Teologia do Corpo

18. A inocência original e o estado histórico do homem

1. A meditação de hoje pressupõe tudo quanto foi já conseguido nas várias análises feitas até agora. Estas brotaram da resposta dada por Jesus aos seus interlocutores (Evangelho de S. Mateus 19,3-9; e de São Marcos 10,1-12), que lhe tinham feito uma pergunta sobre o matrimônio, sobre a indissolubilidade e a unidade. O Mestre tinha-lhes recomendado considerassem atentamente o que era “desde o princípio”. Exatamente por isto, no ciclo das nossas meditações até agora, procuramos descrever dalgum modo a realidade da união, ou melhor, da comunhão das pessoas, vivida “desde o princípio” pelo homem e pela mulher. Em seguida, tentamos penetrar no conteúdo do conciso versículo 25, de Gênesis 2: “Estavam ambos nus, tanto o homem como a mulher, mas não sentiam vergonha”.

Estas palavras fazem referência ao dom da inocência original, revelando-lhe o caráter de modo, por assim dizer, sintético. A teologia construiu sobre esta base a imagem global da inocência e da justiça original do homem, antes do pecado original, aplicando o método da objetivação, característico da metafísica e da antropologia metafísica. Na presente análise procuramos sobretudo tomar em consideração o aspecto da subjetividade humana; esta parece, aliás, encontrar-se mais perto dos textos originais, especialmente da segunda narrativa da criação, isto é, do texto javista.

2. Independentemente de certa diversidade de interpretação, parece bastante claro que a “experiência do corpo”, como a podemos ir buscar ao texto arcaico de Gênesis 2,23 e mais ainda de Gênesis 2,25, indica um grau de “espiritualização” do homem, diverso daquele que significa o mesmo texto depois do pecado original (Gênesis 3) e nós conhecemos valendo-nos da experiência do homem “histórico”. É diversa medida de “espiritualização” que encerra outra composição das forças interiores no próprio homem, quase outra relação corpo-alma, outras proporções internas entre sensibilidade, espiritualidade e afetividade, isto é, outro grau de sensibilidade interior perante os dons do Espírito Santo. Tudo isso condiciona o estado de inocência original do homem e ao mesmo tempo determina-o, permitindo-nos também compreender a narrativa do Gênesis. A teologia e, também, o magistério da Igreja deram a estas verdades fundamentais forma própria.[1]

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3. Realizando a análise do “princípio” segundo a dimensão da teologia do corpo, fazemo-lo baseando-nos nas palavras de Cristo, com que Ele mesmo se referiu àquele “princípio”. Quando disse: “Não lestes que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher?” (Mateus 19,4), ordenou-nos e sempre nos ordena que voltemos à profundidade do mistério da criação. E nós fazemo-lo, tendo plena consciência do dom da inocência original, própria do homem antes do pecado original. Embora uma intransponível barreira nos separe do que foi o homem então, como varão e mulher, mediante o dom da graça unida ao mistério da criação, e nos separe daquilo que ambos foram um para o outro, como dom recíproco, todavia procuramos compreender aquele estado de inocência original na sua ligação com o estado “histórico” do homem depois do pecado original: “Status naturae lapsae simul et redemptae”.

Por meio da categoria do “a posteriori histórico”, procuramos atingir o sentido original do corpo e alcançar o laço existente entre ele e a índole da inocência original na “experiência do corpo”, tal como ela se põe em evidência, de modo tão significativo, na narrativa do Livro do Gênesis. Chegamos à conclusão que é importante e essencial precisar este laço, não só em relação com a “pré-história teológica” do homem, em que a convivência do homem e da mulher era quase completamente penetrada pela graça da inocência original, mas também em relação com a sua possibilidade de revelar-nos as raízes permanentes do aspecto humano e sobretudo teológico do “ethos” do corpo.

