A questão racial, nos Estados Unidos da América, é sempre motivo de muita reflexão e discussão, até porque, com razão, a discriminação foi parte freqüente da história americana até meados do século XX. Não obstante, o que muitas pessoas não sabem é a profundidade, assim como a complexidade, dessa problemática. Devemos nos distanciar da ótica dialética, influenciada pelos liberais esquerdistas, que reduz o debate por meio da transformação do branco em opressor e do negro em oprimido. No mundo atual, onde cada vez mais toma força o discurso politicamente correto e onde as mentiras depois de tão repetidas viram verdades, nada melhor do que fazer uma análise sincera e presa aos fatos.

Todas as pessoas tendem a gravitar ao redor de outros indivíduos que tenham níveis de compreensão semelhantes aos seus – isso não era uma particularidade dos brancos americanos. Nos EUA tal postura era – e é – muito visível; diversas etnias construíram um mundo próprio e se desenvolveram integradas com os irmãos. Isso, a priori, não é uma atitude racista nem carrega consigo um espírito discriminatório, não há a intenção de desmerecer o outro, existe simplesmente uma natural empatia entre os indivíduos crescidos na mesma cultura e defensores de mesmos princípios. Em todo o mundo, em toda a história, grupos se formaram através da identificação de pessoas congregadas quer pela raça, renda, religião ou educação. Em terras americanas diversas etnias edificaram estruturas particulares. Isso é algo que se encontra desde sempre nos Estados Unidos – país erguido por peregrinos -, mas que foi intensificado com a chegada de imigrantes. Por exemplo, quando poloneses aportaram em Detroit, vindos para o Novo Mundo a procura de oportunidades, muitos foram os negros que saíram dos bairros populares tomados pelos polacos. A mesma coisa ocorreu quando da chegada de judeus da Europa Oriental na cidade de Chicago; os judeus alemães deixaram o bairro após a ocupação pelos seus irmãos vindos da Rússia. O sociólogo negro, E. Franklin Frazier, disse que dentro das próprias comunidades negras, que também eram formadas através da identificação dos seus membros e da auto-exclusão da sociedade, existiam divisões internas, conseqüências das diferentes rendas, educação e padrões de comportamento, com grupos vivendo em zonas distintas.

As políticas de integração forçada, adotadas pelo Estado americano para obrigar as relações culturais entre brancos e negros, apenas ajudaram no incremento discriminatório. Essas iniciativas governamentais optaram por desconhecer uma característica bem peculiar da sociedade americana; as etnias viviam integradas, elas edificaram um verdadeiro mundo próprio dentro das grandes cidades do país. Isso era perceptível não só entre os brancos, mas entre negros, orientais, latinos, judeus. No caso dos caucasianos ainda havia distinções entre os irlandeses, italianos, poloneses, ingleses etc. Constatamos o autoritarismo do Estado americano; obviamente a derrubada das leis segregacionistas era essencial para a construção de um país fundamentado no espírito de Liberdade pensado pelos Pais Fundadores, entretanto, em oposição a essa identidade americana, obrigar a integração racial – através da ação estatal – foi uma atitude arbitrária que acarretou no agravamento das discussões raciais. A segregação não impedia apenas os negros de freqüentarem bairros brancos, mas brancos de freqüentarem bairros negros. Depois da derrubada dessas leis – que, é claro, acabavam que favoreciam a estrutura branca da sociedade – não houve uma imediata mudança de postura, ao contrário, whites e blacks continuaram mantendo e estimulando o segregacionismo.

O pensador americano, Thomas Sowell, acredita que os programas governamentais, como o busing – que levava crianças negras para escolas brancas e vice-versa – assim como as ações afirmativas e programas sociais em geral, fizeram com os negros americanos confiassem demasiadamente no Estado, na manutenção de uma rede de segurança que impedia a própria motivação individual. O ilustre economista afro-americano ainda vai além, reconhece que essas iniciativas estatais – busing, cotas e leis especiais – apenas ajudaram a alimentar os sentimentos racistas de brancos. Sowell afirma que antes do Civil Rights Act de 1964 a condição do negro na sociedade era cada vez mais revista, com maior aceitação e uma natural integração – e aqui friso a ação sempre zelosa das Igrejas nesse projeto.

