Introdução

D. ANTONIO DE CASTRO MAYER, per mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Bispo Diocesano de Campos, – Ao Revmo. Clero Secular e Regular, às Revdas. Religiosas, à Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte Carmelo, às Associações Religiosas e de Apostolado, e aos demais fiéis da Diocese de Campos, – saudação, paz e bênçãos em Nosso Senhor Jesus Cristo.

Caríssimos Cooperadores e amados filhos.

Eis-Nos novamente a Nos entreter convosco sobre decisões do Concílio Ecumênico Vaticano II, do qual, apesar da Nossa indignidade, tivemos, pela misericórdia de Deus, a honra de participar. Em 1963, comunicávamos aos Nossos amados filhos a Constituição sobre a Sagrada Liturgia e o Decreto sobre os Instrumentos de Comunicação Social, importantes resultados dos trabalhos conciliares nas duas primeiras fases do Sínodo Ecumênico (cf. “Os Documentos Conciliares sobre a Sagrada Liturgia e os Instrumentos de Comunicação Social” – Ed. Vera Cruz – 1963). Nesta terceira fase, o Santo Padre, gloriosamente reinante, Paulo VI, promulgou três novos atos da magna Assembléia: a Constituição dogmática sobre a Igreja, e os Decretos sobre as Igrejas Orientais e sobre o Ecumenismo.

A colaboração da Diocese para o Concílio
Cumpre-Nos, no entanto, antes de entrar no assunto desta Nossa Instrução Pastoral, exprimir Nosso reconhecimento pela valiosa cooperação que, com vossas orações e boas obras, prestastes aos trabalhos dos Padres Conciliares. Contribuíram elas, certamente, para obter as luzes do Divino Paraclito, indispensáveis ao êxito do grande Sínodo. Continuai, amados filhos, essa vossa eficiente colaboração. Ela é, sem a menor duvida, a mais eficaz que podeis dar para que este Concílio marque na Historia um progresso doutrinário e espiritual, com maior esplendor para a Igreja, Corpo Místico de Cristo.

É-Nos, outrossim, agradável salientar o generoso e solicito auxílio que, habitualmente, Nos presta no governo da Diocese, Nosso muito prezado Vigário Geral, Padre Antonio Ribeiro do Rosario, e que foi particularmente útil durante o período das sessões conciliares, em que a direção da Diocese ficou aos seus cuidados.

Não podemos silenciar também um outro auxilio de que somos devedores aos Nossos caríssimos Padres, o auxilio pecuniário com que procurastes aliviar as despesas que normalmente ocorrem em ocasiões semelhantes.

Eventos lutuosos
Infelizmente, ainda desta vez, aprouve à Providencia enlutar Nosso regresso. Em 1963, tivemos que lamentar a perda de dois zelosos operários da vinha do Senhor plantada nestes rincões fluminenses: o Revmo. Pe. Antonio Gaspar Coutinho e o Revmo. D. Suitberto Stenhard, monge beneditino, foram receber o premio dos muitos anos de ministério nesta Nossa querida Diocese de Campos. Desta vez, pesar muito mais profundo Nos invade a alma.

Os Revmos. Padres Antonio Gaspar Coutinho e D. Suitberto Stenhard terminaram normalmente o currículo terreno, após o ciclo comum de existência regularmente concedido ao homem. Neste ano, no entanto, registramos a trágica morte do Sacerdote diocesano, Mons. Jorge von Letto, roubado por mãos criminosas ao nosso convívio, apos quase seis lustros de trabalho indefesso na baixada fluminense. Ao sufragarmos a bela alma de Mons. Jorge von Letto, apraz-Nos pensar que lá no Céu continua ele com a mesma bondade que o distinguiu na terra, de maneira que estará a impetrar o perdão para seus assassinos, e as graças para as paróquias de São Gonçalo dos Goitacases e São Sebastião de Campos, que ficaram privadas do seu zelo sacerdotal.

Assunto desta Instrução Pastoral
Prestadas as homenagens que Nosso cargo e os anseios de Nossa alma exigiam, venhamos, caríssimos Cooperadores e amados filhos, ao assunto desta Nossa Instrução Pastoral. Como dissemos, três foram os atos do Concilio Ecumênico há pouco sancionados e promulgados pelo Santo Padre, gloriosamente reinante, Paulo VI: a Constituição dogmática sobre a Igreja, o Decreto sobre as Igrejas Orientais e o Decreto sobre o Ecumenismo. Dos três documentos, o mais importante é o que trata da Igreja. Podemos dizer que, entre os esquemas apresentados à consideração dos Padres Conciliares, o esquema "De Ecclesia" ocupava o posto central, com ramificações sobre, praticamente, todos os demais.

A Igreja na economia da Redenção
Aliás, o Mistério da Igreja tem lugar saliente no plano misericordioso com que Deus Nosso Senhor, na sua inefável bondade, Se dignou restaurar o gênero humano, decaído com o pecado de nossos primeiros pais.

Como sabeis, amados filhos, apiedou-Se o Senhor de nossa miséria, e, nos desígnios insondáveis do seu amor, resolveu nossa redenção por meio da obediência, até a morte de Cruz, de seu Unigênito, feito homem nas puríssimas entranhas da Virgem Maria, da qual nasceu em Belém de Judá. A obediência da Cruz satisfez plena e superabundantemente à Justiça Divina, e mereceu para todos os homens a remissão dos pecados e a restauração da filiação adotiva em Jesus Cristo, o Filho Unigênito do Padre Eterno. Ora, esta remissão dos pecados e adoção de filhos e irmãos de Jesus Cristo determinou Deus se fizesse através da Igreja. Por isso, toda a economia da salvação do gênero humano é, na Revelação, relacionada com o Mistério da Igreja.

Importância do conhecimento da doutrina sobre a Igreja
Importante em si mesmo, o conhecimento da Revelação sobre o Mistério da Igreja é, além disso, um antídoto contra a heresia. Como se lê no Catecismo Romano, Santo Agostinho observa que “os Profetas insistiam mais em falar da Igreja do que do próprio Jesus Cristo. Previam que muito maior seria o número de pessoas a errarem e iludirem-se neste ponto, do que a respeito do mistério da Encarnação” (In Ps. 30, 15). Ao texto do Doutor da Graça, tece o Catecismo Romano o seguinte comentário: “Realmente, à guisa do mono que se figura homem, não deixaria de haver ímpios com a pretensão de que só eles são católicos, e com maldosa e soberba afirmação de que só entre eles existe a verdadeira Igreja Católica”. Por tal motivo “escapa facilmente ao tremendo perigo da heresia quem assimila esta verdade com plena convicção. Com efeito, a pessoa não se torna herege só por pecar contra a Fé, mas antes por menosprezar a autoridade da Igreja, e defender obstinadamente suas ímpias afirmações” (Catecismo Rom., Parte I, cap. X).

Exponhamos, pois, a doutrina católica sobre a Igreja, objeto do ensino solene do Concilio Ecumênico Vaticano II, não só para avivar nossa fé e disciplinar nossa vontade, como para nos precaver contra as insidias do demônio, que difunde astuciosamente seus sofismas pelo mundo, no intuito de perder as almas.
CAPÍTULO I

A palavra “Igreja”

Comecemos com a significação da palavra “igreja”. Os latinos a tomaram dos gregos, e de si o termo quer dizer “convocação”. Daí passou a indicar a assembléia composta daqueles que eram convocados. Mais tarde, o uso comum das Sagradas Escrituras levou a reservar a palavra “igreja” para designar o conjunto de todos os fiéis, ou a comunidade dos cristãos católicos que constituem o povo fiel disseminado pelo mundo inteiro (cf. Santo Agostinho, in Ps. 149). É nesta acepção que a tomamos, quando no Credo professamos: “Creio na Santa Igreja Católica”. Em sentidos derivados, o vocábulo é usado para significar o templo ou local onde se reúnem os fiéis, ou também as várias comunidades que integram a Igreja Universal: assim pode falar-se da Igreja da Índia, da Igreja do Brasil, etc.

A Constituição conciliar trata da Igreja no sentido principal. DEla importa-nos muito conhecer a natureza, estrutura e finalidade, porquanto é deste conhecimento que Santo Agostinho afirma que é um antídoto contra as heresias.

