Por Alessandro Lima

O Catequista, recentemente publicou uma matéria (1) visando refutar uma afirmação dita pela atriz Cássia Kis, onde esta numa participação no programa “Encontro com Fátima Bernardes”(2) dá seu testemunho sobre como é ser católica. A afirmação seria de que a Missa Tridentina em Latim é a Missa dos Apóstolos.

Segundo O Catequista “a missa tridentina é a missa dos Apóstolos da mesma forma que o rito de Paulo VI (‘missa nova’), o rito bizantino, o rito ambrosiano, o rito moçárabe etc. A ‘espinha dorsal’ da Última Ceia está igualmente presente em todos os ritos católicos.”. Ora, mas então qual é o problema na afirmação da atriz? Continua O Catequista: “E a missa que os Apóstolos rezavam NÃO ERA REZADA EM LATIM! E sim em GREGO.”

Temos aqui um problema de conceitos, muito comum devido ao estado de confusão gerado pela Crise na Igreja.

Afirmamos que a Igreja Católica Apostólica Romana é a Igreja dos Apóstolos, porque ela tem origem apostólica. Nosso Senhor Jesus Cristo a instituiu e a deixou ao cuidado dos apóstolos, que a confiou ao cuidado de seus sucessores, e assim por diante. De forma que a Igreja foi desenvolvendo-se organicamente através dos séculos. A Igreja nasceu falando aramaico e grego e hoje sua língua oficial é o latim. Significa que ela não é mais a Igreja dos Apóstolos? Obviamente que a resposta é negativa. Pois estamos falando do mesmo ente, que não perdeu a sua forma, continuando a ser a mesma coisa, mesmo depois de um processo de desenvolvimento, assim como uma pessoa quando é criança, não deixa de ter a mesma identidade porque tornou-se adulta.

O mesmo se aplica à Santa Missa. Nosso Senhor Jesus Cristo a instituiu, e assim como fez com a a Igreja, confiou-a aos apóstolos ainda em estado embrionário ou inicial. A adoção da língua latina em substituição ao grego, não fez a Missa no Rito Romano deixar de ser um rito de instituição apostólica, porque se desenvolveu. Seria como dizer que uma muda de pé de jaboticaba não é mais um pé de jaboticaba porque vingou e cresceu!

Para corroborar com o que dissemos, trazemos o parecer do Pe. Adrian Fortescue, considerado um dos maiores especialistas na história do Rito Romano (3), grifos meus:

“No primeiro período, a língua litúrgica em Roma era o grego. O grego era falado pelos cristãos romanos (assim como pelos cristãos de todos os centros – Alexandria, Antioquia, Jerusalém etc) pelo menos nos dois primeiros séculos. Clemente de Roma escreve em grego; as primeiras inscrições das Catacumbas são gregas. Não havia a idéia de uma língua litúrgica especial naquela época; as pessoas diziam suas orações na língua vulgar. O latim foi aparentemente usado pela primeira vez pelos cristãos na África. O Papa Vítor (190-202), que era africano, é geralmente citado como o primeiro romano a usá-lo. Novaciano ( 251) escreve em latim; desde o terceiro século (ou por volta), isso se torna o comum e, em seguida, a única língua falada pelos cristãos em Roma. Os autores divergem, contudo, sobre quando o latim substituiu o grego na Igreja. Kattenbush data o latim como a língua litúrgica da segunda metade do terceiro século; Watterich, Probst e Rietschel defendem que o grego foi usado até o final do século IV. De qualquer forma, o processo foi gradual. Ambas as línguas devem ter sido usadas lado a lado durante um longo período de transição. Um certo Marius Victorinus Africanus, escrevendo por volta do ano 360 em latim, ainda cita uma oração litúrgica em grego. Por algum tempo, a Bíblia existiu apenas na Septuaginta grega (Versão dos Setenta). As leituras eram lidas em grego em Roma, pelo menos em alguns dias, até o século VIII; alguns salmos eram cantados em grego na mesma época. De fato, ainda temos fragmentos gregos na Missa. Amalário de Metz (857) e Pseudo-Alcuíno ainda mencionam formas gregas. O credo no batismo pode ser dito em grego ou latim, a critério do convertido, de acordo com o Sacramentário Gelasiano.

Mas uma mudança na língua não implica uma mudança de rito, embora possa ser a ocasião para modificações. As referências de Novaciano à liturgia em latim concordam muito bem com a grega das Constituições Apostólicas; os africanos (Tertuliano, São Cripiano etc) descrevem em latim o mesmo rito que o grego de Justino. É perfeitamente possível traduzir as mesmas formas para outra língua, já que o rito bizantino foi traduzido em grande parte sem mudança.”

A maioria dos especialistas (senão todos) na história do Rito Romano Tridentino remontam-o ao tempo dos apóstolos. Ou seja, o Rito promulgado pelo Papa São Pio V em virtude do Concílio de Trento é Tradicionalmente o rito dos apóstolos em uso em Roma. Em outras palavras, é o rito usado em Roma no tempo dos apóstolos e que foi transmitido (e desenvolvido) através dos séculos até chegar a nós.

O Catequista confunde tradicionalidade (ser transmitido por Tradição dos Apóstolos até nossos dias) com validade. Todos os ritos litúrgicos da Santa Missa são essencialmente ritos capazes de ministrar validamente o Sacramento do Altar. E aí está incluso também o Rito de Paulo VI (Missa Nova). Porém, este novo rito (Rito Paulino) embora seja válido não nos foi transmitido por Tradição; ele foi fabricado em meados do século XX. Logo ele não é o Rito dos Apóstolos, como de fato são todos os outros ritos tradicionais, isto é, transmitidos por Tradição através dos séculos (como de fato são os ritos bizantino, melquita, moçárabe, armênio etc).

Notas

(1) https://www.instagram.com/p/CdgKMkQrJni/

(2) https://pt.churchpop.com/cassia-kiss-surpreende-com-belo-testemunho-de-fe-na-tv-a-fe-catolica-e-estar-na-verdade/

(3) FORTESUE, Pe. Adrian. A Missa – Um estudo sobre a liturgia Romana. São Paulo: Flos Carmeli Edições, 2020. pg. 97-98.

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