Teologia do Corpo

15. O homem-pessoa torna-se dom na liberdade do amor 

1. Continuamos hoje a análise dos textos do Livro do Gênesis, a que nos aplicamos segundo a linha do ensinamento de Cristo. Recordemo-nos que, na conversa sobre o matrimônio, Ele apelou para o “princípio”.

A revelação, e ao mesmo tempo a descoberta original do significado “esponsal” do corpo, consistem em apresentar o ser humano, homem e mulher, em toda a realidade e verdade do seu corpo e sexo (“estavam nus”) e ao mesmo tempo na plena liberdade de qualquer constrição do corpo e do sexo. Disto parece dar testemunho a nudez dos que foram nossos primeiros pais, interiormente livres de vergonha. Pode-se dizer que, embora criados pelo Amor, isto é, dotados no próprio ser de masculinidade e feminilidade, ambos estão “nus” porque estão livres com a liberdade mesma do dom. Esta liberdade está precisamente na base do significado esponsal do corpo. O corpo humano, com o seu sexo, e a sua masculinidade e feminilidade, visto no mistério mesmo da criação, é não só fonte de fecundidade e de procriação, como em toda a ordem natural, mas encerra desde “o princípio” o atributo “esponsal”, isto é, a capacidade de exprimir o amor: exatamente aquele amor em que o homem-pessoa se torna dom e — mediante este dom — pratica o sentido mesmo do seu ser e existir. Recordamos agora o texto do último Concílio, onde se declara que o homem é a única criatura no mundo visível que Deus quis “por si mesma”, acrescentando que este homem “não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo”[1].

2. A raiz da nudez original isenta de vergonha, da qual nos fala Gênesis 2,25, deve-se procurar precisamente naquela verdade completa sobre o homem. Homem e mulher, no contexto do seu “princípio” beatificante, estão livres com a mesma liberdade do dom. De fato, para poderem manter-se na relação do “dom sincero de si” e para se tornarem um tal dom um para o outro, através de toda a sua humanidade feita de feminilidade e masculinidade (também em relação com aquela perspectiva de que fala Gênesis 2,24), eles devem estar livres precisamente desta maneira. Entendemos aqui a liberdade sobretudo como domínio de si mesmos (autodomínio). Sob este aspecto, ela é indispensável para que o homem possa “dar a sua pessoa”, para poder tornar-se dom, para (referindo-nos às palavras do Concílio) poder “encontrar-se plenamente” por meio de um “dom sincero de si”. Assim, as palavras “estavam ambos nus mas não sentiam vergonha” podem e devem entender-se como revelação – e ao mesmo tempo descoberta — da liberdade, que torna possível e qualifica o sentido “esponsal” do corpo.

3. Gênesis 2,25 diz porém mais ainda. De fato, esta passagem indica a possibilidade e qualifica tal recíproca “experiência do corpo”. E, além disso, permite-nos identificar aquele significado esponsal do corpo “in actu”. Quando lemos que “estavam nus mas não sentiam vergonha”, tocamos indiretamente como que a raiz, e diretamente já os frutos. Isentos interiormente da constrição do próprio corpo e sexo, livres na liberdade do dom, homem e mulher podiam gozar de toda a verdade, de toda a evidência humana, assim como Deus Javé lhas tinha revelado no mistério da criação. Esta verdade sobre o homem, que o texto conciliar explica com as palavras supracitadas, insiste sobretudo em duas coisas. Primeiro, afirma que o homem é a única criatura no mundo que o Criador quis “por Si mesma”; e, em segundo lugar, diz que este mesmo homem, querido desse modo pelo Criador desde o “princípio”, pode encontrar-se a si mesmo só através de um dom desinteressado de si. Ora, esta verdade a respeito do homem, que em particular parece surpreender a condição original ligada ao “princípio” mesmo do homem no mistério da criação, pode ser relida — com base no texto conciliar — em ambas as direções. Essa nova leitura ajuda-nos a compreender ainda melhor o significado esponsal do corpo, que aparece inscrito na condição original do homem e da mulher (segundo Gênesis 2,23-25) e em particular no significado da nudez original de ambos.

Se, como verificamos, na raiz da nudez está a liberdade interior do dom — dom desinteressado de si mesmos —, exatamente tal dom permite a ambos, homem e mulher, encontrarem-se reciprocamente, pois o Criador quis cada um deles “por Si mesmo” (cfr. Gaudium et Spes 24). Assim o homem, no primeiro encontro beatificante, encontra a mulher e ela encontra-o a ele. Deste modo ele acolhe-a interiormente; acolhe-a tal como ela é querida “por Si mesma” pelo Criador, como é constituída no mistério da imagem de Deus por meio da sua feminilidade; e, reciprocamente, ela acolhe-o a ele do mesmo modo, como ele é querido “por Si mesmo” pelo Criador e por Ele constituído mediante a sua masculinidade. Nisto consiste a revelação e a descoberta do significado “esponsal” do corpo. A narrativa javista, e em particular Gênesis 2,25, permite-nos deduzir que o homem e a mulher entram no mundo exatamente com esta consciência do significado do próprio corpo, da sua masculinidade e feminilidade.

