“Povos, aplaudi com as mãos, aclamai a Deus com vozes alegres, porque o Senhor é o Altíssimo, o temível, o grande Rei do universo. Ele submeteu a nós as nações, colocou os povos sob nossos pés, escolheu uma terra para nossa herança, a glória de Jacó, seu amado. Subiu Deus por entre aclamações, o Senhor, ao som das trombetas. Cantai à glória de Deus, cantai; cantai à glória de nosso rei, cantai. Porque Deus é o rei do universo; entoai-lhe, pois, um hino! Deus reina sobre as nações, Deus está em seu trono sagrado”. (Salmo 46, 2-9)

Sabemos que Cristo veio a este mundo, ao se encarnar no seio da Virgem Santíssima, para remir a humanidade decaída e condenada pelo pecado. Veio, sofreu e morreu numa Cruz para fazer a santa vontade do Pai. Obediente até a morte, Ressuscitou ao terceiro dia. Para nossa alegria e para Seu triunfo, subiu aos Céus e está sentado à direita de Deus Pai com todo poder e glória.

“Com a Encarnação de Jesus começa todos os mistérios de nossa Religião, assim como também pela Ascensão é que termina a peregrinação de Cristo neste mundo” (CatRom 6 Artigo IV – a).  Uma vez humilhado pela Encarnação, já que se submeteu a ser um como nós, teve na Sua Ascensão e no estar sentado à direita do Pai,  a maravilhosa expressão da grandiosidade e poder, para nos mostrar a sua glória suprema e  divina magestade.

Cristo sendo Deus, quis fazer-se homem; sendo Senhor, quis suportar a condição de escravo, fazendo-se obediente até à morte, segundo se lê na Carta aos Filipenses (2,1), descendo ainda até ao inferno. Por isso mereceu ser exaltado até ao Céu e sentar-se à direita de Deus. A humildade é, com efeito, o caminho da exaltação, como se lê em São Lucas: Quem se humilha, será exaltado (14,11). Exemplo digno para seguirmos. A caminhada de Cristo é figura da nossa caminhada, caso queiramos viver eternamente com Ele na glória celeste.

Nos diz as Escrituras, que Cristo ficou com seus apóstolos depois de sua Ressurreição, comeu e bebeu  familiarmente com eles, os instruindo sobre o Reino, confirmando neles a fé em Sua palavra; mas a sua glória estava ainda encoberta sob as aparências duma humanidade normal. Sua Ressurreição e Sua Ascensão ao Céu, demonstram sua divindade e confirma aos apóstolos que Aquele que esteve com eles e os chamou a servir  ao Seu Reino, era de fato Deus verdadeiro. (Cf. At, 1,3). “O carácter velado da glória do Ressuscitado, durante este tempo, transparece na sua misteriosa palavra a Maria Madalena: « […] ainda não subi para o Pai. Vai ter com os meus irmãos e diz-lhes que vou subir para o meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus» (Jo 20, 17). Isto indica uma diferença entre a manifestação da glória de Cristo Ressuscitado e a de Cristo exaltado à direita do Pai. O acontecimento da Ascensão, ao mesmo tempo histórico e transcendente, marca a transição duma para a outra.”(Cat n.600)

O CatRom I, 7,9 no diz que devemos entender acerca da Ascensão o mesmo que sobre o Mistério da Morte e Ressurreição do Senhor. Pois ainda que devemos  a nossa redenção e salvação à Paixão de Cristo, todavia a Sua Ascensão não só nos foi proposta como exemplar na qual aprendemos a dirigir a vista para o alto e a subir ao Céu com o espírito, mas também nos deu em abundância a graça divina para que possamos consegui-Lo. Foi porque subiu ao Céu que pode cumprir sua promessa de enviar o Espírito Santo, para santificar os seus.

A Ascensão, portanto, representa o “reconhecimento do triunfo e exaltação de Cristo por parte do mundo celestial. ”É Justo que a Santa Humanidade de Cristo receba a homenagem, a aclamação e a adoração de todas as hierarquias dos anjos e de todas as legiões dos bem- aventurados da Glória “.(Santo Rosário, 2 mistério glorioso).

