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APOLOGIA – PARTE II

» CAPÍTULO VI

Eu gostaria de ter agora esses protetores inteligentes e defensores das leis e instituições de seus ancestrais, em atenção à sua fidelidade, à honra e à submissão que demonstraram às instituições ancestrais; eles que partiram do nada; eles que em nada se afastaram das antigos normas; eles que nada relegaram do que é mais útil e necessário, como normas de uma vida virtuosa.

O que aconteceu com as leis que reprimiam os caros e ostensivos modos de vida? Que proibiam gastar mais do que cem asses num jantar, e mais do que uma ave para se sentar à mesa por algum tempo, e essa não engordada… Que expulsavam severamente um patrício do Senado, como se conta, porque ambicionava ser demasiado poderoso, porque tinha lucrado 10 libras de prata… Que fechavam os teatros logo que começassem a debochar das maneiras do povo… Que não permitiam que a insígnia de dignidades de oficial ou de nobre nascimento fossem precipitadas ou impunemente usurpadas…

Pois eu vejo os jantares de uma centena de asses se apresentarem agora, não como de uma centena de asses, mas que gastam um milhão de sestércios*. Vejo que minas de prata são feitas em cinzas (isso, aliás, é pouco se fossem apenas os senadores que fizessem tal, e não também os libertos ou também os simples espoliadores).

E vejo, também, que um simples teatro não é o suficiente, nem há teatros descobertos: não há dúvidas que isso é em busca desse imoderado luxo, que poderia até não ser desprezível no inverno, pois que os Lacedemonios inventaram seus capotes de lã para os jogos.

Vejo agora que não há diferença entre as vestes das senhoras e das prostitutas. Com respeito às mulheres, na verdade, aquelas leis de vossos pais, que costumavam ser de encorajamento à modéstia e à sobriedade, caíram também em desuso. Então, uma mulher não sabia o que era possuir, com suas economias, ouro no dedo que não fosse o do anel nupcial com que seu marido tinha, de forma sagrada, se comprometido.

Então, a abstinência das mulheres quanto ao vinho era levada tão a sério que uma senhora, por abrir o compartimento da adega de vinho, foi condenada à morte por inanição pelos seus amigos. No tempo de Rômulo, Mecênio matou sua esposa simplesmente por testar um vinho, nada sofrendo por conta dessa morte. Com referência a isso, também, era costume das mulheres beijar seus parentes porque eles podiam ser conhecidos por seu hálito.

Onde está a felicidade da vida de casado, sempre tão desejável, que distinguiam nossos antigos costumes e por consequência dos quais por cerca de 600 anos não houve entre nós um único divórcio?

Agora, as mulheres têm cada membro do corpo carregado com ouro, beber vinho é tão comum entre elas que nunca dão o beijo espontaneamente, e para forçar o divórcio, elas sonham com ele como se fosse a consequência natural do casamento.

As leis de vossos antepassados em sua sabedoria regulavam a respeito dos próprios deuses, as quais, vós, seus descendentes, revogaram.

Os cônsules, por autoridade do Senado, baniram o Pai Baco e seus cultos, não simplesmente da cidade, mas de toda Itália. Os cônsules Piso e Gabínio, decerto não cristãos, impediram os deuses Serápis, Ísis e Arpocrates, com seu amigo cabeça de cão, de serem admitidos no Capitólio, cassando-os de imediato da assembléia dos deuses, destruindo seus altares, expulsando-os do país, ansiosos de evitarem que se espalhassem os vícios em que se baseavam, bem como sua religião lasciva. A esses vós restaurastes e lhes conferistes as mais elevadas honras.

O que aconteceu com vossa religião, que venerava os vossos ancestrais? Em vossas vestes, em vossos alimentos, em vosso estilo de vida, em vossas opiniões, e, por último, em vossos ensinamentos, renunciastes aos vossos progenitores!

Estais sempre louvando os tempos antigos e, contudo, a cada dia aceitais novidades em vosso modo de vida. Falhastes em manter o que devíeis, fazeis isso claramente, porque enquanto abandonastes os bons costumes de vossos pais, retendes e guardais aquilo que não devíeis.

Ainda que pareçais defender tão fielmente a tradição verdadeira, na qual encontrais a principal razão de acusação contra os Cristãos – quero dizer, o zelo na adoração aos deuses, ponto principal no qual os antigos incidiram em erro, embora tenhais reconstruído os altares de Serápis, agora uma divindade romana, e a de Baco, agora tornado um deus da Itália, a quem ofereceis vossas orgias – demonstrarei na ocasião adequada, contudo, que desprezais, negligenciais e destruís a autoridade dos antigos, pondo-a inteiramente de lado.

