Antes do advento do cristianismo, não existia a noção de dignidade humana. O valor da vida de alguém decorria de sua situação social; um escravo tinha valor apenas monetário, um filho podia ser morto pelo pai e o imperador era tido por divino. Com o surgimento da noção de dignidade humana, foi reconhecida uma igualdade fundamental entre todos os homens. O menos dos mendigos e o mais poderoso dos governantes passaram a ser percebidos como iguais em humanidade. Suas vidas passaram a ter valor por serem humanas.

É esta igualdade fundamental de todos os seres humanos que está sendo posta em questão nestes tempos de descristianização da sociedade. Este ataque à igualdade fundamental de todos os homens ocorre, paradoxalmente, em nome de uma versão de igualdade no acidental, que ataca as diferenças individuais por não perceber a igualdade essencial. Desta visão neopagã vêm algumas das decisões mais tresloucadas do STF.

A liberação do aborto eugênico nega a igualdade de alguns bebês; de quais, só saberemos daqui a um mês e meio, quando for definido o que é um “anencéfalo”. Pode-se prever que a autorização para a morte de crianças com síndrome de Down já esteja na fila.

O sistema de cotas por “raça”, autorizado pelo STF há hoje uma semana, faz ainda pior, negando esta igualdade fundamental ao forçar uma divisão da sociedade em supostos grupos raciais, que deveriam ser forçados à igualdade estatística. Note-se que não se fala de melhorar o ensino para dar a todos a mesma chance, o que seria uma afirmação da igualdade fundamental de todos os homens.

Nos EUA, onde começou – e fracassou – essa experiência, as “raças” são grupos culturais, com bairros separados e dialetos diferentes. Aqui, a cor de pele é algo tão individual quanto a beleza ou a inteligência. O racismo, aqui, não é um conflito cultural, mas uma manifestação individual de crua imbecilidade dirigida contra outro indivíduo da mesma cultura; o racista prefere contratar um “branco” como o sexista prefere contratar uma “boazuda”.

Aliás, vai uma sugestão para o STF: as mulheres bonitas são privilegiadas, têm prioridade na escolha de maridos, são mais frequentemente auxiliadas por desconhecidos, etc. As mulheres inteligentes, mas não tão belas, conseguem vencer os preconceitos pelo esforço próprio. Que tal fazer outra divisão, levando isto em consideração, e ofertar uma cota para as mulheres que não sejam consideradas belas? E outra para carecas baixinhos? E outra para homossexuais? E outra para fanhos? Para gagos?

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