6. A DIGNIDADE DO TRABALHO

Em épocas de prosperidade a palavra mais vezes usada é ?progresso?; em épocas de depressão a palavra mais vezes usada é ?trabalho?. Corre-se, porém, o risco de esquecer hoje em dia a natureza e a dignidade do trabalho, do mesmo modo que em épocas de prosperidade podemos esquecer o objetivo e a finalidade do progresso.

O trabalho não é uma coisa isolada, separada do resto da vida. Economicamente, está ligado ao capital como um co-associado na produção; socialmente, está ligado ao que se chamava contemplação e agora se chama lazer. Espiritualmente está ligado à salvação. A história registra dois erros referentes ao trabalho: o erro dos gregos e o erro dos modernos. São ambos culpados de separarem aquilo que Deus havia reunido e dito ao homem que não separasse: o trabalho e a contemplação. Os gregos desprezaram o trabalho; os modernos desprezaram a contemplação. Essa idéia foi muito bem ressaltada por Etienne Borne e François Henry em seu livro Uma Filosofia do Trabalho, ao qual nos confessamos devedores.

Segundo os gregos, o trabalho não era humano, mas uma necessidade irracional estranha à natureza do homem. Platão, por exemplo, reconhecia a beleza do corpo independente da alma, e a beleza da alma independente do corpo. Mas nunca a beleza de ambos simultaneamente. Dizia que tudo que molesta o corpo, tal como o trabalho, deve necessariamente atingir a alma. Além disso, todo aquele que trabalha por necessidade torna-se incapaz de vir a conhecer a verdade. Também Aristóteles impugnava o trabalho e recusava conceder aos escravos as virtudes da temperança, da justiça e da coragem pelo fato de não gozarem de liberdade. Xenofonte sustentava que ao homem que trabalha com as mãos não lhe sobra tempo para amigos, ou para a cultura do espírito, ou para os afazeres do Estado. Essa desdenhosa atitude para com o trabalho manifestou-se na legislação de Tebas, na qual se decretava que um homem não podia ser investido da magistratura senão dez anos depois de ter abandonado os negócios. Em Esparta a lei proibia a todo e qualquer cidadão fazer carreira em qualquer profissão, o que valia dizer que os trabalhadores não eram cidadãos.

A atitude grega redundou na criação de duas raças de homens: uma raça de escravos e uma raça de contemplativos ou homens livres. Na linguagem de Platão, a república era constituída de duas classes de indivíduos, os sábios e os guerreiros.

Nunca se tratou de colocá-los em pé de igualdade, pois, afirmava ele, a arte de produzir é inferior à arte de gozar. Toda dignidade que possui o escravo ou o trabalhador dimana da dignidade de seu amo, e dele próprio. Numa civilização desse tipo os únicos cidadãos considerados eram aqueles que dispunham do tempo e do lazer para a contemplação. Trabalhar por necessidade era marca de inferioridade, por tornar o homem incapaz de jamais chegar ao conhecimento da verdade. Com efeito, o trabalhador só tomou posse do que é seu com o advento do Cristianismo, quando Jesus Cristo libertou os filhos de Marta sem deixar ao mesmo tempo de glorificar os filhos de Maria.

O outro erro extremo, o do mundo moderno, glorifica o trabalho em detrimento da contemplação. Os antigos desprezavam os trabalhadores; os modernos desprezam os místicos, ou, exprimindo-o de outro modo, os gregos exaltavam o filósofo, os modernos exaltam o trabalhador. Há três etapas no desenvolvimento do pensamento moderno: a) o período da Revolução Religiosa, que desprezava a contemplação e identificava a vida passada em oração com a ociosidade. Sendo o monaquismo atacado, as únicas virtudes dignas do nome eram as virtudes ativas.

