No começo deste mês de abril de 2008 estava navegando na Internet, assistindo o vídeo “Silent Scream”, apresentado pelo Dr. Bernard Nathanson, médico e ex-abortista que passou a lutar a favor da vida. Esse vídeo mostra um ultra-som ao vivo de um bebê sendo abortado, e revela que ele se move, tenta fugir do instrumento utilizado para quebrar e sugar as partes de seu corpo, e abre a boca como num grito de desespero. Fiquei um bom tempo refletindo sobre o sofrimento daquele pequeno ser humano.

Algum tempo depois decidi dar uma olhada nas notícias do dia, e me deparei com um caso horrendo: uma menina tinha caído de um prédio, supostamente atirada pelo pai ou pela madrasta. Imediatamente imaginei o sofrimento daquela pobre criança, e não pude deixar de lembrar-me do sofrimento daquele bebê abortado no vídeo do Dr. Nathanson. Uma pergunta começou a me incomodar: “Meu Deus, qual a diferença entre os dois casos?”

Isabella sofreu; o bebê abortado também sofreu. Isabella supostamente foi morta pelos seus responsáveis legais (na hipótese de se confirmarem as acusações); o bebê abortado também foi morto por aqueles que deveriam ser os primeiros responsáveis pelo seu bem estar. Isabella teve sua vida interrompida numa fase de desenvolvimento; o aborto é a interrupção deliberada do processo de desenvolvimento de um ser humano. Ou seja, de certo modo, caso se confirmem as denúncias, poderemos dizer que a menina teve sua vida “abortada”. Isto é terrivelmente trágico, e merece toda comoção e atenção que está recebendo da sociedade. Mas por que cada um dos casos de aborto no Brasil não merece a mesma atenção?

De fato, o que causou indignação e espanto na sociedade no terrível caso do padecimento desta menina não foi o fato da morte de uma criança em si. Várias crianças morrem cotidianamente no Brasil, e isso não chama a atenção da grande imprensa. Nesse caso, creio, o que causou um verdadeiro clamor nacional foi a forte suspeita de que os assassinos foram o próprio pai ou a madrasta da criança.

Sabemos que o grande desejo de todos nós é que o autor da lamentável fatalidade seja punido, mas deixemos que a justiça faça seu trabalho e desvende a verdade. Não cabe a mim nem a ninguém especular sobre o que realmente aconteceu. Por outro lado, se as acusações contra os responsáveis legais da menina se confirmarem, ficaria me perguntando: “Em que isto diferiria de um aborto”?

Sabe-se que a maioria dos abortos é realizada quando o cérebro do feto já está em atividade (ele sente emoções!), e quando seu coração já está batendo. E se Isabella estivesse ainda na barriga de sua mãe, fosse abortada, e logo em seguida atirada pela janela? Será que causaria a mesma comoção nacional? Lembremo-nos que a menina que foi morta é a mesma Isabella que um dia esteve no ventre de sua mãe…

A verdade é que os valores da nossa sociedade estão invertidos de tal modo que os chamados “direitos reprodutivos” – que muitas vezes não passam de justificativa para a manutenção de comportamentos sexuais desenfreados, até mesmo imorais, e hoje em dia disseminados na sociedade – se tornaram mais importantes que a própria vida humana.

De fato, o ser humano tem impulsos sexuais, que são parte constituinte de sua psique. Porém eles não podem ser priorizados como bem maior a buscar, em detrimento de tudo o mais, inclusive da vida dos outros. Eles devem ser subordinados ao bem comum, podendo até mesmo serem tranqüilamente relegados a um plano secundário, em prol de um ideal de vida, como no caso do celibato dos religiosos.

Mas, para a mentalidade de hoje, negar a supostamente intangível e premente necessidade humana de ter relações sexuais parece ser algo tão execrável que não é sequer cogitado. E muitas vezes, o fruto destas relações (o filho), acaba sendo abortado, após um período difícil de escolha, que deixa marcas para o resto da vida nas mulheres que por ele passam. Um processo em que muitas vezes se decide, infelizmente, pelo mal maior: o fim da vida de um novo ser humano. E assim vai-se passando por cima da vida humana, não sem conseqüências deletérias.

Enquanto a sociedade continuar teimando em não enxergar a realidade do que é um aborto, crianças continuarão sendo vitimadas de maneira similar à pequena Isabella sem merecer sequer uma pequena notinha no jornalzinho do bairro…

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