A natureza da Igreja de Cristo
A natureza íntima, misteriosa e rica da Igreja foi objeto da pregação continua e explanação variada do Divino Mestre. Desde que Ele iniciou suas caminhadas apostólicas, através das cidades, aldeias e campos da Palestina, jamais deixou de inculcar no espírito do povo a razão de sua vinda: instalar na terra o “Reino de Deus”, ou também o “Reino dos Céus”, expressão que tem o mesmo significado. Aos que se admiravam das expulsões dos demônios e outros milagres operados por sua onipotência, mais de uma vez, aproveitando-Se da atenção maior despertada pelos prodígios, Ele sublinhou a razão por que operava esses portentos: os milagres tinham por fim confirmar no povo a convicção de que o “Reino de Deus” tinha chegado, estava no meio dele: “Se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vos o reino de Deus” (Luc. 11, 20). Ora, este “Reino de Deus” estabelecido por Jesus Cristo no mundo, e que se dilata até os Céus, é a Igreja. De onde, as muitas e formosíssimas parábolas, que dão aos Evangelhos um vivo e amável colorido oriental, só têm uma finalidade: fazer conhecidos os diversos aspectos e fases da Igreja de Cristo.

O redil e o rebanho de Cristo
Assim, é a Igreja comparada a um redil (cf. Jo. 10, 1 ss.), cuja entrada é constituída pelo próprio Jesus Cristo. Em outras palavras, só pode entrar na Igreja quem se entrega a Jesus Cristo, pela adesão da inteligência às verdades reveladas, e da vontade aos preceitos do Senhor. É a Igreja também o rebanho (cf. Jo. 10, 11 ss.), cujo pastor é novamente o próprio Jesus Cristo. Como bom pastor, Jesus Cristo guia, orienta, governa e apascenta suas ovelhas, os fiéis de sua Igreja.

Por estas parábolas, e outras semelhantes, vemos que a Igreja é algo de visível, de distinto, de palpável, como são o redil e o rebanho. A Igreja, portanto, ostenta ao mundo seus contornos precisos, seus Pastores, ou chefes legítimos que a dirigem. E, de fato, se Jesus Cristo Se diz Pastor do rebanho, após sua ascensão é mediante seus Vigários que Ele guia e apascenta suas ovelhas na terra, primeiro São Pedro, constituído por Ele mesmo, depois de sua ressurreição, em seguida os Sucessores de Sâo Pedro, os Papas de Roma.

Estas características da Igreja de Cristo resume o Catecismo na seguinte definição: é a Igreja “a sociedade de todos os cristãos que professam a mesma fé e recebem os mesmos Sacramentos, sob obediência dos legítimos Pastores e principalmente do Papa” (Segundo Catecismo da Doutrina Cristã das Províncias Meridionais do Brasil). A mesma fé, os mesmos Sacramentos, a obediência aos legítimos Pastores são os limites que demarcam o redil de Cristo; a união com o Papa, Vigário de Jesus Cristo na terra, indica os legítimos Pastores do rebanho de Cristo.

Aspecto espiritual e místico da Igreja
A Igreja, porém, não se limita a esses traços externos que a fazem conhecida e a tornam o sinal elevado no meio dos povos a convidar à fé os que não crêem, e a assegurar seus filhos do fundamento firmíssimo da fé que professam (cf. Conc. Vat. I, Sessão III, cap. 3). A indefectibilidade, com que a Igreja, impávida, desafia os tempos e paira acima das ruínas acumuladas pela História, é fruto do princípio interno que Lhe dá unidade, vida e vigor, como a alma que vivifica o corpo e cada um de seus membros. É o lado interior e misterioso da Igreja, também ele objeto de revelação do Divino Mestre em várias parábolas. Entre elas, sobressai a da videira e dos ramos.

A parábola da videira e dos ramos
“Eu sou a videira – disse Jesus Cristo aos seus discípulos e vos sois os ramos. O ramo não pode dar fruto de si mesmo se não permanecer na videira. Assim também vos: não podeis dar fruto se não permanecerdes em mim” (Jo. 15, 5). A sociedade, pois, que Jesus fundou é como uma videira, em que Ele é o tronco e os fiéis os ramos. Videira e ramos, tronco e sarmentos constituem um só ser, e vivem da mesma seiva que circula do tronco para os sarmentos. De onde, para que os ramos tenham vida e frutifiquem devem permanecer unidos ao tronco, e receber dele a seiva vivificadora. Aplicando-se à Igreja: Jesus Cristo é a videira, é o tronco, é a fonte de vida para todos os ramos, os membros da Igreja.

Perguntar-Nos-eis: Como se dá essa união entre os fiéis e Jesus Cristo, de maneira a passarem aqueles a viver da vida própria deste?

Realmente nos não nascemos unidos a Jesus Cristo. Nos nascemos até nos antípodas de Nosso Senhor. Nascemos escravos de Satanás; em nós dominavam o espírito e as máximas do demônio, dominavam nossos pecados. No Batismo, porém, fomos purificados de todas essas manchas, nele morremos ao pecado, e dele ressurgimos com uma vida nova, a vida de Jesus Cristo. De maneira que, no Batismo – a expressão é de São Paulo – fomos enxertados em Jesus Cristo, e assim passamos a viver de sua vida, a participar de sua seiva, como o enxerto vive e se sustenta da raiz do tronco no qual está enxertado e que lhe transmite a seiva vivificante (cf. Rom. 11, 17). Mediante nossa inserção, nosso enxerto, foi-nos transmitido o Espírito Santo, que, passou a habitar em nossas almas e a nelas manter a vida sobrenatural, pela fé e pela graça, que é a vida de Jesus Cristo.

Como vedes, amados filhos, a parábola da videira nos introduz no Mistério da Igreja, sociedade sobrenatural, composta de homens, mas vivificada pelo Espírito Santo, o Espírito de Jesus Cristo que, sendo um só, faz com que a Igreja seja una e única: isto é, tenha internamente uma união íntima e articulada de todos os membros, à semelhança dos corpos vivos como a videira, que, embora com muitos ramos, é uma só videira, uma só árvore; faz outrossim que na terra não possa haver mais do que uma só Igreja de Cristo.

A família de Deus
A parábola da videira dá-nos o sentido profundo da outra expressão com que designamos a Igreja de Cristo, isto é, a família de Deus, porque a Igreja é a família de Deus (cf. Catecismo Rom., Parte I, cap. X; 1 Tim. 3, 15).

Em toda família há muitos membros, distintos uns dos outros, cada um com sua personalidade própria, todos unidos, não obstante, de maneira a formar uma só família. A unidade familiar provém da identidade de origem, de onde jorra o sangue que circula em todos os membros do mesmo lar. Assim, na família de Deus que é a Igreja. Há nEla muitos fiéis, distintos uns dos outros, e por vezes até muito diferentes entre si; todos, porém, entrelaçados uns com os outros de maneira a formar uma só família de Deus. Essa unidade é proporcionada pela graça que de Jesus Cristo se difunde por todos os fiéis, e pelo Espírito Santo, presente na Igreja e em cada um de seus membros.

Em toda família há uma mesa comum, e é na mesa comum, com o alimento de que nela se nutrem, que os membros da família renovam suas energias, conservam e desenvolvem sua vitalidade. Na Igreja há também uma mesa comum, a mesa da Santíssima Eucaristia; e é na Santíssima Eucaristia que os fiéis vão haurir o vigor sobrenatural para conservar a vida da graça e fazê-la frutificar, mediante a assimilação da vida de Jesus Cristo, num esforço continuo de renuncia, austeridade e mortificação que destrua o homem velho, o homem do pecado, e dê lugar ao homem novo, feito à imagem de Deus, na justiça e na verdadeira santidade (cf. Ef. 4, 24).

A mesa eucarística, além do mais, mantém a união de todos os fiéis entre si e com o Divino Salvador, pois, no Sacramento do Altar, o alimento que lhes é oferecido é o próprio Jesus Cristo, que, pela comunhão, reaviva sempre a união existente entre Ele e todos os fiéis, e, nEle e por Ele, a união dos fiéis entre si. São Paulo expressa claramente esta verdade, quando afirma que embora sejamos muitos, formamos um só corpo, nos que participamos do mesmo pão (cf. 1 Cor. 10, 17).

A geração espiritual
A família cresce pela geração de novos filhos. Na família de Deus, há também o crescimento pelo aumento de fiéis, e esse acréscimo se obtém igualmente por uma geração, a geração – ou regeneração – do Batismo, que, como dissemos, nos transmite a vida nova de Jesus Cristo, e nos introduz na família de Deus.

A geração espiritual, no entanto, é uma geração virginal. Os filhos de Deus não nascem da carne, nem do sangue; mas de Deus (cf. Jo. 1, 13), mediante a fé e a caridade infundidas por Deus na alma.

