1. Pecado Original

Catolicismo

O pecado original nos corrompeu, mas não totalmente, e portanto ainda possuímos nossa liberdade, ainda que inclinada ao pecado, de exercer nosso livre-arbítrio. Contudo não podemos obter a salvação que não seja pela graça de Deus. Deus deseja que todos os homens sejam salvos, mas nós podemos escolher se aceitamos ou não esta graça.

Calvinismo

O pecado original nos tornou totalmente corruptos e, portanto, perdemos nossa liberdade. Deste modo nossa salvação depende somente da graça de Deus. Se Ele nos escolher para salvar, então seremos salvos, se Ele não nos escolher, seremos condenados ao inferno.

Toda a diferença entre a doutrina calvinista e católica sobre a salvação remonta a diferentes visões sobre o pecado original. Este termo, pecado original, não aparece na Bíblia, sendo primeiramente usado por Santo Agostinho. Rm 5,19 alude ao pecado original e em outros locais a Escritura fala sobre a fraqueza e corrupção do homem (cf. Gn 6,5; Sl 14,1-3 citado em Rm 3,10-12). Católicos e calvinistas concordam que existe o pecado original, mas discordam acerca do seu impacto sobre o homem. Nós, católicos, cremos que o homem, mesmo que inclinado ao pecado, ainda possui uma liberdade verdadeira. O Catecismo da Igreja Católica explica o efeito do pecado original deste modo:

405 – Embora próprio a cada um, o pecado original não tem, em nenhum descendente de Adão, um caráter de falta pessoal. É a privação da santidade e da justiça originais, mas a natureza humana não é totalmente corrompida: ela é lesada nas suas próprias forças naturais, submetida à ignorância, ao sofrimento e ao império da morte, e inclinada ao pecado (esta propensão ao mal é chamada “concupiscência”).

407 – A doutrina sobre o pecado original – ligada à doutrina da redenção através de Cristo – propicia um discernimento lúcido sobre a situação do homem e da sua ação no mundo. Pelo pecado dos primeiros pais, o Diabo adquiriu uma certa dominação sobre o homem, embora este último permaneça livre.

De outro modo entendem os calvinistas, que crêem que o homem perdeu sua liberdade com o pecado original:

O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso. (CFW 9,3 – ênfases acrescentadas)

Apesar de afirmar a liberdade do homem, a Igreja Católica também afirma que sem a graça de Deus não podemos ser salvos. A necessidade absoluta da graça redentora, apesar da liberdade do homem, é afirmada no CCE da seguinte forma:

1993 – Quando Deus toca o coração do homem pela iluminação do Espírito Santo, o homem não é insensível a tal inspiração que pode aliás rejeitar; e no entanto, ele não pode tampouco, sem a graça divina, chegar pela vontade livre à justiça diante dele.

O livre-arbítrio é demonstrado da forma que segue:

1730 – Deus criou o homem dotado de razão e lhe conferiu a dignidade de uma pessoa agraciada com a iniciativa e domínio de seus atos. “Deus abandonou o homem nas mãos de sua própria decisão (Eclo 15,4) para que pudesse ele mesmo procurar seu Criador e, aderindo livremente a ele, chegar à plena e feliz perfeição. O homem é dotado de razão e por isso semelhante a Deus, foi criado livre e senhor de seus atos.

Veremos mais adiante as bases bíblicas para a afirmação de que o homem permanece livre após a queda.

2. Predestinação

Catolicismo

·    Deus predestina alguns de nós, conhecidos como “os eleitos”, ao paraíso.

·    Deus não predestina ninguém ao inferno, isto é, eles (os reprovados) terminam no inferno devido suas próprias ações más advindas de sua liberdade. O termo descrito para isto é Reprovação Negativa.

·    Predestinação única, pois Deus somente predestina os eleitos.                             

 ·   Os eleitos são os que perseverarão até o final.

 

Calvinismo

·    Deus predestina alguns de nós, conhecidos como “os eleitos”, ao paraíso.

·    Deus predestina os restantes, os reprovados, ao inferno, não lhes dando a graça da salvação. O termo descrito para isto é Reprovação Positiva.

·    Dupla predestinação, porque Deus predestina tanto eleitos quanto reprovados.

·    Os eleitos são cristãos regenerados e estes perseverarão até o fim.

De acordo com a Catholic Encyclopedia, predestinação é o decreto divino pelo qual Deus, no exercício de sua inefável presciência do futuro, determinou e ordenou desde a eternidade todos os eventos que ocorrem no tempo, especialmente aqueles que precedem do, ou pelo menos são influenciados pelo, livre-arbítrio do homem.