Anteriormente, nos tempos da unidade cristã, o trabalho tinha significação porque preparava para o repouso racional; agora o trabalhador é exaltado, não como um elemento positivo, mas simplesmente por não estar em repouso. Segundo a concepção tradicional, a fé e as obras eram inseparáveis, pois ?sem as boas obras a fé é morta?. Agora a justificação só procede da fé; daí ser o trabalho indiferente à salvação. O grande benfeitor da civilização não é o filósofo dos gregos, nem o contemplativo dos cristãos, mas o homem de ação, o trabalhador, pois ?no princípio não era o Verbo?, mas sim ?no princípio era o Trabalhador.?

b) A etapa seguinte ao desenvolvimento do pensamento moderno é a Revolução Industrial, em que a exaltação passa do ?trabalhador? para o ?trabalho?, ou do que é pessoal para o que é mecânico. Foi essa uma transição um tanto natural na época da máquina, pois o industrial não precisava tanto de trabalhadores como do trabalho, isto é, uma espécie de autômato plantado diante das máquinas para conservá-las em movimento. Quando tal aconteceu, começou o trabalho a ser uma utilidade ou uma mercadoria. O trabalhador, que na civilização cristã é uma pessoa, tornou-se então uma coisa – qualquer coisa que se regateia no balcão, como um artigo de ferro-velho ou um saco de batatas. Daí resultou seus salários não serem mais determinados por seus direitos pessoais e por sua dignidade, mas pela lei econômica da oferta e da procura. Se houvesse abundância de trabalho, o salário seria baixo; se houvesse escassez de braços, o salário seria alto.

c) Prepara-se o homem para a sua final desumanização. Divorciado da finalidade de seu trabalho pela Revolução Religiosa; divorciado de sua personalidade pela máquina, nada mais restava a fazer senão deixar que o comunismo, como sempre, levasse o capitalismo ao extremo, completando assim a finai degradação do homem. No comunismo não é o ?trabalhador? que é primordial, nem tampouco o ?trabalho?, mas sim a ?produção?. A diferença entre o ?trabalho? e a ?produção? é que o trabalho considera o indivíduo e a produção, a coletividade. Num tal plano, não resta ao homem nenhuma pretensão: é o Estado quem estabelece o salário que ele receberá, salário que atualmente está tão baixo que Sir Walter Citrine, presidente do Congresso dos Sindicatos Trabalhistas da Inglaterra, diz que os socorridos nos Estados Unidos, França e Inglaterra estão em melhores condições de vida que os trabalhadores da Rússia. Não só o seu salário é fixado pelo Ditador, mas ainda não pode fazer greve para receber maior salário, pois greve é traição e o grevista é fuzilado como inimigo do povo. Fazer greve no regime comunista não é exatamente um crime, é um suicídio. Além disso, se um trabalhador recusa aceitar  o trabalho oferecido pelo Estado, é punido com a privação de trabalho em qualquer outra parte, pois o ?patrão?, sempre o mesmo, está em toda parte. Suas possibilidades de viajar são igualmente limitadas, pois o passaporte determina onde ele deve ir viver. Nem tampouco pode o trabalhador reter para si qualquer propriedade produtiva, isto é, ter um negócio de sua propriedade como marca de sua liberdade e independência. Um trabalhador, Kliniova, de Stalingrado, foi condenado a dez meses de trabalho forçado por ter vendido seis libras de pão.

Note-se que ele não foi condenado por ter roubado o pão, de que provavelmente necessitava, mas por tê-lo vendido. Só o Estado pode vendê-lo.

O Estado Comunista, em vez de proteger os trabalhadores contra a exploração, protege o Estado mediante a exploração dos trabalhadores. Se necessária for alguma outra confirmação oficial de que o que o comunismo defende não é o trabalhador, mas a produção, lembremo-nos da decisão do Nono Congresso Unido da União Soviética: ?As organizações trabalhistas têm como objetivo principal o aumento do rendimento do trabalho, a baixa dos preços como resultado desse rendimento aumentado e a melhoria de sua qualidade.? Nem uma só palavra a respeito do direito do trabalhador a um salário vital.

