Espaço do Leitor

Sobre os métodos anti-concepcionais

Pergunta

Tenho ainda algumas dúvidas sobre a doutrina da Igreja. Sou católica e gosto muito de pesquisar e ler a Bíblia mas ainda assim, algumas questões polêmicas não ficaram bem claras para mim, gostaria que você me esclarecesse:

I – A camisinha não é aceita pela Igreja. E a pílula anti-concepcional? Pode ser usada (por pessoas casadas) , já que não se pode ter filhos o tempo inteiro? Ou a Igreja não aprova nenhuma espécie de método anti-concepcional?

II – Sei que o “ficar”, muito utilizado pelos adolescentes, é pecado e eu concordo com isso mas gostaria de saber mais claramente a postura da Igreja em relação a uma coisa tão recente.

III – A Bíblia diz no antigo testamento, coisas como ” a mulher que estiver em seu fluxo, será impura até o fim deste e todos os objetos que tocar, também “, isto ainda vale para hoje? A mulher menstruada é impura?

IV- Da mesma forma que Deus condena as relações sexuais antes do casamento, condena também, carícias que levem à excitação sexual mesmo que não leve ao ato propriamente dito. O que percebo, é que muitos adolescentes e até crianças, desconhecem isto. Será que essas pessoas pecam, já que não sabiam que isso era errado?

V – O que a Igreja diz sobre as músicas do funk, cheias de palavrão e pornografia mas cada vez mais presentes?

VI – É pecado querer se arrumar para ficar bonita? (vestindo-se de forma decente) A vaidade não é pecado?

VII – O que a Igreja diz sobre as roupas? Como devemos nos vestir? Ouvi dizerem que não se deve usar blusas de alças finas mas com esse calor é difícil…

VIII – Se um homem na rua olha para uma mulher bonita e olha com olhar de desejo, a mulher tem culpa? Se não tiver feito nada para provocar e se estiver com roupas que não chamem a atenção?

IX – E por último: O que a Igreja diz sobre o carnaval? Já que há muitos travestis e mulheres nuas nas escolas de samba?

D. – Rio de Janeiro-RJ

Resposta

Cara D., Salve Maria!

Agora o Agnus Dei é um site integrado ao apostolado Veritatis Splendor e eu sou o responsável pela seção de dúvidas, então, recebi sua mensagem.

Irei responder atenciosamente seu e-mail, de um modo cuidadoso e bem embasado, porque tenho certeza que as suas dúvidas são dúvidas de muitos também.

I- A Igreja não aprova nenhuma espécie de método anticoncepcional. Nosso Papa, João Paulo II, escreveu: “Os métodos anticoncepcionais são algo profundamente ilícito, que nunca, por nenhuma razão, poderão ser justificados” (Alocução de 17/09/83). No caso específico da pílula, não é lícito usá-la para fins contraceptivos. Em certos casos, inclusive, a mesma pode ser prejudicial à saúde.

Quando haja motivos que o justifiquem, a Igreja PERMITE que se faça uso dos métodos naturais de contracepção, podendo inclusive serem usados em conjunto, com um grau de eficácia quase total. Estes métodos são o Billings (analisa mudanças no muco cervical), o Ogino-Knaus (ou “tabelinha”), a visualização da cristalização da Saliva no microscópio de uso doméstico, a análise da variação da temperatura. Para você ter uma idéia da eficácia destes métodos, estudos indicam que o método da temperatura tem eficácia de 99,6% quando feito corretamente e de 96,4%, incluindo os erros do usuário no método. O Billings tem eficácia de 98,5%. Ambas eficácias são superiores, já individualmente, às garantidas pelo uso da pílula (basta pegar uma bula de uma pílula para conferir). Imagina então se usados em conjunto!

Para aprender mais sobre estes métodos, procure um centro do Pró-Vida ou do Pró-Família da nossa Arquidiocese (também sou do Rio). O Pró-Família, aqui no Rio, aliás, é coordenado pelo bispo Dom Rafael Llano Cifuentes que tem um livro muito bom sobre todos estes assuntos, intitulado “270 perguntas e respostas sobre sexo e amor”.Vende nas Paulinas, no Mosteiro de São Bento, na Paulus. É só procurar. É um livro com bastante saída. Eu havia citado que a Igreja PERMITE o uso destes métodos NATURAIS (isto é, excluindo-se pílula, camisinha, diu e todo este resto e aplicando-se apenas aqueles que eu citei) em determinados casos. Vou explicar-lhe quais são. Os motivos devem ser sérios, objetivos e razoáveis, podendo ser dividido em motivos de tipo médico, de tipo psicológico e de tipo econômico-social.

As razões médicas são:

1- Perigo real e certo de que uma nova gravidez pnha em risco a saúde da mãe;

2- perigo real e certo de transmitir aos filhos doenças hereditárias.

As razões psicológicas são:

1- Determinados aspectos de angústia e ansiedade patológicas da mãe, diante da possibilidade de uma nova gravidez.

As razões econômicas e sociais são:

1- A carga econômica que um novo filho pode trazer. Esta carga econômica deve ser séria e real, não confundir com comodismo, mentalidade consumista, visão hipertrofiada dos problemas, egoísmo, etc.

II- O namoro é um tempo de experiência e amadurecimento PARA O MATRIMÔNIO e não mera diversão, baseado em experiências físicas sem compromisso algum. Desta forma, “ficar” é totalmente desaconselhado pela Igreja.