Ela situa-se no termo da existência terrena de Jesus e nas origens da Igreja. A cena da Ascensão desenvolve-se, por assim dizer, entre o Céu e a terra. “Por que O ocultou numa nuvem o olhar dos Apóstolos? – pergunta São João Crisóstomo – A nuvem era um sinal de que Jesus já tinha entrado nos Céus: não foi, com efeito, um turbilhão ou um carro de fogo como aconteceu com o profeta Elizeu, mas uma nuvem, que simboliza o próprio Céu” (Hom, sobre Act, 2). A nuvem acompanha as teofanias, as manifestações de Deus, tanto no Antigo como no Novo testamento. (Bíblia de Navarra – Atos  – pag.54)

Jesus, Nosso Senhor, depois de consumar a redenção, subiu aos Céus enquanto Homem que era  – de corpo e alma -, já que enquanto Deus nunca de lá se afastou, pois sendo Deus enche todos os lugares com Sua presença santa. E o fez por virtude própria e não por nenhuma força externa, já que seu corpo agora glorioso, obedecia docilmente aos movimentos de sua alma gloriosa, podendo esta O arrebata-lo com toda facilidade, diferentemente de Habacuc, Elias e o diácono Filipe que o foram pela virtude divina. Portanto, Ele  foi ao Céu, como Deus e como Homem, para Sua glória e para o nosso bem.  São Tomás nos diz: “Apesar de os Santos irem para o céu, todavia não o fazem como Cristo: porque Cristo o fez por seu próprio poder”.

Cristo subiu aos Céus, primeiro porque como estava seu corpo revestido de gloria imortal desde a Ressurreição, era  preciso que deixasse esta terra e fosse à sua morada gloriosa na mansão do Céu. São Tomás em sua Exposição  ao Credo nos diz: “porque o céu era devido a Cristo por exigência da sua natureza. É, com efeito, natural que cada coisa retome à sua origem. Cristo tem sua origem em Deus, que está acima de todas as coisas, conforme Ele mesmo disse: Saí do Pai, e vim ao mundo; deixo agora o mundo e volto para o Pai (J o 16,18). Disse também: ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do Homem que está no céu (Jo 3,13),

O Reino de Cristo não era e não é deste mundo, muitas vezes Ele no-lo disse, portanto, subindo ao Céu, nos provou que este era espiritual e eterno e que era precisamente este Reino que deveríamos buscar enquanto estivéssemos nesta terra de lutas, para um dia estar com Ele na glória. Ele o primogênito dentre todas as coisas. Lá Cristo tomou posse do trono de glória, merecido prêmio pela sua cruz dolorosa, pelo seu sangue derramado e diligentemente toma conta de tudo o que diz respeito à nossa salvação.

Nesta vida temos uma via a seguir para atingirmos nosso fim que é estar eternamente com Deus.  A Sua Ascensão, nos abre e nos ensina esta via. Desconhecíamos o caminho, mas Ele no-lo ensinou, “Subiu abrindo o caminho na frente deles” (Mt 2,13). Subiu ao céu também para nos fazer seguros da posse do reino celeste, conforme se lê em São João: “Vou preparar-vos o lugar” (Jo 14,2).

Para isso precisamos lutar contra o pecado e crescer no amor de Deus, vivendo n’Ele e para Ele. O modelo e a causa eficiente desta nossa vida nova é Cristo. Ao subir aos Céus, nos cumulou de dons e nos encheu de graças, para que pudessemos pelos seus méritos cumprir este fim. A Ascensão de Cristo nos leva a olhar ao Céu e suspirar por ele, já que somos peregrinos nesta terrra e é lá nossa morada eterna. Lá com Ele, teremos, se formos fieis, nossa pátria definitiva.

Cristo já ao lado do Pai é nosso grande intercessor e vem sempre em nosso favor, para nos fortalecer e santificar nesta caminhada rumo a Ele mesmo. Nos céus, Cristo exerce permanentemente o seu sacerdócio, «sempre vivo para interceder a favor daqueles que, por seu intermédio, se aproximam de Deus» (Heb 7, 25).

Ele foi em nome de todos nós, este chefe bem dotado que entrou na posse celeste para nos preparar um lugar, como havia prometido. E para o provar, antes de adentrar no Céu, desceu à mansão dos mortos levando com Ele as almas benditas que esperavam com toda esperança o dia de Sua vitória sobre a morte, o mundo e o demônio. Assim Ele o fez, levou-as ao Céu, juntamente com Ele num cortejo esplendoroso. Elas tinham então alcançado seu fim, da qual nós ainda suspiramos enquanto estivermos aqui.

