SÍNODO  DOS  BISPOS
XII ASSEMBLÉIA  GERAL  ORDINÁRIA
A PALAVRA DE DEUS
NA VIDA E NA MISSÃO
DA IGREJA

INSTRUMENTUM  LABORIS

Cidade do Vaticano
2008

PREFÁCIO

A Palavra de Deus por excelência é Jesus Cristo, homem e Deus. O Filho eterno é a Palavra que desde sempre existe em Deus, porque ela mesma é Deus: «No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus» (Jo 1, 1). A Palavra revela o mistério de Deus Uno e Trino. Pronunciada desde sempre por Deus Pai no amor do Espírito Santo, a Palavra exprime o diálogo, descreve a comunhão, introduz na profundidade da vida beatífica da Santíssima Trindade. Em Jesus Cristo, Verbo eterno, Deus nos escolheu antes da criação do mundo, predestinando-nos a sermos seus filhos adotivos (cf. Ef 1, 4-5). Quando o Espírito pairava sobre as águas e as trevas cobriam os abismos (cf. Gen 1, 2), Deus Pai decidiu criar o céu e a terra através da Palavra, por meio da qual tudo o que existe foi feito (cf. Jo 1, 3). Por isso, as marcas da Palavra encontram-se também no mundo criado: «os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos» (Sal 18, 2). A obra-prima da criação é o homem, feito à imagem e semelhança de Deus (cf. Gen 1, 26-27), capaz de entrar em diálogo com o Criador, de descobrir na criação o sinal do seu Autor, o Verbo criador, e de, por meio do Espírito, viver na comunhão com Aquele que é (cf. Ex 3, 14), com o Deus vivo e verdadeiro (cf. Jer 10, 10).

Essa amizade foi quebrada pelo pecado dos nossos primeiros pais (cf. Gen 3, 1-24), que também ofuscou o acesso a Deus através da criação. Deus, clemente e misericordioso (cf. 2 Cr 30, 9), na sua bondade, não abandonou os homens. Escolheu um povo em favor de todas as nações (cf. Gen 22, 18) e continuou a falar-lhe ao longo dos séculos por meio dos Patriarcas e dos Profetas, homens escolhidos para manter viva a esperança geradora de consolação também nos acontecimentos dramáticos da história da salvação. As suas palavras inspiradas estão recolhidas nos livros do Antigo Testamento. Mantiveram viva a espera da vinda do Messias, filho de David (cf. Mt 22, 42), rebento da raiz de Jessé (cf. Is 11, 1).

Quando, depois, na plenitude dos tempos (cf. Gal 4, 4), Deus quis desvendar aos homens o mistério da sua vida, escondido por séculos e gerações (cf. Col 1, 26), o Filho Unigénito de Deus incarnou, «o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós» (Jo 1, 14). Em tudo semelhante a nós, excepto no pecado (cf. Heb 2, 17; 4, 15), o Verbo de Deus teve de Se exprimir de forma humana por palavras e gestos, que são narrados no Novo Testamento, sobretudo nos Evangelhos. Trata-se de uma linguagem em tudo semelhante à dos homens, excepto no erro. Com os olhos da fé, o crente descobre, na fragilidade da natureza humana de Jesus Cristo, o esplendor da sua glória «como de unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade» (Jo 1, 14). De modo análogo, por meio das palavras da Sagrada Escritura, o cristão é convidado a descobrir a Palavra de Deus, o esplendor do glorioso Evangelho de Cristo, que é imagem de Deus (cf. 2 Cor 4, 4). É um processo exigente, paciente e constante, que pressupõe um estudo histórico e crítico (também diacrónico) e a aplicação de todos os possíveis métodos científicos e literários (em vista da compreensão sincrónica), a que se submete toda a investigação de escritos humanos. Iluminados pelo Espírito Santo, dom do Senhor ressuscitado, e sob a guia do Magistério, os fiéis perscrutam as Escrituras e aproximam-se do seu significado pleno, encontrando a Palavra de Deus, a pessoa do Senhor Jesus, Aquele que tem palavras de vida eterna (cf. Jo 6, 68).

Por conseguinte, o tema da XII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos – A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja – poderia ser tomado em sentido cristológico: Jesus Cristo na vida e na missão da Igreja. A perspectiva cristológica é necessariamente acompanhada da pneumatológica, que juntas permitem descobrir a dimensão trinitária da revelação. Essa leitura garante, por um lado, a unidade da revelação, enquanto o Senhor Jesus, Palavra de Deus, unifica todas as palavras e gestos relatados na Sagrada Escritura por autores inspirados e fielmente conservados na Tradição. Isso vale não só para o Novo Testamento, que narra e proclama o mistério da morte, da ressurreição e da presença do Senhor Jesus no seio da Igreja, comunidade dos seus discípulos convocados para celebrar os santos mistérios. Permitindo à graça destruir o pecado (cf. Rom 6, 6), os fiéis procuram conformar-se com o seu Mestre para que cada um possa viver Cristo (cf. Gal 2, 20). Uma tal leitura vale também para o Antigo Testamento, que, segundo a palavra de Jesus, também dá testemunho d’Ele (cf. Jo 5, 39; Lc 24, 27). Por outro lado, a leitura cristológica da Escritura, unida à pneumatológica, permite elevar-se da letra ao espírito, das palavras à Palavra de Deus. Com efeito, as palavras muitas vezes escondem o verdadeiro significado, que é próprio dos géneros literários, da cultura dos escritores inspirados e da maneira de conceber o mundo e as suas leis. É necessário, portanto, redescobrir na multiplicidade das palavras a unidade da Palavra de Deus, que, depois desse necessário e fatigante percurso, brilha com um inesperado esplendor, sobejamente compensador da fadiga da procura.

O Instrumentum laboris, documento de trabalho da próxima Assembleia sinodal, recolhe esse acesso duplo e complementar à Palavra de Deus. É o resultado das respostas aos Lineamenta, documento de reflexão dos Sínodos das Igrejas Orientais Católicas sui iuris, das Conferências Episcopais, dos Dicastérios da Cúria Romana, da União dos Superiores Gerais, bem como de pessoas que quiserem dar o seu contributo na reflexão eclesial sobre um tema tão importante. A reflexão foi orientada pelo Santo Padre Bento XVI, Pastor universal da Igreja, que em numerosas intervenções se referiu ao tema da Assembleia sinodal, desejando, entre outras coisas, que da redescoberta da Palavra de Deus, sempre actual e que nunca envelhece, a Igreja possa rejuvenescer e ter uma nova primavera. Assim, poderá desempenhar com novo dinamismo a sua missão de evangelização e de promoção humana no mundo de hoje, que tem sede de Deus e da sua palavra de fé, esperança e caridade.

O texto do Instrumentum laboris contém um mosaico, onde prevalecem aspectos positivos no que concerne à generalizada consciência da importância da Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja. Nele se assinalam também aspectos que carecem ser melhorados e integrados, sobretudo no que se refere a um maior acesso à Escritura e a uma melhor percepção eclesial dela, que certamente levarão a um renovado zelo apostólico e pastoral no anúncio da Boa Nova aos que estão perto e aos que estão longe e na animação das realidades terrenas, contribuindo para a construção de um mundo mais justo e pacífico.

É de esperar que o Instrumentum laboris, redigido pelo XI Conselho Ordinário da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos e com a ajuda de alguns especialistas, seja um válido documento de reflexão sinodal. Poderá guiar os Padres sinodais no caminho descendente e ascendente da redescoberta da Palavra de Deus, ou seja, de Jesus Cristo, homem e Deus. É o que de modo especial acontece nas celebrações litúrgicas que têm o seu ápice na Eucaristia, onde a palavra mostra a sua eficácia milagrosa. De facto, por vontade expressa de Jesus Cristo – «fazei isto em memória de Mim» (Lc 22, 19) –, as palavras pronunciadas pelo sacerdote in persona Christi capitis «tomai, isto é o meu corpo» (Mc 14, 22), «isto é o meu sangue» (Mc 14, 24) transformam, pela acção do Espírito Santo, dom do Pai, o pão no corpo e o vinho no sangue do Senhor ressuscitado. Desta fonte perene de graça e caridade, a Igreja colhe constantemente a linfa vital e o impulso para a sua missão no mundo contemporâneo, cujos habitantes são chamados a descobrir na pessoa de Jesus Cristo a Palavra de Deus, que é «o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14, 6) para cada um e para toda a humanidade.

Nikola Eterovic
Arcebispo titular de Sisak
Secretário Geral

Vaticano, na Solenidade de Pentecostes, 11 maio 2008

INTRODUÇÃO

«O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos, o que tocámos com as nossas mãos acerca do Verbo da Vida, é o que vos anunciamos. Porque a Vida manifestou-Se e nós vimos e damos testemunho d’Ela. Nós vos anunciamos a Vida eterna, que estava junto do Pai e nos foi manifestada. Nós vos anunciamos o que vimos e ouvimos, para que estejais também em comunhão connosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo. E vos escrevemos tudo isto, para que a vossa alegria seja completa» (1 Jo 1, 1-4).

I. Um anúncio esperado e bem recebido

Duodécima Assembleia Geral Ordinária do Sínodo

1. A próxima XII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que terá lugar de 5 a 26 de Outubro de 2008, tem por tema A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja. O argumento escolhido por Sua Santidade Bento XVI a 6 de Outubro de 2006 foi acolhido com grande consenso do Episcopado e do povo de Deus. Para orientar a preparação específica foram preparados os Lineamenta, com o intuito de se reflectir, à luz do Concílio Ecuménico Vaticano II, sobre a experiência que a Igreja faz hoje da Palavra na variedade das tradições e dos ritos, apelando para as motivações da fé e estimulando uma reflexão articulada sobre diversos aspectos do encontro com a Palavra de Deus.

Receberam-se respostas aos Lineamenta e respectivo Questionário da parte das Igrejas Orientais Católicas sui iuris, das Conferências Episcopais, dos Dicastérios da Cúria Romana e da União dos Superiores Gerais, bem como observações de Bispos, sacerdotes, pessoas consagradas, teólogos e fiéis leigos. Pode-se dizer que a participação foi grande e diligente da parte das Igrejas particulares em todos os continentes, mostrando como a Palavra de Deus se propaga verdadeiramente em todo o mundo. Os diversos pareceres foram recolhidos e oportunamente sintetizados neste Instrumentum laboris.

II. O Instrumentum laboris e o seu uso

Pontos de referência

2. Reafirma-se a escuta obediente da Palavra de Deus em comunhão com toda a Tradição da Igreja, de modo especial com o Concílio Vaticano II, e mais precisamente com a Constituição dogmática sobre a Divina Revelação Dei Verbum (DV), em sintonia com os outros documentos conciliares, nomeadamente as Constituições dogmáticas sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium (SC) e sobre a Igreja Lumen gentium (LG), e a Constituição pastoral sobre a Igreja e o mundo contemporâneo Gaudium et spes (GS) [1]. Em relação directa com o tema sinodal temos as duas Notas da Pontifícia Comissão Bíblica: A interpretação da Bíblia na Igreja e O povo judeu e as suas Sagradas Escrituras na Bíblia cristã. Seguem-nas, com a autoridade que lhes é própria, o Catecismo da Igreja Católica e respectivo Compêndio e o Directório Geral parar a Catequese.

Especial atenção merecem o magistério dos Papas Pio XII, Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI sobre a Palavra de Deus e os documentos de alguns Dicastérios da Cúria Romana nestes quarenta anos do pós-Concílio. Existem também os textos sobre a Palavra de Deus das Igrejas particulares e de outros organismos eclesiais continentais, regionais e nacionais. Por sua vez, o Sínodo tem outros dois pontos de referência. O primeiro é o precedente Sínodo sobre a Eucaristia, com a qual se conjuga a Palavra de Deus, formando uma única mesa do Pão da vida (cf. DV 21). O segundo é um outro acontecimento importante de graça, que anima os trabalhos do Sínodo: o da sua simultaneidade com o Ano Paulino, na memória viva do Apóstolo, que da Palavra de Deus foi testemunha e anunciador exemplar e é mestre permanente na Igreja.

Expectativas comuns

3. Nos contributos dados pelos Pastores encontram-se muitos pontos comuns, que mostram o que se espera do Sínodo. Das observações comuns sobressaem:

– a necessidade de dar primazia à Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, exigindo ao mesmo tempo a coragem e a criatividade de uma pedagogia da comunicação apropriada aos tempos (cultura, contextos actuais de vida, comunicação);

– o convite a reconhecer que a Palavra de Deus é Jesus Cristo, o que implica que se leia toda a Bíblia à luz do seu mistério, de modo especial na celebração litúrgica e, mais ainda, na Eucaristia dominical;

– a afirmação de que é o Espírito Santo que leva à compreensão completa da Palavra de Deus, permitindo-nos compreendê-la e animando a leitura da Bíblia na Igreja, na sua Tradição viva de anúncio e de caridade; assim, a escuta da Palavra de Deus e toda a leitura da Bíblia exigem que se pertença à comunidade da Igreja em atitude de comunhão e de serviço;

– a certeza de que a Bíblia é revelação da Palavra de Deus, embora com muitas dificuldades de compreensão, sobretudo no Antigo Testamento;

– o grande desejo dos fiéis de ouvir a Palavra de Deus, a que se responde com apreciáveis iniciativas pastorais; mas, por outro lado, a percepção da necessidade urgente de superar a indiferença, a ignorância e confusão sobre as verdades da fé relativas à Palavra de Deus, a falta de preparação e de subsídios bíblicos;

– a necessidade de uma pastoral bíblica e também de uma animação bíblica de toda a pastoral, que inclua o ensino de todas as verdades da fé;

– a necessária comunhão na fé e na prática da Palavra de Deus, pedindo-se, ao mesmo tempo, que cada Igreja particular assuma a responsabilidade de acolher a Palavra no contexto da sua situação peculiar;

– o diferente modo de abordar a Bíblia na Tradição latina e na Tradição oriental, realçando a conveniência em dar a conhece-las e considerá-las uma riqueza;

– a competência e a responsabilidade dos Pastores em relação ao anúncio da Palavra de Deus, o que exige uma constante actualização da sua formação;

– a urgência de que o laicado não seja apenas um sujeito passivo, mas se torne, ao mesmo tempo, ouvinte da Palavra de Deus e seu anunciador, devidamente preparado e apoiado pela comunidade;

– a certeza de que Deus dirige a sua Palavra de salvação a todos os homens, a começar pelos mais pobres, e que, portanto, quer que a sua Palavra seja objecto da missão, isto é, se dê a conhecê-la a todos os povos como Boa Nova de libertação, consolação e salvação, promovendo o diálogo dentro das Igrejas e comunidades cristãs e com as outras religiões, mormente com as numerosas culturas, não esquecendo as muitas sementes de verdade que a providência de Deus colocou nelas.

A finalidade do Sínodo

4. A finalidade primária do Sínodo é dedicar-se ao tema da Palavra, com a qual «Deus invisível (cf. Col 1, 15; 1 Tim 1, 17), no seu grande amor, fala aos homens como a amigos (cf. ExJo 15, 14-15) e Se entretém com eles (cf. Bar 3, 38), para convidá-los e admiti-los à comunhão com Ele» (DV 2). Isso comporta a escuta e o amor da Palavra do Senhor, que está em consonância com a vida concreta das pessoas do nosso tempo. A Palavra de Deus provoca uma chamada, cria comunhão, envia em missão, para que se torne dom para os outros o que se recebe para si. É, portanto, uma finalidade eminentemente pastoral e missionária: aprofundar as razões doutrinais e deixar-se iluminar por elas significa estender e reforçar a prática de encontro com a Palavra de Deus como fonte de vida nos diferentes âmbitos da experiência e, assim, por caminhos seguros e fáceis, poder ouvir Deus e falar com Ele. 33, 11;

a. Concretamente, o Sínodo propõe-se, entre os seus objectivos, ajudar a esclarecer melhor os aspectos fundamentais da verdade sobre a Revelação, como são a Palavra de Deus, a fé, a Tradição, a Bíblia e o Magistério, que motivam e garantem um caminho de fé válido e eficaz; estimular um profundo amor à Sagrada Escritura, para que «os fiéis tenham largo acesso» à mesma (cf. DV 22), sublinhando a unidade entre o pão da Palavra e o pão do Corpo de Cristo, para pleno alimento da vida dos cristãos [2]. Além disso, é necessário recordar a indissolúvel circularidade entre a Palavra de Deus e a liturgia; recomendar em toda a parte o exercício da Lectio Divina, devidamente adaptada às diversas circunstâncias; oferecer ao mundo dos pobres uma palavra de consolação e de esperança. Este Sínodo pretende, portanto, colaborar para um correcto exercício hermenêutico da Escritura, orientando bem o necessário processo de evangelização e inculturação; entende encorajar o diálogo ecuménico, estreitamente vinculado à escuta da Palavra de Deus; pretende favorecer o diálogo judeu-cristão e, de forma mais ampla, o diálogo inter-religioso e intercultural.

b. É desejo de muitos Pastores que o contributo final do Sínodo não seja apenas de carácter informativo, mas incida na vida, provoque participação, de modo que a Palavra de Deus se mostre viva, eficaz, penetrante (cf. Heb 4, 12), através de uma linguagem essencial e compreensível às pessoas. A tal propósito, convém lembrar que os termos Bíblia, Sagrada Escritura, Livro Sagrado têm o mesmo significado, e do contexto se compreenderá quando também a expressão “Palavra de Deus” tem o sentido de “Sagrada Escritura”.