O art. 126 da Constituição Soviética declara que a finalidade das organizações trabalhistas é ?fortalecer e desenvolver o sistema socialista?. Isto em linguagem pura e simples quer dizer que o homem existe para o Estado, o trabalhador para a produção. Em lugar de trabalharem para uns tantos capitalistas, é o Estado agora quem se torna o supremo capitalista; esvai-se a pessoa humana e torna-se um animal artesão cuja única tarefa é empilhar ainda mais riquezas para o Estado. O homem é, assim, atirado numa faina frenética, sem nenhuma vocação fora da ordem econômica, sem direito algum além dos que lhe dá o Estado, e sem outro interesse que não seja o de aumentar a produção até o dia em que a Rússia puder derrubar seu inimigo, o capitalismo, e tornar-se ela própria tão grande capitalista que ninguém mais possa desafiá-la. No comunismo o trabalho só existe para uma finalidade – ser explorado por alguns oportunistas que abrem caminho à bala para os tronos proletários e lá se instalam como deuses para receberem a adoração forçada de bonecos que outrora eram homens e que, pela graça de Deus e restauração da liberdade, ainda voltarão a ser homens.

A POSIÇÃO CATÓLICA

A História revela dois grandes desvios na conceituação do trabalho: o erro antigo, que o considerava ignóbil, e o erro moderno, que dele faz primeiro uma mercadoria como no capitalismo, e depois propriedade do Estado como no comunismo.

Confinando-nos em nossos tempos, podemos resumir assim seu desenvolvimento: o capitalismo considerava o homem como um ?braço?; o capitalista costumava dizer, por exemplo, que tinha 500 ?braços? em sua fábrica. Esse ?braço? era uma mercadoria negociada com o propósito de lucro. O comunismo, mais tarde, ultracapitaliza o capitalismo ao considerar o homem como um ?estômago? ou como uma máquina viva com quem não se discutem condições, pois faltam-lhes poderes para tanto, e que será alimentado pelo Estado não por motivo de lucro, mas para uma maior produção. O erro fundamental comum a ambos é considerar que o homem existe para o trabalho.

A posição católica é exatamente a contrária: o homem não existe para o trabalho, mas o trabalho é que existe para o homem. Nem o lucro nem a produção são a finalidade do homem, pois, se fossem, estaria o homem sujeito ao lucro como se dá no capitalismo, ou sujeito à produção como acontece no comunismo. Faz-nos isso remontar ao nosso ponto de partida: a crise de nossos tempos é a crise da liberdade. Será o homem libertado, ou continuará ele a ser menos que o lucro, ou que a produção? Jesus Cristo disse que o homem vale mais que o mundo todo.

Significa isso que o direito de um simples homem a uma existência normal, decente e confortável está acima da renda de 2500 por cento de um capital investido na indústria, ou da produção diária de 250 000 tratores para as fazendas soviéticas.

Tal afirmativa é dura, mas no fundo de nossos corações bem sabemos que é verdadeira. Que temos feito durante décadas senão servirmo-nos do homem para a produção? Como nosso visado intento estava na produção e não no homem, logo alcançamos tal objetivo quando passamos a produzir mais do que necessitávamos. Utilizamos o homem para produzir e agora atiramo-lo à rua porque já produziu de mais. Oneramos o povo com impostos para compensar a limitação da produção, fazendo assim os trabalhadores contribuírem à custa de seus salários para o seu próprio empobrecimento. Se fizéssemos a produção existir para o homem em lugar do homem para a produção, não estaríamos morrendo de fome no meio da abundância. Mesmo a tendência atual de controlar a fecundidade da terra ou de atirar ao mar enormes quantidades de cereais, em defesa dos preços altos, quando ainda temos filas de pão, é ainda uma forma da mesma falácia, isto é, o homem existe para o econômico e não o econômico para o homem.

