Espaço do Leitor

Superioridade espírita na explicação do sofrimento?

Caros amigos do Veritatis,
Eu mandei aproximadamente um mês atrás um questionamento feito por amigo espírita sobre artigo publicado pelo Veritatis e pedi ajuda para o apostolado a encontrar a melhor resposta. Contudo não obtive resposta alguma, mas sei que se não o fizeram, foi por ter outras prioridades que no momento são mais relevantes.
Acontece, porém, que careço ainda dessa ajuda, pois o interesse do meu amigo ainda permanece e tenho certeza que ele busca a verdade. Segundo meu amigo o que fica mais patente é a superioridade da explicação do espiritismo sobre o sofrimento em relação a nossa (Católica), a qual ele considera muito injusta…
Será mesmo?
Sempre sou indagado no seguinte sentido: “Como ficam as pessoas que são flageladas pela fome, doenças terríveis, fatalidades que deixam um vazio inexplicável”.
Um abraço (Luciano)

Estimado Luciano,

A paz de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo!

Pedimos desculpa pela demora na resposta. Porém, como você pode imaginar, são muitas perguntas que nos chegam diariamente, sem contar que cada um de nós tem seus afazeres pessoais, o que torna nosso tempo escasso. Esse trabalho é totalmente voluntário, e nós o fazemos por amor a Deus, à Igreja e às almas. Esperamos contar com a sua compreensão.

Agradecemos pela confiança em nos enviar uma questão tão importante. E a importância da problemática do sofrimento deve-se, sobretudo, à sua universalidade, ou seja, ricos e pobres, homens e mulheres, jovens e velhos, enfim, independentemente de qualquer fator sócio-cultural, todos nós, em algum momento da vida, nos deparamos com o problema do sofrimento, da dor. Por isso, responder a esse questionamento é um grande desafio e uma grande responsabilidade! Que Deus nos ajude.

Em primeiro lugar, creio ser importante salientar que, em se tratando do sofrimento humano, nenhuma resposta será plenamente satisfatória. Por mais racional e consistente que seja, nenhuma argumentação é capaz de debelar uma intensa dor física, de aplacar a saudade provocada pela perda de um ente querido, de amenizar sofrimentos de ordem moral (como ser caluniado, injuriado, perseguido etc.), de amainar o profundo pesar que sentimos diante do terrível sofrimento de uma criança, ou de um idoso, principalmente quando se trata de um familiar nosso. No final deste artigo, voltaremos falar sobre essa impossibilidade de uma resposta plenamente satisfatória para o problema do sofrimento.

Dito isto, vejamos em que consiste, basicamente, a resposta espírita para a questão do sofrimento humano. Em linhas gerais, o espiritismo afirma que os males e sofrimentos desta vida são conseqüências de fatos ocorridos em “vidas passadas”. Seriam, ao mesmo tempo, efeitos de determinadas causas (por exemplo, castigos devidos por erros cometidos em existências anteriores) e oportunidades de aprendizado e evolução espiritual. Assim, uma pessoa que nesta vida, por exemplo, padeça de grave doença congênita ou adquirida estaria pagando por delitos cometidos em outras vidas e ao mesmo tempo tendo a oportunidade de aprender a não mais cometê-los. Contra essa argumentação podemos levantar pelo menos duas objeções:

1) Não é raro encontrarmos pessoas boníssimas, indivíduos realmente generosos e desapegados a bens materiais, e que, no entanto, sofrem terrivelmente. De tais pessoas se poderia dizer que são “espíritos evoluídos”, tendo em vista a caridade e o desprendimento que demonstram. Sendo assim, será que tais pessoas ainda “necessitariam” sofrer tanto? Teriam ainda tantos males a purgar, ou tantas lições a aprender? Por outro lado, também é comum vermos pessoas incrivelmente perversas, egoístas, mesquinhas, mas que têm uma vida relativamente tranqüila, sem maiores adversidades (e é razoável supor que, se essas pessoas são ruins nesta vida, foram ainda piores em vidas passadas, de acordo com a “lógica” espírita, segundo a qual os espíritos sempre evoluem, jamais regridem…).

