O Rabino chefe de Roma, Israel Zolli se tornou Católico em 13 de Fevereiro de 1945 e para honrar o Papa Pio XII- Eugênio Pacelli – ele tomou como nome de Batismo o nome "Eugênio".

"Eu morrerei numa primeira sexta-feira do mês, às 3 horas da tarde, assim como Nosso Senhor", foi o que teria dito à irmã que cuidava dele durante sua longa doença, uma semana antes de seu falecimento. E de fato tudo ocorreu como ele havia predito: numa sexta-feira do dia 02 de março de 1956, às 2:30 da tarde ele deixou esse mundo. Trinta e cinco anos após a sua morte, a vida e a conversão do Rabino Zolli continuam cobertos por uma cortina de silêncio.

Quase meio século depois de sua conversão ao Catolicismo, Zolli ainda continua provocando ira e embaraço. Como o maior "meshumad"( apóstata voluntário) da história moderna, ele ainda permanece como um verdadeiro anátema para a comunidade judaica de Roma. Quando visitantes à capital italiana trazem à tona o assunto Zolli, os judeus romanos sempre mudam de assunto, visto que ele freqüentemente é tido como "innominable"( inominável). Devido à sua natureza altamente suscetível, a história de Zolli nunca foi adequadamente contada e, em geral, o "Caso Zolli" tem sido tratado pelos acadêmicos como uma verdadeira batata quente.

De volta a 1945, sua conversão era abertamente discutida em círculos judaicos, mas nos dias de hoje, a maioria dos judeus, inclusive aqueles que possuem um profundo conhecimento da história judaica do século XX, nem sequer reconhecem o nome Zolli. No mundo Católico a situação parece ser mais ou menos idêntica. Zolli e sua história de tribulações mereciam um tratamento melhor. ( Judaísmo, "O Rabino batizado de Roma: O caso Zolli", 1986)

Israel Zolli, cujo nome original era Zoller antes dele tê-lo italianizado, era um judeu polonês nascido em Brodji, Galizia, no dia 17 de setembro de 1881. Sua família tinha sido formada na tradição Rabínica por quase quatro séculos e Israel deu prosseguimento à tradição familiar. Em 1920 ele foi nomeado Rabino de Trieste, uma cidade do nordeste da Itália, perto da fronteira Iuguslava, quando essa ainda era parte do Império Austro- húngaro. Ele viveu em Trieste por cerca de 20 anos e era muito estimado por seus talentos como mediador e exegeta. Durante aquele tempo, ele ocupou a cátedra de língua e literatura judaica na Universidade de Pádua.

Em 1940 Israel Zolli foi chamado a Roma para ser o Rabino Chefe. Ele era e sempre foi um homem profundamente religioso, mas também dedicado à pesquisa científica. Ele escreveu em sua autobiografia:

"É em vão que o homem procura fugir de Deus. Isso é o mesmo que querer viver sob uma falsa identidade na ilusão de ser realmente uma outra pessoa."

Passado o perigo da II Guerra Mundial, Zolli se sentiu mais livre para tomar aquela decisão a qual ele tinha meditado por um longo tempo: abraçar a fé Católica. Zolli tinha estado em contato com o jesuíta Paolo Dezza em agosto de 1944, de modo a se preparar para o grande passo que estava por tomar. Ele disse ao Padre Dezza:

"Meu pedido para o Batismo não tem segundas intenções escondidas. Eu quero ser batizado e nada mais. Eu sou pobre. Os nazistas tomaram tudo o que eu tinha. Mas isso não importa. Eu viverei como um homem pobre e morrerei como um pobre. Eu tenho fé na Providência."

Naquele setembro, ele celebrou sua última cerimônia religiosa para a sua comunidade: o Yom Kippur, A Festa da Expiação. Durante a cerimônia, ele imaginou ter visto o vulto de um homem vestido numa túnica branca, que ele alega ter sido Jesus lhe dizendo: – "Você está aqui pela última vez".

O mais curioso é que a mulher e a filha de Zolli também tiveram a mesma visão. E assim veio o tempo. Zolli renunciou ao seu ofício como Rabino Chefe, mas não revelou o motivo para evitar causar tensões inúteis por antecipação.

Seu Batismo foi celebrado privadamente numa pequena capela da igreja romana, Santa Maria dos Anjos. Sua esposa também foi batizada e sua filha, um ano depois. Em gratidão ao Papa Pio XII por seus esforços em proteger os judeus perseguidos, Zolli foi batizado com o nome próprio do Pontífice Romano: Eugênio e sua mulher adicionou Maria ao seu próprio nome.

A família Zolli, que vivia próximo à Sinagoga de Roma perdeu literalmente a paz. Eles eram alvo de insultos e ameaças. Zolli que até há pouco tempo atrás era considerado digno o suficiente para dirigir o Colégio Rabínico, agora tinha se tornado a própria encarnação do demônio. Um jornalista o chamou de "A Serpente" a qual a mais antiga comunidade judaica tinha nutrido em seu seio. Muitos anos depois de sua conversão, a filha de Zolli e a sua netinha nascida logo após a sua conversão, ainda eram alvos de abuso verbal. Naqueles dias turbulentos, a família Zolli viu-se obrigada a se mudar e por um certo tempo ele ficou hospedado na Universidade Gregoriana enquanto sua esposa e filha foram abrigadas num convento.

A conversão de Zolli foi um espinho na garganta do Judaísmo internacional. Segundo o que o próprio Padre Dezza escreveu na revista Civiltá Cattolica em 21 de fevereiro de 1981, Os judeus americanos estiveram na Universidade Gregoriana oferecendo qualquer soma de dinheiro que Zolli quisesse, contanto que ele voltasse para o Judaísmo. Suas visitas foram em vão e idênticas foram as tentativas de alguns grupos protestantes. Eles esperavam que Zolli, um profundo exegeta, pudesse ajudá-los a provar que o Primado Papal não possui nenhuma fundação nas Sagradas Escrituras.

Assim, ao falar da maior conversão do Judaísmo que foi Saulo de Tarso, de quem Zolli era um grande admirador, o ex-rabino chefe de Roma foi capaz de escrever:

"Seria a conversão uma infidelidade à antiga Fé previamente professada? Responder rapidamente sim ou não, não seria justo… Antes de responder, uma pessoa deveria parar e se perguntar a si própria o que é a Fé em si mesma. Fé é uma adesão, não a uma família, tradição ou tribo, nem mesmo à uma nação. Fé é uma adesão de nossas vidas e nossas obras à Vontade de Deus… teria sido Paulo um infiel? Os judeus que estão se tornando conversos hoje em dia, assim como nos dias de São Paulo, têm muito ou tudo a perder em relação à vida terrena. Em contrapartida, têm muito, senão tudo a ganhar em relação à vida da graça." ( Before the Dawn, Eugênio Zolli).

Texto adaptado e traduzido do artigo sobre o livro "30 Days, Not Converted, but fulfilled". Abril – 1991, publicado na Angelus Press.

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