Caríssimos irmãos,
A Paz de Jesus e o amor de Maria.
Tenho um amigo protestante que nos últimos tempos tem se dedicado a estudar a história da Bíblia. A alguns dias, numa conversa, ele me disse que quanto mais estudava, mais se aproximava do ateísmo, e me fez os seguintes questionamentos:
1. COMO SE PODE CONFIAR NA AUTENTICIDADE E INSPIRAÇÃO DIVINA DA BÍBLIA (ANTIGO TESTAMENTO), COM TANTAS ALTERAÇÕES E INSERÇÕES DE COPISTAS?
2. DE QUE MANEIRA A IGREJA CATÓLICA DEFINIU QUE EXATAMENTE ESTES LIVROS QUE COMPÔEM O NOVO TESTAMENTO SÃO OS INSPIRADOS E NÃO OS DEMAIS, JÁ QUE NA ÉPOCA, HAVIA TAMBÉM UM GRANDE NÚMERO DE APÓCRIFOS? NÃO TERIAM SIDO ESCOLHIDOS POR CONVENIÊNCIA?
Obs.: Não tenho problema quanto a isso pois sendo católico, creio na infalibilidade mais que provada da Igreja e, como Santo Agostinho, creio na Bíblia porquê a Igreja me diz para crer.
Mas, como poderia um protestante aceitar tal coisa?
Pelo bem de uma alma que necessita do esplendor da verdade, aguardo vossa resposta.
Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo os abençoe. (Orlando)

Prezado Orlando,

Pax Domini!

Agradecemos por seu email e pelo cuidado e carinho que demonstra pela salvação da alma desse seu amigo protestante! Queira Deus que esse seu apoio possa render bons frutos para o Senhor!

As duas questões que você apresenta são, na realidade, duas faces de uma mesma moeda, vivida por protestantes que querem, com sinceridade, se aprofundar na fé cristã, mas que acaba se lhe revelando perigosíssimo ao extremo, dada a precariedade do fundamento protestante na História da Igreja, mesmo quando se limita apenas à Bíblia.

Ora, o protestante tem, como crença básica, a doutrina da Sola Scriptura. Desta forma, desliga-se por completo da Tradição Apostólica – que também nos transmitiu a Bíblia por inteiro, com os livros e trechos deuterocanônicos do AT – e passa a ter, como única autoridade para si, a própria Bíblia, interpretada conforme o “Espírito Santo lhe dita pessoalmente” ou conforme a sua denominação reconhece (em todo o caso, numa interpretação diferente da interpretação católica e das outras igrejas, quer ortodoxas, quer protestantes mesmo).

Colocando, assim, “a carroça na frente dos bois”, isto é, a Bíblia na frente da Tradição e da própria Igreja, ou melhor ainda, rejeitando por completo a Tradição e a autoridade da Igreja, que lhe são historicamente anteriores, cai o protestante que busca estudar com sinceridade a Bíblia num outro abismo: do fideísmo cai no racionalismo. E então nada mais na Bíblia lhe faz sentido… Não tem como defender o cânon dos livros bíblicos que adota, não encontra a razão da fé na Sola Scriptura (e, de fato, não existe mesmo fundamento bíblico para se crer na Sola Scriptura), começa a titubear desorientado diante das diversas tradições manuscritas, passa a questionar a realidade dos milagres de Cristo e de sua ressurreição e ascensão aos céus etc. E – para piorar as coisas – se por acaso busca apoio em outros irmãos da própria denominação, das três, uma:

1) Só encontrará irmãos simples, que não têm estudo suficiente para entrar numa discussão desse porte; ou

2) Só encontrará irmãos radicais na crença da Sola Scriptura, que o chamarão de “fraco” por “duvidar do conteúdo” da Bíblia, que tem o seu cânon e texto “prontos e acabados” em alguma das “versões de Almeida” (geralmente a “Almeida Corrigida e Fiel” ou a “Almeida Revista e Corrigida”), ameaçando-o com exclusão da igreja; ou

3) Encontrará irmãos que pensam como ele, duvidando do cânon e do texto bíblico, mantendo a rejeição da Tradição e da Igreja, e, a partir daí passará a tentar livrar a Bíblia dos “seus mitos”, como muitos protestantes racionalistas tentam fazer desde o final do século XIX.

