1. Seguindo a narrativa do Livro do Gênesis, verificamos que a «definitiva» criação do homem consiste na criação da unidade de dois seres. A sua unidade denota sobretudo a identidade da natureza humana; a dualidade, porém, manifesta o que, com base em tal identidade, constitui a masculinidade e a feminilidade do homem criado. Esta dimensão ontológica da unidade e da dualidade tem, ao mesmo tempo, o significado axiológico do texto de Gênesis 2,23 e resulta claramente de todo o contexto que o homem foi criado como especial valor diante de Deus («Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa», Gên. 1,31), mas também como especial valor para o próprio homem: primeiro, porque é «homem»; segundo, porque a «mulher» é para o homem, e vice-versa o «homem» é para a «mulher».

Enquanto o capítulo 1º do Gênesis exprime este valor em forma puramente teológica (e indiretamente metafísica), o capítulo 2º, pelo contrário, revela por assim dizer o primeiro círculo da experiência vivida pelo homem como valor. Esta experiência está inscrita já no significado da solidão original, e depois em toda a narrativa da criação do homem como macho e fêmea. O texto conciso de Gên. 2,23, que encerra as palavras do primeiro homem à vista da mulher criada, “dele tirada”, pode ser considerado o protótipo bíblico do Cântico dos Cânticos. E se é possível ler impressões e emoções em palavras tão remotas, poder-se-ia também correr o risco de dizer que a profundidade e a força desta primeira e «original» emoção do homem-macho diante da humanidade da mulher, e ao mesmo tempo diante da feminilidade do outro ser humano, parece alguma coisa única e impossível de repetir.

2. Deste modo, o significado da unidade original do homem, através da masculinidade e da feminilidade, exprime-se como ultrapassagem do confim da solidão, e ao mesmo tempo como afirmação – quanto a ambos os seres humanos — de tudo o que na solidão é constitutivo do «homem». Na narrativa bíblica, a solidão é caminho que leva àquela unidade que, seguindo o Vaticano II, podemos definir “communio personarum”[1]. Como já precedentemente notamos, o homem, na sua original solidão, adquire uma consciência pessoal no processo de «distinção» de todos os seres vivos (“animalia”) e ao mesmo tempo, nesta solidão, abre-se para um ser afim a ele, que o Gênesis (2,18.20) define como «auxiliar que lhe é semelhante». Esta abertura decide o homem-pessoa não menos, antes talvez ainda mais, que a mesma «distinção». A solidão do homem, na narrativa javista, apresenta-se-nos não só como o primeiro descobrimento da característica transcendência própria da pessoa, mas também como descobrimento de uma adequada relação «à» pessoa, e portanto como abertura e expectativa de uma «comunhão das pessoas».

Poder-se-ia também aqui usar o termo «comunidade», se não fosse genérico e não tivesse tão numerosos significados. «Communio» diz mais e com maior precisão, porque indica exatamente aquele «auxiliar» que deriva, em certo sentido, do fato mesmo de existir como pessoa «ao lado» de uma pessoa. Na narrativa bíblica este fato torna-se “eo ipso” — de per si — existência da pessoa «para» a pessoa, uma vez que o homem na sua solidão original estava, em certo modo, já nesta relação. Isto é confirmado, em sentido negativo, precisamente pela sua solidão. Além disso, a comunhão das pessoas podia formar-se só em base a uma «dupla solidão» do homem e da mulher, ou seja, como encontro entre a «distinção» deles e o mundo dos seres vivos (“animalia”), que dava a ambos a possibilidade de serem e existirem numa reciprocidade especial. O conceito de «auxiliar» exprime também esta reciprocidade na existência, que nenhum outro ser vivo poderia assegurar. Indispensável para esta reciprocidade era tudo o que de constitutivo fundava a solidão de cada um deles, e portanto também o autoconhecimento e a autodeterminação, ou seja, a subjetividade e a consciência do significado do próprio corpo.

3. A narrativa da criação do homem, no capítulo 1º afirma, desde o princípio e diretamente, que o homem foi criado à imagem de Deus enquanto macho e fêmea. A narrativa do capítulo 2], pelo contrário, não fala da «imagem de Deus»; mas revela, do modo que lhe é próprio, que a completa e definitiva criação do «homem» (submetido primeiramente à experiência da solidão original) se exprime em dar vida àquela «communio personarum» que o homem e a mulher formam. Deste modo, a narrativa javista adapta-se ao conteúdo da primeira narrativa. Se, vice-versa, queremos tirar também da narrativa do texto javista o conceito de «imagem de Deus», podemos então deduzir que o homem se tornou «imagem e semelhança» de Deus não só mediante a própria humanidade, mas ainda mediante a comunhão das pessoas, que o homem e a mulher formam desde o princípio. A função da imagem está em espelhar aquele que é o modelo, reproduzir o seu protótipo. O homem torna-se imagem de Deus não tanto no momento da solidão quanto no momento da comunhão. Ele, de fato, é desde «o princípio» não só imagem em que se espelha a solidão de uma Pessoa que governa o mundo, mas também e essencialmente, imagem de uma imperscrutável comunhão divina de Pessoas.