PREMISSA

Itinerário histórico

“Sinais dos tempos”. Mais de quarenta anos depois do Concilio
«A Palavra do Senhor se propague e seja glorificada» (2 Tes 3, 1)

Uma boa estação de frutos

5. A Palavra de Deus teve vários resultados positivos na comunidade cristã. No plano objectivo e geral, sobressaem os seguintes aspectos:

– a substancial renovação bíblica em âmbito litúrgico, catequético e, precedentemente, exegético e teológico;

– a prática ainda incipiente, mas já promissora, da Lectio Divina com diferentes modalidades;

– a difusão do Livro Sagrado através do apostolado bíblico e do entusiasmo de comunidades, grupos e movimentos eclesiais;

– o número cada vez maior de novos leitores e ministros da Palavra de Deus;

– a disponibilidade crescente de instrumentos e subsídios da comunicação hodierna;

– o interesse pela Bíblia em âmbito cultural.

Incertezas e perguntas

6. Outros aspectos, porém, permanecem ainda abertos e problemáticos. Sempre num plano objectivo de dados, registam-se nas Igreja locais, um pouco por toda parte, as seguintes lacunas:

– a Dei Verbum como tal é pouco conhecida;

– nota-se uma maior familiaridade com a Bíblia, mas também um insuficiente conhecimento de todo o depósito da fé, a que a Bíblia pertence;

– quanto ao Antigo Testamento, é generalizada a dificuldade de compreendê-lo e acolhê-lo, com o risco de usá-lo de forma não correcta;

– o contacto que na liturgia da Missa se faz com a Palavra de Deus deixa muitas vezes a desejar;

– a relação entre Bíblia e ciência na interpretação do mundo e da vida humana constitui um nó delicado e doloroso;

– em todo o caso, ainda existe um certo distanciamento dos fiéis em relação à Bíblia, cujo uso não se pode considerar uma experiência generalizada;

– apela-se para a necessidade de afirmar a estreita ligação entre os ensinamentos morais e a Sagrada Escritura, na sua plenitude, referindo-se particularmente aos Dez Mandamentos, ao preceito do amor de Deus e do próximo, como também ao discurso da Montanha e ao ensinamento paulino sobre a vida no Espírito.

– Por fim, há a acrescentar uma dúplice pobreza relativamente aos meios materiais de difusão da Bíblia e às formas de comunicação, que muitas se mostram inadequadas.

Uma condição de fé diversificada e exigente

7. Olhando para a condição de fé neste quadro de luzes e sombras, dos contributos dos Pastores emergem interessantes pontos de reflexão, que se podem agrupar em três níveis: pessoal, comunitário e social.

a. A nível das pessoas. Há que ter presente que muitos fiéis hesitam em abrir a Bíblia por diversas razões, sobretudo pela impressão de que se trata de um livro demasiado difícil de compreender. Em muitos cristãos, o desejo intenso de ouvir a Palavra de Deus dá-se numa experiência mais emotiva que convicta, pelo escasso conhecimento que têm da doutrina. Esta ruptura entre verdades de fé e experiência de vida nota-se, sobretudo, no encontro litúrgico com a Palavra de Deus. Acrescente-se uma certa separação entre os estudiosos, por um lado, e os Pastores e povo simples das comunidades cristãs, por outro. Em segundo lugar, há que reconhecer que a relação directa com a Escritura muitos a vivem de modo incipiente. Neste campo, os movimentos dão um especial testemunho e há que reconhecer a função estimulante das pessoas consagradas.

b. A nível comunitário. Não se esqueça que, se a Palavra de Deus tem em todo o mundo ouvintes entusiastas, as diferenças no seio da Igreja são significativas. É legítimo afirmar que, nas Igrejas locais de origem mais recente ou em situação de minoria numérica, o uso da Bíblia entre os fiéis é maior que noutros lugares. Também são diferentes as formas de abordá-la, consoante os contextos, podendo hoje falar-se de uma diferente abordagem bíblica na Europa, na África, na Ásia, na América e na Oceânia. Por outro lado, mantém-se a diferente complementaridade do uso da Palavra de Deus nas Igrejas latina e orientais e em relação às outras Igrejas e comunidades eclesiais.

c. A nível social. O processo de globalização, na sua rápida propagação, atinge também a Igreja. Três factores, amplamente recordados nas respostas, servem de contexto ao encontro com a Sagrada Escritura:

– a secularização, que cria uma condição de vida facilmente exposta aos desvios do secularismo consumístico, ao relativismo e à indiferença religiosa, sobretudo nas novas gerações;

– o pluralismo religioso e cultural, com o surgir de formas gnósticas e esotéricas na interpretação da Sagrada Escritura e de grupos religiosos autónomos dentro da Igreja Católica. Além disso, há confrontos não fáceis e conflitos dolorosos, sobretudo para as minorias cristãs em ambientes não cristãos, a propósito do uso da Bíblia;

– a aspiração, muito sentida, de apresentar a Palavra de Deus como libertação da pessoa de condições desumanas e como conforto concreto para os pobres e para os que sofrem.

No quadro da nova evangelização, a transmissão da fé deve conjugar-se com a descoberta em profundidade da Palavra de Deus. Deseja-se que a Palavra de Deus seja apresentada como sustentáculo da fé da Igreja ao longo dos séculos.

A estrutura do Instrumentum laboris

8. A estrutura articula-se em três partes: a primeira parte põe em foco a identidade da Palavra de Deus segundo a fé da Igreja; a segunda parte trata da Palavra de Deus na vida da Igreja; a terceira parte reflecte sobre a Palavra de Deus na missão da Igreja.

Cada parte está dividida em capítulos, para tornar a leitura mais leve e clara. Em síntese, o Sínodo pretende meditar, propor e agradecer esse grande mistério da Palavra de Deus, seu dom supremo.

PRIMEIRA PARTE

O MISTÉRIO DE DEUS QUE NOS FALA

«Muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos Profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por seu Filho, a quem fez herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou o universo» (Heb 1, 1-2).

Dos contributos dos Pastores tomam-se alguns temas teológicos mais significativos para a acção pastoral, como são a identidade da Palavra de Deus, o mistério de Cristo e da Igreja como centro da Palavra de Deus, a Bíblia como Palavra inspirada e a sua verdade, a interpretação da Bíblia segundo a fé da Igreja, a correcta atitude de escuta da Palavra de Deus.

CAPÍTULO PRIMEIRO

A. Deus, Aquele que nos fala. Identidade da Palavra de Deus
«Deus fala aos homens como a amigos» (DV 2)

A Dei Verbum propõe uma teologia dialógica da Revelação. Nesse diálogo, há três aspectos que estão intrinsecamente ligados: a amplidão de significado que o termo “Palavra de Deus” assume na Revelação divina; o mistério de Cristo, expressão plena e perfeita da Palavra de Deus; o mistério da Igreja, sacramento da Palavra de Deus.

A Palavra de Deus como um canto a várias vozes

9. A Palavra de Deus é como um canto a várias vozes, enquanto Deus a pronuncia de muitas formas e de diversos modos (cf. Heb 1, 1), numa longa história e com uma diversidade de anunciadores, mas onde aparece uma hierarquia de significados e funções.

a. A Palavra de Deus tem como pátria a Trindade, donde provém, por quem é sustentada e a quem regressa, testemunho permanente do amor do Pai, da obra de salvação do Filho Jesus Cristo e da acção fecunda do Espírito Santo. À luz da Revelação, a Palavra é o Verbo eterno de Deus, a segunda pessoa da Santíssima Trindade, o Filho do Pai, fundamento da comunicação intra-trinitária e ad extra: «No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio, Ele estava com Deus. Tudo se fez por meio d’Ele e sem Ele nada foi feito» (Jo 1, 1-3; cf. Col 1, 16).

b. Por isso, o mundo criado narra a glória de Deus (cf. Sal 18, 1). No princípio do tempo, Deus cria com a sua Palavra o cosmo (cf. Gen 1, 1), pondo na criação a marca da sua sabedoria e tornando-se assim tudo sua voz (cf. Sir 46, 17; Sal 67, 34). É em especial a pessoa humana, porque criada à imagem e semelhança de Deus (cf. Gen 1, 26), que se torna para sempre sinal inviolável e intérprete inteligente da sua Palavra. Da Palavra de Deus, de facto, a pessoa recebe a capacidade para entrar em diálogo com Ele e com a criação. Assim, Deus faz de toda a criação, e da pessoa in primis, «um testemunho perene de Si» (DV 3). Dado que «n’Ele (Cristo) foram criadas todas as coisas e em vista d’Ele […] e n’Ele todas subsistem» (Col 1, 16-17), «encontram-se nas pessoas e nas tradições religiosas da humanidade “sementes do Verbo” (AGNA 2[3]. 11.15), “raios da verdade que ilumina todos os homens” (

c. «O Verbo fez-Se carne» (Jo 1, 14): a Palavra de Deus, última e definitiva é Jesus Cristo, a sua pessoa, a sua missão, a sua história, intimamente unidas, segundo o plano do Pai, que culmina na Páscoa e terá a sua realização plena quando Jesus entregar o Reino ao Pai (cf. 1 Cor 15, 24). Ele é o Evangelho de Deus para toda a pessoa humana (cf. Mc 1, 1).

d. Em vista da Palavra de Deus, que é o Filho incarnado, o Pai falou nos tempos antigos por meio dos Profetas (cf. Heb 1, 1) e, pela força do Espírito, os Apóstolos continuam a anunciar Jesus e o seu Evangelho. Assim, a Palavra de Deus é expressa com palavras humanas no anúncio dos Profetas e dos Apóstolos.

e. A Sagrada Escritura, fixando por divina inspiração os conteúdos revelados, atesta, de forma autêntica, que é verdadeiramente Palavra de Deus (cf. DV 24), totalmente orientada para Jesus, porque «são precisamente elas (as Escrituras) que dão testemunho de Mim» (Jo 5, 39). Pelo carisma da inspiração, os livros da Sagrada Escritura têm uma força de interpelação directa e concreta, que outros textos e intervenções humanas não têm.

f. A Palavra de Deus, porém, não se fecha na escrita. Se, na verdade, a Revelação terminou com a morte do último Apóstolo (cf. DV 4), a Palavra revelada continua a ser anunciada e ouvida na história da Igreja, que se empenha em proclamá-la a todo o mundo para responder à sua necessidade de salvação. Assim, a Palavra continua o seu curso na pregação viva, que abraça as diferentes formas de evangelização, onde sobressaem o anúncio e a catequese, a celebração litúrgica e o serviço da caridade. A pregação no sentido apenas afirmado é, sob o poder do Espírito Santo, Palavra do Deus vivo, comunicada a pessoas vivas.

g. Entram no âmbito da Palavra de Deus, como fruto das raízes, as verdades de fé da Igreja em campo dogmático e moral.

Deste quadro pode-se compreender que, quando se anuncia na fé a revelação de Deus, dá-se um acontecimento revelatório, que se pode chamar verdadeiramente Palavra de Deus na Igreja.

Consequências pastorais

10. Recordam-se aqui as muitas consequências pastorais, a que se ligam tantas respostas vindas das Igrejas particulares.

– Devem-se atribuir à Palavra de Deus todas as qualidades de uma verdadeira comunicação interpessoal, a que a Bíblia muitas vezes dá o nome de diálogo de aliança, e que fazem com que Deus e a pessoa humana se falem como membros da mesma família.

– Nesta perspectiva, a religião cristã não se pode definir “religião do Livro” em termos absolutos, uma vez que o Livro inspirado pertence de forma vital a todo o corpo da Revelação [4].

– O mundo criado é manifestação da Palavra de Deus, e a vida e história humanas contêm-na como em germe. Nesta óptica, emergem questões hoje relevantes, lembradas em muitos contributos dos Pastores sobre a lei natural, a origem do mundo, a questão ecológica.

– Convirá certamente retomar a linda noção de “história da salvação” (historia salutis), tão cara aos Padres da Igreja e que tradicionalmente se tornou “História sagrada”. Deverá levar-se a compreender tudo o que implica a “religião do Verbo incarnado”, ou seja, a Palavra de Deus, que não está cristalizada em fórmulas abstractas e estáticas, mas tem uma história dinâmica, feita de pessoas e acontecimentos, de palavras e acções, de evoluções e tensões, como claramente aparece na Bíblia. A historia salutis, concluída na sua fase constitutiva, continua a ser eficaz agora no tempo da Igreja.

– A totalidade da Palavra de Deus é assegurada por todos os actos que a exprimem, segundo a função de cada um. Salta logo à mente, pela sua força, o facto de a Sagrada Escritura constituir o âmbito vital da Igreja. Por outro lado, é necessário que todos os momentos do ministério da Palavra de Deus estejam em interacção recíproca e harmónica. Entre estes, têm um papel fundamental o anúncio, a catequese, a liturgia e a diaconia.

– Caberá aos Pastores ajudar os fiéis a terem esta visão harmónica da Palavra, evitando formas erróneas ou redutoras ou de compreensão ambígua e tornando-os capazes de se tornarem ouvintes atentos da Palavra, onde quer que ela ressoe, e a saborear também as palavras mais simples da Bíblia.

B. No centro, o mistério de Cristo e da Igreja
«Nos nossos dias, Deus falou-nos por seu Filho» (Heb 1, 2)

No coração da Palavra de Deus, o mistério de Cristo

11. Em geral, os cristãos apercebem-se da centralidade da pessoa de Jesus Cristo na Revelação de Deus, mas nem sempre sabem captar as razões dessa importância e compreender em que sentido Jesus é o coração da Palavra de Deus; daí que também lhes custe fazer uma leitura cristã da Bíblia. A isso se referem quase todas as respostas dos Organismos consultados, levados pela dupla preocupação de evitar os equívocos de uma leitura superficial e fragmentária da Escritura e, sobretudo, de apontar a estrada segura para entrar no Reino de Deus e ter em herança a vida eterna. Com efeito, «é esta a vida eterna: que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, e Aquele que enviaste, Jesus Cristo» (Jo 17, 3). Esta relação substancial entre a Palavra de Deus e o mistério de Cristo configura-se, assim, na Revelação como anúncio e, depois na história da Igreja, como aprofundamento inesgotável.

Dessa relação citam-se aqui apenas algumas referências teológicas essenciais de evidente incidência pastoral.

– Sempre à luz da Dei Verbum, há que recordar que Deus realizou um plano inteiramente gratuito: «mandou o seu Filho para que habitasse entre os homens e lhes explicasse os segredos de Deus (cf. Jo 1, 1-18). Jesus Cristo, portanto, Verbo feito carne, […] “diz as palavras de Deus” (Jo 3, 34) e realiza a obra de salvação que Lhe foi confiada pelo Pai (cf. Jo 5, 36; 17, 4)» (DV 4). Assim, Jesus, na sua vida terrena e agora celeste, assume e realiza a finalidade plena, o sentido, a história e o projecto da Palavra de Deus, porque, como diz Santo Ireneu, Cristo «trouxe-nos a novidade plena, ao trazer-nos a Si próprio» [5].

– O projecto de Deus prevê uma história na Revelação. Como afirma o autor da Carta aos Hebreus: «Muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais pelos Profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por seu Filho» (Heb 1, 1-2). Quer dizer que, em Jesus, a Palavra de Deus assume os significados que Ele deu à sua missão: tem por finalidade fazer entrar no Reino de Deus (cf. Mt 13, 1-9); manifesta-se nas suas palavras e obras; exprime o seu poder nos milagres; pertence-lhe animar a missão dos discípulos, confirmando-os no amor de Deus e do próximo e na assistência aos pobres; revela a sua verdade plena no mistério pascal, à espera da sua revelação total; e agora guia a vida da Igreja no tempo.

– Mas também é verdade que a Palavra de Jesus tem de ser compreendida, como Ele mesmo dizia, segundo as Escrituras (cf. Lc 24, 44-49), ou seja, na história do povo de Deus do Antigo Testamento, que O esperou como Messias, e agora na história da comunidade cristã, que O anuncia com a pregação, medita n’Ele com a Bíblia, e experimenta a sua amizade e guia. São Bernardo afirma que no plano da Incarnação da Palavra, Cristo é o centro de todas as Escrituras. A Palavra de Deus, que já se fez ouvir na primeira aliança, tornou-se visível em Cristo [6].