Vou, por enquanto, responder àquela infame acusação de crimes secretos, trazendo as coisas à luz do dia.

» CAPÍTULO VII

Monstros de maldade, somos acusados de realizar um rito sagrado no qual imolamos uma criancinha e então a comemos, e no qual, após o banquete, praticamos incesto, e os cães, nossos alcoviteiros, pois não, apagam as luzes para na imoralidade da escuridão nos entregarmos a nossas ímpias luxurias!

Isto é o que constantemente usais para nos perseguir, embora não tenhais tido o cuidado de elucidar a veracidade de tais coisas de que somos acusados há tanto tempo. Tragam, então, esse assunto à luz do dia, se acreditais nisso, ou não lhes deis crédito, se nunca investigastes a respeito. Com base nesse dissimulado jogo, somos levados a vos esclarecer que não é verdade um fato que não ousais investigar.

Determinais aos executores, no caso dos Cristãos, um processo bem diferente de investigação: não lhes cabe fazer-nos confessar o que praticamos, mas fazer-nos negar o que somos.

Datamos a origem de nossa religião, como antes já mencionamos, do tempo do reino de Tibério. A verdade e a aversão à verdade vieram ao mundo juntas. Assim que a verdade apareceu, foi olhada como inimiga. Nesse processo há tantos loucos quantos desconhecedores dele: os Judeus, como se deve pensar, levados por um espirito de rivalidade; os soldados, levados pelo desejo de extorquir dinheiro; nossos domésticos, levados por sua natureza. Somos diariamente atacados por ensandecidos, diariamente traídos, somos muitas vezes surpreendidos em nossas assembléias ou cultos.

Quem encontrou algo por pequeno que seja sobre uma criança chorando, de acordo com o boato popular? Quem procurou o juiz porque encontrou, de fato, as ensangüentadas fauces dos Ciclopes e das Sereias? Quem achou quaisquer traços de impureza em nossas viúvas? Onde está o homem que quando encontrou tais atrocidades as ocultou? Ou será que no ato de levar os culpados à presença do juiz foi subornado para não proceder a acusação?

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Se sempre mantemos nossos segredos, quando se tornaram conhecidos do público nossos atos? Então, por quem poderiam ter sido desvendados? De certo não pelos próprios acusados, mesmo porque há o conceito de fidelidade ao silêncio que é sempre própria dos mistérios. Por acaso, os Samotrácios e os Eleusínios não escondem o quanto procuram manter silêncio a respeito do que verdadeiramente são, em seus segredos, promovendo castigos humanos oportunos e ameaçando com a futura ira divina?

Se, então, os Cristãos não são eles próprios os denunciadores de seus crimes, conclui-se que são os estranhos. E como têm conhecimento deles, quando é também um costume universal nas iniciações religiosas manter os profanos à distância e se precaver de testemunhas? A menos que aconteça que esses que são tão perversos tenham menos medo do que seus vizinhos!

Todo mundo sabe que coisa é o boato. Diz um de vossos provérbios: “Dentre todos os males nada voa mais depressa do que o boato”. É porque ele dá informações? Ou é porque ele é tremendamente mentiroso? Não é uma coisa que nem mesmo quando diz alguma verdade, apresenta uma mancha de falsidade, seja detratando, seja aumentando, seja mudando o fato em si? E não faz parte de sua natureza sobreviver somente enquanto mente, e viver somente enquanto não há provas? Pois que quando se tem a prova, ele deixa de existir.

Tendo feito seu trabalho de simplesmente espalhar uma notícia, ele conta algo que daí em diante passa a ser um fato e a ser chamado um fato. Então, já ninguém diz, por exemplo: “Dizem que aconteceu em Roma”, ou “Há um boato de que ele ganhou uma província”, mas “Ele ganhou uma província”, e “Aconteceu em Roma”. Boato é a verdadeira designação da incerteza, não sobrevive quando o fato é comprovado.

Ninguém exceto um louco confia nele, não é? Um homem prudente nunca acredita naquilo que é duvidoso.