Deste modo, a segunda narrativa poderia também preparar para se compreender o conceito trinitário da «imagem de Deus», embora esta apareça apenas na primeira narrativa. Isto, obviamente, não é sem significado também para a teologia do corpo, antes constitui mesmo talvez o aspecto teológico mais profundo de tudo o que se pode dizer acerca do homem. No mistério da Criação — com base na original e constitutiva «solidão» do seu ser — o homem foi dotado de profunda unidade entre aquilo que nele, humanamente e mediante o corpo, é masculino, e o que nele não menos humanamente e mediante o corpo, é feminino. Sobre tudo isto, desde o princípio, desceu a bênção da fecundidade, unida à procriação humana[2].

4. Deste modo, encontramo-nos quase na medula mesma da realidade antropológica que tem por nome «corpo». As palavras de Gênesis 2, 23 falam disso, diretamente e pela primeira vez, nos seguintes termos: «osso dos meus ossos e carne da minha carne». O homem-macho pronuncia estas palavras como se apenas à vista da mulher pudesse identificar e chamar pelo -nome aquilo que de modo visível os torna semelhantes um ao outro, e ao mesmo tempo aquilo em que se manifesta a humanidade. A luz da precedente análise de todos os «corpos», com que o homem entrou em contato e definiu conceptualmente dando-lhes o nome («animalia»), a expressão «carne da minha carne» adquire exatamente este significado: o corpo revela o homem. Esta fórmula concisa contém já tudo o que sobre a estrutura do corpo como organismo, sobre a sua vitalidade, sobre a sua particular fisiologia sexual, etc., poderá algum dia dizer a ciência humana. Nesta primeira expressão do homem-macho, «carne da minha carne», está também incluída uma referência àquilo em virtude de que esse corpo é autenticamente humano, e portanto àquilo que determina o homem como pessoa, isto é, como ser que mesmo em toda a sua corporeidade é «semelhante» a Deus[3].

5. Encontramo-nos, portanto, quase na própria medula da realidade antropológica, cujo nome é «corpo», corpo humano. Todavia, como é fácil observar, essa medula não é só antropológica, mas também essencialmente teológica. A teologia do corpo, que desde o princípio está ligada à criação do homem à imagem de Deus, torna-se, em certo modo, também teologia do sexo, ou antes teologia da masculinidade e da feminilidade, que aqui, no Livro do Gênesis, encontra o seu ponto de partida. O significado original da unidade, testemunhada pelas palavras de Gênesis 2,24, terá na Revelação de Deus ampla e longínqua perspectiva. Esta unidade através do corpo («e os dois serão uma só carne») possui uma dimensão múltipla: dimensão ética, como é confirmado pela resposta de Cristo aos fariseus em Mt. 19 (Mc. 10), e também uma dimensão sacramental, estritamente teológica, como é comprovado pelas palavras de São Paulo aos Efésios[4], que se referem também à tradição dos profetas (Oseias, Isaías e Ezequiel). E é assim, porque aquela unidade que se realiza através do corpo indica, desde o princípio, não só o «corpo», mas também a comunhão «encarnada» das pessoas — “communio personarum” — conforme essa comunhão desde o princípio requer. A masculinidade e a feminilidade exprimem o duplo aspecto da constituição somática do homem («esta é o osso dos meus ossos e a carne da minha carne»), e indicam, além disso, por meio das mesmas palavras de Gênesis 2,23, a nova consciência do sentido do próprio corpo: sentido que se pode dizer consistir num enriquecimento recíproco. Precisamente esta consciência, através da qual a humanidade se forma de novo como comunhão de pessoas, parece constituir o extrato que na narrativa da criação do homem (e na revelação do corpo nela incluída) é mais profundo que a sua mesma estrutura somática como macho e fêmea. Em ambos os casos, esta estrutura é apresentada desde o princípio com profunda consciência da corporeidade e sexualidade humana, e isto estabelece uma norma inalienável para a compreensão do homem no plano teológico.

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NOTAS

1. «Mas Deus não criou o homem deixando-o só, desde o princípio ‘homem e mulher os criou’ (Gên. 1,27) e a união deles constitui a primeira forma de comunhão de pessoas» (Gaudium et Spes 12).
2. Cf. Gên. 1,28.
3. Na concepção dos mais antigos livros bíblicos não aparece a contraposição dualista «alma-corpo». Como já foi sublinhado (cf. nota 1 do dia 4 de Novembro), pode-se falar antes de uma combinação complementar «corpo-vida». O corpo é expressão da personalidade do homem, e se não esgota plenamente este conceito, é preciso entendê-lo na linguagem bíblica como «parte pelo todo»; cf. por exemplo: «não foram a carne nem o sangue quem te revelou isso, mas o Meu Pai …» (Mt. 15,17), isto é; não foi o homem quem te revelou.
4. «Ninguém jamais aborreceu a sua própria carne; pelo contrário, nutre-a e cuida dela como também Cristo o faz à sua Igreja, pois somos membros do Seu corpo. Por isso, o homem deixará pai e mãe, ligar-se-á à mulher e passarão os dois a ser uma só carne. É grande este mistério; digo-o porém em relação a Cristo e à Igreja» (Ef. 5,29-32). Isto será tema das nossas reflexões na parte intitulada «O Sacramento».

  • Fonte: Vaticano, audiência de 14.11.1979
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