Na posição católica até certo ponto o trabalho é como o alimento – um meio para um fim, e esse fim é a liberdade do homem viver como filho de Deus e herdeiro do Reino dos Céus. Assim como não vivemos para comer, igualmente não viveremos para trabalhar – trabalhamos para viver, não apenas fisicamente como as vacas e os camelos, mas espiritualmente como pessoas dotadas de um intelecto e de uma vontade que buscam a perfeição de sua personalidade naquele para quem foram criadas.

O trabalho é condição para o desenvolvimento de nossa personalidade, porque mediante o trabalho o homem estabelece relações com: 1) Deus; 2) seu próximo, e 3) a natureza. O trabalho é um meio para a salvação de nossas almas, o melhoramento da sociedade e o progresso da civilização.

1. Antes de tudo, o trabalho nos une a Deus; impõe disciplina ao homem não só pelo seu caráter ascético, como pela sujeição de suas paixões inferiores à ordem e à razão; mas há mais do que isso, através da intenção do trabalhador o universo material é reconduzido novamente a Deus. São Paulo nos ensina: ?Tudo é teu, tu és de Cristo e Cristo é de Deus. Tudo é teu?: os rios, os mares, os pássaros e os animais, o ouro e o aço, a terra e suas riquezas. Todas as coisas pertencem ao homem, mas, embora suas, não devem ser aproveitadas para fins egoístas, mas ser usadas como meio de elevá-los, coisas e o homem, a Deus pelo Cristo. O universo é assim uma espécie de andaime por meio do qual o homem galga o Reino dos Céus; é também uma espécie de sacramento – uma coisa material usada como canal da santificação espiritual. As flores e as árvores, o metal e as máquinas são mudas e inarticuladas. As flores não têm outra voz senão o seu perfume e as árvores outra linguagem senão o sussurro de suas folhas. Seus arquejos mudos carecem de espírito e de voz para elevá-los acima de sua materialidade e dar-lhes elocução diante do trono de Deus.

O homem que trabalha, tem-na; quando desce até as entranhas da terra e diz ao ouro: ?Louva ao Senhor? e dele esculpe um cálice para conter o vinho redentor do Calvário, unido está ele a Deus numa das mais nobres orações humanas. O operário de uma fábrica de automóveis que ajunta apenas um parafuso a um maquinismo, pode, se fizer uso de sua vontade converter esse ato numa oração. Se em seu próprio espírito disser: ?Propter te Domine?, terá feito de um pedaço de aço uma oração, e esta sua ação valerá muito mais, para sua salvação, que se transportasse um doente por milhas a fora em nome da ciência. A filosofia católica da vida diz que nem todas as melhores orações são ditas de joelhos; algumas delas são ditas não no trabalho, mas com os trabalhos. E assim como a flor de um jardim pode receber um acréscimo de valor quando colhida com amor para nossa mãe, do mesmo modo uma rua varrida por um trabalhador pode ter um acréscimo de valor quando o serviço é feito por amor de Deus. O gênero de trabalho que fazemos nada tem a ver com o seu valor; seu valor deriva d?Aquele em cujo Nome ele é feito. Um copo d’água fria em Seu Nome recebe a recompensa pelo cêntuplo. O professor em sua carteira, o cientista em seu laboratório não são homens mais nobres, se trabalham pelo salário e pela glória humana, que o engraxate ou o estafeta que fazem suas tarefas não apenas para viver, mas para viver para Deus.