Todo mundo sabe como ele se espalha com afinco, como sobrevive com uma afirmação sem limites, como é apenas uma vez ou outra que mostra sua origem. Por isso, necessita se infiltrar através das línguas e ouvidos. Uma pequena semente obscurece toda a história, de modo que ninguém pode determinar se os lábios dos quais se originou, plantou a semente da falsidade, como muitas vezes acontece, por um espirito de oposição ou por um julgamento suspeito ou por um julgamento confirmado ou, como em alguns casos, por um inato prazer em mentir.

É certo que o tempo traz tudo à luz, como vossos provérbios e ditos testemunham, por um procedimento da natureza da verdade que desvela as coisas de tal modo que nada fica escondido por muito tempo, mesmo embora o boato não o faça.

É justamente, então, o que deve acontecer, com essa fama tão duradoura que denuncia os crimes dos cristãos.

Esse boato é a testemunha que trazeis contra nós – boato que nunca foi capaz de provar a acusação que vez ou outra se espalha e, ultimamente, por simples repetição se fez opinião firmada no mundo.

Assim, confiantemente apelo àquela natureza da verdade, sempre reveladora, contra os que infundadamente levantam tais acusações.

» CAPÍTULO VIII

Atentai agora! Apresentamo-vos a recompensa por essas monstruosidades: os Cristãos prometem a vida eterna. Asseguram-na assim também como é de vossa própria convicção.

Pergunto-vos: se assim crêem, não julgais que se farão dignos de obtê-la mantendo uma consciência igual a que pretendeis ter? Vamos, enfiai vossa faca numa criança que não faz mal a ninguém, toda inocência, amada por todos. Ou se isso é feito por outro, simplesmente assisti de vosso lugar a um ser humano morrendo antes de ter realmente vivido, esperai a partida da última alma, recebei o sangue fresco, molhai com ele vosso pão, participai disso livremente. Enquanto vos reclinais à mesa, vede os lugares que vossa mãe e vossa irmã ocupam. Guardai-os bem, de modo que quando o cão trouxer a escuridão para vos envolver, não possais cometer erro, porque sereis culpados de crime se não cometerdes uma ação de incesto.

Iniciados e marcados em semelhantes barbaridades, tendes a vida eterna! Dizei-me, imploro-vos, é a eternidade digna disso? Se não é, então tais coisas não devem merecer crédito.

Mesmo se acreditastes, nego essa vossa vontade. E mesmo se tivestes a vontade, nego a possibilidade. Por que, então, outros poderiam fazê-lo? Por que não podeis se outros podem? Suponho, então, que somos de uma natureza diferente. Somos Cães ou Monstros? Sois homens tanto quanto os cristãos; se não podeis fazê-lo, não podeis acreditar que outros o possam, porque os cristãos são humanos tanto quanto vós.

Mas os que desconhecem essas coisas certamente estão decepcionados e se prevalecem disso. Estão perfeitamente inscientes de que algo dessa natureza é imputado aos cristãos ou, certamente, se informaram por si próprios e desvendaram o assunto.

Mas, em vez disso, é costume das pessoas que desejam iniciação a ritos sagrados, penso eu, ir antes de tudo ao Líder deles para que lhes possa explicar os preparativos que devem ser feitos. Então, nesse caso, não há dúvidas que este diria: deveis levar uma criança ainda de tenra idade, que não saiba o que é morrer, e possa sorrir sob vossa faca; também, pão para aparar o sangue que correrá. Além disso, candelabros, lâmpadas, e cães, com iscas para atraí-los ao apagar das luzes. E, antes de tudo, deveis levar vossa mãe e vossa irmã convosco. Mas o que fazer se a mãe e a irmã não quiserem ir? Ou se não tiver nem uma nem outra? O que fazer se houver cristãos sem parentes cristãos? Não será tido, suponho, por um verdadeiro seguidor de Cristo, quem não tiver um irmão ou um filho.

E o que acontecerá, se essas coisas todas estiverem dispostas como dito, sem o conhecimento deles? No máximo, depois que eles os virem, se afastam e os perdoam.

Temem – é de se concluir – que pagarão por isso se divulgarem o segredo? De modo algum, antes irão, em tal caso, pedir proteção. Preferirão mesmo – pode-se entender – morrer por suas próprias mãos a viver sob o fardo de tão terrível conhecimento. Admitamos que eles terão medo. Contudo por que eles iriam continuar com a coisa?

Pois é bastante claro que vós não desejaríeis continuar sendo o que nunca quisestes ser, se tivésseis tido prévio conhecimento do assunto.

