que louvava os coríntios por estes manterem-se firmes nas tradições dele recebidas (1Cor 11,2)?
  • Se apenas as Escrituras devessem ser consideradas, por que os autores do Novo Testamento parecem dar à tradição oral a autoridade de Palavra de Deus (Mt 2,23; 23,2; 1Cor 10,4; 1Pd 3,19; Jd 1,9.14-15)?
  • Aonde, na Bíblia, a Palavra de Deus se restringe apenas ao que está nas Escrituras?
  • Como ficamos sabendo quem foram os autores dos livros que chamamos de Mateus, Lucas, Marcos, João, Atos dos Apóstolos, Hebreus e 1,2,3 João, já que, originalmente, não se encontram nas Escrituras?
  • Sobre que autoridade, ou sobre qual princípio, poderíamos aceitar como inspirados livros que não foram redigidos por um dos Doze Apóstolos originais?
  • Aonde, na Bíblia, podemos encontrar uma lista que informe os livros que devem ser considerados infalíveis e inspirados, pertencentes ao cânon bíblico?
  • Como sabemos, pela Bíblia, que os livros do Novo Testamento são inspirados se nenhum deles reinvindica a inspiração divina?
  • Como sabemos, pela Bíblia, que as cartas escritas pelo apóstolo Paulo, encaminhadas a comunidades e indivíduos do séc. I, ainda guardam significado para nós, 2000 anos depois?
  • Aonde a Bíblia diz que é a única autoridade para os cristãos nas matérias de fé e moral?
  • Baseado em que os protestantes crêem que o Novo Testamento encerra toda a verdade sobre a fé cristã (em flagrante contradição a Jo 20,30 e 21,25)?
  • Se o significado das Escrituras é tão claro, de fácil interpretação, e se é realmente o Espírito Santo que permite a cada cristão interpretá-las particularmente, sem a ajuda do magistério da Igreja, então por que existem mais de 23.000 denominações protestantes, cada qual interpretando a Bíblia de maneira diferente das demais?
  • Quem pode solucionar uma interpretação contraditória da mesma passagem bíblica, se as duas pessoas envolvidas na controvérsia reinvindicarem que estão sendo orientadas pelo Espírito Santo?
  • Se um protestante admite que sua interpretação pode ser falha, como pode esse mesmo protestante querer converter alguém para a sua fé?
  • Se todos os protestantes concordam no essencial, quem tem a autoridade para decidir o que é e o que não é mais importante ou essencial para a fé cristã?
  • Como a Igreja primitiva evangelizou e converteu o Império Romano, sobrevivendo e prosperando por 350 anos sem saber ao certo quais livros pertenciam ou não à Bíblia?
  • Se a Igreja não tinha a autoridade para decidir quais livros deviam pertencer à Bíblia, então por que não podemos aproveitar para acrescentar ou remover livros bíblicos de acordo com a nossa própria autoridade?
  • Por que os pesquisadores protestantes reconhecem que foram os concílios regionais de Hipona e Cartago que definiram o cânon do Novo Testamento, e aceitam essa autoridade, mas não obedecem as orientações dos mesmos concílios com relação ao cânon do Antigo Testamento, retirando certos livros e trechos de suas Bíblias?
  • Por que os protestantes aceitam as decisões dos judeus quanto ao cânon do Antigo Testamento ao invés das decisões da Igreja fundada por Cristo?
  • Como os bispos de Hipona e Cartago foram capazes de estabelecer o catálogo bíblico se eles professavam as mesmas doutrinas que os católicos continuam a seguir hoje como a sucessão apostólica, o sacrifício da missa, a presença real de Cristo na Eucaristia, a regeneração batismal, etc.?
  • Se a Bíblia era essencial para o Cristianismo por que Deus demorou 1500 anos para “iluminar” Guttemberg na criação da imprensa? E como ficaria a situação da grande maioria do povo, que era extremamente analfabeta?
  • Como São Tomé conseguiu estabelecer uma comunidade cristã na Índia, que perdura até os nossos dias (e hoje está em comunhão com a Igreja Católica) se ele não deixou para ela nem uma só palavra do Novo Testamento?
  • Se “Somente a Escritura” fosse um argumento sólido e biblicamente baseado, por que até hoje não existe nenhum tratado sólido escrito especialmente para defender tal tese?
  • Se a Igreja Primitiva professava somente o que estava nas Escrituras, por que todos os credos da Igreja primitiva trazem a expressão “Cremos na Santa Igreja Católica” e não simplesmente “Cremos apenas na Sagrada Escritura”?

 

Ora, a suprema autoridade é exercida pela Igreja, pois é esta a coluna e o fundamento da verdade (cf. 1Tm 3,15), detentora e defensora da autêntica Palavra de Deus (Escrituras + Sagrada Tradição + Magistério). Ou, então, prove-me o contrário, respondendo todas as perguntas acima e usando EXCLUSIVAMENTE a Bíblia, é claro…

Irmão, sinta o poder do Espírito Santo que já está trabalhando em sua vida. Que a paz de nosso Senhor Jesus esteja contigo.

Peço encarecidamente que o querido irmão pense bem sobre todas estas coisas e que o divino Espírito Santo possa iluminar a sua compreensão da mesma forma como iluminou a minha. Um grande abraço e que o Senhor te abençoe profundamente.

[*] Todas as perguntas da seção em itálico (cor preta) são uma tradução livre do artigo “Questions for ‘Bible Christians'” (fonte: http://www.catholic-convert.com/writings/questions.html).





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