Há no mundo hoje em dia milhões de católicos que fazem exatamente essas coisas, embora ninguém, exceto provavelmente seu confessor, saiba qualquer coisa a esse respeito; por exemplo, datilógrafos que em suas almas murmuram o Divino Nome de Jesus cada vez que põem uma folha de papel na máquina; fundidores de ferro que marcam com os polegares e em suas grandes pás o sinal da cruz; guardasnoturnos que fazem suas rondas recitando o rosário; irmãs de caridade, enfermeiras e médicos nos hospitais que passam a soleira dos quartos para se defrontarem em cada leito de enfermo com o Cristo sofrendo e sangrando sob o disfarce humano; guardas e bombeiros que começam a ronda de seus deveres diários galgando o Calvário, oferecendo sua renovação mística na Missa como uma consagração de seu dia inteiro ao Cristo; mães que alimentam, nutrem e cuidam dos filhos, futuros cidadãos da Igreja e membros da família da Santíssima Trindade, e atletas que elevam o pensamento até à Bem-Aventurada Mãe antes da competição. A litania dos casos históricos poderia assim prosseguir, mas o resto do mundo os ignora, porque esqueceu que o trabalho não é um fim, mas primeiro e antes de tudo um meio para a salvação de nossa alma e a glória de Deus.

2. O trabalho não é apenas o laço que une o homem a Deus; é também o laço que une o homem a outro homem; uma espécie de escola de serviço social, uma base de solidariedade humana, um testemunho da insuficiência do homem sem o seu próximo. O trabalho tem suas raízes sociais na incapacidade do homem de satisfazer suas necessidades só e sem o auxílio de outros. Ao trabalhar com outros o homem ratifica sua dependência social e executa um ato de caridade natural, porque ajuda a criar utilidades para os outros, aumentando assim a felicidade do próximo. O ponto de vista católico, convém notar, acrescenta aqui que o trabalho deve sempre ser usado, não para nos separar do próximo, mas para nos unir a ele.

Não tem razão o comunismo ao dizer que o trabalho é a base do antagonismo de classe, ou que o capital e o trabalho devam ser inimigos para todo o sempre. Isso é tão estúpido quanto dizer que marido e mulher, por terem diferentes funções na vida, devem estar sempre um esganando o outro. O trabalhador e o trabalho do capitalismo são laços que os unem numa empresa comum tendo em vista um fim comum. Assim como o fundidor não pode modelar sem o ferro, de igual modo não pode o capital dispensar o trabalho, nem o trabalho o capital.

Como disse Pio XI: ?A experiência universal nos ensina que nenhuma nação jamais se ergueu da necessidade e da pobreza a uma mais elevada condição social sem o trabalho perseverante de todos os seus cidadãos, tanto empregadores quanto empregados. Não é menos patente, porém, que esses contínuos trabalhos teriam permanecido inúteis, na verdade nunca poderiam ter sido tentados, se não lhes tivesse Deus, o Criador de todas as coisas, em sua bondade, concedido primeiro a riqueza e os recursos na natureza, seus tesouros e suas energias. Que outra coisa, pois, é o trabalho senão a aplicação das forças da nossa alma e do nosso corpo a essas dádivas da natureza para o desenvolvimento de nossas forças por meio delas?

Ora, a lei natural, ou melhor, a vontade de Deus manifestada por ela, exige que a devida ordem seja observada na aplicação dos recursos naturais às necessidades humanas, e essa ordem consiste em cada coisa ter o seu natural possuidor. Segue-se daí que, a menos que o homem aplique o seu trabalho em sua própria propriedade, precisa estabelecer-se uma aliança entre o seu trabalho e a propriedade do próximo, pois um é impotente sem o outro. Era isso que Leão XIII tinha em mente ao escrever: ?O capital não pode dispensar o trabalho nem o trabalho o capital.? É, portanto, inteiramente falso atribuir os resultados de seus esforços combinados só a uma das partes; e é flagrantemente injusto que um venha a negar a eficiência do outro, apoderando-se de todos os lucros.? (Quadragesimo Anno.)

Quanto maior o progresso material de um país qualquer, tanto mais profundo deve ser o seu espírito de boa vizinhança. Boas estradas, telégrafos, rádio, estradas de ferro, automóveis, aviões, navios, devem ser concebidos como outros tantos elos ligando o homem ao seu próximo. O próximo não está mais ali adiante na estrada; está ao alcance do som da voz humana, talvez na outra extremidade da terra. Não deve nesse caso a máquina ser rebaixada como coisa materialista, pois tal não é de sua essência, uma vez que o que nos une mais ao nosso próximo procede da mesma substância daquilo que nos leva a Deus, isto é, o trabalho.