» CAPÍTULO IX

Eis como posso refutar tais acusações: mostrar-vos-ei práticas que vigoram entre vós, em parte abertamente, em parte secretamente, que vos levaram, talvez, a nos acusar de coisas semelhantes.

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Os meninos eram sacrificados abertamente na África a Saturno até o proconsulado de Tibério, que expôs à vista do público os seus sacerdotes crucificados nas árvores sagradas, que lançavam sombras sobre seus templos – tantas eram as cruzes nas quais a justiça exigida aplicou o castigo por seus crimes, como os nossos soldados podem ainda testemunhar, tendo sido, de fato, esta uma obra daquele Procônsul. Até presentemente aquele criminoso culto continua a ser feito, secretamente.

Não seriam somente os Cristãos, estais vendo, que vos menosprezariam, porque com isso tudo o que fazeis nenhum crime foi inteiramente e permanentemente erradicado, nem nenhum de vossos deuses reformou seus costumes. Se Saturno não poupou seus próprios filhos, ele também não poupou os filhos dos outros, e os pais desses, na verdade, tinham, eles mesmos, o hábito de fazer tal oferenda, atendendo contentes ao pedido que lhes era feito, mantendo as crianças satisfeitas na ocasião, para que não morressem aos choros.

Destacamos também que há uma grande diferença entre homicídio e parricídio. Mas homens idosos eram sacrificados a Mercúrio, nas Gálias. Tenho em mãos as lendas táuricas feitas para vossos próprios teatros. Por que, mesmo nesta profundamente religiosa cidade de piedosos descendentes de Enéias, há um certo Júpiter que em vossos jogos é banhado com sangue humano? É o sangue de um lutador feroz, dizeis. Por isso, o sangue de um homem se torna irrelevante? Ou não é mais infame o sangue porque corre das veias de um homem mau? De qualquer modo, é sangue derramado até a morte. Ó Júpiter, vós soi um Cristão, e de fato, por vossa crueldade, digno filho de vosso pai!

Mas com respeito à morte de uma criança, como se não interessasse se fosse cometido para um sagrado culto, ou simplesmente por um impulso próprio (embora haja uma grande diferença, como dissemos, entre parricídio e homicídio), me voltarei para o povo em geral. A quantos – pensai nisso – desses aglomerados de pessoas investindo em busca de sangue Cristão, a quantos, mesmo, de vossos governantes, notáveis por sua justiça para convosco e por suas severas medidas para conosco, posso acusar perante sua consciência do pecado de condenar sua descendência à morte?

Se há alguma diferença no tipo de assassinato, a forma mais cruel é certamente matar por afogamento ou exposição ao frio, à fome e aos cães. Uma costume mais civilizado tem sempre preferido a morte pela espada.

Em nosso caso, para os cristãos, a morte foi de uma vez por todas proibida. Não podemos nem mesmo destruir o feto no útero, porque, mesmo então, o ser humano retira sangue de outras partes de seu corpo para sua subsistência. Impedir um nascimento é simplesmente uma forma mais rápida de matar um homem, não importando se mata a vida de quem já nasceu, ou põe fim a de quem está para nascer. Esse é um homem que está se formando, pois tendes o fruto já em sua semente.

Com relação a alimentos de sangue e de outros tão macabros pratos – Eu não estou seguro onde li isto, em Heródoto, penso – o sangue tirado dos braços e bebido por ambas as partes, constituía um aval ao tratado entre algumas nações. Não estou certo se foi assim bebido no tempo de Catilina. Dizem, também, que entre algumas tribos citas os amigos são comidos por seus amigos. Mas estou indo longe demais de casa.

Atualmente, mesmo entre vós, o sangue consagrado a Bellona, sangue retirado da coxa perfurada e então partilhada, sela a iniciação aos ritos daquela divindade. Que dizer daqueles, também, que nos espetáculos dos gladiadores, para a cura da epilepsia, bebem com gananciosa sede o sangue dos criminosos mortos na arena, assim que corre fresco de seus ferimentos, apressando-se para chegarem aos que lhes pertencem? E daqueles, também, que fazem alimentos no sangue de feras selvagens no lugar dos combates – que têm agudo apetite por ursos e veados? Na luta, esse urso foi molhado com o sangue do homem dilacerado por ele; aquele veado rolou no sangue do gladiador ferido pelas suas chifradas. As entranhas das próprias feras, embora misturadas com indigestas vísceras humanas, são muito procuradas. E de vossos homens disputando carne nutrida por carne humana?