Maria, Mãe da Igreja
No entanto, não quis Deus Nosso Senhor que, na sua família, faltassem aos seus filhos os carinhos e a solicitude materna. Dispôs, por isso, que seu Unigênito, ao entrar no mundo, o fizesse através da maternidade virginal de Maria Santíssima. Semelhante providência instituiu a maternidade de Nossa Senhora sobre toda a Igreja, e sobre cada um dos seus fiéis. São Pio X explana, admiravelmente, tão consoladora verdade: “Deve-se estabelecer o principio – diz ele – de que Jesus, Verbo de Deus feito homem, é ao mesmo tempo Salvador do gênero humano. Em conseqüência, como Deus-Homem, Ele tem um corpo qual os outros homens; como Redentor de nosso gênero, um corpo espiritual, ou, como sói dizer-se, místico, que outra coisa não é que a comunidade dos cristãos unidos a Ele pela fé, ‘embora muitos, somos um só corpo em Cristo’ (Rom. 12, 5)”. Em outras palavras: não podemos separar em Jesus Cristo, o homem e o Redentor, de maneira que a Mãe de Jesus Cristo o fosse do homem, sem o ser do Redentor. Jesus Cristo Se fez homem como Redentor; Ele não Se fez primeiro homem, e depois Se tornou Redentor: e sim, Ele Se fez homem já como Redentor, e isso desde o primeiro instante de sua virginal concepção. “Por isso – continua o Papa – no seio virginal de Maria, onde Jesus assumiu a carne mortal, lá mesmo Ele Se agregou um corpo espiritual, formado de todos os que deviam crer nEle. E pode-se dizer que Maria, trazendo a Jesus em suas entranhas, aí trazia outrossim todos aqueles cuja vida o Salvador já encerrava. Todos, portanto, que unidos a Cristo somos, consoante as palavras do Apostolo, “membros de seu corpo, de sua carne e de seus ossos” (Efes. 5, 30), devemos julgar-nos nascidos do seio da Virgem Maria, de onde um dia saímos, qual o corpo unido a cabeça” (São Pio X, Enc. “Ad Diem Illum”, de 1º de fevereiro de 1904). No mesmo sentido, São Luis Maria Grignion de Montfort explica a maternidade mística, pela qual Maria Santíssima, como Mãe da Igreja, é Mãe de todos os fiéis. É inconcebível, salienta o Santo, uma geração que forme a cabeça e não forme os membros: seria um monstro, e, na ordem da graça, há coisas miraculosas, extraordinárias e sublimes; incompreensíveis mesmo – mas não há coisas monstruosas. De maneira que Maria Santíssima, gerando a Jesus Cristo, Cabeça da Igreja, necessariamente deve ter gerado outrossim o corpo dessa cabeça, ou seja, os fiéis incorporados a Jesus pela fé, professada e praticada. De onde, pela maternidade divina, que a faz Mãe de Deus, Maria Santíssima se torna Mãe de toda a Igreja e de cada um dos fiéis, num sentido real, verdadeiro, sublime, bem que de ordem sobrenatural e, portanto, misteriosa (cf. Tratado da Verdadeira Devoção, cap. I, art. I, segundo princípio).

A função materna de Maria Santíssima na Igreja
A maternidade da Virgem Santíssima na Igreja é continua, ou seja, pede de Maria uma solicitude de todos os instantes: primeiro para que aumente sempre o número dos filhos de Deus; depois, para que a incorporação a Jesus Cristo, uma vez realizada, não só se conserve, senão que se torne sempre mais perfeita. Eis que, na sua função mística de Mãe da Igreja e Mãe dos cristãos, a Virgem Maria está sempre vigilante.

É possível, neste ponto, uma aproximação entre a vida da Igreja e o mistério da vida em Deus Uno e Trino. Como sabemos, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho, é realmente distinta da Primeira, o Pai, como também o é da Terceira, o Espírito Santo. Não obstante, a Escritura nos diz que o Filho permanece no seio do Pai Eterno: “o Unigênito que está no seio do Pai, Ele nos revelará – Unigenitus qui est in sinu Patris, Ipse enarrabit” (Jo. 1, 18). Continua, pois, o Filho no seio do Pai Eterno, apesar de ser Pessoa distinta. Esta permanecia e esta distinção exprimem-nas as Sagradas Letras quando colocam nos lábios do Pai Eterno as palavras dirigidas ao Unigênito: “Filius meus es tu, ego hodie genui te – Tu és meu Filho, eu hoje Te gerei” (Heb. 1, 5). Os exegetas explicam que aquele “hodie – hoje” aí está para indicar que a geração do Filho é perene, é sempre atual, é eterna, de maneira que o Filho Se conserva sempre no seio do Pai Eterno. O passado “genui – gerei” dá a entender que a geração não é imperfeita, incompleta, e sim integra na sua finalidade, dela resultando como conseqüência natural, uma Pessoa perfeita, distinta daquela que a gerou. Aplicando-se a Maria Santíssima: também podemos dizer que Jesus Cristo, em certo sentido, permanece no seio virginal de sua Mãe Imaculada, embora sua geração temporal tenha sido perfeita e Lhe tenha dado a propriedade de homem perfeito, perfeitamente distinto de sua Mãe; porquanto a incorporação dos fiéis a Jesus Cristo é obra que durará até o fim dos tempos. De onde, podemos dizer que Maria Santíssima conserva em seu seio místico a Jesus Cristo para dar-Lhe a plenitude de seu Corpo Místico, só completo e perfeito quando consumado na gloria celeste.

A Igreja, nossa Mãe
Como à Virgem Santíssima, a justo título, como vimos, chamamos de Mãe, Mãe da Igreja, e Mãe nossa, assim igualmente com justiça dizemos que a Igreja é nossa Mãe, nossa Santa Madre Igreja.

Pois, de fato, é na ordem sobrenatural quem nos gera pelo Batismo, quem nos nutre com a Santíssima Eucaristia, quem nos educa com o Evangelho, quem nos forma na caridade do convívio familiar dos filhos de Deus. Por isso dizemos que nos devemos manter no seio da Igreja, a fim de que Ela exerça sobre nos sua solicitude materna.

A ação materna da Igreja e a ação materna de Maria operam juntas. É na Igreja que encontramos a maternidade de Maria, é pela Igreja que Maria atua maternalmente sobre nossas almas, conformando-as à imagem de seu Divino Filho.

As relações entre Maria e a Igreja, nas funções maternas, estão consagradas pela Tradição. “Ambas, sem impureza, conceberam do mesmo Espírito Santo; ambas sem pecado geraram para Deus Pai. Uma, sem pecado, deu ao corpo sua Cabeça; a outra, na remissão dos pecados, deu à Cabeça seu corpo. Ambas são Mãe de Jesus Cristo, mas nenhuma O gera todo, inteiro sem o concurso da outra. Assim é com toda razão que nas Escrituras inspiradas, o que se diz, em geral, da Virgem Mãe que é a Igreja, se compreende também, em particular, da Virgem Maria, e o que é dito, em particular, da Virgem Mãe Maria, entende-se também de modo geral da Virgem Mãe que a Igreja, de sorte que o que é afirmado de uma ou de outra pode-se de ordinário aplicar indiferentemente a uma e à outra”, (Isaac de Stella, Abade de l'Etoile, Sermão 51, apud E. Mersch “Le Corps Mystique du Christ”, tomo I, p. 155 – ed. 1936).

Igreja, Corpo Místico de Cristo
A explanação da maternidade de graça, que relaciona Maria Santíssima com a Igreja e os fiéis, levou-Nos a antecipar algumas observações sobre o Corpo Místico de Cristo. Esta definição, da Igreja, consagrada pela Encíclica de Pio XII, “Mystici Corporis” merece maior desenvolvimento, pois nos auxilia a completar a doutrina sobre as características da Santa Igreja.

Dizendo que a igreja é o Corpo Místico de Cristo, indica São Paulo que hemos de conceber a sociedade instituída por Jesus Cristo à maneira do corpo humano. “Como o corpo escreve o Apostolo – é um todo tendo muito membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também Jesus Cristo” (1 Cor. 12, 12). Com semelhante expressão, São Paulo afirma a unidade interna da Igreja, fruto do Espírito Santo, que vivifica a Igreja inteira e cada um de seus membros, como a alma dá vida ao corpo e aos membros: “Em um só Espírito fomos batizados – continua o Apóstolo todos nós, para formar um só Corpo” (1 Cor. 12, 13). É unidade que não destrói a natureza pessoal de cada fiel, mas os congrega todos pelos laços invisíveis da fé e da graça, de maneira que torna verdadeira e própria a expressão de Jesus Cristo a Saulo, perseguidor da Igreja: “Eu sou Jesus a quem persegues” (At. 9, 5).

A expressão do Apostolo mostra, outrossim, que na Igreja os membros não são iguais, mas que há entre eles diferenças e subordinações, da mesma maneira que no corpo humano todos os órgãos não são os mesmos, e embora todos gozem da mesma dignidade enquanto humanos, sem embargo nem todos têm as mesmas excelências, o que não quer dizer que uns possam menosprezar os outros, porquanto todos são necessários, como necessária é a subordinação entre eles para o bem-estar do todo, e isso segundo o determinou o Criador da mesma natureza.

