A “sola scriptura”, isto é, a Bíblia como a única fonte de fé, e o “livre exame”, interpretação individual da Bíblia, constituem os pilares da reforma protestante.

Eis os três cavalos de batalha do reformador Lutero: a justificação pela fé sem as obras; a Bíblia como única fonte de fé, interpretada segundo o livre exame do crente; a negação de intermediários (a Igreja) entre Deus e o crente.


Como tudo que é mentira se contradiz por si mesmo, não é diferente com o protestantismo: para conferir a si mesmo, este “pontificado” na interpretação da Escritura a seu bel prazer, ele então lança a doutrina do livre exame; mas o mais interessante é que este mesmo homem que afirma que todo crente é capaz de interpretar corretamente a Bíblia, disse: “Quem não crê como eu é destinado ao inferno. Minha doutrina e a doutrina de Deus são a mesma. Meu juízo é o juízo de Deus” (Weimar, X, 2 Abt, 107)

Outra grande contradição do livre exame é afirmar que o crente, de forma individual, tem a assistência do Divino Espírito Santo, que o ilumina para uma correta interpretação das Escrituras; mas como pode haver tantas interpretações diferentes? O Espírito Santo está mentindo ou existem muitas verdades? E já no tempo de Lutero havia tantas ramificações que ele próprio disse: “Há tantos credos quantas cabeças há”.

Mais uma vez é notória a intenção do reformador: o grito de independência contra a autoridade constituída por Deus para ensinar a Palavra de Nosso Senhor. Semelhante ao que fizeram Adão e Eva, que desobedeceram a Deus porque quiseram ser como Ele; semelhante ao que fizeram os anjos rebeldes que bradaram contra Deus o grito de “Não servirei”; igual a isto fez Lutero, rebelando-se contra o Papa, querendo usurpar sua cátedra, e teve ele o mesmo destino destes primeiros rebelados: os anjos revoltados perderam o paraíso celeste; Adão e Eva o paraíso Terrestre; e Lutero, o que perdeu? Perdeu a pátria da Santa Madre Igreja.

Continuando vemos a “Sola Scriptura”, tão pregada por Lutero, isto é, tudo o que eles crêem está na Sagrada Escritura. Por isso, não é de se estranhar que o protestantismo tenha se formado mil e quinhentos anos depois de Jesus, porque, como sabemos, nos primeiros anos da Igreja os apóstolos anunciavam oralmente tudo o que Jesus os havia ensinado e que o Espírito Santo os recordou; só depois escreveram.

A Palavra de Deus não é a Bíblia, mas Ela está na Bíblia; a Palavra de Deus é Jesus, o Verbo que se faz carne. Muito pequeno seria um Deus que coubesse em alguns livros, por isso é muito racional entendermos que a fonte da fé não é exclusivamente a Sagrada Escritura, e sim, de forma pertinente, compreendermos que a fonte da fé está em três pilares: a Sagrada Escritura, a Sagrada Tradição, e o Sagrado Magistério.

É correto afirmar que tudo o que está na Bíblia é verdade? Claro, mas seria absolutamente absurdo e irracional dizer que toda a verdade está na Bíblia. A própria Bíblia nos fala claramente isto. São João, o último evangelista a escrever o Evangelho, disse: “Jesus fez, diante dos seus discípulos, muitos outros sinais ainda, que não se acham escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para crerdes que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que crendo, tenhais a vida em seu nome” (Jo 20,30s); e ainda: “Há muitas outras coisas que Jesus fez e que, se fossem escritas uma por uma, creio que o mundo não poderia conter os livros que se escreveriam” (Jo 21,25). Isso confirma que os apóstolos só escreveram o que era essencial, e entre estas coisas essenciais é registrada a necessidade de outras fontes de fé: “O que ouvistes de mim em presença de muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis, que sejam capazes de ensinar ainda a outros” (2 Tm 2,2); “Assim, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós aprendestes, seja por palavra, seja por carta nossa” (2 Tes 2,15). A que se referem estas passagens? À transmissão oral do depósito da fé, isto é, a Sagrada Tradição.

Os apóstolos escreveram os Evangelhos pelas necessidades especiais que encontraram, mas de forma alguma se preocuparam em escrever tudo, até por que, não foi esta uma recomendação de Nosso Senhor. “Ide, e pregai o Evangelho a toda criatura” (cf. Mt 28,19s), Jesus manda que eles ensinem o Santo Evangelho e não pede que o escrevam.