Se vós partilhais de alimentos como esses, em que vossos repastos diferem daqueles de que acusais a nós, cristãos? Aqueles que, com luxúria selvagem, disputam corpos humanos, cometem menor mal porque devoram os vivos? Estão menos contaminados do sangue humano porque degustam aquilo que está para se tornar sangue? Eles se alimentam, isto é evidente, não tanto de crianças, como de adultos.

Ruborizai-vos por vossos vis costumes perante os cristãos, que não têm sequer o sangue de animais entre seus alimentos, alimentos que são simples e naturais, que se abstêm de animais estrangulados ou que morrem de morte natural. E isso pela única razão de que eles não querem se contaminar, nem mesmo de sangue contido nas vísceras.

Para encerrar o assunto com um simples exemplo, vós tentais os cristãos com lingüiças de sangue, exatamente porque estais perfeitamente cientes de que assim tentais fazê-los transgredir o hábito que eles consideram ilegal. E como é irracional acreditar que aqueles sobre os quais bem sabeis que olham com horror a idéia de beber o sangue de bois, estejam ansiosos por sangue de homens. Isso a não ser que vós tenhais saboreado o sangue humano e o achastes mais gostoso!

Sim, realmente, eis aqui um teste que podereis aplicar para descobrir os cristãos, bem como a panela e o censor. Eles poderiam ser testados pelo seu apetite por sangue humano, tanto quanto por sua recusa de oferecer sacrifícios. E assim como poder-se-ia afirmar serem cristãos por sua recusa de beber sangue e sua recusa de oferecer sacrifícios, não haveria necessidade de sangue de homens, tão solicitado como é nas torturas e na condenação dos prisioneiros cristãos.

Ora, quem se entrega mais ao crime de incesto do que aqueles que seguem as instruções do próprio Júpiter? Césio nos diz que os persas mantêm relação carnal ilícita com suas mães. Os macedônios, igualmente, são suspeitos do mesmo; porque ouvindo pela primeira vez a tragédia de Édipo, eles coroaram com mirto o incesto, com exclamações em sua língua.

Ainda atualmente, reflitam quantas oportunidades existem para erros que vos levem a uniões incestuosas – vosso promíscuo relaxamento fornece essas oportunidades. Antes de tudo, abandonais vossas crianças que podem ser levadas por qualquer transeunte compadecido, para os quais elas são totalmente desconhecidas; ou as entregais para serem adotados por aqueles que podem cumprir melhor para elas o papel de pais. Bem, com algum tempo toda a memória do parentesco alienado pode ser esquecida; e quando se faz um erro, a transmissão do incesto poderá até ocorrer – o parentesco e o crime caminhando juntos. Pois, mais tarde, onde estejais, em casa ou fora, nos mares – vossa luxúria está à vossa disposição, com indulgência geral, ou mesmo com uma menor indulgência, e podeis facilmente, e não propositadamente, procriar em algum lugar uma criança, de modo que dessa maneira um parente lançado na corrente da vida poderá vir a ter relação carnal com aqueles que são de sua própria carne, sem ter noção que está ocorrendo incesto no caso.

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Uma castidade perseverante e firme nos tem protegido de algo assim, pois, resguardando-nos, como fazemos, de adultérios e todas as infidelidades após o matrimônio, não estamos expostos a infortúnios incestuosos. Alguns de nós – tornando o assunto ainda mais seguro – nos abstemos inteiramente do pecado sensual, pela continência virginal; mesmos meninos nossos tomam tal decisão quando ficam adultos. Se tiverdes notícia de que tais pecados que mencionei existem entre vós, examinem e vejam que eles não existem entre os cristãos.

Os mesmos olhos poderão constatar ambos os fatos. Mas as duas cegueiras caminham juntas. Aqueles que não vêem o que acontece, pensam que vêem o que não acontece. Demonstrarei como ocorre assim em qualquer assunto. Mas, por enquanto deixai-me falar de assuntos que são mais importantes.

» CAPÍTULO X

Vós nos acusais: “Não adorais os deuses e não ofereceis sacrifícios aos imperadores”.

Sim, não oferecemos sacrifícios a outros pela mesma razão pela qual não os oferecemos a nós mesmos, ou seja, porque vossos deuses não são, de modo algum, referenciais para nossa adoração. Por isso, somos acusados de sacrilégio e de traição. Esse é o principal fundamento de vossa perseguição contra nós. Sim, é toda a razão de nossa ofensa. É digna, então, de exame a respeito, se não forem nossos juizes a prevenção e a injustiça, pois a prevenção não leva a sério descobrir a verdade, e a injustiça a rejeita simples e totalmente.