Nos dois primeiros casos, a honestidade intelectual ficar-lhe-á cobrando a consciência, até que aceite beber informações de fontes católicas/ortodoxas tradicionais ou, ao contrário, que assuma de vez a terceira possibilidade acima enumerada… Mas, se assumir essa terceira possibilidade, sem ao menos tentar ouvir a posição católica, sua fé cristã estará correndo um risco ainda maior de se perder, parcial ou até completamente.

Repare-se, por exemplo, o Estado do Rio de Janeiro… É o Estado em que houve, censo após censo, um dos maiores crescimentos do protestantismo, quando comparado com outros Estados da Federação. Porém, foi também o Estado do RJ que registrou, no último censo, taxa de crescimento ainda maior – porcentualmente falando – do número dos “sem religião” (15,5%!), que normalmente concentra os ateus, os agnósticos e aqueles que têm uma “fé” toda particular e pessoal. Mera coincidência? Ou total desilusão com a fé anterior, inclusive a evangélica? E por que ocorre justamente no Rio de Janeiro, um dos Estados “mais protestantes” do Brasil? Por que o mesmo não se dá nos Estados tidos por “mais católicos”?

Nos bairros de Santa Cruz e Jacarezinho, por exemplo, que são tidos como os dois mais “evangélicos” do RJ (28,64% e 27,89%), são também os dois maiores redutos dos “sem religião” (19,86% e 23,37%)! Por que isso também não ocorre nos bairros mais católicos (Ilha do Paquetá, Copacabana e Centro)?

Não será, justamente, porque os católicos sabem que devem crer na Igreja (una, santa, católica e apostólica), “fundamento e coluna da Verdade” (cf. 1Tim. 3,15), como recitam todo domingo no Credo desde a Era Apostólica? E quem definiu o cânon da Bíblia senão a própria Igreja Católica, após discutir e discernir, nos quatro primeiros séculos, quais seriam, de fato, os verdadeiros livros inspirados (tanto do Antigo quanto do Novo Testamento) entre tantos livros que então circulavam? E quem pode garantir o teor dos textos bíblicos senão a própria Igreja Católica, que os recebeu dos Apóstolos e os transmitiu para as futuras gerações, inclusive a nossa?

Querer tirar a Bíblia da Igreja Católica, ou querer que a Bíblia seja mãe da Igreja (quando na verdade o correto é o inverso!), só pode mesmo resultar na dúvida para quem estuda a Bíblia com seriedade, em todos os seus aspectos, inclusive na transmissão do texto sagrado… Mas, como você mesmo observa, nós, católicos, cremos na Bíblia, em primeiro lugar, porque a Igreja Católica, fundada por Cristo sobre Pedro, assim o manda e crê. Como nós cremos na autoridade da Igreja, cremos nessa Mãe que nos alimenta desde pequenos e crescemos na fé que ela nos repassa.

Por esse motivo, para responder às suas perguntas – cujas respostas seriam dirigidas ao seu amigo protestante – é necessário que ELE MESMO demonstre querer conhecer o que pensamos a esse respeito e se ofereça para dialogar, para que saibamos AO CERTO o que está lhe afligindo. Desta maneira, sugiro que você aponte a ele apenas algumas fontes:

– Inicialmente, aqui no Veritatis Splendor existem inúmeros textos abordando sobre a formação do cânon bíblico, sua inspiração e transmissão textual. Basta usar a ferramenta de busca existente no topo do site e usar palavras do tipo: cânon, inspiração etc.

– Fora isso, existe o livro escrito pelo prof. Alessandro Lima, “O Cânon Bíblico: a origem da lista dos livros sagrados”, ed. ComDeus, que pode ser de grande auxílio para o seu amigo, caso ele esteja mesmo disposto a se aprofundar no tema.

– Por fim, também temos este canal aberto, o “Fale Conosco”, que ele pode pessoalmente usar para conversar conosco.

Acredite: a melhor coisa a fazer, por ora, não é responder as duas questões acima – porque destas surgirão outras -, mas constatar se esse seu amigo está mesmo disposto a sinceramente nos ouvir e aprofundar no tema. Uma coisa podemos afirmar, sem sombras de dúvidas: nós sabemos a razão da nossa esperança! Oriente-o, pois, e aguardemos.

[]s
Que Deus te abençoe

Facebook Comments

Livros recomendados

Cientistas de BatinaSenhor, Tende PiedadeO Segredo de Maria (Cléofas)