Eusébio, Bispo de Cesaréia, dos tempos primitivos da Igreja diz: “[Os Apóstolos] Anunciaram o reino dos céus a todo orbe habitado, sem a menor preocupação de escrever livros. Assim procediam porque lhes cabia prestar um serviço maior e sobre-humano. Até Paulo, o mais potente de todos na preparação dos discursos, o mais dotado relativamente aos conceitos, só transmitiu por escrito breves cartas, apesar de ter realidades inúmeras e inefáveis a contar […] Outros seguidores de nosso Salvador, os primeiros apóstolos, os setenta discípulos e mil outros mais não eram inexperientes das mesmas realidades. Entretanto, dentre eles todos, somente Mateus e João deixaram memória dos entretenimentos do Salvador. E a Tradição refere que estes escreveram forçados pela necessidade. […] Quanto a João [o Apóstolo], diz-se que sempre utilizava o anúncio oral. Por fim, também ele pôs-se a escrever pelo seguinte motivo. Quando os três evangelhos precedentes já se haviam propagado entre todos os fiéis e chegaram até ele, recebeu-os, atestando sua veracidade. Somente careciam da história das primeiras ações de Cristo e do anúncio primordial da palavra. E trata-se de verdadeiro motivo”(História Eclesiástica Livro III, 24,3-7. Eusébio de Cesaréia, + ou – 317 d.C).

Os protestantes dizem que não confiam na Sagrada Tradição porque ela poderia ser deturpada através dos séculos; mas será possível que Nosso Senhor Jesus Cristo não teria, com muito mais zelo do que Lutero, prevenido-se para que isso não acontecesse? A Igreja é o fundamento da verdade, foi Jesus quem conferiu esta infalibilidade e prometeu estar com Ela todos os dias até o final do mundo, sem nenhum dia abandoná-La.

São Paulo era um homem astuto, formado nas melhores escolas da época, ele poderia pensar a mesma coisa que Lutero pensou mil e quinhentos anos depois: “Ah como é possível que as verdades reveladas por Jesus não se perderão pelos séculos?”. Mas São Paulo era um servo humilíssimo de Cristo, por isso ele confia nas promessas do Mestre. Conseqüência: Lutero negará a validade da Tradição oral; São Paulo vai recomendá-la: “E o que de mim, através de muitas testemunhas ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros” (2 Tm 2,2).

Vale também lembrar, para os que têm esta mesma preocupação, que a Tradição oral, isto é, que os apóstolos transmitiram de modo oral, foi muitas vezes vertida por escrito pelas gerações que sucederam os apóstolos; isto é, com a morte dos santos apóstolos seus sucessores no depósito da fé se preocuparam em guardar por escrito o que ouviram deles. E assim, quando, por muitas vezes, desde o princípio da Igreja, erguiam-se heresias, isto é, uma interpretação errada do Evangelho, logo estas caíam por terra pulverizadas pelo testemunho vivo dos apóstolos.

A doutrina da “sola scricptura” é anexa ao livre exame do crente; anulam a necessidade da interpretação da Igreja, e a necessidade da própria Igreja (fato percebido ainda mais marcadamente na doutrina da “sola gratia”, que rejeita a necessidade de intermediários entre Deus e o crente). Eis aqui uma grande incoerência da doutrina pseudo-reformada: eles não querem a Igreja; mas pode haver a Bíblia sem a Igreja? Não, a Igreja não só transmitiu a Escritura, mas a formou como a vemos. A Igreja é anterior ao Novo Testamento, e foi Ela quem formou o cânon do Antigo Testamento como o temos hoje. Foi a Igreja quem constituiu a Bíblia, e não a Bíblia quem constituiu a Igreja.

E uma outra questão faz-se absolutamente necessária: sem a Igreja a Bíblia se esfacela; pois quem me faz acreditar na Escritura, que não a Tradição e o Magistério? O Corão, o livro sagrado dos mulçumanos, também diz ser a palavra de Deus, no entanto, porque os protestantes não crêem nele? Por exemplo, não acreditamos em um candidato que diz ser honesto, mas quando um outro de prestígio reconhecido o indica, logo damos crédito ao primeiro. Acreditamos na Bíblia, porque toda a tradição apostólica, que nos liga direto a Cristo, leva-nos a acreditar na tradição escrita, isto é a Bíblia.

Como resumo, podemos dizer que os planetas na galáxia protestantismo giravam em torno de um sol, chamado insubmissão; a maior bandeira de Lutero não foi sua doutrina, nem suas teses pretensiosas, mas o horror ao papado e a toda a autoridade constituída. Em uma controvérsia a respeito do Sacramento da Eucaristia, ele disse: “Se um Concílio ordenasse ou permitisse as duas espécies, por despeito do Concílio, nós só receberíamos uma, ou mesmo, nem uma nem outra e anatematizaríamos os que, em virtude desta ordenação, recebessem as duas” (Lutero. Fórmula da Missa. in: Bossuet. Hist. des Variations. 1. 2, n. 10).

Fonte: Sociedade Católica.

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