– Não se pode esquecer que «por Ele e para Ele tudo foi criado» (Col 1, 16). Jesus assume uma centralidade cósmica; é o rei do universo, Aquele que dá sentido último a toda a realidade. Se a Palavra de Deus é como um canto a várias vozes, a sua chave de interpretação, por inspiração do Espírito Santo, é Cristo na globalidade do seu mistério. «A Palavra de Deus, que no princípio estava com Deus, não é, na sua plenitude, uma multiplicidade de palavras; não é muitas palavras, mas uma só Palavra que abarca um grande número de ideias, de que cada uma é uma parte da Palavra na sua totalidade […] E se Cristo nos remete para as “Escrituras”, como sendo as que Lhe dão testemunho, considera os livros da Escritura um único rótulo, porque tudo o que foi escrito acerca d’Ele está recapitulado num só todo» [7].

No coração da Palavra de Deus, o mistério da Igreja

12. A Igreja, porque é mistério do Corpo de Jesus, acaba por ter na Palavra o anúncio da sua identidade, a graça da sua conversão, o mandato da sua missão, a fonte da sua profecia e a razão da sua esperança. É intimamente constituída pelo diálogo com o Esposo e torna-se a destinatária e testemunha privilegiada da Palavra amorosa e salvífica de Deus. Pertencer cada vez mais a esse “mistério” que faz a Igreja é o resultado justo da escuta da Palavra de Deus. Por isso, o encontro contínuo com a Palavra de Deus é causa da sua renovação e fonte de «uma nova primavera espiritual» [8].

Por outro lado, a consciência viva de pertencer à Igreja, Corpo de Cristo, será efectiva na medida em que se puderem articular coerentemente as diferentes relações com a Palavra de Deus: uma Palavra anunciada, uma Palavra meditada e estudada, uma Palavra pregada e celebrada, uma Palavra vivida e propagada. É por isso que, na Igreja, a Palavra de Deus não é um depósito inerte, mas torna-se regra suprema da fé e poder de vida; progride com a assistência do Espírito Santo e cresce com a reflexão e o estudo dos crentes, com a experiência pessoal de vida espiritual e a pregação dos Bispos (cf. DV 8; 21). Testemunham-no de modo especial os homens de Deus que habitaram a Palavra [9]. É evidente que a primeira missão da Igreja é transmitir a Palavra divina a todos os homens. A história atesta que isso aconteceu e continua a acontecer hoje, depois de tantos séculos, no meio de tantos obstáculos, mas também com vitalidade fecunda.

São objecto de permanente reflexão e fiel actuação as primeiras palavras da Dei Verbum: «em religiosa escuta da Palavra de Deus e proclamando-a com firme confiança» (DV 1). Resumem a essência da Igreja na sua dupla dimensão de escuta e proclamação da Palavra de Deus. Não há dúvida nenhuma de que o primeiro lugar pertence à Palavra de Deus. Só através dela se pode compreender a Igreja. Esta define-se como Igreja que escuta. É na medida em que escuta que também pode ser Igreja que proclama. Diz o Santo Padre Bento XVI: «Não é a si que a Igreja vai buscar a sua vida, mas ao Evangelho, e pelo Evangelho que ela constantemente se orienta no seu peregrinar» [10].

Consequências pastorais

13. A comunidade cristã sente-se gerada e renovada pela Palavra de Deus para descobrir a face de Cristo. A afirmação de São Jerónimo é clara e categórica: «Ignoratio enim Scripturarum, ignoratio Christi est» [11] (Quem não conhece as Escrituras não conhece Cristo). Recordam-se aqui algumas urgências pastorais indicadas nas respostas aos Lineamenta:

– desenvolver linhas orgânicas de reflexão sobre a relação de Jesus com a Sagrada Escritura, sobre como Ele a lê e como ela ajuda a compreendê-l’O;

– apresentar de forma simples os critérios de leitura cristã da Bíblia, resolvendo nessa luz elementos difíceis do Antigo Testamento;

– ajudar os fiéis a ver a Igreja, guiada pelo Magistério, como o lugar vital e contínuo de anúncio da Palavra de Deus;

– instruir os cristãos que dizem não ler a Bíblia por preferirem estabelecer com Jesus uma relação directa e pessoal;

– graças à realidade de Jesus, Senhor ressuscitado e presente nos sinais sacramentais, a liturgia deve ser considerada lugar primário do encontro com a Palavra de Deus;

– finalmente, não esquecer que, na comunicação catequética, devem-se escolher os Evangelhos como leitura prioritária, mas, ao mesmo tempo, lê-los em ligação com os outros livros do Antigo e Novo Testamento e com os documentos do Magistério da Igreja.

CAPÍTULO SEGUNDO

A. A Bíblia como Palavra de Deus inspirada e a sua verdade
«A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera
o corpo de Cristo» (DV 21)

As perguntas

14. Um dos problemas mais sentidos pelos Pastores é a relação da Sagrada Escritura com a Palavra de Deus, de modo especial a sua inspiração e a sua verdade. Distinguem-se três níveis de perguntas:

– umas têm a ver com a natureza da Bíblia: que se entende por inspiração ou por cânone, qual o tipo de verdade da Escritura e como entender a sua historicidade;

– outras dizem respeito à relação da Escritura com a Tradição e o Magistério;

– outras, enfim, relacionam-se com as páginas difíceis da Bíblia, sobretudo do Antigo Testamento. Acenar-se-á a estas últimas, quando se tratar da Palavra de Deus na catequese.

A Sagrada Escritura, Palavra de Deus inspirada

15. Muitas respostas aos Lineamenta levantam questões sobre o modo de explicar aos fiéis o carisma da inspiração e da verdade das Escrituras. A tal propósito, é necessário, antes de mais, fixar a relação entre Bíblia e Palavra de Deus, esclarecer a acção do Espírito Santo e fixar alguns pontos sobre a identidade da Bíblia.

a. Deve reconhecer-se a relação de distinção e comunhão entre Bíblia e Palavra de Deus. É a própria Bíblia que afirma a não coincidência material entre Palavra de Deus e Escritura. A Palavra de Deus é realidade viva e eficaz (cf. Heb 4, 12-13), eterna (cf. Is 40, 8), «omnipotente» (Sab 18, 15), criadora (cf. Gen 1, 3ss.) e instauradora de história. Para o Novo Testamento, essa Palavra é o próprio Filho de Deus, o Verbo feito carne (cf. Jo 1, 1ss; Heb 1, 2). A Escritura, por sua vez, é afirmação dessa relação entre Deus e o homem, ilumina-a e orienta-a na forma correcta. A Palavra de Deus, portanto, não se circunscreve ao Livro; chega ao homem também através do caminho da Igreja, Tradição viva. Isso implica a superação de uma interpretação subjectiva e fechada da Escritura, pelo que esta deve ser lida dentro de um processo da Palavra de Deus mais vasto, mesmo inesgotável, como prova o facto de a Palavra continuar a alimentar a vida de gerações, em tempos sempre novos e diferentes. A comunidade cristã torna-se, por conseguinte, sujeito da transmissão da Palavra de Deus e, ao mesmo tempo, sujeito privilegiado para captar o sentido profundo da Sagrada Escritura, o progresso da fé e, portanto, a evolução do dogma. Devido a esta sua prerrogativa, a Igreja, desde o início, venerou sumamente os livros bíblicos e estabeleceu, como regra e cânone da fé na Revelação divina, um elenco certo e definitivo dos mesmos: 73 livros, dos quais 46 são do Antigo Testamento e 27 do Novo Testamento [12].

b. O Espírito dá respiro à Palavra escrita e coloca o Livro no mistério mais vasto da incarnação e da Igreja. Por isso, graças ao Espírito, a Palavra de Deus é realidade litúrgica e profética; é anúncio (kerygma), antes de ser livro e é testemunho do Espírito Santo sobre a presença de Cristo.

c. Em síntese, pode-se dizer que:

– o carisma da inspiração permite afirmar que Deus é o autor da Bíblia, de uma maneira porém que não exclui o homem como sendo verdadeiro autor ele mesmo. De facto, ao contrário de um ditado, a inspiração não tira a liberdade e as capacidades pessoais do escritor, mas ilumina-as e inspira-as;

– embora a Sagrada Escritura seja inspirada em todas as suas partes, a sua inerrância diz respeito apenas à «verdade que Deus, para a nossa salvação, quis que fosse consignada nas sagradas letras» (DV 11);

– graças ao carisma da inspiração, o Espírito Santo faz dos livros bíblicos Palavra de Deus e confia-os à Igreja, para que sejam escutados na obediência da fé;

– o Cânone, na sua inteireza e unidade orgânica, constitui critério de interpretação do Livro Sagrado;

– sendo a Bíblia Palavra de Deus em linguagem humana, a sua interpretação faz-se de acordo com critérios literários, filosóficos e teológicos, sempre sob a força unificadora da fé e a guia do Magistério [13].

Tradição, Escritura e Magistério

16. O Concilio Vaticano II insiste sobre a unidade de origem e sobre as muitas ligações entre Tradição e Escritura, que a Igreja acolhe «com igual sentimento de piedade e reverência» (DV 9). A tal propósito, recordamos que a Palavra de Deus, feita em Cristo Evangelho ou Boa Nova (cf. Rom 1,16) e, como tal, entregue à pregação apostólica, continua o seu curso:

– antes de mais, através do fluxo da Tradição viva, manifestada em «tudo aquilo que ela [a Igreja] é e em tudo quanto acredita» (DV 8), como culto, ensinamento, caridade, santidade, martírio;

– depois, através da Sagrada Escritura, que conserva desta Tradição viva, por inspiração do Espírito Santo e precisamente na imutabilidade da escrita, os elementos constitutivos e originários. «Esta Sagrada Tradição, portanto, e a Escritura Sagrada de um e do outro Testamento são como um espelho, no qual a Igreja peregrina sobre a terra contempla Deus, de quem tudo recebe, até chegar a vê-l’O, face a face, como Ele é (cf. 1 Jo 3, 2)» (DV 7).

Por fim, cabe ao Magistério da Igreja, que não é superior à Palavra de Deus, o encargo de «interpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita ou transmitida», enquanto «piamente a ouve, religiosamente a guarda e fielmente a expõe» (DV 10). Em síntese, uma verdadeira leitura da Escritura como Palavra de Deus não pode ser feita senão in Ecclesia, segundo o seu ensinamento.

Antigo e Novo Testamento, uma única economia da salvação

17. Um problema que católicos sentem tem a ver com o conhecimento do Antigo Testamento como Palavra de Deus e, de modo especial, a sua relação com o mistério de Cristo e da Igreja. Até por dificuldades exegéticas não resolvidas, depara-se com uma certa resistência perante páginas do Antigo Testamento que se mostram incompreensíveis e que, portanto, são expostas a uma selecção arbitrária e a uma recusa. Segundo a fé da Igreja, o Antigo Testamento deve ser considerado como parte da única Bíblia dos cristãos, parte constitutiva da Revelação e, portanto, da Palavra de Deus. Daí a necessidade urgente de uma formação para a leitura cristã do Antigo Testamento, reconhecendo a relação que liga os dois Testamentos e os valores permanentes do Antigo (cf. DV 15-16) [14]. Neste ponto, é de ajuda a práxis litúrgica, que proclama sempre o Texto Sagrado do Antigo Testamento como página essencial para uma compreensão plena do Novo Testamento, segundo a afirmação do próprio Jesus no episódio de Emaús, onde o Mestre, «começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito» (Lc 24, 27). É exacta a afirmação agostiniana «Novum in Vetere latet et in Novo Vetus patet»[15] (O Novo Testamento está escondido no Antigo e o Antigo é desvelado no Novo). Diz São Gregório Magno: «O que o Antigo Testamento prometeu, o Novo Testamento mostrou; o que aquele anuncia de modo oculto, este proclama-o abertamente como presente. Por isso, o Antigo Testamento é profecia do Novo Testamento, e o melhor comentário do Antigo Testamento é o Novo Testamento» [16]. As consequências práticas desta doutrina são numerosas e vitais.

Consequências pastorais

18. Cresce a consciência de que não é suficiente uma leitura superficial da Bíblia. Constata-se que diversos grupos bíblicos, que partiram com entusiasmo à descoberta do Livro Sagrado, foram-se depois progressivamente extinguindo por falta de bom terreno, ou seja, da Palavra de Deus entendida no seu mistério de graça, como Jesus diz na parábola do semeador (cf. Mt 13, 20-21). Nessa óptica, propõem-se aqui algumas consequências:

a. Porque a Escritura está intimamente ligada à Igreja, esta tem um papel essencial no acesso à Palavra na sua genuinidade fontal, tornando-se assim critério para a recta compreensão da Tradição, pois tanto a liturgia como a catequese se alimentam efectivamente da Bíblia. Como já foi dito, os livros da Sagrada Escritura têm uma força de apelo directo e concreto que outros textos ou intervenções eclesiásticas não têm.

b. Deve-se também ter presente, nos seus efeitos práticos, a distinção entre Tradição apostólica constitutiva e tradições eclesiais. Com efeito, enquanto a primeira provém dos Apóstolos e transmite o que estes receberam de Jesus e do próprio Espírito Santo, as tradições eclesiais nasceram ao longo dos tempos nas Igrejas locais, e são formas de adaptação da «grande Tradição» [17]. Deve-se, além disso, ter na devida conta o alcance decisivo do reconhecimento canónico que a Igreja fez em matéria de Sagrada Escritura, garantindo a sua autenticidade perante a proliferação de livros não autênticos ou apócrifos. As interpretações gnósticas, hoje muito difusas, sobre a verdade das origens cristãs exigem que se explique o que se entende por Cânone dos Livros Sagrados e como este surgiu. Aí se justificam a oportunidade de orientação e a necessidade de reconhecimento por parte da Igreja na tradução e difusão da Escritura. Por fim, há que retomar em consideração o confronto entre Escritura e Tradição e os sinais da Palavra de Deus no mundo criado, especialmente em relação ao homem e à sua história, pois toda a criatura é Palavra de Deus, uma vez que proclama Deus [18].

c. O objectivo do Magistério, ao dar orientações ou proclamar definições, não é limitar a leitura pessoal da Escritura, mas antes oferecer um quadro seguro de referência no campo da investigação. Infelizmente, o ensinamento do Magistério e o valor dos seus diferentes níveis de pronunciamento nem sempre são bem conhecidos e aceites. O Sínodo é ocasião para se redescobrirem a Dei Verbum e os sucessivos documentos pontifícios. De modo especial, convém ter presente a orientação dada pelo Santo Padre Bento XVI em várias intervenções magisteriais sobre a compreensão e uso da Palavra de Deus na Bíblia.

d. No sulco da Tradição viva e, portanto, como serviço genuíno à Palavra de Deus, deve-se também ter presente o instrumento do Catecismo, a começar pelo primeiro Símbolo da fé, que é o núcleo de todo o Catecismo, até às diversas exposições promovidas ao longo dos séculos na Igreja. São suas expressões mais recentes o Catecismo da Igreja Católica e, nas Igrejas locais, os respectivos Catecismos.

e. Neste ponto, impõe-se uma distinção fundamental, que terá muitas repercussões na prática pastoral: existe o encontro com a Escritura nas grandes acções da Igreja, como são a liturgia e a catequese, onde a Bíblia se coloca num contexto público ministerial, e existe também o encontro imediato, como são a Lectio Divina, o curso bíblico, o grupo bíblico. Hoje, haverá que promover este caminho, por andar o povo de Deus um tanto afastado do uso directo e pessoal da Escritura.

f. Quanto pois ao Antigo Testamento, este deve ser entendido como uma etapa no crescimento da fé e da compreensão de Deus. O seu carácter figurativo e a sua relação com a mentalidade científica e histórica do nosso tempo precisam de um esclarecimento. Do mesmo modo, muitas suas passagens contêm uma força espiritual, sapiencial e cultural única, permitem fazer uma rica catequese sobre as realidades humanas e mostram as etapas do caminho de fé de um povo. O conhecimento e a leitura dos Evangelhos não excluem o facto de o aprofundamento do Antigo Testamento dar à leitura e inteligência do Novo Testamento uma profundidade cada vez maior.

g. Por fim e numa óptica pastoral muito concreta, merecem ser assinaladas algumas observações que permitem um melhor discernimento da relação dos fiéis com a doutrina da fé. Os fiéis, em geral, distinguem a Bíblia dos outros textos religiosos e consideram-na mais importante na vida de fé; na prática, porém, muitos preferem textos espirituais de compreensão mais simples, mensagens e escritos edificantes ou diversas manifestações da piedade popular. Poder-se-ia dizer que o povo encontra a Palavra de Deus por via prática, vivendo-a, mais do que conhecendo as suas origens e motivações. É uma situação positiva, mas ao mesmo tempo frágil. Precisa saber falar ao povo, reconhecendo a sua maneira de compreender. Ajudar os fiéis a compreender o que é a Bíblia, porque existe, o que dá à fé, como se a usa, é um dever imprescindível nas actividades pastorais.