2) Como muito bem observou o saudoso D. Estêvão Bettencourt em seu livro Católicos perguntam:

“A justiça humana exige que o réu castigado saiba por que é punido; o bom senso se revolta contra uma punição que não tenha explicação. Para que eu me possa emendar dos erros pelos quais sou punido, devo saber quais foram.”

Também em seu opúsculo O mal, o sofrimento e Deus, o grande teólogo católico escreveu:

“Ora, para quem ignora o motivo pelo qual está destinado a se purificar neste mundo (ou pelo qual se reencarnou), vã é a sanção ou a reencarnação. Se um homem desconhece a que altura de seu roteiro espiritual se acha, se não sabe qual a trajetória e as etapas percorridas até o presente momento, não se pode orientar para o futuro, a fim de caminhar seguramente pela estrada, aproveitando a ‘chance’ que lhe é dada em cada reencarnação. A sanção só se torna eficaz ou medicinal para quem saiba por que lhe é infligida.”

Em suma, a idéia espírita do sofrimento como “expiação”, “expurgo” ou “aprendizado” (com relação a vidas pretéritas) não se sustenta pelo simples fato de que ninguém pode ser punido sem saber a razão de tal punição, nem pode aprender sem ter a menor noção daquilo em que consiste a lição. E uma razão genérica, tal como defende o espiritismo, ou seja, “a pessoa sofre simplesmente porque deve sofrer”, não me parece ser nem um pouco satisfatória, nem pode conduzir a um efetivo aprendizado, na medida em que não se sabe por causa de que delito se está sofrendo, nem o que, especificamente, um sofrimento tem a nos ensinar. Ademais, uma razão genérica para o sofrimento dispensaria precisamente aquilo que supostamente daria sentido à explicação espírita, a saber, a relação de causa e efeito subjacente a todo sofrimento! Em outras palavras, se não temos como saber, a não ser de forma genérica, em que consiste o nexo causal entre um sofrimento nesta vida e um fato ocorrido numa vida passada, então tal causalidade, em última análise, não explica nem acrescenta nada. E não me parece ser uma idéia realmente consoladora, para alguém que esteja sofrendo intensamente, saber que seu sofrimento se deve a um fato que aconteceu em “outra vida” e do qual essa pessoa não tem a menor idéia. É como se quando uma criança nos perguntasse “por que isso é assim?”, respondêssemos simplesmente “porque sim”.

E o que a doutrina cristã (católica) tem a nos ensinar sobre o sofrimento? Primeiramente, é importante refletirmos sobre a relação entre o sofrimento (ou o mal) e a liberdade. Com relação aos sofrimentos e aos males causados pela ação humana, devemos lembrar que Deus dotou cada ser humano do livre arbítrio. A liberdade é algo intrínseco à condição humana, e é um pressuposto da relação que Deus quis e quer estabelecer com todos homens, isto é, uma relação de amor. Ora, sem liberdade simplesmente não pode existir verdadeiro amor. Ninguém pode ser obrigado a amar! Deus não nos criou como “robôs”, pré-programados para amá-lO. Se fosse assim, que sentido (ou que “graça”) haveria nesse amor? Ao contrário, Deus nos fez livres para que livremente escolhêssemos amá-lO ou rejeitá-lO. E essa liberdade, evidentemente, tem seus efeitos colaterais, pois todos somos livres tanto para bem quanto para o mal. É por isso que, ao lado de tantas ações generosas e meritórias, vemos tanta violência, egoísmo, perversidade etc. Se Deus continuamente interviesse no mundo para impedir que ações más fossem praticadas, Ele estaria como que desrespeitando a liberdade que nos concedeu.

Raciocínio semelhante nós podemos aplicar aos males e sofrimentos de origem natural, que incluem tanto as doenças e deficiências físicas congênitas ou adquiridas quanto os fenômenos naturais (tsunamis, terremotos, furacões, erupções vulcânicas, enchentes etc.). Todos esses males simplesmente “acontecem” naturalmente. Também a natureza foi criada por Deus com um certo tipo ou grau de liberdade. Ou seja, Deus criou o Universo com determinadas leis e deixou que esse Universo seguisse o seu curso natural. Assim, é simplesmente natural que, por exemplo, um terremoto, causado pelo atrito de placas tectônicas, provoque uma tsunami que dizime a vida de milhares de pessoas. Também é natural que determinadas células do nosso corpo, por algum fator genético, comecem a se multiplicar desordenadamente, dando origem a um câncer. (Obs.: fenômenos naturais também podem ser causados ou agravados pela ação do homem, como o câncer de pulmão causado pelo cigarro ou enchentes causadas pelo acúmulo de lixo. Nesse caso, temos uma combinação de efeitos colaterais tanto da liberdade da natureza quanto da liberdade humana!)