Ao subir, instituiu a Sua Igreja neste mundo – Una, Santa Católica e Apostólica – com o governo e assitência do próprio Espírito que enviaria, em Pentecostes. Deixou-nos um pastor visível, nosso chefe supremo escolhido entre os Apóstolos, um homem – Pedro – o Príncipe dos Apóstolos. Nela derrama abundantemente suas graças para santificar seu povo de predileção, constituíndo assim o exército de santos para a glória de Deus Pai.

Devemos crer nesta verdade sem hesitação,  mesmo sem ter visto, aumentando em nós os méritos de nossa fé, pois bem aventurados são aqueles que creem sem ver, “fixando, – como nos diz o Papa São Leão Magno -, o  desejo onde a vista não pode chegar. Na verdade, continua ele -, tudo que na vida de nosso Redentor era visível passou para os ritos sacramentais, e para que nossa fé fosse mais firme e autêntica, à visão sucedeu a doutrina, em cuja autoridade se devem apoiar os corações dos que crêem, iluminados pela luz celeste .”(São Leão Magno – Alimento Sólido  –  Felipe Aquino – pag. 194).

Sua Ascensão, assim como Sua Ressurreição, foi para o santos apóstolos e é também para nós, o grande sinal de Sua divindade e onipotência. Hoje toda nossa contemplação na esperança reside no fato de que Cristo é verdadeiro Homem e verdadeiro Deus e que assentado à direita do Pai está vivo e com todo poder e força, cuidando de nós, intercedendo por nós, e que portanto, não estamos sós, mas temos Deus conosco.

Se ocultou na Sua Humanidade, mas se fará presente até o fim dos tempos. “Nossa fé, – nos diz ainda São Leão Magno – ,  começou a adquirir um maior e progressivo conhecimento da igualdade do Filho com o Pai, e a não mais necessidade da presença palpável da substancia corpórea de Cristo, pela qual Ele é inferior ao Pai. Pois, subsistindo a natureza do corpo glorificado, a fé dos que crêem é atraída para lá, onde o Filho Unigênito, igual ao Pai, poderá ser tocado não mais pela mão carnal, mas pela contemplação do espírito”.

Cristo enquanto Homem subiu aos Céus e está sentado à direita do Pai, recebeu portanto,  lugar de dignidade e de honra,  por conta de Sua obediência santa. Esta é uma figura de linguagem que exprime “a posse segura e inabalável do régio poder e da glória infinita que Ele recebeu do Pai. Glória que a nenhuma criatura foi dada, nem aos anjos, pois só a Cristo foi dito: Senta-te à Minha direita”(Hb 1) e sentar-se à direita do Pai significa a inauguração do Reino messiânico, cumprimento da visão do profeta Daniel a respeito do Filho do Homem: «Foi-Lhe entregue o domínio, a majestade e a realeza, e todos os povos, nações e línguas O serviram. O seu domínio é um domínio eterno, que não passará jamais, e a sua realeza não será destruída» (Dn 7, 14).

Esta subida é um grande estímulo para que levantemos nosso coração, para amar e buscar as coisas do alto, nos conformando com Cristo, nosso Senhor e Rei, cabeça de um corpo da qual nós somos os membros.  Nos diz São Paulo: “Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus; saboreai as coisas do alto e não as da terra” (Col 3,1).

Com Cristo ascendemos, mística, mas realmente, ao mais alto dos Céus e conseguimos por Cristo uma graça mais inefável, do que a que tínhamos perdido pela inveja do diabo.  Possamos sempre ouvir Sua voz que disse ao Pai: “Pai, quero que onde Eu estou, estejam comigo também aqueles que Vós me destes”( Jo 17,24).

Não é fato que nosso coração, tal os discípulos de Emaús, se abrasa com toda esta revelação? Que estímulo na luta para buscar o Reino de Deus e Sua justiça combatendo o bom combate até a vitoria final em Cristo Jesus!! Ele se ausentou de nós, para espiritualizar nosso amor e pode pelas suas graças nos elevar à condição de filhos, com uma participação real de Sua vida maravilhosa.

Só podemos dizer a Deus como nossa mãe Maria Santíssima: Senhor eis aqui teus filhos, faça-se em nós segundo a tua palavra e dai-nos a tua graça para perseverarmos até o fim, sempre com os olhos fixos no Céu, onde está o teu trono santo.

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