Lembrai-vos das coisas passadas há muito tempo, porque eu sou Deus e não há outro! Sim, sou Deus e não há quem seja igual a mim. Desde o princípio anunciei o futuro, desde a antiguidade, aquilo que ainda não acontecera. Eu digo: o meu projeto será realizado, cumprirei aquilo que me apraz. Chamo do oriente uma ave de rapina, de terra distante o homem da minha escolha. Eu o disse, eu o executarei, eu o delineei, eu o cumprirei. (Isaías 46,9-11)

A Bíblia menciona a predestinação dos eleitos em alguns versículos:

Então dirá o rei aos que estiverem à sua direita: ‘vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo’. (Mt 25,34)

Ouvindo isto, os gentios se alegravam e glorificavam a palavra do Senhor, e todos os que eram destinados à vida eterna abraçaram a fé. (At 13,48)

E nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam, daqueles que são chamados segundo o seu desígnio. Porque os que de antemão ele conheceu, esses também predestinou a serem conformes à imagem do seu Filho, a fim de ser ele o primogênito entre muitos irmãos. E os que predestinou, também chamou; e os que chamou, também os justificou, e os que justificou, também os glorificou. (Rm 8,28-30)

Contudo, ao contrário dos calvinistas, os católicos crêem que Deus não predestina ninguém ao inferno (cf. CCE 1037) pois isto contradiz as Escrituras que dizem que Deus ama o mundo (cf. Jo 3,16); que Ele deseja que todos os homens sejam salvos (cf. 1 Tm 2,4); chama ao arrependimento (cf. 2 Pd 3,9); e que Ele não se alegra com a morte dos fracos (cf. Ez 33,11). Certamente Deus não se contradiz. Ele não pode dizer que quer que todos sejamos salvos ao mesmo tempo que predestina alguns ao inferno. Com isso, apesar dos versículos citado abaixo colocarem a preordenação da destruição dos fracos, é pela sua própria falta e abuso da sua liberdade que Deus, através de sua graça, disponibiliza a todos.

Iahweh tudo faz em vista de um fim, e até o ímpio para o dia da desgraça. (Pv 16,4)

Ora, se Deus, querendo manifestar sua ira e tornar conhecido seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, prontos para a perdição, a fim de que fosse conhecida a riqueza da sua glória para com os vasos de misericórdia, preparados para a glória. (Rm 9,22-23)

Nas palavras do CCE:

600 – Para Deus todos os momentos do tempo são presentes na sua atualidade. Ele estabelece, portanto, o seu projeto eterno de “predestinação” incluindo nele a resposta livre de cada homem à sua graça: “De fato, contra o teu servo Jesus, a quem ungiste, verdadeiramente coligaram-se nesta cidade Herodes e Pôncio Pilatos, com as nações pagãs e os povos de Israel, para executar tudo o que, em teu poder e sabedoria, havias predeterminado” (At 4,27-28). Deus permitiu os atos nascidos de sua cegueira a fim de realizar o seu projeto de salvação.

A visão calvinista de que Deus predestina tanto os eleitos quanto os réprobos é afirmada da seguinte forma:

Pelo decreto de Deus e para manifestação da sua glória, alguns homens e alguns anjos são predestinados para a vida eterna e outros preordenados para a morte eterna. (CFW 3,3)

À primeira vista pode ser difícil estabelecer uma diferença entre a reprovação positiva (calvinista) e a reprovação negativa (católica). Se Deus predestina os eleitos ao céu, isto quer dizer que Ele automaticamente predestina os réprobos ao inferno? A melhor ilustração é usar a parábola dos talentos (cf. Mt 25,14-30). Nela, o mestre dá diferentes talentos aos seus servos de acordo com suas habilidades. O servo que recebeu um único talento foi então condenado por sua própria má conduta, isto é, esconder o único talento confiado a ele. Isto mostra o que os católicos querem dizer com Reprovação Negativa. Do outro lado, a Reprovação Positiva calvinista faria com que o mestre desse um talento a um servo, mas negasse um talento ao outro, impedindo que este pudesse investi-lo.

A Igreja Católica ainda não definiu o exato mecanismo da predestinação. Por isso os católicos podem escolher entre vários conceitos de predestinação que incluem o Tomismo (após São Tomás de Aquino), Molinismo (após Luis Molina), Augustinianismo (após Santo Agostinho), Congruísmo e Sincretismo. O site Catholic Encyclopedia traz excelentes textos sobre cada um destes segmentos.

