– “O que vêm a ser ‘livros canônicos’ e ‘livros apócrifos’?” (Maria Telles – Niterói-RJ).

A terminologia “livros canônicos” e “livros apócrifos” tomou no séc. XVI as suas modalidades hoje vigentes. Percorramo-las brevemente:

“Cânon” (em grego, “kanón”) significava “medida, norma”; e, por extensão, “catálogo, índice, registro”. A partir do séc. IV, aplicou-se o vocábulo ao catálogo dos livros inspirados por Deus no Antigo e no Novo Testamento.

Dos “livros canônicos” (isto é, “catalogados”) ou “inspirados por Deus”, era preciso, na antiga Igreja, distinguir outros que, embora tivessem grande semelhança de estilo com as Escrituras Sagradas, eram obra meramente humana, por vezes edificante, por vezes herética ou fantasista. Para estes livros se reservou o título de “apócrifos” (“apókryphoi”, em grego), isto é, “ocultos, não lidos no culto público oficial” (embora fossem lidos em caráter particular); tais eram a “Ascensão de Isaías”, o “Evangelho de Pedro”, o “de Nicodemos”, os “Atos de Tomé”, os “de Paulo com Tecla” etc.

No séc. XVI introduziu-se entre os teólogos católicos a distinção meramente terminológica entre livros “protocanônicos” e “deuterocanônicos”. Ela se deve a Sixto de Sena (1520-1569), judeu que, uma vez batizado, se tornou franciscano e depois dominicano. Este autor, na sua “Bibliotheca Sancta”, chamou “protocanônicos” (em grego “primeiramente [introduzidos] no cânon”) os livros sobre cujo valor inspirado nunca se registraram dúvidas; e “deuterocanônicos” (isto é, “em segundo lugar [inseridos] no cânon”) aqueles escritos que só depois de hesitações foram oficialmente recenseados no catálogo bíblico. Como se vê, a distinção significa apenas diferença cronológica, de modo nenhum implicando menor autoridade ou menor grau de inspiração para os “deuterocanônicos”.

Entre os deuterocanônicos, contam-se, além dos sete livros do Antigo Testamento não incluídos no cânon palestinense (Baruque com a epístola de Jeremias, Tobias, Judite, 1° e 2° dos Macabeus, Sabedoria. Eclesiástico), os sete seguintes escritos do Novo Testamento: a epístola aos Hebreus, a de São Tiago, a 2ª de São Pedro, a 2ª e a 3ª de São João, a de São Judas e o Apocalipse. As hesitações sobre o valor de tais livros dos Apóstolos eram devidas principalmente aos abusos que desses documentos faziam os hereges; prolongaram-se nesta ou naquela região até os séc. IV/V. Em 393, porém, o concilio regional de Hipona (África Setentrional) definia o catálogo dos livros sagrados, incluindo nele tanto os protocanônicos como os deuterocanônicos do Antigo e do Novo Testamento. Esta declaração foi repetidamente inculcada pelo Magistério da Igreja nos séculos subsequentes até os nossos dias.

Os Protestantes, não reconhecendo os livros deuterocanônicos do Antigo Testamento, usam de outra nomenclatura, que vai abaixo confrontada com a dos católicos:

– Católicos: Livros protocanônicos, deuterocanônicos, apócrifos;

– Protestantes: Canônicos (apenas), apócrifos, pseudoepígrafos;

“Pseudoepígrafos” significa “falsos títulos” ou livros falsamente intitulados, falsamente atribuídos a tal ou tal homem de Deus (Henoque, São Tomé, Nicodemos…).

De onde se vê que, no concernente ao termo “apócrifos” em particular, se requer especial atenção: quando os Protestantes falam de “apócrifos”, referem-se a livros que na verdade são inspirados por Deus; o mesmo não se dá quando é um católico que usa tal vocábulo.

Mais precisamente, eis as razões porque no início da era cristã foi posta em dúvida a canonicidade de sete escritos do Novo Testamento:

– A epístola aos Hebreus era, nos séculos II/III, falsamente utilizada por rigoristas (Montanistas e Novacianos), os quais, apelando para Hebreus 6,4, afirmavam haver pecados irremissíveis. Os defensores da fé, em vez de refutar o erro propondo a genuína exegese do texto, às vezes preferiam negar a índole inspirada da Epístola aos Hebreus;

– O Apocalipse também era explorado por hereges, os quais do Capítulo 20 deduziam que, entre a segunda vinda de Cristo e a consumação da História, haverá na terra um reino glorioso do Senhor, protraído durante mil anos. Em consequência, alguns autores ortodoxos, visando tirar a autoridade ao texto mal interpretado, negavam ser São João o autor do Apocalipse; outros, simplesmente excluíam este livro do catálogo bíblico;

– A epístola de São Tiago, principalmente em 2,14-26 (inculcando a inutilidade da fé, sem as boas obras), parecia contradizer a Romanos 3,27-28; 4,1-5 (o primado da fé sobre as obras, expresso em linguagem paulina…), pelo quê alguns cristãos duvidavam da origem divina da carta de São Tiago;

– A 2ª epístola de São Pedro, e a 2ª e a 3ª de São João são documentos breves, que não apresentam doutrina característica e raramente eram citadas;

– A carta de São Judas, citando no seu versículo 14 o fantasista livro “de Henoque” [=apócrifo], parecia a alguns leitores pouco fidedigna.

  • Fonte: Revista Pergunte e Responderemos nº 6:1957 – out/1957
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