E tão inata no coração do homem, após a queda, a rebeldia contra as legitimas superioridades, que São Paulo se demora em explicar aos corintios esta verdade. As palavras do Apostolo têm hoje igualmente grande oportunidade, pelo que vamos recordá-las: “O corpo – assim ele – não consiste em um só membro, mas em muitos. (…) Se o corpo todo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se fosse todo ouvido, onde estaria o olfato? Mas, Deus dispôs os membros do corpo, cada um como Lhe aprouve. Se todos fossemos um só membro, onde estaria o corpo? Há, pois, muitos membros, mas um só corpo. O olho não pode dizer à mão: eu não preciso de ti; nem ainda a cabeça aos pés: vos não me sois necessários. Antes, pelo contrário, os membros do corpo que parecem mais fracos, são os mais necessários. E os membros do corpo que temos por mais vis, a esses cobrimos com mais decoro. Os que em nos são menos decentes, recatamo-los com mais decência, ao passo que os membros decentes não têm necessidade de decoro” (1 Cor. 12, 14 e 17-24).

Igualdade e desigualdade na Igreja
Assim, na Igreja somos “o corpo de Cristo, e cada um, de sua parte, é um de seus membros” (1 Cor. 12, 27). Inculca neste passo o Apóstolo – e Nós julgamos conveniente sublinhar – que todos os membros da Igreja têm uma dignidade fundamental, que é a mesma em todos, como filhos de Deus, membros de Jesus Cristo, chamados todos à perfeição. Sob este ponto de vista, não há na Igreja discriminação entre os fiéis, sejam eles “judeus ou gregos, servos ou livres” (cf. Gal., 28), isto é, pertençam a esta ou àquela nação, tenham esta ou aquela condição social.

Ao lado dessa dignidade fundamental, comum a todos os membros da Igreja, que deve, por sua alta excelência, ser por todos reconhecida e respeitada, dispôs Deus uma desigualdade requerida pelas funções e ministérios, indispensáveis num corpo organizado. Semelhantes funções e ministérios importam novas dádivas que são outras tantas excelências, que devem, igualmente, ser reconhecidas e tomadas no devido respeito; como, numa família, sem inveja, antes com amor, todos acatam e veneram a autoridade dos pais, sem que nenhum filho pretenda tomar-lhes o lugar ou usurpar-lhes a dignidade.

Por seu turno, os que foram distinguidos pela Providencia com maiores dons, a fim de exercerem na Igreja funções ou ministérios especiais, não têm razão alguma de menosprezar os demais, consoante a palavra do Apóstolo: “que tens que não recebeste? e se recebeste, por que te vanglorias, como se o não tivesses recebido?” (1 Cor. 4, 7).

A economia da graça, caríssimos filhos, tem o sigilo da harmonia divina. Santo Agostinho afirma que onde há humildade, aí há majestade: “ubi humilitas ibi maiestas” (Serm. 24). Realmente, a majestade só se compreende à imitação de Jesus Cristo, que, apesar de suas prerrogativas divinas, veio ao mundo para servir os homens; assim todas as dignidades na Santa Igreja (o mesmo se diga da sociedade), que, objetivamente, envolvem excelências singulares – o que é preciso reconhecer são de fato constituídas em beneficio da comunidade, como todas as partes do corpo servem ao bem comum do organismo. Além do mais, a escala ascendente dos graus de excelência na Igreja – como em geral na ordem dos seres – induz a alma a um conhecimento menos imperfeito da inefável grandeza de Deus. Tem, pois, outrossim, uma missão pedagógica. São Pio X dava como característica do espírito modernista o desejo de despojar a autoridade religiosa de todo aparato exterior, dos ornamentos pomposos. pelos quais ela se apresenta num como espetáculo. Nisso acrescenta o Papa, esquecem-se os modernistas de que a Religião, se pertence à alma, nela não se confina; e de que as honras tributadas à autoridade redundam em homenagem a :Jesus Cristo, que a instituiu (1).

As riquezas da Igreja de Cristo
São Paulo, em vários lugares, enumera diversas espécies de dons carismáticos com que Deus Nosso Senhor enriqueceu a -sua Igreja, o dom da ciência, o da profecia, o das línguas, o dos milagres, e outros mais (cf., por exemplo, 1 Cor. 12, 28). São chamados graças gratuitas, para indicar que são concedidos em beneficio da Igreja, e não propriamente em beneficio de quem os recebe. Assim, podem existir mesmo em pessoas reconhecidamente pecadoras. Semelhantes dons, o Espírito Santo os distribui segundo seu beneplácito, e temerariamente não os devemos pedir. Aliás, embora sejam concedidos livremente pelo Espírito de Deus, a fim de que na Igreja haja ordem e harmonia em toda a sua atividade ficam eles subordinados às Autoridades Eclesiásticas, que devem julgar de sua autenticidade e regular seu exercício; não podem, no entanto, menospreza-los, mas devem examina-los e aprovar aqueles que são legítimos.

A ação do Espírito Santo, alma da Igreja, não se limita a concessão dos dons carismáticos. Antes, não é principalmente por eles que se exercita na Igreja a ação do Divino Paraclito. Há graças ordinárias, dons comuns, os Sacramentos e os ministérios, que são os instrumentos de santificação com que o Espírito Santo santifica e governa a Igreja, fá-la florescer, renova-a continuamente e conduz à união consumada com o celeste Esposo, Jesus Cristo.

Igreja, povo de Deus
Há ainda uma figura da Igreja no Velho Testamento que convém seja exposta com algum desenvolvimento. É a do povo de Deus.

Como sabeis, amados filhos, Deus Nosso Senhor escolheu a Abrão como germe da nação eleita. Mudou-lhe mesmo o nome para Abraão, a fim de significar que ele seria pai de um grande povo (cf. Gen. 15, 5). E, de fato, estabeleceu o Senhor aliança com a descendência do magno Patriarca, e a ela gradualmente revelou os desígnios de sua misericórdia. Todas estas coisas, no entanto, como ensina São Paulo, eram uma figura da realidade messiânica. O povo eleito preparava a revelação da nova raça eleita, que formariam os fiéis da Igreja de Deus espalhados por todos os recantos da terra.

Semelhanças e diferenças entre o povo eleito e a Igreja
Entre o povo eleito da Antiga Aliança e a Igreja de Deus, há semelhanças e diferenças. Ambos são frutos do amor misericordioso de Deus; com ambos fez o Altíssimo um pacto selado com o sangue de vitimas imoladas em verdadeiro culto ao Senhor. No entanto, ao passo que o povo eleito da Antiga Lei se circunscrevia a uma família, a uma raça, mediante a comunhão do sangue; o novo povo eleito se estende a todas as nações, sem distinção de estirpe, língua ou país; o elo de união entre seus membros não é o vinculo carnal, mas a graça do Batismo. Também o sangue do sacrifício que o constituiu não foi o de bezerros e outros animais irracionais, mas o Sangue Divino do Cordeiro Imaculado, imolado na ara da Cruz (cf. Heb. 9, 15 ss.). Por fim, a existência do novo povo eleito não é efêmera, como foi a do antigo, que deveria ceder lugar à realidade dos tempos messiânicos. A Igreja, o novo povo eleito, pertence à plenitude dos tempos, atravessará os séculos e penetrará na Eternidade. Neste novo povo eleito, dá-se a verdadeira santificação prefigurada nas abluções legais do Velho Testamento.

Universalidade da Igreja
Pode a Igreja ser um “pusillus grex”, de fato é o germe de salvação, de esperança e unidade para todo o gênero humano. Na comunhão de vida, caridade e verdade em que e constituída por Jesus Cristo, torna-se Ela instrumento da Redenção para todos os homens.

A Igreja, com efeito, se destina a todos os povos. NEla todos encontram os meios de salvação e mesmo fatores de prosperidade terrena; porquanto, animada pelo Espírito Santo, Espírito de verdade e Amor substancial de Deus, a Igreja transcende os tempos e os espaços, não está jungida a nenhuma raça ou nação, e por isso vivifica tudo quanto há de bom e belo nos mais variados povos, elevando-os à dignidade de povo cristão.

Prerrogativas do novo povo de Deus
Ao novo povo de Deus saúda-o São Pedro como “a geração escolhida, o sacerdócio real, a gente santa, o povo de conquista para que publique as perfeições de Quem o chamou das trevas à sua luz admirável” (1 Pedr. 2, 9).