3. Finalmente, o trabalho nos une à natureza. E o faz, ao dar-nos os meios de prolongar o trabalho criador de Deus, e de fazer de cada um de nós, na linguagem de São Paulo, um adjutor Dei. Deus, o supremo Artista, comunicou causalidade artística ao homem, de modo a poder ele agora fazer coisas à sua imagem e semelhança, como Deus o fez à Sua imagem e semelhança. Deus, que tinha o Poder de fazer alguma coisa do nada, deu ao homem o poder de fazer alguma coisa de alguma coisa. Em lugar de encher o mundo com coisas já acabadas e perfeitas, preferiu Deus dar ao homem o poder de desenhá-las e talhá-las. E o fez mediante o duplo dom da matéria-prima e da inteligência. A conjugação de ambos é, no sentido impróprio do termo, a nossa ?criação?. O trabalho, encarado desse ponto de vista, é tão pessoal quanto o ato de viver. A união do homem e da natureza torna-se uma união fecunda, e dela se gera a civilização. Daí, quanto mais nobres os pensamentos e as idéias que o homem imprime à matéria, tanto mais elevada a civilização. Os trabalhadores que usam o cérebro para inventar gases químicos a fim de exterminar o próximo, não criam a civilização, mas o caos. Daí a importância que assumem nossas idéias em virtude de sua repercussão na civilização. É absolutamente falso dizer que nada adianta saber aquilo em que cremos ou pensamos, e que apenas interessa saber como agimos, – porque agimos de acordo com as nossas crenças. Também a natureza se ajusta às nossas crenças.

O modo por que utilizamos a natureza é uma indicação de nosso pensar e do nosso senso dos valores. Uma civilização será melhor por ter mais banheiras do que outra que possui menor número delas, porém maior número de santos? Onde estiver o nosso tesouro, lá estará o nosso coração. Do ponto de vista católico, a melhor civilização é aquela em que o homem coopera com a natureza enquanto produto das mãos de Deus. O Plano Divino da natureza reclama o acabamento humano assim como a Graça Divina no homem reclama a cooperação humana. O trabalho é, então, a redenção da natureza como o Cristo é a redenção do homem e a civilização é o produto de ambos os atos redentores, o remate do ciclo pelo qual a natureza serve ao homem e o homem serve a Deus.

APLICAÇÃO: a) SALÁRIO VITAL; b) LUTA DE CLASSES; c) DESEMPREGO.

Desde que o trabalho é o laço que nos une a Deus, ao próximo e à natureza, fácil é compreender a atitude católica perante três problemas concretos do trabalho.

1. Salário Vital. Por que pleiteia a Igreja um salário vital para o empregado, um salário que seja suficiente para sustentá-lo e à sua família com um conforto razoável? Não certamente para que possa dispor de dois automóveis e das superfluidades da vida, mas para que possa fazer face às necessidades econômicas de modo que sua alma possa estar livre para atingir o fim para que foi criada, tanto neste mundo como no outro. Tal é a primeira aplicação prática do primeiro princípio enumerado acima, que reza que o trabalho é o laço que nos une a Deus.

As vacas são mais bem alimentadas para produzirem mais leite para o corte; o homem, porém, deve ser bem alimentado para ser homem. E que significa ser homem? Ser homem significa ser superior em valor a qualquer outra coisa. O salário existe para o homem; não o homem para o salário. Assim como é difícil ao homem orar quando tem fome, também é difícil ao homem aperfeiçoar-se intelectual e espiritualmente quando privado das comodidades habituais da vida.

