Egidio López

Tradução: Carlos Martins Nabeto

Um outro grande mito histórico, bastante alastrado por aí, é o de que antes da Reforma Protestante do séc. XVI o povo e inclusive o baixo clero não tinham qualquer acesso à Bíblia; que ela era ocultada pela Igreja, para que ninguém (senão o Papa e os altos dignatários “papistas”, todos corruptos e ímpios) tivesse acesso à Palavra de Deus e à Verdade. Lutero mesmo chegou a “testemunhar” que nunca tinha visto uma Bíblia até os seus 20 anos de idade! A História, contudo, aponta serenamente o inverso:

– “O retorno ao Evangelho e à Igreja primitiva, por outro lado, sempre foi a premissa inevitável em todos os movimentos reformistas, frequentemente incompatíveis com as realidades de seus tempos, inexoravelmente julgados como corruptos. Por isso, é perfeitamente compreensível a demanda pela Sagrada Escritura da parte dos leitores (não muitos então) e dos ouvintes (a imensa maioria).

Nisto também a Reforma original teve suas dívidas com a herança medieval [católica], ainda que o próprio Lutero, exagerado como era, recriminasse a cegueira dos papistas e enfatizasse sua missão, afirmando que antes dele ‘ninguém lia a Bíblia, era uma desconhecida para todos. Eu inclusive, aos meus 20 anos, ainda não tinha visto a Bíblia’, comentava em 1538.

Monografias atuais esclareceram a inconsistência dessas acusações. O povo podia contemplar a sequência da história bíblica da salvação (desde o Paraíso até a Ressurreição) em representações esculpidas ou pintadas, aptas para a sua compreensão e espalhadas por toda parte; em gravuras como as que, em fins do séc. XV, foram realizadas por Durero; em cartões ilustrados da catequese. Uns e outros costumavam popularizar imagens que constituíam a essência de um subgênero característico: as ‘Bíblias dos pobres’. Estruturadas com base em textos selecionados e gravuras, não foram criadas – apesar do nome – para os pobres propriamente ditos, mas para o clero paroquial inferior como um manual de aprendizagem e pregação. Sua grande circulação é o melhor índice do seu elevado consumo.

A imprensa, desde o início, fez eco do ambiente geral e ofereceu edições e mais edições desse produto tão demandado, visto que não se deve dissimular que a impressão era, além de uma arte respeitável, um negócio industrial e comercial. Foi possível identificar (e o catálogo vem se ampliando cada vez mais) cerca de 500 edições desde que a imprensa surgiu até irromper o nome de Lutero em 1517. E não se tratava apenas de Bíblias em latim; havia traduções vernáculas, mais acessíveis portanto e indicativas da sua importância. Para focar-nos no âmbito germânico, pelo menos 18 traduções do texto bíblico completo para o alemão foram editadas entre 1466 e 1522, visto que de livros [bíblicos] em separado se fizeram muito mais impressões. E uma das primeiras coisas que Lutero recebeu ao ingressar nos agostinianos de Erfurt foi precisamente a Bíblia.

Eram Bíblias que, no geral, não faziam outra coisa senão popularizar o texto da Vulgata latina. Os humanistas se encarregariam de purificá-lo com edições críticas, recorrendo ao hebraico e ao grego ‘originais’. Quando Lutero oferece o seu Novo Testamento aos alemães, em 1522, sua tradução estava em dívida com as anteriores de Lourenço Valla e Erasmo [de Roterdã]. As ‘lectio’ magisteriais sobre os Salmos bebiam das versões precedentes do francês Lefèvre d’Etaples”

(Egidio López, Teófanes. “Historia Universal Moderna”, vol.2: “Las Reformas Protestantes”. Madri: Sintesis, 1992, p.34; tradução livre: CMN).

Fonte: https://www.facebook.com/carlosmartins.nabeto

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