Espaço do Leitor

A noite de são bartolomeu

Um leitor escreveu-nos, questionando acerca do Massacre de São Bartolomeu, de que os protestantes tanto acusam a Igreja Católica por uma suposta participação em cruel mortandade de protestantes.

 

Sobre o tema, envio trecho da obra de um grande apologista jesuíta louvado até por São Pio X, DEVIVIER, Pe. W., SJ. Curso de Apologetica Christã, 3ª ed., São Paulo: Melhoramentos, 1925, pp. 426-429:

 

Ҥ V. РO S. Bartholomeu

 

NOTICIA HISTORICA. – O morticinio de S. Bartholomeu (24 de agosto, 1572) teve como causa a animosidade que existia entre a rainha mãe Catharina de Medicis e o almirante de Coligny, cabeça dos protestantes francezes. Via ella que o almirante se ia insinuando mais e mais no animo do rei Carlos IX, e por isso resolveu acabar com este seu rival.

 

Celebrava-se a 18 de agosto em Paris, ainda que contra a vontade do Papa, o casamento misto de Catharina de Valois com o então calvinista Henrique de Navarra, depois Henrique IV. Tinham estas reaes festas attrahido a Paris quasi todos os nobres protestantes do reino. Quatro dias depois, a 22, foi o almirante Coligny ferido num braço por uma arcabuzada; mas, como estava só ferido e os gentishomens protestantes manifestavam signaes da mais violenta indignação, tornava-se grandemente critica a situação da rainha mãe, auctora do attentado. Temendo ella, pois, se viesse a revelar esta sua cumplicidade, foi ter com o rei e lhe fez crer existir uma conjuração urdida pelos huguenotes, afim de se apossarem da sua pessoa e lhe tirarem a coroa e a vida. Era este principe de indole cruel, e estonteado ante estas subitas revelações de sua mãe, cedendo ás suas instancias, ordenou um morticinio geral para todos os protestantes. Foi dado o signal antes do romper da alva do dia 24 de agosto; Coligny foi degollado na sua cama, e todos os nobres, vindos a Paris para assistirem os reaes festejos e alojados no Louvre, foram egualmente assassinados. A mortandade foi-se extendendo pelos bairros de Paris; e para as provincias foram ordens terminantes, emanadas da corte, para nellas se fazer a mesma coisa aos protestantes; pelo que milhares de protestantes foram por processo summario entregues á morte dentro de poucos dias.

 

QUE RESPONSABILIDADE CABE Á EGREJA NO MORTICINIO DE S. BARTHOLOMEU? – É vezo dos inimigos da Egreja menos instruidos o assacarem-lhe este horroroso successo de S. Bartholomeu, o apresentarem-no como uma das provas mais caracteristicas da sua intolerancia, como um crime premeditado e ordenado por ella. Teve muita parte na vulgarização desta lenda a celebre opera dos Huguenots, em que apparece o cardeal de Lorena, que nesta occasião estava em Roma, a abençoar em Paris os punhaes destinados ao morticinio dos huguenotes.

 

Vamos provar que a corte de Roma não foi connivente com tal crime e que os signaes de publico regosijo manifestados por Gregorio XIII, ao ter noticia do successo, não têm o sentido que se lhes atribue.

 

E primeiramente é um facto historicamente certo e admittido pelos proprios protestantes, que a mortandade de S. Bartholomeu não era uma coisa de antemão planejada. Proveio só do mallogro das tentativas de Catharina de Medicis contra Coligny, que deram occasião subita áquelles extremos. ‘Se Coligny tivesse morrido da arcabuzada, não creio que tivessem matado tanta gente’, escreve o proprio nuncio Salviati, de Paris para Roma, no mesmo dia do attentado. E todos os testemunhos coevos, affirma Kervyn de Lettenhoven, na sua obra Les Huguenots et les Gueux, são concordes em rejeitar qualquer premetidação de semelhante mortandade. Ante uma conjuração abominavel, diz elle, foi apenas um meio de defesa, ainda mais abominavel, que se teve por necessario.