O sacerdócio real, excelência comum a todos os membros da Igreja, é o decorrente do Batismo. Este Sacramento, realmente, torna a pessoa sagrada, ungindo-a com o Sangue do Cordeiro sem mancha, e ordenando-a ao culto divino. O sacerdócio real recebido no Batismo, exercem-no os fiéis no uso dos Sacramentos, nas orações, no exemplo de vida cristã, na mortificação, na pratica das virtudes enfim, especialmente da caridade, pois todas estas atividades constituem as hóstias espirituais de que fala São Pedro (cf. 1 Pedr. 2, 5), que devem os fiéis apresentar a Deus Nosso Senhor. Todas estas hóstias, e a si mesmos, oferecem os fiéis em união com Jesus Cristo – hóstia do Novo Testamento – no Sacrifício da Missa, por meio do Sacerdote ministerial, cria-lo pelo Sacramento da Ordem (cf. Enc. “Mediator Dei” de Pio XII, de 18 de dezembro de 1947 – AAS, vol. 39, p. 557)

Diferença entre o sacerdócio comum e o sacerdócio ministerial
Quer o sacerdócio comum dos fiéis, quer o especifico dos Padres são participações do sacerdócio de Jesus Cristo, porém essencialmente diversas. Pio XII os distancia tanto quanto o Batismo separa os fiéis dos pagãos. De fato, o Sacramento da Ordem dá ao homem o poder de agir representando a pessoa de Jesus Cristo para renovar incessantemente o Sacrifício redentor da Cruz, que o Padre oferece em nome do povo fiel. Faculta-lhe ainda perdoar os pecados e formar a “gens sancta”, o sacerdócio real dos fiéis. Este se apresenta, portanto, como fruto do sacerdócio ministerial.

Toda esta doutrina se contém na Encíclica “Mediator Dei”. "Assim como o Batismo – diz Pio XII – distingue os cristãos e os separa daqueles que não foram purificados na água regeneradora e não são, portanto, membros de Cristo, assim o Sacramento da Ordem distingue os Sacerdotes de todos os demais fiéis não ungidos com este carisma, porque só eles, por vocação sobrenatural, foram chamados a este sagrado ministério, que os destina ao serviço do altar e os constitui os instrumentos divinos, por meio dos quais a vida sobrenatural se comunica ao Corpo Místico de Cristo. Além disso, só eles é que são marcados com aquele caráter indelével que os conforma a Cristo Sacerdote, e só as mãos deles é que são consagradas, “para que tudo o que abençoarem seja abençoado, tudo o que consagrarem seja consagrado, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Pont. Rom.). Aos Sacerdotes, pois, hão de recorrer todos quantos desejem viver em Cristo, para deles receberem conforto e o alimento da vida espiritual, o remédio salutar que os cure e robusteça para se levantarem felizmente da perdição e ruína dos vícios, a benção que consagre a sua vida doméstica, a oração que lhes dirija o último alento desta vida mortal para a entrada na eterna bem-aventurança” (Enc. “Mediator Dei” – AAS, vol. 39, p. 539).

O “sensus fidei”
Declara São Pedro que o novo povo de Deus deve publicar as perfeições de Quem o chamou das trevas para sua luz admirável. É a missão que tem a Igreja de, pela fé nas verdades reveladas, pela esperança dos bens futuros e pela caridade para com Deus e os homens, dar ao mundo testemunho vivo de Jesus Cristo. No desempenho de tal missão, goza o povo de Deus da prerrogativa da infalibilidade, quando, sob orientação dos legítimos Pastores, bem que espalhado pelo mundo todo, professa ele unanimemente como reveladas verdades de fé e costumes. Em semelhante caso não pode errar. Age nele o “sensus fidei”, suscitado e mantido pelo Espírito Santo. Testifica ele então uma palavra não humana mas de Deus (cf. 1 Tes. 2, 13).

Variedade na unidade do povo de Deus
O povo de Deus, a igreja de Cristo, casta Esposa do Cordeiro, ostenta variegado adorno, formado pelo colorido multiforme dos vários povos, das muitas Ordens e Congregações religiosas, das diversas Igrejas particulares, com suas tradições, usos e costumes que nelas florescem sem perturbar a unidade visível na mesma fé, nos mesmos Sacramentos, sob obediência do Papa, Bispo de Roma, conservando a mesma caridade no Espírito Santo que torna comuns as riquezas espirituais, os operários apostólicos e mesmo os auxílios materiais, de acordo com a advertência do Príncipe dos Apóstolos: “Cada qual, segundo o dom que recebeu, comunique-o aos outros, como bens dispensadores da multiforme graça de Deus” (1 Pedr. 4, 10).
CAPITULO II

Notas da verdadeira Igreja

O que vimos expondo permite-Nos indicar as características da verdadeira Igreja. Ela é: una, santa, católica, apostólica e romana.

Una, pela unidade de doutrina, de Sacrifício, de Sacramentos e de governo; una pela unidade do Espírito Santo, alma da Santa Igreja; una, outrossim, porque não pode haver outra que seja realmente Igreja de Cristo.

Santa, porque consagrada a Deus Nosso Senhor; santa, porque Corpo Místico de Cristo, que participa da santidade de sua Cabeça; santa, porque somente nEla se encontra o legitimo Sacrifício, e os Sacramentos, canais da graça e da santidade; como corolário destes dons, santa pelo catálogo imenso de almas eleitas que na Igreja subiram aos excelsos graus da santidade, e hoje são nossos intercessores junto ao trono de Deus.

Católica, porque não é limitada a um povo, a uma raça, a uma estirpe, a uma língua ou nação, mas estende-se pelo universo inteiro, destina-se a todos os homens de qualquer região, origem ou condição social; católica, porque não se limita no tempo, mas recebe no seu seio todos os fiéis, desde Adão e os que viveram na esperança do Reino messiânico, até os que existirão no fim do mundo; católica, também, porque necessária a todos os homens: como fora da Arca de Noé ninguém pode fugir ao dilúvio; assim, fora da Igreja ninguém encontra a salvação.

Apostólica, porque, fundada sobre São Pedro, Príncipe dos Apóstolos, e governada por ele e os demais Apóstolos, ainda hoje vive sob o governo de seus legítimos Sucessores; apostólica ainda porque sua doutrina é a mesma que pregaram os Apóstolos, a qual se conserva intacta, sempre igual a si mesma, porquanto não muda, apenas no decorrer dos séculos seu conhecimento mais se aprofunda.

Romana, porque dirigida pelo Bispo de Roma, legitimo Sucessor de São Pedro, sobre quem edificou Jesus Cristo sua Igreja, à qual deu uma estrutura monárquica; pois é o Papa o Chefe da Igreja e, como tal, o sinal e a causa da unidade visível da sociedade sobrenatural, internamente dirigida e vivificada pelo Espírito Santo.

Qualquer igreja que se apresente sem uma apenas dessas notas características, podeis, amados filhos, rejeitá-la porque não é a Igreja de Cristo.

Os pecadores na Igreja
Quando dizemos que a Igreja é santa, não entendemos afirmar que todos os seus membros o sejam. Consoante a doutrina do Divino Mestre, constante de várias de suas parábolas, há nEla bons e maus. É o que significam as comparações tomadas à rede que colhe peixes bons e maus (cf. Mat. 13, 47 ss.), ao, campo onde ao lado do trigo é semeado o joio (cf. Mat. 13, 24 ss.), às dez virgens, umas prudentes, outras doidas (cf. Mat. ~5, '1 ss.). Os elementos maus pertencem à Igreja, desde que conservem a fé e professem obediência aos legítimos Pastores. Habitualmente, no entanto, não gozam da graça de Deus, e por isso são semelhantes aos ramos secos que continuam unidos ao tronco, mas já não têm vida.

O mal introduz-se na Igreja por obra do demônio, segundo mostra a parábola do campo do pai de família, onde o homem inimigo procurou prejudicar a semeadura do trigo, lançando de permeio a cizania (cf. Mat. 13, 24-30, 36-43).

Toda a finalidade do demônio é destruir a obra de Jesus Cristo. Por isso, infiltra-se entre os fiéis, e aí insinua aos poucos seu espírito com intuito de aniquilar nas almas a fidelidade aos ensinamentos do Divino Mestre. Jesus Cristo, muitas vezes, advertiu os Apóstolos, e, na pessoa deles, todos os fiéis, que tivessem cuidado com os falsos profetas (cf. Mat. 7, 15), que se apresentam com peles de ovelhas, mas no intimo são lobos rapaces; e Se opôs aos mercenários que, tidos como pastores, de fato não cuidam das ovelhas, mas entregam-nas às fauces dos lobos (cf. Jo. 10, 11 ss.).