Tendo Deus dotado o homem e a natureza de liberdade, podemos dizer que Ele fica impassível diante do nosso sofrimento? Poderíamos concluir que Deus simplesmente criou o Universo e não Se importou mais? É claro que não! Deus sofre conosco. E imagine, caro Luciano, a lancinante dor de um Pai que, por amar e respeitar profundamente os Seus filhos, simplesmente “não pode” interferir (é claro que, em ocasiões especialíssimas, Ele interfere, e nesses momentos acontecem o que chamamos de milagres; mas isso é assunto para um outro artigo)! E não é à toa que um dos epítetos de Nosso Senhor Jesus Cristo é Emanuel, nome que significa “Deus conosco”. Não só para nos salvar, mas também para estar mais junto de nós e do nosso sofrimento, Deus Se encarnou em Jesus Cristo. Desse modo, Ele sofreu como nós, teve fome, sede, frio; sentiu a dor da perda de um amigo (leia Jo 11,1-44); sentiu na pele o que é ser caluniado e injustiçado; sofreu dores terríveis, torturas e açoites; angustiou-se profundamente diante da iminência de sua morte; e por fim teve uma morte sofrida, na cruz, quando experimentou solidão e abandono inenarráveis. E Ele fez tudo isso por amor!

Mas além de estar intimamente ligado ao conceito de liberdade (do homem e da natureza), o sofrimento tem também, de acordo com a doutrina católica, um sentido salvífico. Para compreendermos o caráter salvífico do sofrimento, leiamos as seguintes passagens da Sagrada Escritura:

“Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja.” (Cl 1,24)

“Pelo contrário, alegrai-vos em ser participantes dos sofrimentos de Cristo, para que vos possais alegrar e exultar no dia em que for manifestada sua glória.” (1 Pd 4,13)

“O Espírito mesmo dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. E, se filhos, também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, contanto que soframos com ele, para que também com ele sejamos glorificados.” (Rm 8,16-17)

“Em seguida, convocando a multidão juntamente com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.” (Mc 8,34)

Leiamos também o ensinamento do Papa Pio XII, em sua encíclica Mystici Corporis:

“Mas Cristo Senhor nosso mostrou seu amor à esposa imaculada não só trabalhando incansavelmente e orando constantemente, senão também com as dores e ignomínias que, por ela, espontânea e amorosamente tolerou. “Tendo amado aos seus… amou-os até ao fim” (Jo 13,1) e foi com seu sangue que ele adquiriu a Igreja (cf. At 20,28). Sigamos de boa vontade as sangüinolentas pisadas de nosso Rei, como exige a necessidade de assegurarmos a nossa salvação: “Se fomos enxertados nele pela semelhança da sua morte, sê-lo-emos também pela ressurreição” (Rm 6,5) e “se morrermos com ele, com ele viveremos” (2Tm 2,11). Exige-o igualmente a caridade verdadeira e efetiva para com a Igreja e para com as almas, que ela continuamente gera a Cristo. Com efeito, ainda que o Salvador, pelos seus cruéis tormentos e morte dolorosíssima, mereceu à Igreja um tesouro infinito de graças, contudo essas graças, por disposição da providência divina, são-nos comunicadas por partes; e a sua maior ou menor abundância depende não pouco também das nossas boas obras, com que impetramos da bondade divina e atraímos sobre os próximos a chuva dos dons celestes. Será esta chuva abundantíssima, se não nos contentarmos em oferecer a Deus fervorosas preces, sobretudo participando devotamente e, quanto possível, todos os dias, ao sacrifício eucarístico, mas também procuramos, com obras de misericórdia cristã, aliviar os sofrimentos de tantos indigentes; se preferirmos os bens eternos às coisas caducas deste mundo; se refrearmos este corpo mortal com voluntária mortificação, negando-lhe todo o ilícito, e impondo-lhe fadigas e austeridades; se recebermos com humildade, como da mão de Deus, os trabalhos e dores desta vida presente. E assim que, segundo o Apóstolo, “completaremos o que falta à paixão de Cristo na nossa carne, por amor do seu corpo que é a Igreja” (cf. Cl 1,24). Enquanto isto escrevemos, depara-se-nos à vista uma quase infinita multidão de infelizes, cuja sorte nos arranca lágrimas da maior compaixão: doentes, pobres, mutilados, caídos na viuvez ou na orfandade, e muitíssimos que em conseqüência dos sofrimentos próprios ou dos seus se vêem às portas da morte. A todos os que assim, por um motivo ou por outro, jazem imersos na tristeza e na angústia, exortamos com coração paterno a que levantem confiadamente os olhos ao céu e ofereçam os seus trabalhos Àquele que um dia os recompensará divinamente. Lembrem-se todos que a sua dor não é inútil; mas que será proveitosíssima a eles, e também à Igreja, se com esta intenção a sofrerem pacientemente. Para isso ajudá-los-á muitíssimo o oferecimento cotidiano de si mesmos a Deus, como usam fazer os membros do Apostolado da oração, pia associação, que nós aqui encarecidamente recomendamos, como sumamente aceita ao Senhor.”[1]