Não adoramos vossos deuses porque sabemos que não existem tais divindades. Eis o que, portanto, deveríeis fazer: deveríeis nos intimar a demonstrar a inexistência delas, e, então, provar que elas não merecem adoração, pois somente se vossas divindades fossem comprovadamente verdadeiros deuses, haveria toda obrigação de lhes serem rendidas homenagens divinas.

Punição, igualmente, mereceriam os cristãos, se ficasse evidente que aqueles aos quais recusam adoração são verdadeiramente divinos. Vos dizeis: são deuses. Nós negamos e apelamos para vosso próprio entendimento a respeito. Que ele nos julgue, que ele nos condene, se é incapaz de negar que todas essas vossas divindades não passam de pessoas humanas.

Se vosso entendimento se atreve a negar isso, será refutado por vossos próprios livros de histórias primitivas, pelos quais tomou ciência delas, pois esses livros se constituem incontestáveis testemunhas até nossos dias, seja das cidades onde elas nasceram, seja das regiões nas quais elas deixaram marcas de suas andanças, bem como, comprovadamente elas foram enterradas.

Examinarei agora, um por um, a esses vossos deuses tão numerosos e tão diferentes, novos e antigos, gregos, romanos, estrangeiros, de escravos e de adotados, privados e públicos, machos e fêmeas, rurais e urbanos, marítimos e militares? Não. É inútil até pesquisar todos os seus nomes, de modo que me contento com um resumo, e isso não para vossa informação, mas para que tenhais em mente o que colocastes em vossa coleção, porque indubitavelmente agis como se tivésseis esquecido tudo sobre eles.

Nenhum de vossos deuses é mais antigo do que Saturno. Dele fizestes provir todas as vossas divindades, mesmo aquelas de maior dignidade e mais conhecidas. O que, então, puder ser provado sobre o primeiro, poderá ser aplicado àqueles que dele provieram.

De tempos tão primitivos quanto nos informam os livros, nem o grego Diodoro ou Thallos, nem Cássio Severo nem Cornélio Nepos, bem como nenhum outro escritor que escreveu sobre as coisas sagradas primitivas, se aventurou a dizer que Saturno era alguém mais senão um homem. Tanto quanto esse assunto depende dos fatos, nada mais encontro digno de fé do que isso: sabemos o local no qual Saturno se estabeleceu na própria Itália, após muitas expedições e após compartilhar da hospitalidade da Ática, obtendo cordiais boas vindas de Jano ou Janis como os Sálicos o chamavam. A montanha na qual ele morou foi chamada Satúrnio. A cidade que ele fundou foi denominada Satúrnia até aos nossos dias. Por fim, toda a Itália, após ter surgido com o nome de Enótria, foi chamada Satúrnia por causa dele. Foi ele que por primeiro vos ensinou a arte de escrever e de cunhar moedas. Daí, aconteceu que ele passou a governar o Tesouro Público.

Mas, se Saturno foi um homem, teve, sem dúvida, uma origem humana e tendo uma origem humana não foi rebento nascido do céu e da terra. Como seus pais eram desconhecidos, não era incomum que tenha se chamado filho desses elementos dos quais nós todos parecemos nos originar.

Quem não fala do céu e da terra como de um pai e de uma mãe numa forma de veneração e homenagem? Não há até o costume, ainda existente entre nós, de dizer que alguém que nos é estranho ou que surgiu inesperadamente em nosso meio caiu dos céus? Do mesmo modo, aconteceu com Saturno, onde apareceu como um hóspede repentino e inesperado – porque o hóspede recebe em todo o lugar a designação de nascido do céu. Mesmo a tradição popular chama de filhos da terra as pessoas de parentesco desconhecido.

Eu não sei quantos homens naqueles tempos primitivos eram levados a assim procederem quando admirados pela visão de alguém estranho que surgia em seu meio, considerando-o divino, já que naquelas eras distantes até homens de cultura transformavam em deuses pessoas que eles sabiam terem morrido como homens, um dia ou dois antes, movidos pela tristeza geral que lhes acometia.

Que essas observações de Saturno, tão concisas como são, sejam suficientes. Assim, também, pode-se provar que Júpiter era certamente homem, já que nascido de homem, e que uma após outra, todas essas divindades eram mortais como o primitivo rebento.


*1 sestércio = 2,5 asses.


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Veritatis Splendor