O Estado americano, com razão, derrubou as leis segregacionistas escolares em 1954, com isso havia plena liberdade de circulação entre todos os povos que formavam a América, entretanto, ao forçar uma integração racial, em 1972, transportando alunos brancos para escolas negras – que ficavam fora de seus bairros e longe geograficamente – e levando negros para escolas brancas, produziu uma bipolarização étnica e muita má vontade. Além disso, através de políticas sociais, como os subsídios, estimulou artificialmente o trânsito racial, não só retardando a natural e sadia integração como, de maneia obtusa, desconhecendo uma característica corrente dos diversos povos que compõem a América; a formação de bairros e escolas próprias – aqui vale um comentário, se engana quem acha que as escolas negras eram inferiores as brancas, como até pretendeu o tom usado pela Suprema Corte no caso Brown v. Board of Education ("separate educational facilities are inherently unequal.") – que abriu o caminho para a integração racial. Por ironia havia em Washington, perto da Suprema Corte, uma escola all-black que a oitenta anos já produzia uma educação de alta qualidade, inclusive em 1899 já superava duas das três escolas secundárias brancas do distrito, em testes padronizados. Em 1940, no Harlem, o bairro negro de Nova Iorque, tinham escolas que faziam pontuações semelhantes – as vezes maiores/menores – aos dos colégios da classe trabalhadora branca de Lower East Side. No sul do país, onde se concentrava grande parte da população negra e que tinha um sistema educacional inferior – tanto para brancos como para negros – as escolas all-blacks viviam em estado realmente crítico, o que apenas se agravava com a ação organizada de grupos racistas, como o Ku Klux Klan, o braço armado do Partido Democrata na região. De todo o modo, existem hoje escolas só para negros que tem grande sucesso e outras que falham no projeto educativo, assim como existem escolas heterogêneas que falham e outras que tem grande sucesso; a questão racial, o problema da segregação, não conseguiriam explicar.

Aqui ainda vale uma breve recordação. Rosa Parks ficou conhecida por se recusar a ceder seu lugar a uma pessoa branca no ônibus, no Alabama. O que as pessoas não sabem é que essas políticas discriminatórias só se instalaram por conta da ação estatal. Ironicamente, foi o governo que foi chamado para solucionar o problema segregacionista, mas foi o mesmo governo que o estimulou e incitou. Os interesses econômicos são diferentes dos interesses políticos; os proprietários das empresas de ônibus, trens e bondes até poderiam ser racistas, mas nenhum queria perder uma massa de clientes consumidores como os negros. Após o disenfranchisement – a revogação do direito ao voto dos eleitores negros no final do séc. XIX e início do séc. XX – ficou fácil a aprovação de leis de segregação racial, como as leis de Jim Crow. Não obstante, os empresários dos transportes enfrentaram a Justiça durante a elaboração, aprovação e aplicação dessas leis racistas. Tal tática atrasou em anos a execução das leis de Jim Crow em diversos lugares, mas depois de ratificadas muitos foram os homens brancos dos negócios presos e ameaçados por descumprir a ordem; o dinheiro do homem negro era tão bom como o dinheiro do homem branco.