Daí a necessidade do salário vital, porque, na linguagem da Igreja, ?os primeiros de todos os bens do homem… são os seus interesses espirituais e mentais. A vida terrena, por melhor e mais desejável em si mesma, não é a ultima finalidade para que foi criado o homem; é apenas o caminho e o meio para a aquisição da verdade e a prática do bem que constitui a plena vida da alma. É a alma que é feita segundo a imagem e semelhança de Deus; é na alma que reside a soberania, em virtude da qual foi o homem chamado a governar as criaturas abaixo dele e a servir-se da terra e de todos os mares em seu benefício e proveito. ?Enche a terra e subjuga-a; reina sobre os peixes dos mares e as aves do céu e sobre todas as criaturas vivas que se movem sobre a terra.?? (Rerum Novarum.) Eis por que a Igreja, ao discutir o problema do salário, das horas e condições de trabalho, evita os dois extremos: o extremo de se interessar tanto pelo destino eterno do trabalhador a ponto de se desinteressar de seu bem-estar temporal; e o extremo de se desinteressar tanto pelo bem-estar temporal do trabalhador a ponto de esquecer seu destino eterno. A Igreja interessa-se por ambos pela simples razão de que o trabalho e o descanso eterno não podem ser separados. Não se desinteressa pelas condições temporais do trabalhador; ao contrário, luta para melhorá-las por amor à liberdade. As necessidades materiais são a condição da espiritualidade. Como disse Santo

Tomás: ?Duas coisas são necessárias ao bem-estar do homem: a primeira e principal consiste em agir virtuosamente; a segunda é ter os bens materiais de que necessita para a prática da virtude.? Os direitos econômicos a uma existência humana decente são, portanto, aos olhos da Igreja, inseparáveis do fim eterno do homem.

2. Luta de Classes. Porque o trabalho nos une ao próximo, opõe-se a Igreja ao comunismo com sua filosofia da violência e da luta de classes. O trabalho por sua natureza não cria oposição, mas unidade, pois os homens que se entregam ao mesmo trabalho exercitam uma função comum. Se, pois, se perguntar por que a Igreja se opõe ao ódio de classes, a resposta será: o trabalho é o fundamento da boa vizinhança. Por isso é que a Igreja pede ao Estado que interfira tanto contra os empregadores cobiçosos quanto contra os violentos organizadores do trabalho.

?…É essencial, nestas épocas da avareza cobiçosa, manter o povo dentro da linha do dever, pois se a todos é dado empenharem-se com justiça, para melhorar sua situação, todavia nem a justiça nem o bem comum permitem, a quem quer que seja, apoderar-se daquilo que pertence a outrem, ou, sob o pretexto de uma igualdade fútil e ridícula, pôr as mãos na fortuna alheia. E bem verdade que a grande maioria dos que trabalham preferem melhorar de vida mediante o trabalho honesto, e não mediante o prejuízo dos outros. Não são poucos, porém, os que estão imbuídos de maus princípios, e ansiosos por uma mudança revolucionária, cujos altos objetivos consistem em provocar tumultos e pôr em execução uma política de violência. A autoridade do Estado deve intervir para pôr um freio nesses perturbadores, para salvar os trabalhadores de suas artimanhas sediciosas e para proteger da espoliação os proprietários legais.? (Rerum Novarum.)