B. Como Interpretar A Bíblia Segundo A Fé Da Igreja
«A Palavra de Deus é viva e eficaz» (Heb 4, 12)

O problema hermenêutico em perspectiva pastoral

19. O problema hermenêutico, onde se inserem a actualização da Palavra de Deus e, ao mesmo tempo, a inculturação [19], é uma questão delicada e importante. Deus, com efeito, propõe à pessoa não uma informação qualquer, mais ou menos curiosa e nem mesmo de ordem meramente humana ou científica, mas comunica-lhe a sua Palavra de verdade e de salvação, o que exige da parte de quem escuta uma compreensão inteligente, vital, responsável e, portanto, actual. Isso comporta o duplo movimento de reconhecer o verdadeiro sentido da Palavra dita ou escrita, tal como o Senhor a comunica através dos autores sagrados e, ao mesmo tempo, exige que a Palavra seja significativa para quem a escuta também hoje.

À escuta da experiência

20. Das respostas dos Bispos conclui-se que a interpretação da Palavra, não obstante as aparências em contrário, é acessível. Há muitos cristãos que, em comunidade ou singularmente, perscrutam a Palavra de Deus, dispostos a compreender o que Deus diz e a obedecer-Lhe prontamente. Pois bem, esta disponibilidade da fé é para a Igreja uma possibilidade preciosa para tornar possível uma correcta compreensão e actualização do Texto Sagrado. Hoje, esta oportunidade (kairòs) tem, de certo modo, ainda mais valor porque se abre um novo confronto entre a Palavra de Deus e as ciências do homem, de modo especial no âmbito da investigação filosófica, científica e histórica. Deste contacto entre Palavra e cultura advém uma grande riqueza de verdade e de valores sobre Deus, o homem e as coisas. A razão, portanto, interpela a fé e é levada por esta a colaborar para uma verdade e vida em consonância com a Revelação de Deus e as expectativas da humanidade.

Mas também não faltam os riscos de uma interpretação arbitrária e redutora, resultantes sobretudo do fundamentalismo, que faz com que, por um lado, se manifeste o desejo de permanecer fiéis ao Texto, mas, por outro, se ignore a própria natureza dos textos, caindo em erros graves e até gerando conflitos inúteis [20]. Existem também as chamadas leituras ideológicas da Bíblia, fruto de pre-compreensões rígidas de ordem espiritual ou social e político ou simplesmente humanas, a que falta o suporte da fé (cf. 2 Pt 1, 19-20; 3, 16), até formas de contraposição e separação entre a forma escrita, atestada antes de mais na Bíblia, a forma viva do anúncio e a experiência de vida dos crentes. Nota-se, em geral, um conhecimento fraco ou impreciso das regras hermenêuticas da Palavra.

O sentido da Palavra de Deus e o caminho para encontrá-lo

21. À luz do Concílio Vaticano II e do Magistério sucessivo [21], alguns aspectos parecem carecer hoje de uma atenção e reflexão específicas, em vista de uma adequada comunicação pastoral: a Bíblia, Livro de Deus e do homem, deve ser lida unificando correctamente o sentido histórico-literal e o sentido teológico-espiritual, ou mais simplesmente sentido espiritual [22]. A citada Nota da Pontifícia Comissão Bíblica dá, a propósito, a seguinte definição: «Como regra geral, podemos definir o sentido espiritual, entendido segundo a fé cristã, como o sentido expresso pelos textos bíblicos, quando lidos sob a influência do Espírito Santo no contexto do mistério pascal de Cristo e da vida nova que dele deriva. Este contexto existe realmente. O Novo Testamento reconhece que nele se cumprem as Escrituras. É normal, portanto, reler as Escrituras à luz deste novo contexto, o da vida no Espírito» [23].

Isso significa que, para uma exegese correcta, é necessário o método histórico-crítico, convenientemente enriquecido de outras formas de abordagem [24], mas para alcançar o sentido total da Escritura é necessário servir-se dos critérios teológicos, repropostos pela Dei Verbum: «conteúdo e unidade de toda a Escritura, Tradição viva de toda a Igreja, analogia da fé» (DV 12) [25]. Neste ponto, sente-se hoje a necessidade de uma aprofundada reflexão teológica e pastoral para formar as nossas comunidades numa inteligência recta e frutuosa. Diz o Papa Bento XVI: «É meu grande desejo que os teólogos aprendam a ler e a amar a Escritura como, segundo a Dei Verbum, quis o Concílio: que vejam a unidade interior da Escritura – a que a “exegese canónica” (que certamente ainda se encontra num estádio inicial) hoje ajuda –, e que depois se faça dela uma leitura espiritual, que não é uma prática exterior de carácter edificante, mas é antes um mergulhar interiormente na presença da Palavra. Considero uma tarefa muito importante fazer algo nesse sentido: contribuir para que, a par, com e na exegese histórico-crítica, se faça verdadeiramente uma introdução à Escritura viva como Palavra de Deus actual» [26].

Consequências pastorais

22. O povo de Deus tem de ser educado para descobrir esse grande horizonte, que é a Palavra de Deus, evitando complicar a leitura da Bíblia. Sirva a verdade de que as coisas mais importantes na Bíblia são também as mais directamente ligadas à existência, como é a vida de Jesus. Recordamos alguns pontos cruciais para uma correcta interpretação do Livro Sagrado.

a. Antes de mais, recorda-se a interpretação da Palavra de Deus, feita todas as vezes que a Igreja se reúne para celebrar os divinos mistérios. A propósito, a Introdução ao Leccionário, que é proclamado na Eucaristia, recorda: «Como o novo povo de Deus, por vontade do próprio Cristo, se encontra diversificado numa admirável diversidade de membros, vários são também os ofícios e as funções que competem a cada um relativamente à Palavra de Deus: assim, os fiéis escutam e meditam a palavra, mas só a explicam aqueles a quem, pela sagrada Ordenação, compete a função do magistério, ou aqueles a quem se confia o exercício deste ministério. Deste modo, a Igreja, na sua doutrina, na sua vida e no seu culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo o que ela mesma é e tudo o que crê, de forma que, no decorrer dos séculos, tende continuamente para a plenitude da verdade divina, até que nela tenha plena realização a Palavra de Deus» [27].

b. Convém observar que «o sentido espiritual não deve ser confundido com as interpretações subjectivas ditadas pela imaginação ou pela especulação intelectual». Esse provém de «três níveis de realidade: o texto bíblico (no seu sentido literal), o mistério pascal e as presentes circunstâncias de vida no Espírito» [28]. Há que partir, em todo o caso, do texto bíblico, como primário e insubstituível também na acção pastoral.

c. Reconhecendo que a Nota da Pontifícia Comissão Bíblica, A interpretação da Bíblia na Igreja, geralmente não passou do círculo dos especialistas, haverá que empenhar-se em ajudar os leitores crentes a conhecer as leis elementares para uma abordagem do texto bíblico. São muito válidos os subsídios preparados para o efeito.

d. Nessa perspectiva, tenham-se em conta, rectamente compreendidas e recuperadas, a extraordinária exegese dos Padres [29] e a grande intuição medieval dos “quatro sentidos da Escritura”, que ainda não perderam o seu interesse. Não se transcurem as diversas ressonâncias e tradições que a Bíblia provoca na vida do povo de Deus, nas figuras dos Santos, dos mestres espirituais, das testemunhas. Dê-se também atenção ao contributo das ciências teológicas e humanas. Também a “história dos efeitos” (Wirkungsgeschichte), sobretudo na arte, pode ser um testemunho fecundo de leitura espiritual. Uma vez que a Bíblia hoje é lida também pelos não crentes, que realçam o seu valor antropológico, uma interpretação correcta desse aspecto pode ser enriquecedora. A Sagrada Escritura deve ser lida em comunhão com a Igreja de todos os lugares e tempos, com as grandes testemunhas da Palavra, desde os primeiros Padres aos Santos e ao Magistério actual [30].

e. Destaque-se o pedido feito ao Sínodo de não só enfrentar os problemas clássicos da Bíblia, mas também meter em relação com ela os problemas actuais, como a bioética e a inculturação. Podemos dizê-lo com uma expressão frequente dos grupos bíblicos: “Como ir da vida ao texto e do texto à vida?” Ou ainda “Como ler a Bíblia com a vida e a vida com a Bíblia?”.

f. Assinala-se, do ponto de vista da comunicação da fé, um novo problema da hermenêutica bíblica. Diz respeito não só à compreensão da linguagem bíblica, mas também ao conhecimento da cultura actual, cada vez menos ligada à Palavra oral ou escrita e mais orientada para uma cultura electrónica, o que pode tornar a proclamação tradicional da Palavra tediosa aos ouvintes, imersos como estão nas técnicas informáticas.

CAPÍTULO TERCEIRO

Atitude exigida a quem escuta a Palavra
«Ouve, meu povo» (Sal 49, 7)

Das respostas dos Bispos aos Lineamenta vê-se a necessidade de cultivar no povo uma relação orante, pessoal e comunitária com a Palavra de Deus que suscita e nutre a resposta da fé.

Uma Palavra eficaz

23. Os sujeitos do acontecimento da Palavra são Deus que a anuncia e o destinatário, pessoa singular ou comunidade. Deus fala, mas sem a escuta do crente a Palavra é dita, mas não acolhida. Por isso, pode-se dizer que a revelação bíblica é o encontro entre Deus e o povo na experiência da única Palavra, e que ambos fazem a Palavra. A fé opera e a Palavra cria-a.

O texto de Heb 4, 12-13, bem como o de Is 55, 9-11 e tantos outros, afirmam a eficácia infalível da Palavra de Deus. Como entender tal eficácia? A pergunta ainda mais se impõe pelo facto, relevado por diversos contributos dos Bispos, de alguns cristãos neófitos darem à leitura do Livro Sagrado um valor quase mágico, sem um específico empenhamento pessoal de responsabilidade. Na verdade, a Palavra de Deus tem a sua eficácia, como diz a parábola do semeador (cf. Mc 4, 1-20), mas quando se tiram os obstáculos e se criam as condições para que a semente da Palavra frutifique.

Quanto ao tipo de eficácia próprio da Palavra de Deus, é iluminante um outro texto evangélico, que utiliza a imagem da semente que deve morrer para dar fruto: Cristo fala da necessidade da sua morte para realizar o desígnio de salvação. A cruz é directamente poder e sabedoria de Deus; o Evangelho é a «Palavra da cruz», escreve Paulo aos cristãos de Corinto (1 Cor 1, 18). A eficácia da Palavra é, portanto, do género da cruz. Palavra e cruz são duas realidades que se colocam no mesmo plano. O seu poder está todo no dinamismo do amor divino que as penetra: «Deus, de facto, amou tanto o mundo que entregou o seu Filho unigénito» (Jo 3, 16; cf. Rom 5, 8). Encontra o fruto da Palavra quem crê no amor de Deus que a pronuncia. É então que a potencialidade da Palavra de Deus acontece, se realiza e se torna verdadeiramente pessoal.

O crente: aquele que escuta a Palavra de Deus na fé

24. «A Deus que revela é devida a obediência da fé». A Ele, que falando Se dá, o homem ouvindo «se entrega […] total e livremente» (DV 5). O homem, que mesmo em virtude da estrutura íntima da pessoa é ouvinte da Palavra, recebe de Deus a graça de responder na fé. Isso implica, da parte da comunidade e de cada crente, uma atitude de plena adesão a uma proposta de comunhão total com Deus e de entrega à sua vontade (cf. DV 2). Tal atitude de fé comunional deverá manifestar-se em cada encontro com a Palavra de Deus, na pregação viva e na leitura da Bíblia. Não é por acaso que a Dei Verbum aplica ao Livro Sagrado o que globalmente afirma da Palavra de Deus: «Deus fala aos homens como amigos para os convidar e admitir à comunhão com Ele» (DV 2). «Nos Livros Sagrados, o Pai que está nos céus vem amorosamente ao encontro de seus filhos, a conversar com eles» (DV 21). Revelação é comunhão de amor, que a Escritura muitas vezes exprime com o termo de aliança. Em síntese, trata-se de uma atitude de oração, «diálogo entre Deus e o homem, porque “a Ele falamos, quando rezamos; a Ele ouvimos, quando lemos os divinos oráculos”  [31]» (DV 25).

A Palavra de Deus transforma a vida dos que dela se aproximam com fé. A Palavra nunca se esgota; cada dia é nova. Mas, para que isso aconteça, é necessária uma fé que escuta. A Escritura afirma repetidas vezes que a escuta é que faz de Israel povo de Deus: «Se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis minha propriedade especial entre todos os povos» (Ex 19, 5; cf. Jer 11, 4). A escuta cria uma pertença, um laço; introduz na aliança. No Novo Testamento, a escuta é dirigida à pessoa de Jesus, o Filho de Deus: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O» (Mt 17, 5 e par.).

O crente é alguém que escuta. Quem escuta confessa a presença daquele que fala e quer envolver-se nele; quem escuta abre em si um espaço à inabitação do outro; quem escuta dispõe-se com confiança ao outro que fala. Por isso, os Evangelhos pedem discernimento sobre o que se escuta (cf. Mc 4, 24) e como se escuta (cf. Lc 8, 18): de facto, somos o que escutamos! A figura antropológica que a Bíblia quer construir é, portanto, a de um homem capaz de escutar, habitado por um coração que escuta (cf. 1 Reis 3, 9). Sendo esta escuta, não uma mera audição de frases bíblicas, mas discernimento pneumático da Palavra de Deus, ela exige a fé e deve fazer-se no Espírito Santo.

Maria, modelo de acolhimento da Palavra para o crente

25. Na história da salvação sobressaem grandes figuras de ouvintes e evangelizadores da Palavra de Deus: Abraão, Moisés, os Profetas, os Santos Pedro e Paulo, os outros Apóstolos, os Evangelistas. Escutaram fielmente a Palavra do Senhor e, comunicando-a, deram espaço ao Reino de Deus.

Nesta perspectiva, tem um papel central a figura da Virgem Maria, que viveu de forma incomparável o encontro com a Palavra de Deus, que é o próprio Jesus. Por isso, ela se tornou modelo providencial de toda a escuta e anúncio. Já educada à familiaridade com a Palavra de Deus na experiência intensa das Escrituras do povo a que pertence, Maria de Nazaré, desde o acontecimento da Anunciação até à Cruz, e mais precisamente até ao Pentecostes, acolhe na fé, medita, interioriza e vive intensamente a Palavra (cf. Lc 1, 38; 2, 19.51; At 17, 11). Em virtude do seu sim, primeiro e nunca interrompido, à Palavra de Deus, ela sabe olhar à sua volta e vive as urgências do quotidiano, ciente de que o que recebe do Filho como dom é um dom para todos: no serviço a Isabel, em Caná e ao pé da cruz (cf. Lc 1, 39; Jo 2, 1-12; 19, 25-27). A ela se adapta, portanto, o que Jesus disse na sua presença: «Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática» (Lc 8, 21). «Estando intimamente penetrada pela Palavra de Deus, Maria pode tornar-se mãe da Palavra incarnada». [32]

Em particular, considere-se a sua maneira de ouvir a Palavra. O texto evangélico «Maria, por sua vez, conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração» (Lc 2, 19) significa que ela escutava e conhecia as Escrituras, meditava-as no coração, numa espécie de processo interior de maturação, onde a inteligência não está separada do coração. Maria procurava o sentido espiritual da Escritura e encontrava-o, ligando-o (symballousa) às palavras, à vida de Jesus e aos acontecimentos que ia descobrindo na sua história pessoal. Maria é o nosso modelo, tanto no acolher a fé, a Palavra, como no estudá-la. Não lhe basta acolhê-la, medita nela. Não só a possui, mas ao mesmo tempo a valoriza. Dá-lhe sentido e também a desenvolve. Assim, Maria torna-se símbolo para nós, para a fé dos simples e para a dos doutores da Igreja, que procuram, avaliam e definem o modo de professar o Evangelho.

