Nessa época do ano somos bombardeados por anúncios e propagandas das mais diversas escolas, em busca de novos alunos. O público-alvo dessa publicidade, especificamente nas escolas do ensino fundamental e médio, é quem tem filho em idade escolar. São os pais, preocupados com o futuro e a formação dos filhos, que mais se interessam pelas propostas apresentadas.
Houve um ano em que um outdoor chamou a atenção: reunia alguns colégios católicos, apresentando essa característica como um diferencial na formação dos jovens. As instituições se apresentavam oferecendo mais que uma boa formação educacional: uma formação de fé, em vez de apenas uma formação visando a aprovação no vestibular.

Mas infelizmente esta postura parece ser exceção. Pois alguns outros colégios católicos demonstram uma certa “vergonha” em assumir-se como tal. Nesses colégios, o catolicismo, cujos preceitos deveriam permear todas as relações entre alunos, professores e a direção, parece estar sendo substituído por conceitos de solidariedade e cidadania – que não são necessariamente católicos. Algumas escolas preferem uma atitude ecumênica, a uma assumidamente cristã-católica.

As razões para isso são várias: a concorrência cada vez maior de colégios laicos; a procura por alunos de outras crenças; o aumento na evasão de alunos, agravada pela crise que aflige a classe média e a leva a optar por escolas mais baratas ou pela rede pública. Diante de uma população cada vez mais tentada, principalmente pelos meios de comunicação, a afastar-se de Deus, as escolas católicas vêem seu diferencial religioso transformar-se de bônus em ônus. Cria-se um ciclo vicioso: cada vez mais agnósticos, os pais buscam para seus filhos uma escola idem. Ao atender a essa demanda, a escola católica deixa de cumprir a missão catequética de formar a nova geração de católicos – e justamente uma geração de crianças que pouco têm (ou não têm) essa formação em casa.

Com a justificativa de não perder “clientes”, num mercado tão competitivo, a escola católica abre mão de sua doutrina. Até mesmo as aulas de ensino religioso optam por passar às crianças valores de solidariedade e humanismo, não necessariamente cristãos-católicos. O resultado disso já é notado nas estatísticas: o número de católicos vem caindo, segundo o Censo do IBGE. Mas esse dado é apenas a ponta de um iceberg que esconde outros efeitos colaterais dessa pseudoformação católica.

Recentemente, assistindo à celebração da primeira Eucaristia de alunos da 5ª série de um desses colégios, fiquei chocado ao saber que o filho de um amigo demonstrara aos pais, dias antes, ter dúvidas básicas sobre o Sacramento da Eucaristia – apesar do clima de “festa” naquele dia, com vários familiares e fotógrafos presentes. A dúvida daquele aluno é sintomática: que vivência religiosa pode-se esperar de um jovem que, ao final de meses de catequese, pergunta-se por que deve comungar? A própria comunidade do colégio responde: durante o ano de preparação, poucos são os alunos (e os respectivos pais) que comparecem à missa dominical – e quase nenhum a segue freqüentando após a primeira Comunhão.

Todos nós, católicos, temos uma certa obrigação evangelizadora, e a porta de entrada para muitos na religião deveria ser justamente a primeira Eucaristia. Sem investir nisso, não é o colégio católico que deixa de atrair novos fiéis para sua comunidade; é a Igreja que perde a oportunidade de formar novos seguidores, com conhecimento da religião e convicção sobre a sua fé.

No longo prazo, o número de católicos pode até vir a ser menor que o de seguidores de outras seitas. Mas cabe a nós lutar para que os futuros católicos o sejam de fato, não bissextos ou de ocasião. E cabe a nós, pais, cobrar uma tomada de posição das escolas católicas, para que assumam a vocação e a missão para as quais foram criadas. Para o bem de nossos filhos e para o bem da Igreja.

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Renato Delmanto é jornalista e professor da Faculdade Cásper Líbero ([email protected])

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