Devido os católicos crerem que os eleitos serão os que perseverarem até o fim (cf. Mt 24,13), somente Deus sabe quem são eles. Somente por revelação especial poderíamos saber quem está entre os eleitos enquanto ainda vivo. Dois exemplos são Dimas, o bom ladrão, a quem Jesus disse que estaria com Ele no paraíso (cf. Lc 23,43) e os setenta e dois (ou setenta) discípulos a quem Jesus disse que os nomes estão escritos no céu (cf. Lc 10,20). O apóstolo Paulo, como exemplo contrário, enquanto ainda estava vivo não sabia se estava entre os eleitos.

Os atletas de abstém de tudo; eles, para ganharem uma coroa perecível; nós, porém, para ganharmos uma coroa imperecível. Quanto a mim, é assim que corro, não ao incerto; é assim que pratico o pugilato, mas não como quem fere o ar. Trato duramente o meu corpo e reduzo-o à servidão, a fim de que não aconteça que, tendo proclamado a mensagem aos outros, venha eu mesmo a ser reprovado. (1 Cor 9,25-27)

A perseverança dos eleitos é demonstrada na parábola dos operários da vinha em Mt 20,1-16. Note que o senhor escolheu os operários (e não o contrário) em diferentes horas do dia. Eles receberiam a mesma recompensa, não importando a hora em que começaram a trabalhar. Com isso, os eleitos são aqueles que perseveram até o fim, enquanto que o tempo que isto vai levar não faz diferença.

Como não podemos saber quem são os eleitos, os católicos confiam na virtude da esperança da salvação. Nas palavras do CCE:

1821 – Podemos esperar, pois, a glória do céu prometida por Deus aos que o ama e fazem sua vontade. Em qualquer circunstância, cada qual deve esperar, com a graça de Deus, “perseverar até o fim” e alcançar a alegria do céu como recompensa eterna de Deus pelas boas obras praticadas com a graça de Cristo. Na esperança, a Igreja pede que “todos os homens sejam salvos” (1 Tm 2,4).

Ser católico não é garantia de salvação:

837 – Contudo não se salva, embora esteja incorporado à Igreja, aquele que, não perseverando na caridade, permanece dentro da Igreja “com o corpo”, mas não “com o coração”.

Isto não surpreende os católicos porque na parábola do joio em Mt 13,24-30 Jesus já previu que até o fim dos dias haverão más sementes entre os filhos do reino.

Em contraste, os calvinistas acham que quando aceitam Jesus e são regenerados, eles são os eleitos e o paraíso está garantido:

Ainda que os hipócritas e os outros não regenerados podem iludir-se vãmente com falsas esperanças e carnal presunção de se acharem no favor de Deus e em estado de Salvação, esperança essa que perecerá, contudo, os que verdadeiramente crêem no Senhor Jesus e o amam com sinceridade, procurando andar diante dele em toda a boa consciência, podem, nesta vida, certificar-se de se acharem em estado de graça e podem regozijar-se na esperança da glória de Deus, nessa esperança que nunca os envergonhará

Esta certeza não é uma mera persuasão conjectural e provável, fundada numa falsa esperança, mas uma infalível segurança da fé, fundada na divina verdade das promessas de salvação, na evidência interna daquelas graças a que são feitas essas promessas, no testemunho do Espírito de adoção que testifica com os nossos espíritos sermos nós filhos de Deus, no testemunho desse Espírito que é o penhor de nossa herança e por quem somos selados para o dia da redenção. 

Esta segurança infalível não pertence de tal modo à essência da fé, que um verdadeiro crente, antes de possuí-la, não tenha de esperar muito e lutar com muitas dificuldades; contudo, sendo pelo Espírito habilitado a conhecer as coisas que lhe são livremente dadas por Deus, ele pode alcançá-la sem revelação extraordinária, no devido uso dos meios ordinários. É, pois, dever de todo o fiel fazer toda a diligência para tornar certas a sua vocação e eleição, a fim de que por esse modo seja o seu coração no Espírito Santo confirmado em paz e gozo, em amor e gratidão para com Deus, em firmeza e alegria nos deveres da obediência que são os frutos próprios desta segurança.  Este privilégio está, pois, muito longe de predispor os homens à negligência. (CFW XVIII,1-3).