Recebendo a Boa Nova, Maria revela-se o tipo ideal da obediência da fé; torna-se ícone vivente da Igreja no serviço da Palavra. Diz Isaac d’Étoile: «Nas Escrituras, divinamente inspiradas, o que se atribui em geral à virgem e mãe Igreja aplica-se em geral à Virgem e Mãe Maria […]. A herança do Senhor é em termos universais a Igreja, em termos especiais Maria e em termos singulares cada alma fiel. No tabernáculo do ventre de Maria, Cristo habitou durante nove meses; no tabernáculo da fé da Igreja, permanecerá até ao fim do mundo; no conhecimento e amor da alma fiel, habitará pelos séculos dos séculos» [33]. Maria ensina a não ser alheios espectadores de uma Palavra de vida, mas a tornar-se participantes, fazendo próprio o “eis-me” dos Profetas (cf. Is 6, 8), deixando-se guiar pelo Espírito Santo que habita em nós. Maria “magnifica” o Senhor, descobrindo na sua vida a misericórdia de Deus, que a fez “bem-aventurada”, porque «acreditaste no cumprimento das palavras do Senhor» (Lc 1, 45). Diz Santo Ambrósio que cada cristão que crê concebe e dá à luz o Verbo de Deus. Se existe uma só mãe de Cristo segundo a carne, já segundo a fé Cristo é o fruto de todos. [34]

Consequências pastorais

26. São notáveis as consequências pastorais no que diz respeito à fé na Palavra de Deus.

a. Pode-se ler a Bíblia sem fé, mas sem fé não se pode escutar a Palavra de Deus. Um grupo bíblico é válido, se, ao ler a Bíblia, educa-se na fé, conformando a vida cristã com as indicações que a Bíblia oferece e iluminando com a fé os momentos difíceis.

b. Deve-se falar ao homem de hoje de forma positiva e encorajadora, dando múltiplas sugestões para lidar com o texto, a leitura espiritual, a oração, a partilha da Palavra. Trata-se, antes de mais, de se abeirar da Palavra, não tanto como depósito de referências dogmáticas ou pastorais, mas como fonte de água viva, na alegre surpresa de ouvir o Senhor no próprio contexto de vida. Trata-se de pôr em acto o círculo hermenêutico completo: crer para compreender e compreender para crer; a fé procura a inteligência e a inteligência abre-se à fé. O episódio de Emaús é um modelo exemplar de encontro do crente com a própria Palavra incarnada (cf. Lc 24, 13-35).

c. «Ouve, Israel», «Shemá Israel», é o mandamento primário do povo de Deus (Dt 6, 4). «Ouve» é também a primeira palavra da regra de São Bento. Deus convida o fiel a escutar com o ouvido do coração. O coração na Bíblia não é apenas a sede dos sentimentos ou da emoção, mas o centro mais profundo da pessoa, onde se tomam as decisões. Por isso, é necessário o silêncio, que se prolonga para além das palavras. O Espírito Santo faz entender e compreender a Palavra de Deus, unindo-Se silenciosamente ao nosso espírito (cf. Rom 8, 26-27).

d. É necessário escutar como Maria e com Maria, mãe e educadora da Palavra de Deus. Existe a forma simples e universal de escuta orante da Palavra, que são os mistérios do Rosário. João Paulo II realçou a riqueza bíblica do mesmo, definindo-o como o «compêndio do Evangelho», em que a enunciação do mistério «deixa falar Deus», permite «contemplar Cristo com Maria» [35]. Mais ainda, a exemplo da Virgem Maria, templo do Espírito, numa vida silenciosa, humilde e escondida, toda a Igreja deve ser educada para dar testemunho desta íntima relação entre Palavra e silêncio, Palavra e Espírito de Deus. A escuta da Palavra na fé torna-se, depois, no crente compreensão, meditação, comunhão, partilha, actuação: vêem-se aqui delineados os traços da Lectio Divina, como sendo o caminho privilegiado da aproximação do crente à Bíblia.

e. É justo recordar que a atitude de fé diz respeito à Palavra de Deus em todos os seus sinais e linguagens. É uma fé que recebe da Palavra uma comunicação de verdade através da narração ou da fórmula doutrinal; uma fé que reconhece a Palavra de Deus como estímulo primário para uma conversão eficaz, luz para responder às tantas perguntas do crente, guia para um discernimento sapiencial da realidade, solicitação para cumprir a Palavra (cf. Lc 8, 21), e não apenas lê-la ou dizê-la, e, por fim, fonte permanente de consolação e esperança. Daí o dever de reconhecer e assegurar o primado da Palavra de Deus na própria vida de crentes, recebendo-a tal como a Igreja a anuncia, compreende, explica e vive.

f. Finalmente, para as muitas pessoas que não sabem ler, haverá que preparar oportunos serviços de comunicação da Palavra traduzida nas línguas apropriadas.

SEGUNDA PARTE

A PALAVRA DE DEUS NA VIDA DA IGREJA

«Tanto quanto os céus estão acima da terra, assim os meus caminhos estão acima dos vossos e acima dos vossos estão os meus pensamentos. E assim como a chuva e a neve que descem do céu não voltam para lá sem terem regado a terra, sem a haverem fecundado e feito produzir, para que dê a semente ao semeador e o pão para comer, assim a palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua missão» (Is 55, 9-11).

CAPÍTULO QUARTO

A Palavra de Deus vivifica a Igreja
«A carta que Deus enviou aos homens» [36]

Quando o Espírito Santo começa a mover a vida do povo, um dos primeiros e mais fortes sinais é o amor pela Palavra de Deus na Escritura e o desejo de conhecê-la melhor. Isso dá-se porque a Palavra da Escritura é uma Palavra que Deus dirige a cada um pessoalmente como uma carta nas circunstâncias concretas da vida. Ela tem uma imediação extraordinária e o poder de penetrar no centro do ser humano. Com efeito:

– a Igreja nasce e vive da Palavra de Deus;
– a Palavra de Deus sustém a Igreja ao longo de toda a sua história;
– a Palavra de Deus permeia e anima, no poder do Espírito Santo, toda a vida da Igreja.

A Igreja nasce e vive da Palavra de Deus

27. Nos Actos dos Apóstolos lê-se que Paulo e Barnabé, em Antioquia, «à chegada, convocaram a comunidade, contaram tudo o que Deus fizera com eles e como abrira aos gentios a porta da fé» (Actos 14, 27).

O Sínodo é o lugar onde certamente se poderão ouvir «os milagres e prodígios» da Palavra de Deus, como aconteceu em Antioquia e na assembleia de Jerusalém, quando escutavam Barnabé e Paulo (cf. Actos 15, 12). Em todas as Igrejas particulares, com efeito, se fazem múltiplas experiências da Palavra de Deus: na Eucaristia, na Lectio Divina comunitária e pessoal, no dia da Bíblia, nos cursos bíblicos, nos grupos do Evangelho ou de escuta da Palavra de Deus, no caminho bíblico diocesano, nos exercícios espirituais, nas peregrinações à Terra Santa, nas celebrações da Palavra, nas expressões da música, das artes plásticas, da literatura e do cinema.

Diversas constatações emergem das respostas aos Lineamenta:

– Depois do Concílio Vaticano II, lê-se mais a Palavra de Deus, sobretudo no contexto da liturgia eucarística. Em muitas Igrejas, dá-se um lugar privilegiado à Bíblia, expondo-a de forma visível ao lado do altar ou sobre o altar, como acontece nas Igrejas orientais.

– Está a fazer-se um grande esforço, por parte da Igreja, para que o acesso à Sagrada Escritura seja uma realidade de povo. Conferências Episcopais, dioceses, paróquias, comunidades religiosas, associações e movimentos enveredaram pela estrada-mestra da Palavra de Deus de forma totalmente inesperada em relação a algumas décadas atrás.

– O desejo de ser introduzido no gosto da Palavra de Deus é para alguns prioritário em relação a outros pedidos de serviço pastoral. Esta é uma necessidade sentida até por pessoas afastadas, que se mostram sensíveis ao Jesus dos Evangelhos.

– Não quer dizer que o grau de familiaridade com a Palavra de Deus seja uniforme. No mundo de antiga cristandade, a Bíblia encontra-se hoje nas casas, mais que noutros tempos, mas talvez nem sempre como Livro verdadeiramente lido. Dados estatísticos mostram como, numa boa parte do mundo, ainda deve crescer muito o uso significativo da Bíblia e como deve amadurecer a consciência do papel fundante e decisivo da Palavra de Deus para uma vida de fé.

– Diferente é o dado de outras áreas geográficas, onde o problema maior é a escassez de meios, sobretudo traduções. É edificante mencionar as experiências que esses nossos irmãos e irmãs, em geral pobres, fazem no contacto com a Palavra de Deus. Sirva ao menos de testemunho autorizado quanto se lê na Nota da Pontifícia Comissão Bíblica: «É motivo de alegria ver gente humilde e pobre pegar na Bíblia, podendo dar à sua interpretação e à sua actualização uma luz mais penetrante, do ponto de vista espiritual e existencial, que a que vem de uma ciência segura de si».[37]

– Surge um paradoxo: à fome da Palavra de Deus nem sempre corresponde uma pregação adequada por parte dos Pastores da Igreja, por deficiências na preparação do tempo de seminário ou na prática pastoral.

A Palavra de Deus sustém a Igreja ao longo de toda a sua história

28. É um dado constante, na vida do povo de Deus, ir buscar força à Palavra, que mostra assim não ser estática, mas ser Palavra que corre (cf. 2 Tes 3, 1) e cai do céu como chuva fecunda (cf. Is 55, 10-11). Era o que acontecia quando os Profetas falavam ao povo, Jesus à multidão e aos discípulos e os Apóstolos à comunidade primitiva, e é o que acontece nos nossos dias. Pode-se muito bem dizer que o serviço da Palavra de Deus caracteriza as diversas épocas no seio do próprio mundo bíblico e, depois, na história da Igreja.

Assim, no tempo dos Padres, a Escritura encontra-se no centro como fonte aonde ir buscar teologia, espiritualidade, orientação pastoral. Os Padres são os mestres insuperáveis dessa leitura espiritual da Escritura, que, quando genuína, não é um ignorar a letra ou o correcto sentido histórico, mas capacidade de ler a letra no Espírito. Na Idade Média, a Sagrada Página constitui a base da reflexão teológica; para encontrá-la bem, elabora-se a doutrina dos quatro sentidos: literal, alegórico, tropológico e anagógico [38]. No período antigo, a Palavra de Deus na Lectio Divina constitui a forma monástica da oração; serve de fonte à inspiração artística; transmite-se ao povo nas tantas formas da pregação e da piedade popular. Na Idade Moderna, o surgir do espírito crítico, o progresso científico, a divisão dos cristãos e o consequente empenho ecuménico estimulam, com algumas dificuldades e contrastes, um estudo mais correcto e, ao mesmo tempo, uma melhor compreensão do mistério da Escritura no sentido da Tradição. Na Época Contemporânea, afirma-se o processo de renovação, baseado na centralidade da Palavra de Deus, que a partir do Concílio Vaticano II se mantém até ao presente Sínodo.

Na linha da grande Tradição, cada Igreja particular vai-se desenvolvendo no tempo com modos e características próprias. Sobretudo, como mostra a história, é possível descobrir ligações, influências e contributos recíprocos. Para já, há que assinalar um dúplice dado: por um lado, pode-se constatar que a Palavra de Deus se propaga e evangeliza as diversas Igrejas particulares dos cinco continentes: incarna-se progressivamente nelas, tornando-se alma vivificante da fé de tantos povos, factor fundamental de comunhão, fonte de inspiração e transformação das culturas e da sociedade; por outro, parece que a pastoral bíblica sofre por razões históricas ligadas ao momento da evangelização, mas também por problemas reais de fé no diferente contexto de vida ou por carências económicas.

A Palavra de Deus permeia e anima, na força do Espírito Santo, toda a vida da Igreja

29. Existe uma correlação entre o uso da Bíblia, a concepção da Igreja e a prática pastoral. A justa relação dá-se quando o Espírito Santo cria harmonia entre Escritura e Comunidade. Daí a importância que se respeite a necessidade interior que leva a comunidade ao encontro da Palavra de Deus, mas também se procure controlar a sensibilidade que exalta a espontaneidade, a experiência eminentemente subjectiva e a sede do prodigioso. Do mesmo modo, há que prestar atenção ao que diz o texto da Escritura, procurando centrar-se nele para colher o sentido literal, antes de aplicá-lo à vida. Nem sempre é fácil. Alerte-se para o risco do fundamentalismo, um fenómeno com reflexos antropológicos, sociológicos e psicológicos muito difusos, mas que se aplica de modo especial à leitura bíblica e à consequente interpretação do mundo. A nível da leitura bíblica, o fundamentalismo refugia-se no literalismo, recusa-se a ter em conta a dimensão histórica da revelação bíblica e não consegue aceitar plenamente a própria Incarnação. «Esse tipo de leitura tem cada vez mais aderentes […] também entre os católicos […]. O fundamentalismo […] exige uma adesão firme e segura a atitudes doutrinais rígidas, e impõe como única fonte de ensinamento sobre a vida cristã e a salvação uma leitura da Bíblia que recusa todas as formas de atitude ou análise crítica» [39]. A forma extrema desse tipo de tendência é a seita. Nesta, a Escritura é subtraída à acção dinâmica e vivificante do Espírito, e a comunidade atrofia-se como corpo que deixou de ser vivo, tornando-se um grupo fechado, que não admite diferenças e pluralidade no próprio seio e toma uma atitude agressiva em relação a outros modos de pensar.[40]

Ao contrário, urge manter viva na comunidade a docilidade ao Espírito Santo, superando o risco de apagar o Espírito com o excesso de activismo e a exterioridade da vida de fé, evitando o perigo da burocratização da Igreja, da acção pastoral limitada aos seus aspectos institucionais e da redução da leitura bíblica a uma actividade entre outras.

30. Há que ter presente que, como afirma Jesus, o Espírito guia a Igreja à verdade plena (cf. Jo 16, 13), que, portanto, faz compreender o verdadeiro sentido da Palavra de Deus, levando finalmente ao encontro com o próprio Verbo, o Filho de Deus, Jesus de Nazaré. O Espírito é a alma e o exegeta da Sagrada Escritura. Por isso, a Escritura não só deve ser «lida e interpretada com o mesmo espírito com que foi escrita» (DV 12), mas nela a Igreja, guiada pelo Espírito, esforça-se por obter uma inteligência cada vez mais profunda para alimentar os seus filhos, servindo-se de modo especial do estudo dos Padres do Oriente e do Ocidente (cf. DV 23), da investigação exegética e teológica, da vida das testemunhas e dos Santos.

A esse respeito, é preciosa a linha traçada nos Praenotanda do Leccionário, onde se afirma: «Para que a Palavra de Deus realize de facto nos corações aquilo que ressoa aos ouvidos, requer-se a acção do Espírito Santo, por cuja inspiração e auxílio a Palavra de Deus se torna o fundamento da acção litúrgica e a norma e sustento de toda a vida. Por conseguinte, a actuação do Espírito Santo não só precede, acompanha e segue toda a acção litúrgica, mas também sugere ao coração de cada um (cf. Jo 14, 15-17.25-26; 15, 26 – 16, 15) tudo aquilo que é proferido na proclamação da Palavra de Deus para toda a assembleia dos fiéis; e, consolidando a unidade entre todos, também reanima os diversos carismas e suscita múltiplas actividades».[41]

A comunidade cristã, portanto, constrói-se todos os dias, deixando-se guiar pela Palavra de Deus, sob a acção do Espírito Santo, que dá iluminação, conversão e consolação. De facto, «tudo o que foi escrito no passado foi escrito para nossa instrução, a fim de que, pela paciência e consolação que vêm das Escrituras, tenhamos esperança» (Rom 15, 4). Torna-se dever primário dos Pastores ajudar os fiéis a compreender o que significa encontrar a Palavra de Deus sob a guia do Espírito e como, em concreto, isso se dê na leitura espiritual da Bíblia, na atitude da escuta e da oração. A tal propósito, diz Pedro Damasceno: «Quem tem experiência do sentido espiritual das Escrituras sabe que o sentido da mais simples Palavra da Escritura e o da excepcionalmente mais sábia são uma só coisa e têm por finalidade a salvação do homem». [42]

Consequências pastorais

31. Se a Palavra de Deus é fonte de vida para a Igreja, é essencial considerar a Sagrada Escritura como alimento vital. Isso comporta:

a. fazer uma constante verificação do lugar efectivo que a Palavra de Deus ocupa na vida da própria comunidade, das experiências mais construtivas e também dos riscos mais frequentes;

b. reconhecer a história e difusão da Palavra de Deus na própria comunidade, diocese, nação, continente e na Igreja em geral, para aprender as grandes acções de Deus (magnalia Dei), captar melhor as necessidades e as iniciativas a tomar e dar solidariedade às comunidades pobres de recursos materiais e espirituais.

c. Para realizar de modo incisivo uma pastoral animada da Palavra de Deus, é indispensável reconhecer e promover o papel insubstituível das Igrejas particulares em comunhão entre si. É, com efeito, da sua efectiva iniciativa como povo de Deus unido com o Bispo que surgem experiências, grandes e pequenas, e se cria um fluxo contínuo da Palavra nas diferentes comunidades.

CAPÍTULO QUINTO

A Palavra de Deus nos múltiplos serviços da Igreja
«O pão da vida, da Mesa da Palavra de Deus e da Mesa
do Corpo de Cristo» (
DV 21)

Ministério da Palavra

32. «É preciso que a pregação eclesiástica, assim como a própria religião cristã, seja alimentada e regida pela Sagrada Escritura» (DV 21). Com esta afirmação, o Concílio Vaticano II lembra empenhos específicos que pedem intervenções concretas.