Por termos esquecido a filosofia cristã do trabalho como um laço que nos une a Deus, esquecemo-la ao mesmo tempo como um laço que nos une ao próximo. As grandes invenções, a imprensa, o rádio e os transportes rápidos que deviam ter sido os laços de uma unidade maior, tornam-se o próprio fundamento de nossas discórdias. Assim como todos comungamos na verdade da tábua de multiplicação e, como católicos, comungamos na Verdade do mesmo Credo sem uma sombra de diferença, do mesmo modo devêramos comungar na unidade de nosso progresso material. O fato é que não o fazemos, pois a concepção da extensão foi, desgraçadamente, escreve Douglas Jerrold, fatal à idéia de profundidade. ?Um habitante de Marte que tivesse visitado o nosso planeta pelos fins do século XVIII, faria hoje uma bem diferente idéia dos efeitos do progresso da ciência na difusão da inteligência nestes últimos cem anos. Suporia ele, ao lhe falarem na extensão das comunicações, que as tendências separatistas tão dominantes nos primeiros séculos teriam desaparecido. Ao saber que todos os países civilizados adotaram educação compulsória, imaginaria logo uma ampla difusão da cultura e que um eleitorado educado estaria exigindo novos standards de lógica de parte dos publicistas e novos standards de instrução de parte dos estadistas. Ao saber do reduzido custo da imprensa, de edições dos clássicos a preços populares, e de jornais que levam ao conhecimento de todos, a todas as horas, as últimas notícias dos cinco continentes, contaria encontrar o mundo moderno familiarizado com a arte e a literatura, exigindo os seus mais altos padrões os mais sóbrios e informados julgamentos nos negócios públicos. Finalmente, quando soubesse do desenvolvimento da telegrafia sem fio e da radiodifusão, certamente pensaria que, escassas que fossem as horas de lazer e insignificante que fosse o nosso interesse, haveria de existir, pelo menos, meios de levar ao lar de todas as classes, pelos métodos mais diretos e eficazes, os pormenores de todos os problemas, para desfazer os preconceitos de classe, de partido ou de nação, e para combater e vencer a ignorância.?

?Em todas essas previsões o habitante de Marte ter-se-ia redondamente enganado.

Os problemas da ignorância, da irreligião, de preconceito de classe, ou do ódio entre nações, dentre raças ou entre classes, visíveis na superfície das coisas cem anos atrás, lançaram hoje em dia raízes tão profundas, tão poderosas e tão difusas que ameaçam os próprios alicerces de nossa civilização. A guerra entre nações, primeiro empreendida por Napoleão, reapareceu em nossos próprios tempos para abalar o arcabouço da sociedade e destruir, de fora, o último elo entre a Europa moderna e a grande civilização clássica, que deixou como legado seu à história a concepção de uma soberania supranacional. Enquanto isso, a inveja, nascida da ignorância e fomentada pela cobiça material, ameaça destruir de dentro a sociedade.? [1]

A razão da ruptura da boa vizinhança vem do fato de se haver perdido o denominador comum da verdade e da finalidade do homem. Recusando-nos a reconhecer outra verdade que não uma pura impressão subjetiva e outro objetivo que não seja puramente transitório, aplicamos os recursos e nosso trabalho para fomentar a separação e o alheamento, em lugar de com ele tecermos os laços da unidade e da paz.

3. Desemprego. Por que se opõe a Igreja ao desemprego? Porque o homem tem laços que o prendem a Deus, ao próximo e à natureza, sendo esta última a base da civilização. O homem sem trabalho sente de um modo ou de outro que lhe é recusada a cidadania do exército avançado da civilização e negada a união com companheiros de trabalho que com o seu labor conquistaram o direito ao lazer.

Ganha-se lazer; o desemprego, não. Enquanto não se desvanece completamente o respeito próprio, o homem desempregado sente que não faz parte da civilização em que vive, por não ter para ela contribuído. Aos olhos do católico, o desemprego exige o seu maior tributo não do homem econômico, mas do homem moral; sua maior chaga não é o bolso vazio, mas o coração vazio; s ua tragédia não é a perda do envelope de pagamento, mas de seu direito a ele; o perigo não é que seu corpo venha a definhar, pois não chegará a tanto neste país, mas que o seu espírito venha a morrer por carência de alguma coisa a modelar e tocar com as próprias mãos. O homem sem relações com Deus, com o próximo e com a natureza é um homem desfigurado. Para tudo dizer, ele se transformará num pervertido, que pensará que a sociedade lhe deve uma pensão e que todos os haveres do vizinho lhe foram furtados; bastar-lhe-á então ouvir uma conferência comunista para passar a acreditar na maior das mentiras deste mundo: o trabalhador comunista é livre.

[1] Jerrold, Douglas, The Future of Freedom (London: Sheed and Ward), págs. 84,85.

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