Os católicos por outro lado crêem que os que se tornam cristãos podem apostatar da fé, não tendo a garantia infalível de que vão perseverar até o fim. Os seguintes versículos apóiam esta visão:

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Lc 8,3 fala dos que por um momento crêem, mas no momento da tentação, desistem.

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Lc 12,42-46 diz que alguém pode começar como um servo fiel e prudente, mas que pode começar a maltratar os outros servos, comer, beber e se embriagar. Então, quando Jesus voltar, expulsa-lo-á e o fará compartilhar a sorte dos infiéis.

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Jo 15,1-10, em que Jesus diz que Ele é a vinha e nós somos os ramos. Mas se não dermos frutos, seremos jogados fora, como o sarmento, e seca; depois são ajuntados, jogados ao fogo, e queimam. Para darmos frutos devemos permanecer nele e Ele em nós. De acordo com 1 Jo 3,23-24 isto significa que devemos continuar a crer em Jesus e amarmo-nos uns aos outros.

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Rm 11,20-23, onde Paulo diz que os judeus foram cortados da oliveira da graça de Deus por causa de sua incredulidade, e que nós permanecemos nela porque acreditamos. Devemos temer, pois se Deus não poupou os ramos naturais (os judeus), tampouco a ti poupará, ou seja, é possível que nós sejamos cortados da oliveira mesmo após crermos em Jesus.

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1 Cor 15,1-2, onde Paulo adverte que seremos salvos pelo Evangelho se o conservardes tal qual vo-lo anunciei; caso contrário, teríeis crido em vão.

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2 Cor 11,2-3, onde Paulo escreve que aqueles que já conhecem Jesus, assim como a serpente seduziu Eva com a sua astúcia, os vossos pensamentos venham a se corromper.

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Fl 2,12, quando Paulo exorta ao santos de Felipos a trabalharem em sua salvação com temor e tremor, frase que não usaria se tal salvação já estivesse garantida infalivelmente.

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Cl 1,21-23, onde Paulo afirma que os que foram reconciliados para aparecer santos e irrepreensíveis diante de Deus devem resistir sólidos e firmes, sem vos deixardes desviar para fora da esperança do Evangelho que ouvistes.

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Hb  6,4-6, onde Paulo fala dos que uma vez tendo sido iluminados, provaram o dom celeste, partilharam do Espírito Santo, não obstante, recaíram, isto é, apostataram. O fato de que estas pessoas desfrutaram de tais qualidade indica que eles foram verdadeiros cristãos.

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2 Pd 2,20, onde Pedro diz: se aqueles que se libertaram da corrupção do mundo pelo conhecimento de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo se deixam novamente enlear e dominar por elas, seu estado se torna por fim pior do que no início. Portanto, é possível que o cristão perca a salvação.

Os calvinistas geralmente usam os seguintes versículos para apoiar sua crença de que a salvação está garantida uma vez que alguém creia em Jesus:

Todo aquele que o Pai me der virá a mim,

e quem vem a mim

eu não rejeitarei,

pois desci do céu

não para fazer minha vontade,

mas a vontade daquele que me enviou.

E a vontade daquele que me enviou é esta:

que eu não perca nada do que ele me deu,

mas o ressuscite no último dia.

Sim, esta é a vontade de meu Pai:

quem vê o Filho e nele crê

tem a vida eterna,

e eu o ressuscitei no último dia. (Jo 6,37-40)

As minhas ovelhas escutam a minha voz,

eu as conheço e elas me seguem:

eu lhes dou a vida eterna

e elas jamais perecerão,

e ninguém as arrebatará de minha mão. (Jo 10,27-28)

O católico responderia a estes argumentos que é verdade que Jesus não lançaria no inferno aqueles que acreditam nele e que ninguém pode separá-los dele, porém os versículos acima não descartam a possibilidade de que eles possam decidir (usando sua liberdade) deixar Jesus. Além do mais, em Jo 17,12, Jesus afirma: Quando eu estava com eles, eu os guardava em teu nome que tu me deste; eu os protegi e nenhum deles se perdeu, a não ser o filho da perdição, de sorte que se cumpriu a Escritura. Deus-Pai deu os doze apóstolos a Jesus e de acordo com Jo 6,37 eles vieram até Jesus e Ele não os resistiu, a não ser Judas, que o traiu.

3. Graça

Catolicismo

·   Sem a graça de Deus não podemos ser salvos.

·   Deus dá a Sua graça a todos.

·   Usando nossa liberdade, podemos aceitar ou rejeitar esta graça. Os que a aceitam podem perdê-la mais tarde.