Note-se que o serviço da Palavra nas Igrejas particulares está a ser actuado, nos diferentes âmbitos e expressões de vida, segundo um programa que leva a fazer do momento litúrgico da Eucaristia e de todo o sacramento o aspecto primário da experiência da Palavra de Deus. Adverte-se a necessidade de considerar a leitura orante na forma da Lectio Divina, a nível comunitário e pessoal, como a meta alta e comum, e de promover uma catequese que seja iniciação à Sagrada Escritura, vivificando com ela os programas catequéticos e os próprios catecismos, a pregação e a piedade popular. Sente-se igualmente a necessidade de estimular o encontro com a Palavra de Deus através do Apostolado bíblico, fomentando a criação de grupos bíblicos e a sua orientação, e de fazer com que a Palavra, pão de vida, se torne também pão material, ou seja, leve a socorrer os pobres e os que sofrem. Sente-se ainda a urgência de valorizar a Palavra também com estudos e encontros que realcem as suas relações com a cultura e com o espírito humano, num confronto interreligioso e intercultural. Para realizar tais objectivos, requerem-se fé atenta, dedicação apostólica e acção pastoral inteligente, criativa e contínua, num exercício que favoreça o espírito de comunhão. Neste, como em nenhum outro campo, sente-se a exigência de uma pastoral continuamente animada pela Bíblia.

Nesta perspectiva de unidade e interacção, há que reconhecer e favorecer plenamente o dinamismo que leva a Palavra de Deus a encontrar-se com o homem, dinamismo esse que está na base de toda a acção pastoral da Igreja: a Palavra anunciada e ouvida pede para se tornar Palavra celebrada através da liturgia e dos sacramentos, para entrar assim a motivar uma vida segundo a Palavra, através da experiência da comunhão, da caridade e da missão. [43]

A experiência na liturgia e na oração

33. Da experiência das Igrejas particulares emergem alguns pontos comuns: para uma grande maioria de cristãos, em todas as partes do mundo, o encontro com a Palavra de Deus dá-se apenas na celebração eucarística dominical; cresce no povo de Deus a consciência da importância da liturgia da Palavra de Deus, graças também à renovação do seu ordenamento no novo Leccionário; não falta, porém, quem hoje deseje uma revisão do Leccionário para uma melhor sintonia das três leituras, para além de uma maior fidelidade aos textos originais; relativamente à homilia, espera-se uma clara melhoria; por vezes, a liturgia da Palavra torna-se uma espécie de Lectio Divina; e, por fim, o Ofício Divino não teve uma larga difusão entre o povo. Por outro lado, nota-se que o povo de Deus não está verdadeiramente introduzido na teologia da Palavra de Deus na liturgia; vive-a ainda de modo passivo, não se apercebendo do seu carácter sacramental e ignorando as ricas Introduções dos Livros litúrgicos, e isso porque nem sempre os Pastores mostram interesse por eles; o vasto mundo dos sinais próprios da liturgia da Palavra não poucas vezes se reduz a formalidades rituais, sem uma compreensão interior; a relação entre a Palavra de Deus e os sacramentos, de modo especial o sacramento da Reconciliação, é pouco valorizada.

A motivação teológico-pastoral: Palavra, Espírito, Liturgia, Igreja

34. A todos os níveis da vida eclesial, haverá que amadurecer a compreensão da liturgia como lugar privilegiado da Palavra de Deus, que edifica a Igreja. É importante, portanto, fazer algumas afirmações basilares.

A Bíblia é o Livro de um povo e para um povo. É uma herança, um testamento confiado a leitores, para que actualizem na sua vida a história de salvação testemunhada na escrita. Existe, portanto, uma relação de pertença recíproca e vital entre povo e Livro: a Bíblia continua a ser um Livro vivo com o povo que a lê; o povo não subsiste sem o Livro, porque encontra nele a sua razão de ser, a sua vocação e identidade.

– Esta mútua pertença entre povo e Sagrada Escritura é celebrada na assembleia litúrgica, que é o lugar em que se realiza a obra de acolhimento da Bíblia. O discurso de Jesus na Sinagoga de Nazaré (cf. Lc 4, 16-21) é significativo nesse sentido. O que ali aconteceu volta a acontecer todas as vezes que se faz uma proclamação da Palavra de Deus numa liturgia.

– A proclamação da Palavra de Deus contida na Escritura é acção do Espírito: como operou para que a Palavra se tornasse Livro, agora na liturgia transforma o Livro em Palavra. Na tradição litúrgica alexandrina existe uma dupla epiclese, ou seja, uma invocação do Espírito antes da proclamação das leituras e uma outra depois da homilia [44]: é o Espírito que guia o presidente na função profética de compreender, proclamar e explicar de forma adequada a Palavra de Deus à assembleia e, paralelamente, no invocar um justo e digno acolhimento da Palavra por parte da comunidade reunida.

A assembleia litúrgica, graças ao Espírito Santo, escuta Cristo, «pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura» (SC 7), e acolhe a aliança que Deus renova com o seu povo. Escritura e liturgia convergem, portanto, no único objectivo de levar o povo ao diálogo com o Senhor. A Palavra saída da boca de Deus e testemunhada nas Escrituras volta a Deus em forma de resposta orante do povo (cf. Is 55, 10-11).

– Na liturgia, sobretudo na assembleia eucarística, dá-se a proclamação da Escritura em Palavra, caracterizada por um dinamismo dialógico profundo. Desde o início, na história do povo de Deus, quer no tempo bíblico quer no pós-bíblico, a Bíblia foi sempre o Livro destinado a reger a relação entre Deus e o suo povo; é, por outras palavras, o Livro para o culto e para a oração. A liturgia da Palavra, com efeito, «não é propriamente um momento de meditação e de catequese, mas de diálogo de Deus com o seu povo, onde se proclamam as maravilhas da salvação e constantemente se propõem de novo as exigências da aliança».[45]

– A oração do Ofício Divino é, dentro da relação Palavra-liturgia, de grande importância, de modo especial para a vida consagrada. A Liturgia das Horas deve ser assumida como lugar privilegiado de formação para a oração, sobretudo graças aos Salmos, onde se manifesta da melhor forma o carácter divino-humano da Escritura. Os Salmos ensinam a rezar, levando quem os canta ou recita a escutar, interiorizar e interpretar a Palavra de Deus.

– Acolher a Palavra de Deus na oração litúrgica, para além da oração pessoal e comunitária, torna-se assim um objectivo irrenunciável para todos os cristãos; daí que sejam chamados a ter uma nova visão da Sagrada Escritura. Mais do que um Livro escrito, esta deve ser vista como uma proclamação e um testemunho do Espírito Santo sobre a pessoa de Cristo, segundo a já citada afirmação conciliar, «Cristo está presente na sua Palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura» (SC 7). Daí deriva a «enorme a importância da Sagrada Escritura na celebração da Liturgia» (SC 24).

Palavra de Deus e Eucaristia

35. Embora na prática a liturgia da Palavra muitas vezes peque de improvisação e, outras vezes, tenha pouca ligação com a Liturgia Eucarística, a unidade intrínseca da Palavra com a Eucaristia está radicada no testemunho escriturístico (cf. Jo 6), é afirmada pelos Padres da Igreja e reafirmada pelo Concílio Vaticano II (cf. SC 48.51.56; DV 21.26; AG 6.15; PO 18; PC 6). Na grande tradição da Igreja, encontramos expressões significativas, como «Corpus Christi intelligitur etiam, […] Scriptura Dei» (Também a Escritura de Deus considera-se Corpo de Cristo) [46], «ego Corpus Iesu Evangelium puto» (Considero o Evangelho Corpo de Jesus) [47].

A maior consciência que se tem da presença de Cristo na Palavra é benéfica, tanto para a preparação imediata da celebração eucarística, como para a união com o Senhor nas celebrações da Palavra. Por isso, este Sínodo está em continuidade com o precedente sobre a Eucaristia e pede uma reflexão específica sobre a relação entre Palavra de Deus e Eucaristia [48]. Diz São Jerónimo: «A carne do Senhor, verdadeira comida, e o seu sangue, verdadeira bebida, esse é o verdadeiro bem que nos é reservado na vida presente: alimentar-se com a sua carne e beber o seu sangue, não só na Eucaristia, mas também na leitura da Sagrada Escritura. É, de facto, verdadeira comida e verdadeira bebida a Palavra de Deus que se obtém do conhecimento das Escrituras».[49]

Palavra e economia sacramental

36. A Palavra tem de ser vivida, na economia sacramental, como acolhimento de força e graça, e não apenas como comunicação de verdade, doutrina e preceito ético. A Palavra provoca um encontro em quem escuta com fé, tornando-se celebração da aliança.

Preste-se a mesma atenção a todas as formas de encontro com a Palavra na acção litúrgica: nos sacramentos, na celebração do Ano Litúrgico, na Liturgia das Horas, nos sacramentais. Especial atenção deve ser dada à Liturgia da Palavra na celebração dos três sacramentos da Iniciação cristã: Baptismo, Confirmação e Eucaristia. Pede-se uma nova consciência sobre o anúncio da Palavra de Deus na celebração, sobretudo individual, do sacramento da Penitência. A Palavra de Deus deve também ser valorizada nas variegadas formas da pregação e da piedade popular.

Consequências pastorais

37. Na atenção pastoral, o primeiro lugar cabe à Eucaristia, enquanto é «mesa quer da Palavra de Deus quer do Corpo de Cristo», intimamente unidos (DV 21), sobretudo no Dia do Senhor. A Eucaristia «é o lugar privilegiado onde a comunhão é constantemente anunciada e cultivada» [50]. Tendo em conta que a Missa dominical é, ainda hoje, para a maioria dos cristãos o único momento de encontro sacramental com o Senhor, a mesma torna-se dom e tarefa a promover, com paixão pastoral e com celebrações autênticas e alegres. A Eucaristia, celebrada nesta íntima fusão de Palavra, sacrifício e comunhão, constitui um objectivo primário do anúncio e da vida cristã.

Procure-se que as diversas partes da liturgia da Palavra – anúncio das leituras, homilia, profissão de fé, oração dos fiéis – se processem de forma harmoniosa, pondo em evidência a sua íntima ligação com a liturgia eucarística [51]. Aquele de quem os textos falam torna-Se presente no sacrifício total de Si ao Pai.

Valorizem-se as Introduções, que explicam o conteúdo da liturgia, de modo especial os Praenotanda do Missal Romano, as Anáforas orientais, o Ordo Lectionum Missae, os Leccionários, o Ofício Divino, e se os torne objecto de formação litúrgica dos Pastores e dos fiéis, juntamente com a Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Concílio Vaticano II.

Também sobre as traduções, pede-se menos fragmentação dos trechos e mais fidelidade ao texto original. Tendo presente que, na liturgia, o rito e a Palavra devem permanecer intimamente unidos (cf. SC 35), o encontro com a Palavra de Deus deve fazer-se na especificidade dos sinais que fazem parte da celebração litúrgica. São os casos, por exemplo, da colocação do ambão, do cuidado com os Livros litúrgicos, de um conveniente estilo de leitura, da procissão e incensação do Evangelho.

Além disso, ter-se-á o maior cuidado com a liturgia da Palavra, com a proclamação clara e compreensível dos textos e com a homilia, que se faz ressonância da palavra [52]. Isso implica a escolha de leitores capazes e preparados. Para o efeito, são necessárias escolas, inclusive diocesanas, de formação de leitores. Nesta óptica de melhor compreensão da Palavra de Deus na Missa, são úteis as breves monições que dão o sentido das leituras a proclamar.

Sobre a homilia, espera-se um maior empenho de fidelidade à Palavra bíblica e à condição dos fiéis, ajudando-os a interpretar os acontecimentos da vida e da história à luz da fé. Essa não deveria se limitar exclusivamente ao aspecto bíblico, mas seria oportuno que abraçasse também os temas dogmáticos e morais fundamentais. Para o efeito, é indispensável uma adequada formação dos futuros ministros. Recomenda-se que a comunicação da Palavra de Deus seja feita, juntamente com o canto e a música, valorizando palavras e silêncio. Fora da liturgia, admitem-se formas de dramatização da Palavra de Deus, com escritas e figuras e, inclusive, obras artisticamente decorosas, como por exemplo o teatro sagrado.

Deseja-se que as comunidades religiosas, de modo especial as monásticas, ajudem as comunidades paroquiais a descobrir e saborear a Palavra de Deus na celebração litúrgica. Relativamente ao Ofício Divino com a Liturgia das Horas, em que o povo está disposto a participar, tornou-se hoje indispensável reflectir sobre o modo de tornar pastoralmente mais adequado e acessível aos fiéis esse excelente canal da Palavra de Deus.

A Lectio Divina

38. O encontro orante com a Palavra de Deus tem uma experiência privilegiada, tradicionalmente chamada Lectio Divina. «A lectio divina é uma leitura individual ou comunitária de uma passagem mais ou menos longa da Escritura, acolhida como Palavra de Deus e que, sob o estímulo do Espírito, se processa em forma de meditação, oração e contemplação» [53].

Pode-se dizer que, em todas as Igrejas, dá-se uma atenção nova e específica à Lectio Divina. Nalgumas partes, é já uma tradição secular. Em certas dioceses, foi-se afirmando progressivamente a partir do Concílio Vaticano II. Em muitas comunidades está-se a tornar uma nova forma de oração e espiritualidade cristã, com notáveis vantagens ecuménicas. Nota-se, de facto, a necessidade de adaptar a forma clássica às diferentes situações, tendo em conta as possibilidades reais dos fiéis, de modo a conservar a essência desta leitura orante e favorecendo, ao mesmo tempo, a sua qualidade de alimento nutritivo para a fé de todos.

Cabe aqui recordar que a Lectio Divina é uma leitura da Bíblia, que vem já das origens cristãs e que acompanhou a Igreja ao longo da sua história. Mantém-se viva na experiência monástica, mas hoje o Espírito, através do Magistério, propõe-na como elemento pastoralmente significativo e a valorizar para a vida da Igreja enquanto tal, para a educação e formação espiritual dos presbíteros, para a vida quotidiana das pessoas consagradas, para as comunidades paroquiais, para as famílias, para as associações e movimentos e para os simples crentes, tanto adultos como jovens, que podem encontrar nesta forma de leitura um meio acessível e prático para aceder pessoal e comunitariamente à Palavra de Deus (cf. OT[54] 4).

Escreve o Papa João Paulo II: «É necessário que a escuta da Palavra se torne um encontro vital, na antiga e sempre válida tradição da Lectio Divina, que permite colher no texto bíblico a Palavra viva que interpela, orienta e plasma a existência» [55]. O Santo Padre Bento XVI recomenda que se a faça «recorrendo também aos novos métodos, cuidadosamente ponderados de acordo com os tempos» [56]. Em particular, o Santo Padre recorda aos jovens que «é sempre importante ler a Bíblia de forma muito pessoal, num colóquio pessoal com Deus, mas, ao mesmo tempo, é importante lê-la na companhia de pessoas com que se caminha» [57]. Exorta ainda «a adquirir familiaridade com a Bíblia, a tê-la ao alcance da mão, para que seja como uma bússola que indica a estrada a seguir» [58]. Que a difusão da Lectio Divina esteja no coração de Bento XVI e que ele veja nela um ponto decisivo para a renovação da fé nos nossos dias, resulta da mensagem dirigida a diversas categorias de pessoas, sobretudo jovens, a quem recomenda: «Gostava, sobretudo, de lembrar e recomendar a antiga tradição da Lectio Divina: a leitura assídua das Santas Escrituras, acompanhada da oração, realiza o colóquio íntimo com Deus, que escutamos quando lemos e a quem respondemos na oração com um coração aberto e confiante (cf. DV 25). Esta prática, se eficazmente promovida, levará a Igreja – estou convencido disso – a uma nova primavera espiritual. A pastoral bíblica deve, portanto, insistir de modo especial sobre a Lectio Divina e encorajá-la com métodos novos, cuidadosamente elaborados e de acordo com os nossos tempos. Nunca devemos esquecer que “a tua Palavra é lâmpada para os meus passos e luz para os meus caminhos” (Sal 118, 105)».[59]

A novidade da Lectio Divina no povo de Deus exige uma oportuna pedagogia de iniciação, que leve a compreender bem do que se trata, e contribua para esclarecer o sentido dos diversos graus e uma sua aplicação tão fiel quanto sabiamente criativa. Existem, de facto, diferentes modalidades de Lectio Divina, como a chamada dos Sete Passos (Seven Steps), praticada em muitas Igrejas particulares em África. Chama-se assim, porque o encontro com a Bíblia é como um caminho feito de sete momentos: presença de Deus, leitura, meditação, paragem, comunicação, colóquio e oração comum. O próprio nome de Lectio Divina em certas partes muda, por exemplo, para Escola da Palavra ou então leitura orante.

De modo especial, tenha-se presente que o ouvinte/leitor de hoje é diferente do do passado; vive uma situação de rapidez e fragmentação, o que requer uma formação iluminada, paciente e contínua, por parte dos presbíteros, das pessoas de vida consagrada e dos leigos. Podem constituir objectivos úteis, já praticados, a partilha das experiências motivadas pela Palavra escutada (collatio) [60] ou as decisões práticas, sobretudo de caridade (actio).

A Lectio Divina deve ser capaz de tornar-se fonte inspiradora das várias práticas da comunidade, como exercícios espirituais, retiros, devoções e experiências religiosas. Um objectivo importante é levar a pessoa a amadurecer para uma leitura da Palavra, capaz de discernimento sapiencial da realidade. A Lectio Divina não é, de modo nenhum, uma prática reservada a alguns fiéis muito empenhados ou a um grupo de especialistas da oração. É uma realidade, sem a qual não seremos cristãos autênticos num mundo secularizado. Este mundo quer personalidades contemplativas, atentas, críticas, corajosas. De vez em quando, pede formas novas e inéditas. Pedirá intervenções especiais que não provenham do simples habitual nem da opinião comum, mas da escuta da Palavra do Senhor e da percepção misteriosa do Espírito Santo nos corações.