4. O homem entra no mundo e quase na mais íntima trama do seu futuro e da sua história, com a consciência do estado esponsal do próprio corpo, da própria masculinidade e feminilidade. A inocência original diz que essa significação é condicionada “eticamente” e além disso que, por seu lado, constitui o futuro do “ethos” humano. Isto é muito importante para a teologia do corpo: é a razão por que devemos construir esta teologia “desde o princípio”, seguindo cuidadosamente a indicação das palavras de Cristo.

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No mistério da criação, o homem e a mulher foram “dados” pelo Criador, de modo particular, um ao outro, isto não só na dimensão daquele primeiro casal humano e daquela primeira comunhão de pessoas, mas em toda a perspectiva da existência do gênero humano e da família humana. O fato fundamental desta existência do homem em todas as etapas da sua história é que Deus “os criou homem e mulher”; de fato, sempre os cria deste modo e sempre assim são. A compreensão dos significados fundamentais, encerrados no mistério mesmo da criação, como o significado esponsal do corpo (e dos fundamentais condicionamentos de tal significado), é importante e indispensável para conhecer quem é o homem e quem deve ser, e portanto como deveria modelar a própria atividade. A coisa é essencial e importante para o futuro do ethos humano.

5. Gênesis 2,24 verifica que os dois , homem e mulher, foram criados para o matrimônio: “Por este motivo, o homem deixará o pai e a mãe para se unir a sua mulher; e os dois serão uma só carne”. Deste modo abre-se grande perspectiva criadora: que é exatamente a perspectiva da existência do homem, a qual se renova continuamente por meio da “procriação” (poder-se-ia dizer da “autoprodução”). Tal perspectiva está profundamente radicada na consciência da humanidade (cfr. Gênesis 2,23) e também na particular consciência do significado esponsal do corpo (Gênesis 2,25). O homem e a mulher, antes de se tornarem marido e esposa (disso falará seguidamente em concreto Gênesis 4,1), emergem do mistério da criação, primeiro, como irmão e irmã na mesma humanidade. A compreensão do significado esponsal do corpo, na sua masculinidade e feminilidade, revela o íntimo da sua liberdade, que é liberdade de dom. Daqui principia aquela comunhão de pessoas, em que ambos se encontram e se dão reciprocamente, na plenitude da sua subjetividade. Assim crescem ambos como pessoas-sujeitos, e crescem reciprocamente um para o outro também através dos corpos e através daquela “nudez” isenta de vergonha. Naquela comunhão de pessoas está profundamente assegurada toda a profundidade da solidão original do homem (do primeiro e de todos) e, ao mesmo tempo, tal solidão fica de modo maravilhoso penetrada e alargada pelo dom do “outro”. Se o homem e a mulher deixam de ser reciprocamente dom desinteressado, como o eram um para o outro no mistério da. criação, então reconhecem “estar nus” (cfr. Gênesis 3). E então nascer-lhes-á no coração a vergonha daquela nudez, que não tinha sentido no estado de inocência original.

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A inocência original manifesta e ao mesmo tempo constitui o “ethos” perfeito do dom.

A este assunto voltaremos ainda…

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NOTA

[1] “Si quis non confitetur primum hominem Adam,cum mandatum Dei in paradiso fuisset transgressus, statim sanctitatem et iustitiam in qua constitutus fuerat amisisse… anathema sit”. (Conc. Trident., Sess. V. can. 1, 2; DB.788, 789). “Protoparentes in statu sanctitatis et iustitiae constituti fuerunt. (…) Status iustitiae originalis, protoparentibus collatus, erat gratuitus et vere supernaturalis. (…) Protoparentes constituti sunt in statu naturae integrae, id est, immunes a concupiscentia, ignorantia, dolore et morte… singularique felicitate gaudebant. (…) Dona integritatis protoparentibus collata erant gratuita et supernaturalia” (A. Tanquerey, “Svnopsis Theologiae Dogmaticae”, Paris, 1943, pp.534-549).

  • Fonte: Vaticano, Audiência de 13.02.1980.