Astúcias do demônio
Um dos artifícios de que faz uso hoje o demônio para conseguir seus desígnios nefandos, é levar os homens a não acreditar na sua existência e atividade. Com razão, no Sínodo Romano, João XXIII adverte os Párocos e encarregados das almas dos fiéis, contra tão hábil astúcia do inimigo de nossa salvação: “Não se julgue, contrariando as palavras do Senhor, que seja falso que Satanás é o ‘príncipe deste mundo’ (Jo. 14, 3Q) e age como tal” (Constit., canon 237).

O papel das heresias na Igreja
Não é preciso dizer que o demônio procura e obtém a colaboração dos homens para a realização de sua obra destruidora. O que se dá no seio da Igreja, como ilustra o Divino Mestre com a cizania crescendo ao lado do trigo, e a História demonstra, por exemplo, com o jansenismo e o modernismo. Os adeptos dessas duas ardilosas heresias jamais quiseram abandonar o grêmio da Igreja, e, uma vez condenados, continuaram sub-repticiamente sua obra diabólica. E que é o chamado progressismo católico senão uma ponta de lança do comunismo no meio dos fiéis? Talvez mais do que em outros tempos, tem hoje atualidade a reza freqüente do exorcismo de Leão XIII contra Satanás e os anjos apostatas. Recomendamo-la vivamente aos Nossos amados filhos.

Não nos enganemos, filhos caríssimos, a salvação eterna é impossível sem uma adesão sincera ao espírito de Jesus Cristo, expresso nas bem-aventuranças, espírito de pobreza, de austeridade, de abnegação, de castidade e obediência. Fora deste espírito, ainda que membros do Corpo Místico de Cristo, não estamos no caminho do Céu.

A existência de bons e maus não impede, no entanto, a santidade da Igreja, que, como vimos, procede de sua alma, o Espírito Santo, de seus meios, os Sacramentos, canais da graça e santidade, e ostenta-se pelos inúmeros varões heróicos na pratica das virtudes.

O crescimento da santidade na Igreja
Também entre os bons, não se julgue que a santidade chegou à sua plenitude. Não. Enquanto a Igreja é peregrina na terra, caminha Ela sempre de ascensão em ascensão, no sentido de sempre melhor se assemelhar a sua Cabeça, Jesus Cristo, seu Divino Esposo. A Igreja, pois, aumenta em santidade, cresce enquanto crescem seus filhos que do estado de pecado se convertem para a vida habitual da graça, e de grau em grau vão tornando sempre mais perfeita a assimilação da vida do Divino Salvador. Vão assim divulgando no mundo pelo exemplo, o espírito de pobreza, abnegação e caridade, com que Jesus Cristo atraiu as multidões à sua seqüela.

Vocação à santidade
O que dissemos sobre a santidade da Igreja é suficiente para vermos que o ingresso na família de Deus importa uma vocação, um chamamento à santidade, que é comum a todos os membros da Igreja, desde os mais altos hierarcas ate o mais obscuro dos fiéis. A todos endereçaa o Divino Mestre a exortação: “Sede perfeitos, como o Pai Celeste é perfeito” (Mat. 5, 48). São, pois, todos os fiéis, sem distinção de estado de vida ou condição social, chamados à santidade. Cada qual se esforce, portanto, por atingi-la, cumprindo a lei de Deus, e exercitando-se nas virtudes, especialmente na caridade, que e o vínculo da perfeição, segundo o estado ou condição de vida em que o colocou a Providência: como eclesiástico ou vivendo no século, casado, solteiro ou viúvo, operário ou empregador, rico ou pobre, nobre ou plebeu. Estejam, pois, os fiéis atentos, de maneira à vigiar seus afetos, não venham a se apegar ao mundo e as riquezas, contra o espírito de pobreza, dificultando o caminho da santidade. Lembrem-se da advertência do Apostolo: “os que se servem deste mundo, sejam como se não se servissem, porque a figura deste mundo passa” (1 Cor. 7, 31).

Dons especiais na ordem da santidade
A maior demonstração da caridade está no martírio – ou seja, a morte violenta aceita pacientemente para conservar a fé ou virtude cristã – no qual há uma imitação mais próxima de Jesus Cristo, que deu sua vida pela salvação dos homens. Embora seja o martírio um dom especial de Deus, não concedido a todos, devem todos os fiéis estar preparados a confessar a Jesus Cristo diante do mundo, até a efusão do próprio sangue, certos de que a graça de Deus não lhes faltará no momento oportuno.

A santidade da Igreja é, outrossim, fomentada especialmente por outro dom de Deus, fonte fecunda de espiritualidade no mundo, a saber, a graça de servir a Deus na virgindade e no celibato, com coração indiviso.

Fora da Igreja não há salvação
Outra verdade que acima apontamos e convém seja mais miudamente explanada é a contida no axioma teológico: “fora da Igreja não há salvação”.

De fato, Jesus Cristo instituiu sua Igreja como meio único de salvação. Semelhante verdade foi prefigurada na Arca de Noé, fora da qual pereceram todos no dilúvio, e também pela dignidade da cidade de Jerusalém, única em que se prestava a Deus o culto verdadeiro.

Depois, Jesus Cristo a revelou explicitamente, quando, enviando os Apóstolos a pregar a todos os povos, declarou: “Quem crer e for batizado será salvo, quem não crer será condenado” (Marc. 16, 16). Com estas palavras impõe o Salvador como condição para a salvação a necessidade do Batismo e da adesão à pregação dos Apóstolos, e é na Igreja que temos o Batismo e a pregação apostólica. De onde, sem a Igreja é impossível a salvação.

Normalmente, a pessoa deve pertencer à Igreja, nEla ingressando pelo Batismo, nEla professando a fé católica, segundo a qual deve viver. Este é o caminho ordinário da salvação. Quando dizemos “ordinário”, queremos significar que fora dele, ainda que a pessoa possa salvar-se, a salvação deve considerar-se mais rara. Mas, mesmo aqueles que não pertencem à Igreja e pela misericórdia de Deus se salvam, só conseguem a entrada no Paraíso mediante uma relação com a Igreja de Cristo. Tal relação é habitual nos catecúmenos que, movidos pelo Espírito Santo, aspiram a ingressar na Igreja, e se preparam para o Batismo. Há ainda uma relação naqueles que, sempre movidos pelo Espírito Santo, mantém no coração um amor sobrenatural a Deus Nosso Senhor, desejosos de realizar tudo quanto Ele prescrever. Tais pessoas, se conhecessem a Igreja de Cristo, certamente nEla entrariam. Conservam, portanto, um desejo implícito de aderir à verdadeira Igreja. Fora destes casos, não há salvação.

Quem vier a conhecer a Igreja de Deus, a Igreja Católica, e a Ela não aderir, dificilmente não se tornará réu em matéria grave, qual a de investigar a vontade de Deus a respeito da verdadeira Religião. Não nos esqueçamos de que Deus a todas as almas dá a graça suficiente para se salvarem. A tanto Ele Se obriga quando declara que quer a salvação de todos os homens, e que ninguém será condenado sem culpa grave. Ora, como o ingresso na Igreja é necessário para a salvação, segue-se que habitualmente Deus Nosso Senhor concede aos homens a graça de vir a conhecer a verdadeira Igreja. Os que, pois, a conhecem e nEla não entram, no comum dos casos indicam uma negligência grave em matéria seriíssima, qual a da própria salvação.

Nossa atitude com os que estão fora da Igreja
O fato de pertencermos à Igreja de Cristo excita em nos um profundo e continuo agradecimento. E ele a maior graça que Nosso Senhor nos concedeu, sem nenhum merecimento de nossa parte. E quando recebemos um beneficio, cuja excelência transcende todas as riquezas e os demais dons da alma e do corpo, é justo que não nos cansemos de agradece-lo à Bondade Divina.

Ele deve, outrossim, encher-nos de temor, porquanto compete-nos fazer frutificar o talento que gratuitamente recebemos, e não temos certeza de tê-lo feito convenientemente. Pode mesmo acontecer que um exame sincero de nossa consciência nos convença do contrario. Pois a vocação à Fé, como vimos, importa em cada fiel um empenho continuo de melhorar a vida cristã pela aproximação sempre maior do Divino Modelo, Jesus Cristo.

Por outro lado, a graça de pertencer à Igreja de Deus não justifica, de modo algum, um desinteresse pelos que a Ela não estão filiados, ou, menos ainda, um desprezo por suas pessoas. Pois são eles também objeto da Bondade Divina. Deus quer a salvação de todos os homens, e a todos persegue com os desígnios de sua misericórdia. Assim, a Tradição considera como preparação ao Evangelho os restos de verdade e bem que sobrevivem nas religiões pagãs. Deles se serve o Espírito Santo para despertar nos corações desses povos anseios de posse integral da verdade e do bem, que só a Revelação proporciona.