III- De forma alguma. As regras de pureza/impureza, contidas no pentateuco (cinco primeiros livros da bíblia) devem ser analisadas no contexto da época. Além disto, eram prescrições apenas para o povo hebreu. Estas regras deixaram de fazer sentido com o advento de Cristo, como diversas vezes ele mesmo mostrou. Da mesma forma, por estas regras, é “impuro” se comer carne de porco ou camarões. Todas estas prescrições deixaram de fazer sentido, então, com a Salvação. Os Judeus (que não admitem a salvação por Jesus Cristo) ainda as seguem, porém.

IV- Há três elementos necessários para se caracterizar um pecado como grave: Matéria grave, conhecimento reto e vontade deliberada. O “conhecimento reto” provém do estudo da doutrina e da própria consciência, que diz o que é certo e errado. Neste caso que você citou, se a pessoa não está agindo contra a sua consciência (que no caso não estaria bem-formada) e não age contra aquilo que aprendeu, então não há que se caracterizar o pecado como grave. Porém, o pecado ainda pode ser venial (leve), dependendo se o ato praticado, mesmo sem a consciência do certo e do errado, seja intrinsicamente mau. Não é necessário, apesar de aconselhável, nos confessarmos das faltas leves. Durante a missa ou através de um ato de contrição sincero, podemos apagar estas faltas.

V- Não há um documento específico sobre as (péssimas) músicas de Funk. A Igreja, porém, sempre condenou a pornografia e a impureza de atos e palavras, seja em que contexto for, mesmo musical. Essas músicas estimulam a sensualidade e os sentidos mais primitivos do homem, levando-os muitas vezes ao pecado ou a ocasiões de pecado. A Igreja, então, condena estas músicas, por elas estimularem aquilo que há de mais baixo no ser humano, em vez de os levarem a buscar o caminho reto.

VI – Há que não confundir as duas coisas para não parecer puritanismo. É totalmente lícito que o homem e a mulher tenham bom gosto na hora de se vestir. Isto não é, necessariamente, vaidade. Se assim fosse, o certo seria que andássemos na rua com as roupas mais feias e ridículas que tivermos. Não é isso que é aconselhável. O certo é que busquemos SEMPRE a beleza, em todos os nossos atos, inclusive no vestir, porque a beleza é a reta organização das coisas para o bem, que provém de Deus (o Sumo-Bem). Não devemos, porém, nos vestir para chamar a atenção, para disfarçar uma “pseudo-imperfeição”. Isto, sim, é vaidade. Então, cabe ter atenção neste ponto e sempre se perguntar: será que esta roupa chama a atenção? Será que eu desperto os outros com ela? A sua beleza deve transparecer principalmente nas suas idéias e palavras, e o pudor sempre foi a medida justa para a Igreja nesses casos. Quer uma dica? Tenha sempre Nossa Senhora como modelo que você nunca errará. Como disse S. Bernardo de Claraval, doutor da Igreja: “Quando as seduções da carne sacodem a frágil barca da minha alma, olho sempre para Vós, ó Maria… Seguindo-Vos, não me desvio; pensando em Vós, não erro; se Vós me amparais, não me canso; se me sois propícia, chegarei ao termo”.

VII- Não há regras específicas sobre o que vestir ou não vestir. Como eu disse acima, o principal é ser casto, pudico e discreto. Quanto às blusas de alcinha, elas realmente chamam a atenção dos homens em muitos casos. Cabe evitá-las ou usar de alças mais grossas no calor. Dentro da Igreja, são totalmente incabíveis. Já vi bispo aqui no Rio negando comunhão à mulheres com blusas assim. Quanto ao calor, Danielle, com sinceridade, o Rio sempre foi quente, e nem por isso há cem anos se usavam blusas assim. 🙂

VIII- Obviamente, se a mulher teve realmente esta preocupação de não chamar a atenção, a culpa não é dela, mas do homem, neste caso. IX- O Carnaval é curioso. É uma celebração pagã que se originou por causa de um aspecto religioso católica. Há tempos, o jejum de carne da quaresma não era só recomendado como é hoje, mas era obrigatório. Os homens começaram a fazer uma festa, então, logo antes de começar a Quaresma (quarta-feira de cinzas) para “aproveitar” a gula antes de começar a quaresma, consumindo, muita carne. Sabemos que a gula é a porta de entrada para muitos pecados carnais. O homem perde a medida justa. Foi exatamente o que ocorreu. Com o tempo, além da orgia alimentar, se implantou paulatinamente uma verdadeira orgia sexual, e é como orgia sexual que esta festa permanece hoje. É altamente justo e aconselhável o que muitos católicos fazem hoje em dia, aproveitando este tempo do carnaval para fazer um retiro ou um tempo de reflexão e se preparar para a Quaresma. Este é um resgate do carnaval para um sentido justo e verdadeiramente cristão. Aconselho a você, então, o livro que citei lá em cima: “270 perguntas e respostas sobre Sexo e amor” de D. Rafael Llano Cifuentes, Ed. Quadrante. Pode ser encontrado em várias livrarias católicas (no Mosteiro de S. Bento, às vezes na Paulinas, às vezes na Paulus) ou na internet, pedindo para a editora pelo site www.quadrante.org.br

Ad Iesum, per Mariam,


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