 

Mas, objetar-se-ha, não é verdade que S. Pio V, alguns mezes antes fallecido, convidara por vezes Carlos IX a exterminar os herejes do seu reino?

 

É coisa certa que S. Pio V por vezes exhortou a corte de França a, com rigor, applicar contra os herejes as leis existentes (suppliciis afficiantur quae legibus statuta sunt), leis que se extentiam até á pena de morte; mas é coisa não menos certa que elle sempre formalmente reprovou qualquer tentativa de assassinato ou de morticinio. A 10 de maio de 1567 escrevia o embaixador hespanhol em Roma para a sua corte: ‘Os senhores da França, disse-me o Papa Pio V, premeditam qualquer coisa que eu não posso aconselhar nem approvar e que a minha consciencia reprova; querem empregar meios para acabar com o principe de Condé e o almirante de Coligny.’ É, observa Vacandard, reprovar de antemão o morticinio de S. Bartholomeu.

 

Ficou, pois, a corte romana completamente extranha aos horrendos attentados de 24 de agosto. Foi, entretanto, Gregorio XIII informado pelo embaixador francez de que o rei e a rainha mãe tinahm escapado a uma trama dos huguenotes e de que estes tinham sido justamente castigados e em grande parte exterminados; pelo que mandou aquelle Papa os parabens a Paris, e ordenou que se fizesse em Roma uma solemne procissão em acção de graças, com um solemne  Te Deum, e encarregou alem disto o pintor Vasari de representar nas paredes do Vaticano as principaes scenas daquelle dia, mandando tambem cunhar uma medalha comemorativa.

 

Mas qual é a verdadeira explicação destes procedimentos do Papa? As congratulações enviadas á corte de Paris faziam parte, a mais ordinaria, das relações diplomaticas. E por outra parte o Papa não dispunha de outras fontes de informação senão das relações do embaixador francez em Roma e das do seu nuncio em Paris. Apresentavam ellas os factos, como officialmente corriam, isto é, como uma conjuração tramada pelos huguenotes contra a vida do rei, conjuração, de que o rei só pudera salvar-se por meio de uma geral carnificina. Que diz com effeito o nuncio residente em Paris e de ordinario bem informado? No seu despacho com data do proprio dia da carnificina, depois de narrar os factos, acrescenta que ‘a Magestade divina tomou sob a sua protecção o rei e a rainha mãe’; o que parece confirmar a ideia, que corria, de ter realmente existido a tal conspiração.

 

‘A propria noticia em si, prescindindo do modo como ella se realisara, não poder deixar de ser, observa Vacandard, muito agradavel a Gregorio XIII.’ Estando, pois, o Papa mal informado sobre o modo com as coisas se tinham passado, e estando convencido de que o rei se achava no caso de uma legitima defesa, houve naturalmente de alegrar-se ao ver que os protestantes tinham cahido no laço e que os seus principaes cabeças se achavam fóra de combate.

 

Em Paris mesmo foi muita a gente que se enganou; e o proprio Parlamento condemnou retrospectivamente o almirante Coligny a ser queimado em effigie por causa do criminoso attentado. Estava, portanto, o Papa com muito boa companhia, no juizo que fazia sobre aquelles acontecimentos tragicos.

 

A conclusão, que disto se tira, é que o S. Bartholomeu foi uma questão meramente politica, originada do odio de Catharina contra Coligny, das rivalidades entre as casas de Guise e de Condé, e occasionada pela exasperação da rainha, ante o mallogro da sua cruel tentativa de 22 de agosto. Bastantemente se explicam assim os lastimosos successos do S. Batholomeu; e esta explicação está de acordo com os documentos daquella epocha. A religião nem sequer serviu de pretexto para aquella carnificina, porque as informações dadas ao Papa apenas se referiam a uma conjuração política. Catharina de Medicis, a principal culpada nesta catastrophe, tinha sobretudo em vista abater o partido protestantes mais do que a seita dos protestantes.”

 

Com isso o leitor tem sua dúvida respondida.

 

Em Cristo.


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