O mesmo se dá com as religiões chamadas cristãs, e que se constituíram em virtude de um abandono da Casa paterna. Nelas também a misericórdia de Deus mantém esparsas riquezas – como Sacramentos, sucessão apostólica, Sagradas Escrituras – que pertencem à verdadeira Igreja de Deus, e devem servir como ponto de partida para um retorno ao seio da família.

Este fato traz-nos à memória a parábola do filho pródigo. Nela propõe-nos o Divino Mestre a figura do Pai Celeste, aguardando ansiosamente a volta do filho que abandonou o lar. Eis, caríssimos filhos, os sentimentos que devem animar nossa caridade. Também nos devemos desejar ardentemente o retorno dos filhos da Igreja que a abandonaram, bem como a conversão dos infiéis que jamais a conheceram. Com semelhante intenção afervoremos nossas orações, sacrifícios e obras de apostolado, de acordo com as diretrizes de nossos superiores hierárquicos, a quem compete julgar do modo e oportunidade da ação apostólica, com vistas à conversão dos pagãos e hereges.
Capítulo III

Após temos recordado as notas características da Igreja de Cristo, exponhamos o que a Revelação nos diz sobre os Pastores desta sociedade sobrenatural instituída para a salvação do gênero humano.

A Igreja, sociedade desigual e monárquica
Observemos primeiramente, com São Pio X, que a Igreja “por sua natureza é uma sociedade desigual, isto é, comporta uma dupla ordem de pessoas, os Pastores e a grei, ou seja, aqueles que são colocados nos vários graus da Hierarquia, e a multidão dos fiéis. E estas duas ordens são de tal maneira distintas, que só na Hierarquia reside o direito e a autoridade de orientar e dirigir os associados ao fim da sociedade, ao passo que o dever da multidão é deixar-se governar, e seguir com obediência a direção dos que regem” (Enc. "Vehementer", de 11 de fevereiro de 1906).

Em segundo lugar, notemos que na Igreja os membros da Hierarquia não são eleitos pelo povo; muito menos são mandatários da multidão (cf. Enc. “Mediator Dei”, de Pio XII – AAS vol. 39, p. 538). Os primeiros hierarcas foram constituídos pelo próprio Jesus Cristo, e os atuais são sucessores daqueles numa série ininterrupta. Entre os hierarcas, o Divino Mestre estabeleceu um, São Pedro, como chefe de toda a Igreja, dando a esta, pois, uma estrutura monárquica.

São Pedro, chefe da Igreja
Abrindo os Evangelhos, aprendemos que Jesus Cristo, em Cesaréia de Filipe, ao norte da Galiléia, prometeu a São Pedro Príncipe dos Apóstolos, o governo de sua Igreja. Com efeito, ai encontrando-Se com seus Apóstolos, declarou a Pedro que sobre ele edificaria a igreja: “Tu és Pedro – disse – e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. Não só. Mas completou seu pensamento, prometendo a São Pedro o poder sobre o Reino dos Céus: “Dar-te-ei – acrescentou – as chaves do Reino dos Céus; tudo que ligares na ferra será ligado nos Céus, e, tudo que desligares na terra será desligado nos Céus” (Mat. 16, 18 s.). Em outras palavras, Jesus Cristo declara que dará a São Pedro o poder supremo no seu Reino, ou seja, na sua Igreja. O que prometeu em Cesaréia de Filipe, o Senhor concedeu, após sua ressurreição. Aparecendo aos Apóstolos à 'margem do mar de Tiberiades, ou lago de Genesaret, depois de uma refeição frugal de peixes assados, dirigindo-Se a São Pedro, entregou-lhe Jesus seu rebanho, seus cordeiros e suas ovelhas, para que os apascentasse: “Apascenta meus cordeiros; apascenta minhas ovelhas” (Jo. 21, 15-17), foram as palavras imperativas que ai dirigiu o Divino Mestre ao Príncipe dos Apóstolos. Eis que em vésperas de subir aos Céus, Jesus providência a continuação de sua obra, a Santa Igreja, sob o cajado de Pedro.

O que Jesus realizou entenderam perfeitamente os demais Apóstolos. De fato, no livro dos Atos, Pedro de tal maneira sobressai entre os outros discípulos, que é impossível, a quem lê sem preconceitos, não reconhecer uma supremacia do Príncipe dos Apóstolos sobre toda a Igreja. Mesmo São Paulo, figura central de toda a segunda parte do livro, mostra-se solicito de ver a Pedro e de conferir sua doutrina com a do chefe da Igreja (cf. Gal. 1, 18).

Os Papas, Sucessores de São Pedro
O Poder de São Pedro, no governo da Igreja, passou aos seus Sucessores, como era necessário, uma vez que a Igreja de Cristo deve durar até o fim dos séculos. Semelhante fato é atestado pela Tradição unânime desde os tempos apostólicos. Assim, ainda em vida de São João Evangelista, apesar de todo o prestigio do discípulo amado, é ao sucessor de São Pedro, o Papa de Roma, São Clemente, que a Igreja de Corínfo recorre para obter a solução de uma contenda que a perturbava (cf. Ep S. Clementis Papae I). E nos séculos seguintes, uma série de fatos análogos, e de testemunhos explícitos, mostram o Bispo de Roma governando a Igreja inteira, como sucessor de São Pedro. Este poder do Papa atinge direta e imediatamente tanto os Pastores, como os fiéis, todos e cada um dos Bispos, todos e cada um dos fiéis.

Os Apóstolos, Pastores legítimos sob São Pedro
São Pedro, vimos, era o Príncipe dos Apóstolos. Ele fazia parte do grupo ou colégio dos doze, aos quais Jesus Cristo escolheu entre os seus discípulos, e aos quais transmitiu seus poderes sobre os demônios e as doenças, e enviou a pregar o Reino de Deus (cf. Luc. 9, 1-15). Antes de subir aos Céus, a esses doze, ou seja, aos Apóstolos com São Pedro, transmitiu seu poder de pregar, santificar e governar a Igreja. Eis suas palavras: “Foi-Me dado todo o poder no Céu e na terra: ide, pois, e ensinai a todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo quanto vos mandei; e eis que Eu estarei convosco até a consumação dos séculos” (Mat. ult.).

Como São Pedro, assim os demais Apóstolos têm sucessores no cargo de ensinar, santificar e reger a Igreja, pois que, como se lê no texto acima citado, a missão dos Apóstolos deve durar até o fim do mundo.

Os Bispos, sucessores dos Apóstolos
Como o Papa é o sucessor de São Pedro no governo da Igreja Universal, assim os Bispos são sucessores dos Apóstolos, coma Pastores legítimos da Igreja. Eis que a Tradição atesta que, entre os vários ministérios que na Igreja existiram desde os primeiros tempos, avulta como principal o dos Bispos que por instituição divina são sucessores dos Apóstolos como Pastores da Igreja, aos quais quem ouve, ouve a Jesus Cristo, quem despreza, despreza a Jesus Cristo, e mais, despreza a Quem enviou a Jesus Cristo.

Função dos Bispos
São os Bispos ministros de Cristo e dispensadores dos mistérios de Deus (cf. 1 Cor. 1, 4). Através deles, está Jesus Cristo presente no meio dos fiéis a pregar a todos os povos, a administrar continuamente os Santos Sacramentos, a oferecer o sacrifício da Nova Lei, a inserir no seu Corpo Místico, pela geração espiritual, novos membros, a dirigir e orientar os fiéis na peregrinação terrena em demanda da bem-aventurança eterna.

Para o eficaz cumprimento de missão tão excelsa, concede-lhes o Senhor dons especiais do Espírito Santo na sagração episcopal, na qual recebem a plenitude do sacerdócio, e a participação nos encargos de santificar, ensinar e governar os fiéis.

Relação entre o Papa e os Bispos
As relações entre o Romano Pontífice, cabeça visível da igreja, e os Bispos, legítimos Pastores do rebanho de Cristo, podem exprimir-se nestes termos: os Bispos recebem o poder de governar a Igreja – cada um a sua Diocese – pela missão canônica outorgada pelo Papa, que, dessa maneira, atua a participação no governo concedida pela sagração episcopal. Para governar a Igreja devem os Bispos manter a comunhão com o Romano Pontífice e com os demais Bispos católicos. Os Bispos todos da Igreja Católica, juntamente com o Papa, e nunca em ele, formam o colégio ou corpo episcopal, que sucede ao Colégio dos Apóstolos e, em certo modo, o perpetua. Assim constituído, o corpo ou colégio episcopal tem a suprema e plena autoridade sobre toda a Igreja. Tal plenitude de jurisdição sobre a Igreja Universal o colégio episcopal a adquire pela presença no seu meio do Romano Pontífice, uma vez que, tendo o Papa pessoalmente o poder pleno e supremo na Igreja inteira, sua jurisdição não poderia ficar coarctada pelo fato de se encontrar ele no corpo episcopal. Por isso, o colégio ou corpo episcopal não existe sem o Romano Pontífice, como nenhum corpo existe sem sua cabeça. De onde, jamais pode ele exercer o poder supremo e pleno sobre a Igreja toda, sem o consentimento do Papa. Pelo mesmo motivo, ainda dentro do corpo episcopal conserva o Romano Pontífice a plenitude de seu poder pessoal sobre toda a Igreja, os Pastores e os fiéis.