Calvinismo

·  Sem a graça de Deus não podemos ser salvos.

·  Deus dá a Sua graça apenas aos eleitos.

·  Os eleitos não podem rejeitar esta graça.

Os católicos entendem a graça (cf. CCE 1996) como um favor, um auxílio gratuito que Deus nos dá para responder ao seu chamado de nos tornamos Filhos de Deus, filhos adotivos (cf. Jo 1,12), parceiros da natureza divina e da vida eterna (cf. 2 Pd 1,4). Os católicos fazem diferença entre graça atual e graça santificante:

2000 – A graça santificante é um dom habitual, uma disposição estável e sobrenatural para aperfeiçoar a própria alma e a tornar capaz de viver com Deus, agir por seu amor. Deve-se distinguir a graça habitual, disposição permanente para viver e agir conforme o chamado divino, e as graças atuais que designam as intervenções divinas, quer na origem da conversão, quer no decorrer da obra da santificação.

Enquanto Deus é confere uma parcela generosa de Sua graça aos eleitos (cf. Ef 1,7-8), existem bases bíblicas que demonstram que Deus confere Sua graça também a todos.

Pois de sua plenitude

todos nós recebemos

graça por graça.

Porque a Lei foi dada

por meio de Moisés;

a graça e a verdade

vieram por Jesus Cristo (Jo 1,16)

Com efeito, a graça de Deus se manifestou para a salvação de todos os homens. (Tt 2,11)

Segundo o Catecismo da Igreja Católica:

836 – Todos os homens, pois, são chamados a esta católica unidade do povo de Deus, que prefigura e promove a paz universal. A ela pertencem ou são ordenados de modos diversos os fiéis católicos, quer os outros crentes em Cristo, quer enfim todos os homens em geral, chamados à salvação pela graça de Deus

Em contraste, os calvinistas afirmam que Deus confere Sua graça somente aos eleitos:

Quanto àqueles homens malvados e ímpios que Deus, como justo juiz, cega e endurece em razão de pecados anteriores, ele não somente lhes recusa a graça pela qual poderiam ser iluminados em seus entendimentos e movidos em seus corações, mas às vezes tira os dons que já possuíam, e os expõe a objetos que a sua corrupção torna ocasiões de pecado; além disso os entrega às suas próprias paixões, às tentações do mundo e ao poder de Satanás: assim acontece que eles se endurecem sob as influências dos meios que Deus emprega para o abrandamento dos outros. (CFW 5,6)

Para os católicos, podemos receber a graça de Deus através: 1) dos sacramentos celebrados dignamente na fé, conferem a graça que significam (CCE 1127); 2) da oração, dom da graça e uma resposta decidida da nossa parte (CCE 2725).

Os católicos crêem que o homem no exercício de sua liberdade pode mesmo rejeitar esta graça. O fundamento encontramos em At 7,51, quando Estevão diz aos que o acusavam que eles sempre resistiam ao Espírito Santo. Na parábola do banquete nupcial (Mt 22,1-14) os convidados rejeitaram o convite e os que o aceitaram podem ser expulsos se não trajarem a veste nupcial. Nas palavras do Catecismo Católico:

1993 – Quando Deus toca o coração do homem pela iluminação do Espírito Santo, o homem não é insensível a tal inspiração que pode aliás rejeitar; e no entanto, ele não pode tampouco, sem a graça divina, chegar pela vontade livre à justiça diante dele.

Os que recebem a graça podem perdê-la quando, utilizando seu livre-arbítrio, escolhem fazê-lo (veja a parte 2, com os fundamentos sobre a possibilidade do homem de cair e perder a graça). Podemos perder a graça se cometermos pecados mortais. Enquanto que a Bíblia diz que o salário do pecado é a morte (cf. Rm 6,23), ela claramente diferencia entre pecados mortais e pecados veniais (não-mortais).

Se alguém vê seu irmão

cometer um pecado que não conduz à morte,

que ele ore

e Deus dará a vida a este irmão,

se, de fato, o pecado cometido

não conduz à morte.

Existe um pecado que conduz à morte,

mas não é a respeito deste

que digo que se ore.

Toda iniqüidade é pecado,

mas há um pecado

que não conduz à morte. (1 Jo 5,16-17)

Perdida a graça, nós podemos reavê-la, como mostrada na parábola do filho pródigo em Lc 15,11-32. O filho pródigo, que escolheu abandonar seu pai, foi considerado morto, mas depois se arrependeu e retornou à sua casa.

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