D. Estêvão Tavares Bettencourt, osb (+2008)

A biologia não desmente o artifício empregado por Jacó para obter cabras malhadas ou raiadas?

– “Em Gênesis 30,37-42, narra a Bíblia que Jacó influenciou o tipo da prole que nasceria de suas cabras, propondo-lhes um estímulo externo no momento do coito. Ora, segundo a Biologia, é impossível intervir desse modo no processo generativo. O que dizer?” (João Carlos – Ribeirão Preto-SP).

Recordemos brevemente o artifício utilizado por Jacó para obter cabras malhadas: quando os animais estavam para entrar em cópula, o Patriarca colocava diante dos seus olhos varas de salgueiro, amendoeira, plátano, nas quais fizera incisões a fim de as tornar raiadas ou listradas de branco; a visão desses ramos devia, segundo estimava Jacó, influenciar a formação de embrião, produzindo prole malhada.

Tal artifício estava muito em voga entre os antigos; julgavam, como ainda hoje frequentemente imagina o nosso povo, que certos objetos avistados durante a concepção ou a gestação acarretam notas próprias na prole. Vejam-se os testemunhos de Opiano, De venatione 1,327-328; Plínio, Hist. Nat. 7,10; Hipócrates, segundo Santo Agostinho, Quaest. in Heptat. 1,93; Isidoro de Sevilha, Etymologiarum 12,1,58-60. Nos tempos de São Jerônimo (séc. V), dizia-se que os espanhóis, por meio de tais artifícios, sabiam variar a cor de seus cavalos (cf. S. Jerônimo, Liber hebraicarum quaestionum in Genesin 23,985, ed. Migne Lat.).

A ciência genética moderna, possuidora de mais exatos conhecimentos, tende a negar a possibilidade da influência natural de tais fatores sobre o processo generativo.

Como quer que seja, o texto sagrado dá a entender que não foi o artifício de Jacó que, simplesmente por sua própria eficácia, deu os resultados almejados pelo Patriarca; faz-nos ver, antes, que ele se tornou eficiente por especial intervenção de Deus. Esta terá sido, em última análise, a causa do êxito do processo que por si mesmo talvez fosse vão. O expediente usado por Jacó pode ter sido mera ocasião para que Deus o beneficiasse.

Em confirmação do acima dito, note-se a ênfase com que Jacó, depois de obter o sucesso, inculca ter sido especialmente auxiliado por Deus; dizia ele a Raquel e Lia:

– “Vejo no rosto do vosso pai que ele não me é favorável como antes; mas o Deus de meu pai esteve comigo (…) Vosso pai burlou-se de mim, e dez vezes mudou o meu salário; mas Deus não permitiu que me fizesse mal. Todas as vezes ele dizia: ‘A prole malhada será a tua paga’, todos os animais davam à luz filhotes malhados; sempre que ele dizia: ‘A prole raiada será a tua paga’, os animais geravam filhotes raiados; Deus tirou a vosso pai o gado e o deu a mim” (Gênesis 30,7-9).

No versículo 16 respondem Raquel e Lia:

– “Sim, toda a riqueza que Deus tirou de nosso pai pertence a nós e a nossos filhos”.

Estes versículos indicam a causa profunda de um fenômeno que vulgarmente se atribuía ao artifício utilizado por Jacó: Deus se dignou corresponder gratuita e soberanamente à expectativa do Patriarca, dando bom êxito ao seu precário expediente. Não se invoque, pois, o texto de Gênesis 30 como testemunho de tese científica falsamente atribuída à Bíblia.

  • Fonte: Revista Pergunte e Responderemos nº 8:1957 – dez/1957
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