Crônicas Sociedade

Papa Bento e o jornalismo ideológico

– Bento XVI fez mais pelos cidadãos de Cuba, mesmo os não cristãos, que Lula ou Dilma nas visitas por eles realizadas

O Papa Bento XVI realizou sua 23ª viagem apostólica entre os dias 23 e 28 de março de 2012. México e Cuba foram os destinos do Santo Padre nestes dias e, como é costume, os meios de comunicação ou ignoraram o que o Papa fez nestes países ou simplesmente distorceram os fatos. Em um dos piores e mais desonestos atos de ações para a desinformação, o cartunista de um famoso jornal de divulgação nacional retratou o Papa Bento, essa figura digna e reta, curvando-se a Fidel Castro, homem torpe, assassino e ditador. O jornalismo marrom não se contém em mudar os fatos, reinventa-os. Para o cartunista, o Papa Bento foi a Cuba pedir a bênção àquelas mãos manchadas de sangue. Ainda que os fatos gritem que o Papa tenha ido lá em um ato político e religioso, para minorar o sofrimento daquela parcela do Povo de Deus que é massacrada, violentada e morta pelo comunismo. E falando de política, Bento XVI fez mais pelos cidadãos de Cuba, mesmo os não cristãos, que Lula ou Dilma nas visitas por eles realizadas.

Importa lembrar que o ex-presidente Lull(l)a, quando esteve na ilha dos Castro, desqualificou a morte de um preso político, Orlando Zapata, que faleceu devido à greve de fome. Para o ex-presidente baba-ovo do Chaves, greve de fome de cubano é “deixar-se morrer”. Diferente de greve de fome de “companheiro”, que aí é protesto legítimo. Do mesmo modo e com a mesmíssima cara-de-pau, a Dona Dilma foi a Cuba e pisoteou a “Comissão da Verdade” cubana, fazendo vistas grossas às barbaridades impetradas contra a oposição cubana, que pretende mais liberdade e cidadania.

Para o cartunista brasileiro, porém, em uma reviravolta digna das previsões do Tio Rei (perdoe-me a intimidade, Reinaldo) quem trai os seus é o Papa Bento, que na cabeça deste senhor aparece beijando a mão do assassino de milhares de cristãos, não os recentes presidentes brasileiros, que traíram e traem a causa que elegeram para si, da defesa da liberdade, quando negam esse direito aos cidadãos da autocracia castrista. Mas a verdade é bem outra. O Chefe de Estado que mais fez pelos cubanos que clamam por liberdade foi o Papa. Ele não se limitou em “falar por parábolas”, o que já seria muito útil. Foi direto ao ponto algumas vezes e de modo aberto e claro:

1. Na sua chegada a Cuba, o Santo Padre confia os cidadãos à Mãe de Deus e deseja aos cubanos justiça, paz, liberdade e perdão: “Seguindo o rasto deixado por tantos peregrinos ao longo destes séculos, também eu desejo ir a El Cobre prostrar-me aos pés da Mãe de Deus para Lhe agradecer a solicitude com que cuida de todos os seus filhos cubanos e confiar à sua intercessão os destinos desta amada Nação para que os guie pelas sendas da justiça, da paz, da liberdade e da reconciliação“.

2. Na missa de comemoração pela descoberta da imagem da Virgem da Caridade do Cobre, o Santo Padre lembra que o próprio Deus respeita a liberdade humana. Quem é o homem para dela abusar?: “É comovente ver como Deus não só respeita a liberdade humana, mas parece ter necessidade dela“.

3. Na visita ao Santuário da Virgem do Cobre, Bento XVI rezou explicitamente pelos que estão presos e que estão vigiados. O Papa rezou, sem meias palavras, lembrou dos que estão sofrendo pela perseguição do governo castrista: “Também pedi à Virgem Santíssima pelas necessidades das pessoas que sofrem, por aquelas que estão privadas da liberdade, longe dos seus entes queridos, ou que passam por graves momentos de dificuldade“.

4. Mas principalmente na homilia do dia 28 de março, o Papa Bento XVI indicou os modos em que a liberdade humana se expressa de modo justo e digno: na liberdade de culto e de expressão. Este foi o texto em que o Papa mais citou o tema da liberdade (foram 7 citações). Com efeito, não há nação livre se não há liberdade de religião, lembrou o Papa: “O direito à liberdade religiosa, tanto na sua dimensão individual como comunitária, manifesta a unidade da pessoa humana, que é simultaneamente cidadão e crente, e legitima também que os crentes prestem a sua contribuição para a construção da sociedade“.

Fica claro para qualquer leitor atento que a visita de Bento XVI não se limitou a seus aspectos políticos, mas teve o intuito apostólico. Importa mais que tudo minorar os sofrimentos dessa parcela da Igreja que sofre sem liberdade em uma das ditaduras mais cruéis que se tem notícia recente. No entanto, isso não basta para o jornalismo engajado. Para o jornalista engajado, a verdade não pode ser a regra, o bem do outro não pode ser o objetivo. Mais ainda: o jornalismo ideológico falsifica a notícia, quando ela não é boa para a causa; o jornalismo ideológico ignora a notícia, se ela desfaz os mitos que os militantes levaram anos para construir, a base de mentiras. O jornalismo ideológico não está preocupado com os fatos, mas com a revolução. Representar o Papa submetendo-se a Castro não é uma brincadeira, mas uma peça de propaganda revolucionária. Mesmo que eles nunca admitam. A notícia boa é a seguinte:

A verdade não se constrói com papel e nanquim. Após tantos anos de perseguição e assassinatos, o cristianismo sobrevive aos Castro. Não poderia ser diferente, não é?

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