É verdade que Deus é amor, mas não é verdade que todo amor é de Deus. O ouro é metal, mas nem todo metal é ouro, ora bolas!

No dia 9 de janeiro [de 2014], o Papa Francisco comentou um texto das cartas de São João, no qual o Apóstolo fala que Deus está intimamente ligado ao que ama:

– “Quem permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele” (1João 4,16).

Essa passagem é frequentemente usada por aqueles que pretendem fugir das implicações éticas do Evangelho. Eles instrumentalizam a Palavra de Deus para esconder-se atrás do alvejante “amor”. Atrás de cada ação egoísta, como a troca de favores sexuais entre namorados; ou o uso de dinheiro roubado para pagar contas pessoais; ou o descaso com o justo e o honesto; atrás de cada ação suja vem o alvejante “amor” lavar a consciência do ladrão que rouba a paróquia, do corrupto que rouba dos velhos e das crianças, do jovem luxurioso que não vê o outro como fim em si mesmo e como ponte para Deus. Todos eles têm na ponta da língua o amor como escudo e como salvaguarda de suas ações:

– “A gente se ama, por isso transamos”;

– “Eu amo minha família, por isso roubo”;

– “Eu amo a Deus e Ele não liga para o dinheiro da paróquia. Já faço tanto…”.

Contra essa vergonhosa lavanderia de amores egoístas é que adverte o Papa Francisco:

– “Prestai atenção: o amor sobre o qual João fala não é o amor das telenovelas! Não, é outra coisa!”

Por isso, afirmar que o amor é sagrado, assim, sem maiores explicações, é um modo de querer enganar as pessoas. Um modo de ganhar sua simpatia e apreço. Mas quem diria sinceramente que a menina que mata os pais por amor do namorado tem um “amor sagrado”? Quem sustentaria que a jovem dependente química, que “ama” a droga, faz bem a si e a seus familiares? Quem defenderia o acumulador porque ele ama seu rico dinheirinho e canonizaria seu amor?

Não! O amor não é um alvejante! Ele não limpa nossa sujeira! É verdade que Deus é amor, mas não é verdade que todo amor é de Deus. O ouro é metal, mas nem todo metal é ouro, ora bolas! Há amores maus, há metais sem valor. Afinal, o amor é ato humano e, portanto, como todo ato humano, retira sua moralidade não só da intenção, da finalidade e da circunstância, mas também do objeto a que se orienta. Se o objeto é bom, o amor tem grandes chances de igualmente sê-lo.

Enquanto o amor é utilizado como instrumento para justificar os atos mais egoístas, os cristãos sabem que o amor verdadeiro é doação, nunca uso. O amor “de novela”, pelo contrário, é consumo, é imanência, é horizontal. O amor que salva é aquele que não rasga o Evangelho para realizar-se. Como diria São João:

– “Aquele que diz conhecê-lo e não guarda os seus Mandamentos é mentiroso e a verdade não está nele” (1João 2,4).

 

 

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