Em outras palavras, através do sofrimento podemos e devemos nos unir intimamente a Cristo, à Sua Paixão e ao Seu sacrifício redentor. Tal participação se dá, efetivamente, quando compreendemos e aceitamos os sofrimentos que nos sobrevêm nesta vida, oferecendo-os a Deus como “complemento” ao sacrifício realizado por Cristo no Calvário, no sentido de que, assim fazendo, estaremos sofrendo junto com Nosso Senhor Jesus Cristo, unindo nosso sofrimento ao dEle, em nosso próprio favor e em favor de todas as almas. Veja, caro Luciano, que desse modo compreendido o sofrimento humano adquire um sentido sublime e transcendente: a revolta e o desespero dão lugar à fé, à esperança e à caridade. Só mesmo em Cristo se pode dar tamanha transformação!

Finalizo essa modesta tentativa de responder ao seu questionamento com a convicção de que, por maior que seja a boa vontade e por melhores que sejam os argumentos, nenhuma resposta racional poderá extirpar e nem mesmo amenizar o sofrimento que é inerente à condição humana. Argumentos lógicos e elegantes podem até nos satisfazer no plano teórico (sobretudo se no momento não estivermos passando por nenhuma adversidade!). Porém, para quem está sofrendo, palavras não bastam. E então tudo o que podemos fazer é estar junto de quem sofre, é demonstrar que não estamos impassíveis, mas que estamos sofrendo junto. Foi esse gesto que Deus realizou quando assumiu a forma humana em Nosso Senhor Jesus Cristo, o Emanuel. E podemos ter a certeza de que, por maior que seja o nosso sofrimento, Ele estará sempre conosco.

Mas não podemos encerrar essa reflexão sem uma palavra sobre a Virgem Maria, que acompanhou Nosso Senhor Jesus Cristo em toda a Sua Paixão. Com efeito, Maria sofreu junto com Seu Filho, como que sentindo na própria carne cada flagelo, cada humilhação, cada dor, até o momento da crucificação, quando, aos pés da cruz, viu Seu Filho, bendito fruto do Seu ventre, dar o último suspiro. Por isso, Maria sabe muito bem o que é sofrer, sobretudo por ter sofrido aquela que talvez seja a maior dor que um ser humano pode experimentar, ou seja, a dor de uma mãe ao tomar em seus braços o filho morto. Por essa razão, podemos ter a certeza de que não só Jesus Cristo estará sempre conosco no sofrimento, mas também Sua Mãe estará sempre de braços estendidos para nos amparar, a colher nossas lágrimas e apresentá-las a Deus como forma de oração.

Em Cristo,

_________
NOTA:
[1] Carta Encíclica Do Papa Pio XII Mystici Corporis, O Corpo Místico de Jesus Cristo e nossa união nele com Cristo, n. 103.

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