Portanto, embora exista sempre, o corpo episcopal está longe de executar sempre atos estritamente colegiais. Estes ele os realiza somente quando há consentimento de sua cabeça, isto é, do Romano Pontífice, e de acordo com as normas, as intenções do mesmo Papa, que conserva a liberdade de mudá-las ou mesmo suspendê-las, segundo melhor lhe parecer. Por isso, compete ao Papa a convocação dos Concílios Ecumênicos, não só o ato de convocação, como também a apreciação sobre a conveniência ou não de um Concílio, a determinação de seus trabalhos e a ordem em que devam ser tratados; igualmente é alçada do Papa a interrupção, a aprovação ou não dos trabalhos conciliares. Sem a aprovação do Papa, não há nem pode haver Concílio Ecumênico.

A colegialidade
Eis as condições para que haja um ato estritamente colegial do corpo episcopal, o que acontece especialmente nos Concílios Ecumênicos. Não obstante, mesmo quando não reveste caráter jurídico, a colegialidade episcopal tem real eficácia para manter presente a todos os Bispos a solicitude pela Igreja Universal, particularmente pelas missões entre os infiéis, e hoje em dia pela Igreja do Silêncio que sofre por amor da justiça.

Não exercendo embora nenhum ato jurídico, a comunhão de caridade que anima todo o corpo episcopal levará todos a se empenharem, com auxílios espirituais, morais e materiais, para atender às necessidades da Igreja quer nas missões, quer nas perseguições, quer mesmo em circunstâncias menos dolorosas, mas igualmente deficientes, como são as condições das comunidades católicas destituídas de Sacerdotes suficientes, ou em dificuldades de ordem material. A mesma caridade que anima todos os membros do colégio episcopal entrelaça os Bispos das mesmas regiões no auxilio mutuo para sanar as relativas indigências.

O Bispo na Diocese
A cada circunscrição eclesiástica que constitui uma Diocese preside como chefe um Bispo em comunhão com os demais Bispos católicos da terra, e, sobretudo, em comunhão com o Romano Pontífice e sob a dependência dele. Os Bispos assim distribuídos exercem apenas na própria circunscrição eclesiástica seu poder de apascentar as ovelhas do Senhor, não tendo faculdade sobre outras Dioceses, ou sobre a Igreja Universal.

Na própria Diocese, o Bispo é visível principio e fundamento da unidade da igreja formada à imagem da Igreja Universal, que surge como uma e única do conjunto das igrejas particulares.

O Magistério eclesiástico
Como mestres, devem os Bispos fazer frutificar nas suas ovelhas a pregação da palavra divina, as verdades da Fé e os ' preceitos da Moral, vigiando por que não se infiltrem, entre seus fiéis, erros doutrinários ou morais. Em comunhão com o Romano Pontífice, são eles testemunhas da verdade divina e católica.

O Magistério infalível
Quis Jesus Cristo que sua Igreja gozasse da infalibilidade no ensino das verdades reveladas e em tudo que se torne necessário para a guarda e fiel Exposição do depósito da Revelação. Esta infalibilidade reside pessoalmente no Romano Pontífice, Pastor e Mestre supremo de todos os fiéis, quando em virtude de seu cargo define doutrina atinente à Fé ou à Moral.

De si, o magistério dos Bispos não é infalível. Quando, no entanto, eles, em comunhão com o Papa e entre si, ensinam, como autênticos mestres, matéria relativa à fé e aos costumes, de maneira que, ao ensinar, concordam moralmente todos nos mesmo ensinamento, de fato enunciam infalivelmente uma doutrina revelada. O uso desta infalibilidade é ainda mais patente nos Concílios Ecumênicos, quando, em união com o Papa, agem os Bispos como Doutores e Juizes da Igreja Universal.

O Magistério não infalível
Mesmo ao Magistério eclesiástico não infalível, devem os fiéis reverencia e adesão interna, de acordo com as condições do ensino. Assim, devem receber e admitir obsequiosamente o Magistério supremo do Papa, ainda quando não fale “ex cathedra”, isto é, quando não tenha intuito de definir ou dirimir uma questão. A adesão a tais ensinamentos deve ser interna e leal, e se medirá de acordo com as intenções manifestadas nos mesmos, quer pela índole do documento, quer pela freqüência do ensino, quer pela maneira como é ele ministrado.

Analogicamente – bem que em grau inferior, como explanamos em Nossa Carta Pastoral sobre Problemas do Apostolado Moderno, de 6 de janeiro de 1953, Diretrizes n.º 7 e 8 – é dever dos fiéis acatar, com religiosa submissão, o ensinamento do próprio Bispo, aderindo à sua doutrina, sempre que ensine, em nome de Jesus Cristo, verdades de Fé ou costumes. Tanto mais que os Pastores da Igreja, o Papa e os Bispos, não chegam a um ensina autentico, em nome de Cristo, antes de fazer as convenientes investigações determinadas pela prudência que requerem a gravidade e as conseqüências da própria ação.

O Bispo Pontífice
Como detentor da plenitude do Sacramento da Ordem, é o Bispo o ecônomo da graça do supremo sacerdócio. Compete-lhe orientar a celebração eucarística na Diocese, de acordo com os mandamentos do Senhor e as leis da Igreja, cuja última determinação às condições de seu povo fica ao seu juízo. De onde, pertence ao Bispo dirigir a pregação, a administração dos Sacramentos, a celebração do Sacrifício Eucarístico.

O governo da Diocese
Como vigários e legados de Jesus Cristo, regem os Bispos as igrejas particulares que lhes foram confiadas, com um poder próprio, ordinário e imediato, embora seu exercício seja regulado pela autoridade suprema do Papa, por cujo intermédio, aliás, receberam eles seu poder. Em virtude deste poder, têm os Bispos o direito e o dever sagrado, diante do Senhor, de legislar, de julgar e governar, em tudo quanto se refere ao bem de suas ovelhas, ao culto e ao apostolado. Cuidam os Bispos de tornar mais suave sua jurisdição com o bom exemplo e os bons conselhos.

As ovelhas e o Pastor
Como pastores e moderadores da Igreja devem ser os Bispos honrados pelo povo fiel, com obediência, amor e reverência. A situação singular que têm na Igreja justifica todo o aparato externo que circunda suas pessoas, especialmente nas cerimônias sagradas.

Deve, no entanto, o Bispo, seguir o exemplo de Jesus Cristo, que, Mestre e Senhor, aplaudia os discípulos quando O chamavam por estes nomes indicativos de sua singular superioridade; porém, servia-os humildemente, uma vez que veio para servir e não para ser servido, e para dar a vida pela salvação do mundo (cf. Mat. 20, 28).

Outros graus da Hierarquia
Como graus da Hierarquia sagrada, além dos Bispos, atesta a Tradição os Presbíteros e os Diáconos.

Os Presbíteros
Os presbíteros, ou, como costumamos dizer, os Padres, estão subordinados aos Bispos, no exercício de suas faculdades eclesiásticas. Dos Bispos, no entanto, se aproximam pela excelsa dignidade sacerdotal. Pois o Sacramento da Ordem os assimila a Jesus Cristo, sumo e eterno Sacerdote, e os faz verdadeiros Sacerdotes da Nova Lei, que pregam o Evangelho, apascentam os fiéis e celebram o culto divino.

O ponto culminante do sagrado ministério sacerdotal está na celebração da Santa Missa, quando os Padres assumem a pessoa de Jesus Cristo para realizar o Sacrifício da Nova Lei, que representa, renova e aplica aquele soberano Sacrifício da Cruz, que, uma vez oferecido, causou para sempre a redenção do mundo.

Os Padres, como dissemos, são cooperadores do Bispo; seus auxiliares, e como que órgãos. Com o Bispo formam um presbitério para servir ao povo fiel. Nos lugares onde desenvolvem seu zelo, como que tornam o Bispo presente. No próprio Bispo têm os Padres o pai espiritual, de quem devem se aproximar com confiança e seguir os conselhos. Compete-lhes, aliás, obedece-lo com estima e reverencia, e ajustar-se às suas diretrizes.

De sua parte, trate o Bispo seus Padres como filhos no Senhor, cuja santificação e perseverança deve merecer-lhe especial cuidado.

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