O Estado se encontra no centro do problema; se por um lado foi o governo o responsável pelo estímulo ao segregacionismo, através da aprovação de leis que tolhiam a liberdade do homem negro – leis essas que sofreram com a repulsa de empresários que, ao defender a Livre-Iniciativa, defendiam a legitimidade do cidadão afro-americano. E aqui recordamos da memorável frase de Adam Smith; "não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover seu "auto-interesse", que pode muito bem ser entendida dentro do contexto abordado – por outro lado, foi o mesmo governo que, querendo derrubar a estrutura discriminatória que havia construído, adotou ações enérgicas e até truculentas ao obrigar a integração por meio do trânsito racial imposto, que não só maculava a liberdade do indivíduo branco e negro de escolher onde morar, onde estudar, como estimulava e incrementava os conflitos raciais – com certeza não era nada agradável ser um jovem branco obrigado a estudar numa escola negra ou ser um jovem negro obrigado a estudar numa escola branca, e tudo por conta dos gracejos do Estado. Peg Smith, uma senhora líder do movimento anti-busing em Charlestown, quando questionada sobre a sua resistência, afirmou: “Eu quero minha liberdade de volta. Eles levaram minha liberdade. Eles me dizem onde meus filhos devem estudar, isso é como viver na Rússia. Depois disso eles vão nos dizer onde devemos fazer compras”. Obviamente, as feministas americanas em nada apoiaram o clamor das mães que se viam impedidas de decidir sobre a educação dos filhos. As mesmas pessoas que comemoravam a decisão do Supremo Tribunal quanto ao “direito de escolha” da mulher em relação ao aborto eram as mesmas que se calavam quando o mesmo Estado revogava o direito da mãe de decidir sobre a educação do filho; de todo o modo, em ambos os casos há o mesmo princípio anti-natural, contrariando o direito intrínseco do homem; o direito a vida e o direito da autoridade familiar. Num encontro de discussão sobre a Equal Rights Amendment (Emenda da Igualdade de Direitos), que contava com a participação de mães anti-busing, uma brava matriarca se levantou e questionou se a ERA garantiria a uma mulher o direito de decidir sobre a educação dos filhos; ela foi convidada a se retirar. Os movimentos anti-busing seguiam o estilo libertário de desobediência civil, em nada se aproximavam de um espírito anti-americano, ao contrário, o discurso estava embebido no princípio tradicional de Liberdade que construiu o país. Infelizmente, como bem frisou Thomas Sowell, a ação violenta do Estado ao obrigar a integração racial apenas favoreceu o racismo na própria sociedade; muitos foram os grupos anti-busing que combinaram perversamente o patriotismo com o estúpido racismo. A cidade de Boston, por exemplo, se transformara num verdadeiro campo de guerra; havia força policial em todos os cantos da cidade, policiais escoltavam ônibus em todas as escolas, detectores de metais eram instalados e soldados patrulhavam até lanchonetes, inclusive cotas foram estipuladas para os policias, incitando a hostilidade racial dentro do sistema. Tudo isso por conta dos caprichos estatais ao obrigar os brancos a freqüentarem escolas e bairros negros e negros a freqüentarem escolas e bairros brancos. Assim disse Kevin White, prefeito de Boston: “As vezes, quando eu olho pela janela, eu vejo Belfast lá fora” – em alusão a capital da Irlanda do Norte que vivia tomada pelo exército por conta dos conflitos civis instaurados; de um lado a maioria protestante que detinha o controle do governo e impedia a ascensão de católicos, e do outro a ação organizada católica que tinha o apoio da República da Irlanda.

A política de integração forçada, busing, destruiu completamente o forte espírito comunitário que havia nos bairros. Antes da adoção dessas ações, pais, professores e estudantes geralmente viviam na mesma comunidade, participavam da mesma igreja e faziam compras no mesmo lugar. Havia mais modelos positivos para as crianças nesses dias. Quando a infra-estrutura da comunidade foi derrubada, quando as crianças foram obrigadas a estudar e viver em escolas e bairros que desconheciam a sua realidade e onde, para piorar, eram tratados como, no mínimo, excentricidades, se perdeu todos esses exemplos que faziam parte do cotidiano do jovem. Wellington Webb, que foi prefeito de Denver, viu o fim do busing como a oportunidade perfeita de reconstruir a vida comunitária; “Tendo de volta as escolas de bairro nós poderemos ajudar a reconstruir as comunidades” Infelizmente a esmagadora maioria das escolas de bairro, essas fechadas com as políticas de anti-segregação forçada, se encontrava em bairros negros, com isso o resgate e retomada de tão benéfica estrutura educacional ficou extremamente prejudicada.

Aqueles que, inebriados com o simplismo dialético, tentam transformar a complexa questão racial numa mera dicotomia entre brancos opressores e negros oprimidos desconhecem a realidade dos fatos. O grande artífice da crise racial nos EUA foi o Estado, tanto num primeiro momento, quando legitimou leis racistas, como posteriormente, ao obrigar a integração forçada. Sem dúvida alguma esse é um período muito triste da história americana, mas que deve ser recordado; a melancolia e o pesar desses tempos devem ser entendidos como reflexos da falta de adesão ao espírito libertário em sua sadia e positiva radicalidade. Quando um país é privado da Liberdade, quando o indivíduo se encontra tolhido e diminuído por conta da força Estatal, abre-se uma lacuna que é ocupada pela ação coercitiva do governo que impõe leis racistas e, em seguida, determina onde deve morar e onde seus filhos devem estudar.
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