Espaço do Leitor

Os papas gelásio i e gelásio ii negavam a transubstanciação?

Caro Alexandre,

preciso de sua indicação para saber onde encontro texto dos Papas gelásios I e II em favor da Eucaristia.

Digite papa Gelásio e a Eucaristia no Google e veja a farra protestante com esse descuido nosso na defesa de nossa fé.

Aguardo pacientemente sua sugestão.

Grato, e Deus o abençoe.

Fernando Nascimento

Recife-PE

 

Caro Fernando,

 

Resolvi seguir o teu conselho e pesquisei no Google, em português, italiano e inglês, os termos sugeridos. O resultado é bastante interesante conforme abaixo eu explicarei.

 

Primeiramente, permita-me colocar aos demais leitores a controvérsia suscitada por alguns protestantes (surpreendentemente, brasileiros em sua maioria).

 

Afirmam alguns “apologistas” protestantes que tanto o Papa São Gelásio (que reinou de 492 até 496), quanto o Papa Gelásio II (1.118-1.119) negaram a teoria da transubstanciação, apontando esta negativa de ambos os papas como argumentos contra a fé católica. Como era de se esperar, o argumento é falho e não resiste a uma análise mais acurada.

 

Primeiramente, vejamos o caso do Papa São Gelásio.

 

Ao pesquisar na internet, salta aos olhos que os protestantes brasileiros faltam imensamente com a ombridade intelectual que seria necessário de interlocutores minimamente honestos. Há, de fato, um texto deste grande Papa que poderia, numa análise superficial, gerar alguma controvésia. O texto foi escrito na obre Tratactus de Duabus Naturis in Christo, Advrsus Eutychen et Nestorium.

 

Normalmente, esta é a “citação” que os protestantes fazem desta obra: “A natureza dos elementos da Ceia não deixavam de existir depois da benção”.

 

Coloquei o termo citação entre aspas porque, se levássemos a sério o seu significado, não poderia ser aplicado àquilo que você chamou de “farra protestante” acerca da matéria. Faço a tradução do texto completo que encontrei em um site em inglês:

Certamente, o sacramento do Corpo e Sangue do Senhor é algo divino, pelo qual comemos e bebemos da Divina Natureza; ainda que a substancia do pão e do vinho não cessem de existir. E, certamente, a imagem e semelhança do Corpo e Sangue de Cristo são celebradas na ação dos mistérios. (…)Da mesma forma que eles (pão e vinho)passam à substância divina pela operação do Espírito Santo, ainda que mantendo a peculiaridade de suas naturezas, tal é o principal mistério cuja eficácia e virtude eles verdadeiramente representam.”

 

Como você mesmo pode notar, caro amigo, a “citação” dos protestantes acerca deste trecho é bastante reveladora do verdadeiro teor da apologética que eles pretendem fazer, principalmente em nosso país. É uma apologética intelectualemente desonesta e freqüentemente mentirosa.

 

o Papa São Gelásio começa o texto chamando a Eucaristia de “sacramento do Corpo e Sangue do Senhor”, deixando claro (aliás, claríssimo)que, por nela, ambos estão presentes. Convenhamos que esta seria uma forma bastante estranha de se iniciar um texto voltado (como querem os protestantes) à negativa da transubstanciação. Principalmente quando São Gelásio ainda acrescenta que este sacramento é “algo divino” (sendo que, para os protestantes, é meramente um símbolo).

 

E mais, após o trecho que poderia dar um mínimo de sustentação à tese por eles defendida (que analisarei abaixo), São Gelásio ainda afirma que tanto o pão quanto o vinho passam à “natureza divina”.

 

Releia o trecho inteiro, caro amigo, e veja se há algum espaço para qualquer dúvida razoável acerca da crença de São Gelásio na transubstanciação.

 

Quando muito, poder-se-ia acusar este Papa de ter usado uma terminologia equivocada ao dizer que a “substância” do pão e do vinho não cessam de exitir neste divino sacramento do Corpo e Sangue de Cristo. Segundo nos ensina São Tomás de Aquino, após a consagração, ainda que remanesçam os acidentes do pão e do vinho (forma, cor, sabor, odor, etc.), na verdade as espécies consagradas são, verdadeiramente, a carne e o sangue de Cristo.

 

Acusá-lo de negar a transubstanciação é contradizer o que ele efetivamente falou no texto acima.

 

Há que se ter em mente, meu caro amigo, que Papa São Gelásio escreveu este texto para refutar uma heresia cristológica que afirmava ser a humanidade de Cristo totalmente absovida em Sua divindade, razão pela qual ele usou a Eucaristia como metáfora demonstrar o erro desta doutrina. Desta forma, ele não tinha em mente estabelecer doutrinas eucarísticas, mas cristológicas.

 

Por fim, não se podia esperar, em pleno século V, que Gelásio se utilizasse de conceitos eucarísticos (como a diferença entre substância e acidentes das espoécies do pão e do vinho após a consagração)que somente seriam desenvolvidos posteriormente para combater erros doutrinários também ulteriores.

 

No que se refere ao Papa Gelásio II, todos os sites brasileiros que encontrei (e não encontrei nenhum site estrangeiro afirmando que este Papa negaria a transubstanciação), se utilizam, sempre, do seguinte texto: “Gelásio II, anos 1118-19, não aceitava a transubstanciação dizendo: ‘Na eucaristia a natureza do pão e do vinho não cessam de existir e ordenava as igrejas que servissem aos fiéis o vinho e não somente o pão’.

 

De plano, salta aos olhos uma incongruência. O texto confunde aquele que fala com aquele de quem se fala. A primeira parte da citação (“na eucaristia a natureza do pão e do vinho não cessam de existir”)é uma frase atribuída pelos protestantes tupiniquins a Gelásio II (aquele que fala). A segunda parte (“e ordenava as igrejas que servissem aos fiéis o vinho e não somente o pão”)não é, obviamente, uma frase do pontície, mas uma atitude atribuída a ele (de quem se fala).

 

Se todos os sites brasileiros cometem erro tão simplista é porque todos copiaram e colaram da mesma fonte o texto em questão sem sequer citá-la e sem notar a impropriedade em que incorria. O que já basta para desconfiar da idoneidade moral destas citações.

 

Além disto, nenhum dos sites sequer aponta em que escrito de Gelásio II ele teria negado a transubstanciação. É simplesmente impossível checar-se a exatidão do texto e do contexto.

 

Por fim, e dado o fato de que, além dos protestantes brasileiros, ninguém mais no mundo parece conhecer esta citação de Gelásio II, arrisco-me a dizer que todos stes sites estão incorrendo em uma enorme e trágica confusão.

 

Na verdade, a frase atribída a Gelásio II (“na eucaristia a natureza do pão e do vinho não cessam de existir” )é a mesma frase que eles próprios atribúem a Gelásio I. Além disto, a atitude atribuída àquele (“e ordenava as igrejas que servissem aos fiéis o vinho e não somente o pão”)sabe-se que, na verdade, é uma atitude tomada por este.

 

Foi o Papa São Gelásio I quem, para combater a heresia dos maniqueus, ordenou que a comunhão fosse dada aos fiéis sob as duas espécies.

 

Possivelmente, portanto, os protestantes estão cometendo tomando um Gelásio pelo outro…

 

Espero ter ajudado.

 

Alexandre.

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