A Palavra de Deus e o serviço da caridade

39. A diakonia, serviço da caridade, é vocação da Igreja de Jesus Cristo, como resposta à caridade, que o Verbo de Deus manifestou com as suas palavras e as suas obras.

É necessário que a Palavra de Deus leve ao amor do próximo. Em muitas comunidades procura-se que o encontro com a Palavra não se feche na escuta e na celebração em si mesma, mas se traduza em empenho concreto, pessoal e comunitário, com o mundo dos pobres, enquanto sinal da presença do Senhor. Nesta óptica, é pertinente um aceno ao uso liberacionista que se faz da Bíblia, para cujo desenvolvimento ulterior e fecundidade na Igreja «será factor decisivo a definição dos seus pressupostos hermenêuticos, dos seus métodos e da sua coerência com a fé e a Tradição de toda a Igreja» [61].

Urge realçar esta relação entre Palavra de Deus e caridade, uma vez que a caridade, para crentes e não crentes, dá um vigoroso impulso ao encontro com a Palavra de Deus. Essa ligação é afirmada na Encíclica do Santo Padre Bento XVI Deus caritas est, que apresenta de forma unitária os três elementos constitutivos da natureza profunda da Igreja: proclamação da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebração dos sacramentos (leitourgia) e exercício do ministério da caridade (diakonia). Escreve Sua Santidade: «A Igreja não pode transcurar o serviço da caridade, como não pode transcurar os sacramentos» [62]. A Encíclica Spe salvi afirma que «a mensagem cristã não era (e não é) somente “informativa”, mas “performativa”. Quer dizer que o Evangelho não é apenas uma comunicação de coisas que se podem conhecer, mas é uma comunicação que produz factos e muda a vida» [63]. Na base desta relação entre Palavra e caridade está o claro exemplo da própria Palavra feita carne, Jesus de Nazaré, que «passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele» (Actos 10, 38).

Recordando as muitas páginas da Sagrada Escritura que não só recomendam, mas mandam praticar a justiça com o próximo (cf. Dt 24, 14-15; Am 2, 6-7; Ger 22, 13; Tg 5, 4), só haverá fidelidade à Palavra de Deus, quando a primeira forma de caridade forem o respeito dos direitos da pessoa humana e a defesa dos oprimidos e de quantos sofrem. A tal fim, tenha-se presente a importância das comunidades de fé, formadas também de pobres e animadas da leitura da Bíblia. É preciso dar consolação e esperança aos pobres do mundo. O Senhor, que ama a vida, quer com a sua Palavra iluminar, guiar e confortar toda a vida dos crentes em qualquer circunstância – no trabalho e na festa, no sofrimento e no tempo livre, nas tarefas familiares e sociais e em cada acontecimento da vida –, de modo que cada um possa discernir todas as coisas e conservar o que é bom (cf. 1 Tes 5, 21), descobrindo assim a vontade de Deus e pondo-a em prática (cf. Mt 7, 21)

A exegese da Sagrada Escritura e a teologia

40. «O estudo dos Livros Sagrados deve ser como que a alma da Sagrada Teologia» (DV 24). Não há dúvida que os frutos alcançados neste âmbito, depois do Concílio Vaticano II, levam-nos a louvar o Senhor. Emerge hoje como ponto relevante o empenho de um grande número de exegetas e teólogos que estudam e explicam as Escrituras “segundo o sentido da Igreja”, interpretando e propondo a Palavra escrita da Bíblia no contexto da Tradição viva, valorizando a herança dos Padres, confrontando-se com as indicações do Magistério (cf. DV[64] 12) e ajudando com dedicação o serviço dos Pastores, no que são merecedores de uma palavra de agradecimento e de estímulo.

Por outro lado, tendo a Palavra de Deus posto a sua tenda entre nós (cf. Jo 1, 14), não há dúvida que o Espírito nos leva a meditar nos novos itinerários que a mesma Palavra entende realizar entre os homens do nosso tempo e, por outro lado, o Espírito convida a aceitar as expectativas e desafios que a humanidade de hoje põe à Palavra. Daí derivam alguns novos empenhos a nível do estudo, como também do serviço à comunidade.

Torna-se indispensável ordenar o estudo segundo as indicações do Magistério, em termos quer de conhecimento e emprego do método de pesquisa, quer de processo interpretativo, que deve levar à plenitude conferida pelo sentido espiritual do Texto Sagrado [65]. Pede-se para se superar a distância ainda existente entre a pesquisa exegética e a elaboração teológica, em vista de uma mútua colaboração: o teólogo utilize o dado bíblico sem instrumentalizações, mas também o exegeta não limite a sua pesquisa unicamente aos dados literais, mas esforce-se por reconhecer e comunicar os conteúdos teológicos presentes no texto inspirado. Em particular, pede-se ao teólogo que faça uma teologia da Sagrada Escritura, que ajude a compreender e a valorizar a verdade da Bíblia na vida de fé e no diálogo com as culturas, reflectindo sobre as actuais tendências antropológicas, sobre as instâncias morais, sobre a relação entre razão e fé e sobre o diálogo com as grandes religiões.

Entre os pontos de referência do trabalho exegético e teológico, devem-se valorizar os testemunhos da Sagrada Tradição, como são a liturgia e os Padres da Igreja. A comunidade cristã espera dos estudiosos “subsídios apropriados”, que ajudem os ministros da divina Palavra a oferecer ao povo de Deus «o alimento das Escrituras, que ilumine o espírito, robusteça as vontades e inflame os corações dos homens no amor de Deus» (DV 23). A tal fim, deseja-se um diálogo intenso e construtivo entre exegetas, teólogos e pastores. Esse diálogo permitiria traduzir a reflexão teológica em propostas de evangelização mais incisivas. Nesta óptica global, chama-se a atenção para as perspectivas, a seu tempo delineadas pelo Decreto do Concílio Vaticano II Optatam totius, a propósito do ensino da teologia e da exegese bíblica e, por reflexo, da metodologia a preparar para formar os futuros pastores. As perspectivas aí delineadas ainda esperam em boa parte por ser concretizadas.

A Palavra de Deus na vida do crente

41. A consciência de que a Palavra de Deus é um dom inestimável levou à responsabilidade do acolhimento da fé. E uma vez que a escuta da Palavra manda – como diz Jesus – cumprir a Palavra (cf. Mt 7, 21), a Igreja sempre propôs um consequente comportamento de vida em ordem à formação de uma espiritualidade bíblica.

O tipo de relação com a Palavra de Deus é claramente determinado por uma visão de fé. Da análise da experiência, nota-se que para alguns a Bíblia corre o risco de ser um simples objecto cultural, sem incidência na vida; para outros, ao contrário, é um Livro que amam, sem se aperceberem do motivo. Por fim, há aqueles que, como os diferentes terrenos da parábola do semeador, produzem fruto: quem trinta, quem sessenta e quem cem por um (cf. Mc 4, 20). Tem fundamento a afirmação de que, com o progresso catequético, o espiritual constitui um dos aspectos mais belos e promissores do encontro da Palavra de Deus com o seu povo.

As razões de uma relação vital com a Bíblia estão resumidas na Dei Verbum segundo a qual è necessário conservar um contacto constante com as Escrituras, mediante a leitura assídua e o estudo diligente (cf. DV 25), porque a Bíblia é a «fonte pura e perene da vida espiritual» (DV 21). Para uma genuína espiritualidade da Palavra, recorde-se que «a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada da oração, para que possa haver o colóquio entre Deus e o homem; pois “a Ele falamos, quando rezamos, a Ele ouvimos, quando lemos os divinos oráculos” [66] » (DV 25). Confirma Santo Agostinho: «A tua oração é a tua palavra dirigida a Deus. Quando lês a Bíblia é Deus que te fala; quando rezas, és tu que falas a Deus» [67]. É necessário iluminar os fiéis sobre aquilo que a leitura crente da Bíblia oferece à vida do cristão, quando ele mesmo tiver feito do seu coração uma biblioteca da Palavra. [68]

A Palavra de Deus contribui para a vida de fé, uma vez que não exprime, em primeiro lugar, um compêndio de questões doutrinais ou uma série de princípios éticos, mas o amor de Deus que convida ao encontro pessoal com Ele, e manifesta a sua inexprimível grandeza no acontecimento pascal. A Palavra de Deus propõe um projecto salvífico do Pai para cada pessoa e cada povo. Interpela, exorta, estimula para um caminho de discipulado e de seguimento, dispõe a aceitar a acção transformadora do Espírito, favorece enormemente a fraternidade ao criar vínculos profundos, suscita um empenhamento evangelizador. Tudo isso vale de modo especial para as pessoas consagradas.

Isso leva a cultivar diligentemente certas atitudes. Antes de mais, deve-se encontrar a Palavra de Deus com o ânimo do pobre, interior e também exteriormente, como «Nosso Senhor Jesus Cristo, que era rico e fez-Se pobre para vos enriquecer com a sua pobreza» (2 Cor 8, 9) e, portanto, com um modo de ser baseado no de Jesus, que escuta a Palavra do Pai e a anuncia aos pobres (cf. Lc 4, 18). Há pessoas, nomeadamente mulheres, que trabalham em condições por vezes penosas: cuidam do lar, dedicam-se aos filhos, fazem tantos serviços aos seus vizinhos, com uma fé viva e uma referência espontânea aos Salmos e aos Evangelhos. É o testemunho da vida que dá credibilidade à leitura da Bíblia.

Os mestres do espírito recordam as condições, graças às quais a Palavra nutre a vida do crente, gerando a espiritualidade bíblica: a interiorização profunda da Palavra; a perseverançaluta espiritual contra palavras, pensamentos e comportamentos falsos e hostis. Também a Bíblia está sob o signo da cruz; é morada do Crucificado. Tais atitudes são testemunhadas pelas comunidades religiosas e pelos centros de espiritualidade, que dão um válido contributo para uma experiência profunda da Palavra de Deus. nas provas, suscitada pela Palavra; por fim, a

TERCEIRA PARTE

A PALAVRA DE DEUS NA MISSÃO DA IGREJA

«Jesus foi a Nazaré, onde Se tinha criado. Segundo o seu costume, entrou na sinagoga a um sábado e levantou-Se para fazer a leitura. Entregaram-Lhe o livro do Profeta Isaías e, ao abrir o livro, encontrou a passagem em que estava escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres. Enviou-me a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos, a proclamar o ano da graça do Senhor”. Depois enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-Se. Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga. Começou então a dizer-lhes: “Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir”» (Lc 4, 16-21).

A missão da Igreja

42. No anúncio da Boa Nova, a missão da Igreja está intimamente ligada à experiência da Palavra de Deus na vida. Na escola da própria Palavra incarnada, a Igreja tem consciência de que a sua frequentação de Cristo é, por disposição do próprio Senhor, uma Palavra, uma experiência de vida a comunicar a todos. Hoje, a missão da Igreja, ao serviço da Palavra de Deus, é dirigida a diversos âmbitos: a povos e grupos humanos, a contextos sócio-culturais, em que Cristo e o seu Evangelho não são conhecidos ou não estão ainda bem enraizados; há comunidades cristãs cheias de fé e de vida, e há a situação de grupos inteiros de baptizados que já se consideram membros da Igreja, mas vivem à margem de Cristo e do seu Evangelho [69]. Impõe-se, portanto, uma reflexão adequada sobre esse diversificado dinamismo missionário da Palavra de Deus na Igreja.

CAPÍTULO SEXTO

Para um «largo acesso à Sagrada Escritura» (DV 22)

A missão da Igreja é proclamar a Palavra e construir o Reino de Deus

43. A missão da Igreja nos albores deste novo milénio é alimentar-se da Palavra, para ser serva da Palavra na tarefa da evangelização.[70]

O anúncio do Evangelho é, sem dúvida, a razão de ser da Igreja e da sua missão. Isso implica que a mesma viva o que prega. Esse é o caminho decisivo para que apareça credível o que ela proclama, não obstante as fraquezas e pobrezas. O povo de Israel, quando respondia à Palavra de Deus, dizia: «Faremos e executaremos tudo quanto o Senhor ordenou!» (Ex 24, 7); também Jesus, ao terminar o Sermão da Montanha, convidava os seus discípulos a darem a mesma resposta (cf. Mt 7, 21-27).

O anúncio da Palavra de Deus, na escola de Jesus, tem como força íntima e conteúdo o Reino de Deus (cf. Mc 1, 14-15). O Reino de Deus é a própria Pessoa de Jesus, que com as palavras e as obras oferece a todos os homens a salvação. Ao pregar Jesus Cristo, a Igreja participa, por conseguinte, na construção do Reino de Deus, ilumina a sua dinâmica de semente que germina (cf. Mc 4, 27) e convida todos a acolhê-lo.

O «Ai de mim, se não anunciar o Evangelho!» (1 Cor 9, 16) de São Paulo ecoa ainda hoje com urgência na Igreja, tornando-se para todos os cristãos, não uma simples informação, mas vocação ao serviço do Evangelho para o mundo. Na verdade, como diz Jesus, «a seara é grande» (Mt 9, 37) e diversificada: há tantos que nunca ouviram o Evangelho e estão à espera do primeiro anúncio, sobretudo nos continentes de África e Ásia, e há muitos que esqueceram o Evangelho e aguardam uma nova evangelização. Dar um claro e partilhado testemunho de uma vida segundo a Palavra de Deus, proclamada por Jesus, torna-se critério indispensável de verificação da missão da Igreja.

É verdade que não faltaram nem faltam dificuldades que entravam o caminho do anúncio do Evangelho e da escuta do Senhor. Os motivos são vários: a cultura actual, por diversos factores desembocada no relativismo e no secularismo; as múltiplas solicitações do mundo e o activismo de vida que abafam o Espírito, donde uma certa dificuldade em interiorizar a mensagem evangélica; a falta de subsídios bíblicos, que em muitas regiões não permitem a utilização do texto bíblico e a sua tradução e difusão. E são também, de modo especial, as seitas e o fundamentalismo, que dificultam uma correcta interpretação da Bíblia. Levar a Palavra de Deus é uma grande missão que implica um profundo e convicto sentir cum Ecclesia.

Um dos primeiros requisitos para um anúncio evangélico eficaz é a confiança no poder transformador da Palavra no coração de quem a escuta. De facto, «a Palavra de Deus é viva e eficaz […], conhece os pensamentos e intenções do coração» (Heb 4, 12). Um segundo requisito, hoje particularmente sentido e credível, é anunciar a Palavra de Deus como fonte de conversão, justiça, esperança, fraternidade e paz. Outros requisitos são a franqueza, a coragem, o espírito de pobreza, a humildade, a coerência, a cordialidade de quem serve a Palavra de Deus. Escreve Santo Agostinho: «É fundamental compreender que a plenitude da Lei, como de todas as Divinas Escrituras, é o amor […]. Quem, portanto, julga ter compreendido as Escrituras, ou ao menos parte delas, e não se empenha em construir, a partir da compreensão das mesmas, esse duplo amor de Deus e do próximo, mostra não tê-las ainda compreendido» [71]. Em síntese, como afirma o Santo Padre Bento XVI, o receber a Palavra de Deus, que é amor, leva a que não se possa verdadeiramente anunciar o Senhor sem uma prática de amor, no cumprimento da justiça e da caridade.[72]

A missão da Igreja realiza-se na evangelização e na catequese

44. Desde sempre, na história do povo de Deus, o anúncio da Palavra faz-se com a evangelização e a catequese. A partir do Concílio Vaticano II, a relação entre Bíblia e evangelização, nas suas diversas formas, desde o primeiro anúncio à catequese permanente, aparece muito estreita. Em toda a parte, os Catecismos nacionais e os Directórios que os inspiram são biblicamente qualificados e dão o primeiro lugar à Palavra de Deus vinda da Escritura. Pede-se para clarificar, sobretudo, o que se refere ao nó central da integração da inteligência de fé, proposta pela Tradição e pelo Magistério, com o texto bíblico.

Em linha de princípio, há que ter presente, na sua nitidez, a afirmação conciliar: «Também o ministério da Palavra, isto é, a pregação pastoral, a catequese e toda a espécie de instrução cristã, onde a homilia litúrgica deve ter um lugar principal, se alimenta com proveito e santamente se revigora com a palavra da Escritura» (DV 24). O Papa João Paulo II afirmou que «a obra da evangelização e da catequese estão a revitalizar-se, graças precisamente à atenção dada à Palavra de Deus» [73]. O Directório Geral da Catequese dá o sentido de “Palavra de Deus, fonte da catequese”, ao afirmar que «a catequese deve ir sempre buscar o seu conteúdo à fonte viva da Palavra de Deus, transmitida na Tradição e na Escritura».[74]

É importante recomendar que, na catequese, não se reduza a Palavra de Deus a um objecto que se aprende como uma matéria escolástica. À luz da Revelação, haverá que recordar que, na catequese, o encontro com a Escritura deve ser como um acto com que o próprio Deus Se dirige às pessoas, analogamente ao que acontece na celebração litúrgica. Trata-se de levar a experimentar, graças aos textos bíblicos, a presença fiel e benévola de Deus, que não cessa de Se manifestar aos homens. Nesta perspectiva, a catequese está estreitamente ligada à Lectio Divina, enquanto experiência de escuta e de oração da Palavra de Deus, desde a juventude.