4. O corpo humano orientado interiormente pelo “dom sincero” da pessoa, revela não só a sua masculinidade e feminilidade no plano físico, mas revela também tal valor e tal beleza que ultrapassam a dimensão simplesmente física da “sexualidade” (2). Deste modo completa-se em certo sentido a consciência do significado esponsal do corpo, ligado à masculinidade-feminilidade do homem. Por um lado, este significado indica especial capacidade de exprimir o amor, em que o homem se torna dom; e, por outro, corresponde-lhe a capacidade e a profunda disponibilidade para a “afirmação da pessoa”, isto é, literalmente, a capacidade de viver o fato de o outro.— a mulher para o homem e o homem para a mulher — ser, por meio do corpo, alguém querido pelo Criador “por si mesmo”, isto é, único e irrepetível: alguém escolhido pelo eterno Amor. A “afirmação da pessoa” não é senão acolhimento do dom, que, mediante a reciprocidade, cria a comunhão das pessoas; esta constrói-se a partir de dentro, compreendendo também toda a “exterioridade” do homem, quer dizer, tudo aquilo que forma a nudez pura e simples do corpo na sua masculinidade e feminilidade. Então — como lemos em Gênesis 2,25 — o homem e a mulher não sentem vergonha. A expressão bíblica “não sentiam” indica diretamente “a experiência” como dimensão subjetiva.

5. Exatamente em tal dimensão subjetiva, como dois “eus” humanos determinados pela sua masculinidade e feminilidade, aparecem ambos, homem e mulher, no mistério do seu beatificante “princípio”. (Encontramo-nos no estado da inocência original e, ao mesmo tempo, da felicidade original do homem). Este aparecer é breve, e é expresso somente por alguns versículos do Livro do Gênesis; todavia está cheio de surpreendente conteúdo teológico e ao mesmo tempo antropológico. A revelação e a descoberta do significado esponsal do corpo explicam a felicidade original do homem e, ao mesmo tempo, abrem a perspectiva da sua história terrena, em que ele não se há de subtrair nunca a este indispensável “tema” da própria existência.

Os versículos seguintes do Livro do Gênesis, segundo o texto javista do capítulo 3, demonstram, para dizer a verdade, que esta perspectiva “histórica” (depois do pecado original), se construirá de modo diverso do que era no “princípio”, beatificante. Tanto mais profundamente é por isso necessário penetrar na estrutura misteriosa, teológica e ao mesmo tempo antropológica, de tal “princípio”. De fato, em toda a perspectiva da própria “história”, o homem não deixará de conferir significado esponsal ao próprio corpo. Embora este significado sofra e venha a sofrer muitas deformações, manter-se-á sempre o nível mais profundo, que exige ser sempre revelado em toda a sua simplicidade e pureza, e manifestar-se em toda a sua verdade, como sinal da “imagem de Deus”. Por aqui passa também o caminho que leva do mistério da criação à “redenção do corpo” (cfr. Romanos 8).

Permanecendo, por agora, no limiar desta perspectiva histórica, damo-nos claramente conta, baseados em Gênesis 2,23-25, do mesmo laço que existe entre a revelação e a descoberta do significado esponsal do corpo e a felicidade original do homem. Esse significado “esponsal” é também beatificante e, como tal, manifesta definitivamente toda a realidade daquela doação, de que nos falam as primeiras páginas do Livro do Gênesis. A leitura delas convence-nos de a consciência do significado do corpo que dela deriva — em particular do seu significado “esponsal” — constituir o elemento fundamental da existência humana no mundo.

Este significado “esponsal” do corpo humano só se pode compreender no contexto da pessoa. O corpo tem significado “esponsal” porque o homem-pessoa, como diz o Concílio, é criatura que Deus quis por si mesma, a qual, ao mesmo tempo, não pode encontrar-se plenamente senão mediante o dom de si mesma. Se Cristo revelou ao homem e à mulher, acima da vocação do matrimônio, outra vocação — a de renunciar ao matrimônio em vista do Reino dos Céus — com esta vocação pôs em relevo a mesma verdade sobre a pessoa humana. Se um homem ou uma mulher é capaz de fazer dom de si pelo Reino dos Céus, isto prova por sua vez (e porventura até mais ainda) que há a liberdade do dom do corpo humano. Quer dizer que este corpo possui pleno significado “esponsal”.

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NOTAS

[1] “Mais ainda, quando o Senhor Jesus pede ao Pai ‘que todos sejam um’ (João 17,21-22), sugere abrindo perspectivas inacessíveis à razão humana — que há certa analogia entre a união das pessoas divinas entre si e a união dos filhos de Deus na verdade e na caridade. Esta semelhança torna manifesto que o homem, única criatura sobre a terra a ser querida por Deus por si mesma, não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo” (GS 24). A análise estritamente teológica do Livro do Gênesis, em particular Gênesis 2,23-25, consente-nos fazer referência a este texto. Constitui isto outra transição entre a “antropologia adequada” e a “teologia do corpo”, intimamente ligada esta à descoberta das características essenciais da existência pessoal na “pré-história teológica” do homem. Embora isto possa encontrar resistência por parte da mentalidade evolucionista (mesmo entre os teólogos), seria todavia difícil não reparar que o texto analisado do Livro do Gênesis, especialmente Gênesis 2,23-25, demonstra a dimensão não só “original” mas também “exemplar” da existência do homem, em particular do homem “como varão e fêmea”.
[2] A tradição bíblica refere um eco longínquo da perfeição física do primeiro homem. O profeta Ezequiel, comparando o rei de Tiro com Adão no Éden, escreve: “Eras modelo de perfeição, / cheio de sabedoria, / de beleza perfeita. / Estavas no Éden, / jardim de Deus…” (Ezequiel 28,12-13).

  • Fonte: Vaticano, Audiência de 16.01.1980.





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