45. Em linha operativa, tenham-se presentes as formas de comunicação da Palavra de Deus e, ao mesmo tempo, as exigências sempre novas dos fiéis nas diferentes idades e condições espirituais, culturais e sociais, como indicam o Directório geral da catequese e os Directórios catequéticos das várias Igrejas particulares.[75]

A evangelização tem como canais privilegiados o percurso do Ano litúrgico, o caminho da iniciação cristã e a formação permanente [76]. A catequese catecumenal e mistagógica leva a uma fecunda mentalidade bíblica, que, por sua vez, permite iluminar de modo eficaz também a religiosidade popular com a Palavra de Deus, onde geralmente se alimenta. Tem uma função importante o encontro directo com a Sagrada Escritura. Constitui isso um objectivo primário. A catequese «deve embeber-se e permear-se do pensamento, do espírito e das atitudes bíblicas e evangélicas, mediante um contacto assíduo com os próprios textos».[77]

Pela sua particular relevância cultural, deve-se valorizar o ensino da Bíblia na escola e nomeadamente no ensino da religião, para propor um percurso completo de descoberta quer dos grandes textos bíblicos quer dos métodos de interpretação adoptados na Igreja. Nesse sentido, o Catecismo da Igreja Católica é «instrumento válido e legítimo ao serviço da comunhão eclesial, como norma segura no ensino da fé» [78]. Não se entende com isso substituir a catequese bíblica, mas integrá-la na mais completa visão da Igreja.

Dadas as grandes mudanças culturais que se verificaram, torna-se necessária uma catequese que ajude a explicar as “páginas difíceis” da Bíblia. Tais dificuldades situam-se a nível da história, da ciência e da vida moral, de modo especial no que se refere a certos modos de representar Deus e o comportamento ético do homem, sobretudo no Antigo Testamento. Na procura de uma solução, faz falta uma reflexão orgânica de carácter exegético-teológico, mas também antropológico e pedagógico.

Finalmente, a pregação, nas suas mais variadas formas, continua a ser na Igreja um dos meios proeminentes da comunicação da fé, mas também a forma talvez mais exposta ao juízo dos fiéis. Ter-se-á que pensar num projecto estratégico de formação para a pregação da Palavra (cf. DV 25). Quanto ao processo de comunicação, a Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi do Papa Paulo VI mantém toda a sua actualidade, nomeadamente ao afirmar que se deve respeitar a primazia a dar ao testemunho pessoal no anúncio da Palavra de Deus e à sua transmissão em estruturas familiares ou nos ambientes que cada um habitualmente frequenta.

CAPÍTULO SÉTIMO

A Palavra de Deus nos serviços e na formação do povo de Deus
Um contacto constante com as Escrituras (cf. DV 25)

A formação dos fiéis para o acolhimento e transmissão da Palavra de Deus constitui uma tarefa pastoral essencial. É o que claramente resulta da Dei Verbum que, ao lembrar o multíplice valor da Palavra Deus, indica com precisão as tarefas, os responsáveis e o caminho dessa formação.

A fome e sede da Palavra de Deus (cf. Am 8, 11):
atenção às necessidades do povo de Deus

46. As necessidades em questão podem situar-se ao nível do conhecimento, da compreensão e da prática da Palavra. Quanto ao conhecimento, põe-se a questão da verdadeira natureza da Palavra e dos seus canais – a Escritura e a Tradição – com o serviço que o Magistério é chamado a prestar. Muito se fez depois do Concílio Vaticano II, mas ainda é grande a necessidade de clareza e certeza sobre o que a Revelação oferece. Ao nível da compreensão, continua a ser central, como já referido, o problema da interpretação e da inculturação da Palavra de Deus. Também se depara com dificuldades na prática da Bíblia. Muitos fiéis ainda não têm uma tradução do texto bíblico.

Hoje vislumbram-se outros nós que se devem ter presentes: a dificuldade de ler, pelo persistir do analfabetismo em muitos lugares; para muitos, a aprendizagem faz-se, sobretudo, através dos canais audiovisuais e, portanto, rápidos e fragmentados; em certas partes do mundo, por fim, a cultura religiosa dominante não tem como referência imediata o Livro Sagrado.

«Na Sagrada Escritura manifesta-se a admirável condescendência
da eterna Sabedoria» (
DV 13)

47. A este propósito, pode-se dizer que o Espírito sugere às Igrejas particulares de retomar os documentos do Concílio Vaticano II, de modo especial as quatro Constituições, com a Dei Verbum no centro, tornando-as objecto de catequese para todo o povo de Deus, nas modalidades mais adequadas às pessoas. Teologia da Revelação, teologia da Escritura, relação entre Antigo e Novo Testamento, pedagogia de Deus são temas substanciais que só uma catequese orgânica e cursos bíblicos estruturados podem ilustrar.

Há também que considerar a necessidade de metodologias e subsídios. Existem muitas possibilidades de ouvir a Palavra de Deus. A dificuldade essencial está em conseguir que ela toque verdadeiramente os corações e se torne uma Palavra viva, e não apenas uma Palavra escutada ou conhecida. Por isso, não há nada que possa substituir o trabalho pessoal, regular e paciente na oração. Há que encorajar e adoptar subsídios simples, acessíveis a todos. Vários movimentos, entre eles a Acção Católica, propõem meios para unir vida e Palavra de Deus. As técnicas e instrumentos de contacto com a Bíblia são hoje numerosos e geralmente bem feitos: comentários, introduções à Bíblia, Bíblias para crianças e para jovens, livros espirituais, revistas científicas e de divulgação, para não mencionar o campo vastíssimo dos média, simples e complexos, ao serviço da comunicação da Bíblia. É necessário fazer-se entender e oferecer o pão da Palavra a irmãos e irmãs na fé. Para esse fim, sente-se a necessidade de uma solidariedade, também no plano material, entre as Igrejas.

Põe-se aqui a necessidade de repensar de modo novo e mais correcto tudo o que diz respeito à nova forma da comunicação. A familiaridade com a Sagrada Escritura não é fácil. Como aconteceu com o ministro da rainha da Etiópia, para compreender o que o texto diz é necessária uma pedagogia que, partindo da Escritura, abra à compreensão e aceitação da Boa Nova de Jesus (cf. Actos 8, 26-40). Há que enveredar por esse caminho e, sobretudo, inspirar formas criativas e evangélicas de actualizar o ensinamento da Dei Verbum, que, por sua vez, permita um acesso crente, em quantidade e qualidade, à Palavra de Deus consignada nas Escrituras.

Os Bispos no ministério da Palavra

48. O Concílio Vaticano II ensina que «compete aos sagrados Pastores […] ensinar oportunamente os fiéis que lhes foram confiados no uso recto dos Livros Divinos» (DV 25). Portanto, essa função cabe directamente e em primeira pessoa aos Bispos, quer como ouvintes da Palavra, quer como servidores da mesma, segundo o seu munus docendi [79]. O Bispo, num mundo de comunicações, deve ser um comunicador qualificado da sabedoria bíblica, não tanto pela sua ciência, quanto pela sua habitual familiaridade com os Livros Sagrados, tornando-se assim um guia para todos os que diariamente abrem a Bíblia. Fazendo da Palavra de Deus e da Sagrada Escritura a alma da pastoral, o Bispo está capacitado para levar os fiéis ao encontro com Cristo, fonte viva. O Santo Padre Bento XVI realçou a necessidade de educar o povo para a leitura e meditação da Palavra de Deus como alimento espiritual, «para que, por experiência própria, os fiéis vejam que as palavras de Jesus são espírito e vida (cf. Jo 6, 63).[…] Devemos alicerçar o nosso empenhamento missionário e toda a nossa vida sobre a rocha da Palavra de Deus, o que encoraja os Pastores a dá-la a conhecer» [80]. Por isso, o melhor modo de fomentar o gosto da Sagrada Escritura é a própria pessoa do Bispo, plasmado pela Palavra de Deus. Ele tem a possibilidade contínua de ajudar os fiéis a saborear a Escritura. Todas as vezes que fala aos fiéis, de modo especial aos sacerdotes, pode dar algum exemplo e amostra de Lectio Divina. Se aprendeu a fazê-la como deve ser e se a apresenta de forma simples, os fiéis aprenderão. Eis um objectivo acertado do ministério dos Pastores: a prática da Bíblia e todas as iniciativas que a promovem devem ser consideradas como caminho eclesial e base de toda a devoção.

A função dos presbíteros e dos diáconos

49. Também para os presbíteros e diáconos, o conhecimento e familiaridade com a Palavra de Deus é um dado de primária importância em ordem à evangelização, a que são chamados no seu ministério. O Concílio Vaticano II diz que todos os clérigos, e sobretudo os presbíteros e os diáconos, devem necessariamente manter um contacto íntimo com as Escrituras, mediante a sagrada leitura assídua e o estudo aturado, para não se tornar vazio pregador da Palavra de Deus no exterior quem não a escuta interiormente (cf. DV 25; PO 4). Tem a ver com esta doutrina conciliar a disposição canónica sobre o ministério da Palavra de Deus confiado aos presbíteros e diáconos como colaboradores do Bispo. [81]

No uso quotidiano da Palavra, os presbíteros e diáconos encontram a luz necessária para não se conformarem com a mentalidade do mundo e fazerem um sadio discernimento pessoal e comunitário, que lhes permita guiar com zelo, na acção apostólica, o povo de Deus nos caminhos do Senhor. Tudo isso mostra a necessidade de uma educação e formação pastorais iluminadas pela Palavra. O progresso das ciências bíblicas e, ao mesmo tempo, a variedade das necessidades e a evolução das situações pastorais exigem uma actualização permanente.

A tarefa do anúncio exige que se adoptem iniciativas específicas, como por exemplo a valorização plena da Bíblia nos projectos pastorais. Em cada diocese, um projecto de pastoral bíblica, sob a orientação do Bispo, ajuda a levar a Bíblia às grandes acções da Igreja, à evangelização e à catequese. Ao fazê-lo, procure-se que seja na Palavra de Deus que se baseie e se manifeste a comunhão entre clérigos e leigos e, portanto, entre paróquias, comunidades de vida consagrada e movimentos eclesiais.

Na perspectiva do serviço presbiteral, a formação nos seminários exige cada vez mais um conhecimento vasto e actualizado no campo da exegese e da teologia, uma formação não superficial no uso pastoral da Bíblia, uma iniciação verdadeira e própria à espiritualidade bíblica, sem nunca descurar a educação para uma grande paixão pela Palavra ao serviço do povo de Deus. Deseja-se, portanto, que muitos clérigos se dediquem aos estudos, mesmo académicos, em Sagrada Escritura.

Os vários ministros da Palavra de Deus

50. A renovação bíblica e litúrgica fez ver a necessidade de servidores da Palavra de Deus, antes de mais na acção litúrgica e, depois, em todas as formas de comunicação da Bíblia. No que diz respeito ao serviço litúrgico, o ministério da Palavra de Deus realiza-se tanto na proclamação das leituras, como e sobretudo na homilia. Só o ministro ordenado pode fazer a homilia; já a proclamação na liturgia é função própria do leitor, que é um ministério instituído e, na sua falta, é feita por leigos, homens e mulheres.[82] Nalguns casos, canonicamente previstos, os leigos podem ser admitidos a pregar numa igreja ou oratório.[83]

Entre os servidores da Palavra devem incluir-se os catequistas, os animadores de grupos bíblicos e quantos têm a seu cargo a formação dos fiéis na liturgia, na caridade e no ensino religioso das escolas. O Directório Geral da Catequese indica as competências que se lhes exigem. Esta atenção aos cooperadores pastorais é sentida em todas as Igrejas particulares, notando-se, por um lado, o apego à Escritura e, por outro, a dificuldade em prestar um tal serviço.

O papel dos leigos

51. Tornados membros da Igreja pelo Baptismo e investidos da função sacerdotal, profética e real de Cristo, os fiéis leigos participam na missão salvífica que o Pai confiou a seu Filho para a salvação de todos os povos (LG 34-36).[84] Para exercer a sua missão «tornam-se participantes quer do sentido de fé sobrenatural da Igreja, que “não se pode enganar no crer”(LG 12), quer da graça da Palavra (cf. Actos 2, 17-18; Ap 19, 10); são também chamados a fazer resplandecer a novidade e a força do Evangelho na sua vida quotidiana, familiar e social».[85] Dão assim o seu contributo para a construção do Reino de Deus, na fidelidade à sua Palavra.

Cabe aos leigos, no desempenho da sua missão no mundo, proclamar a Boa Nova aos homens nas suas situações de vida. Seguindo o estilo profético de Jesus de Nazaré, o anúncio da Palavra de Deus «deve ser visto por cada um como uma abertura aos próprios problemas, uma resposta às próprias interrogações, uma abertura aos próprios valores e, ao mesmo tempo, uma satisfação das próprias aspirações».[86]

O leigo, no caminho com a Palavra de Deus, não seja apenas um ouvinte passivo, mas participe activamente em todos os campos onde entra a Bíblia: no estudo científico, no serviço da Palavra em âmbito litúrgico ou catequético e na animação bíblica nos diversos grupos. O serviço dos leigos requer competências diversificadas, que exigem uma formação bíblica específica. Recordam-se aqui como tarefas preferenciais: a Bíblia na iniciação cristã das crianças; a Bíblia para o mundo juvenil, por exemplo nos Dias Mundiais da Juventude; a Bíblia para os doentes, para os soldados, para os presos.

Um meio privilegiado para o encontro com Deus que nos fala é a catequese no seio das famílias, com o aprofundamento de alguma página bíblica e a preparação da liturgia dominical. Cabe à família iniciar os filhos na Sagrada Escritura, com a narração das grandes histórias bíblicas, nomeadamente a vida de Jesus, e com a oração inspirada nos Salmos ou noutros livros revelados.

Também se deve prestar uma grande atenção aos movimentos ou aos grupos, como associações, agregações, novas comunidades. Com efeito, embora muito diferentes entre si nos métodos e campos de acção, têm como traço comum a redescoberta da Palavra de Deus e a sua colocação privilegiada no projecto espiritual-pedagógico para suscitar e alimentar a sua vida espiritual. Dispõem de eficazes itinerários formativos, centrados na assimilação existencial da Palavra de Deus. Ensinam como viver a liturgia e a oração pessoal, dando grande atenção à Palavra e privilegiando a liturgia da Igreja. Também fazem a oração do Ofício e a Lectio Divina como momentos de nutrição espiritual.

É um dever imprescindível verificar se, nesse fervoroso encontro com a Palavra de Deus, a comunhão eclesial e a caridade com os fiéis não pertencentes às agregações são sempre testemunhadas.

O serviço das pessoas consagradas

52. Neste caminho da Palavra de Deus no povo cristão, têm um papel específico as pessoas de vida consagrada. Como sublinha o Concílio Vaticano II, «tenham [elas] todos os dias entre mãos a Sagrada Escritura, para que aprendam, pela leitura e pela meditação dos Livros Sagrados, “a eminente ciência de Jesus Cristo” (Fil 3, 8)» (PC 6) e encontrem um renovado impulso no seu trabalho de educação e evangelização, mormente dos pobres, pequeninos e últimos, através dos escritos do Novo Testamento, «sobretudo os Evangelhos, que são “o coração de todas as Escrituras” […], promovendo, nos moldes adequados ao próprio carisma, escolas de oração, de espiritualidade e de leitura orante da Escritura».[87]

Para as pessoas consagradas, o texto bíblico deve tornar-se objecto de uma quotidiana ruminatio e de confronto para um discernimento pessoal e comunitário em vista da evangelização. Quando o homem começa a ler as divinas Escrituras – observava Santo Ambrósio – Deus volta a passear com ele no paraíso terrestre [88]. A leitura orante da Palavra, feita com os jovens, é a estrada de um renovado crescimento vocacional e de um fecundo regresso ao Evangelho e ao Espírito dos fundadores, tão recomendado pelo Concílio Vaticano II e recentemente reproposto por Sua Santidade Bento XVI às pessoas de vida consagrada [89]. Em particular, valorizem as pessoas consagradas o confronto comunitário com a Palavra de Deus, que produzirá comunhão fraterna, alegre partilha das experiências de Deus na sua vida, e ajudá-las-á a crescer na vida espiritual [90]. O Papa João Paulo II afirmava: «A Palavra de Deus é a primeira fonte de toda a vida espiritual cristã. Ela alimenta uma relação pessoal com o Deus vivo e com a sua vontade salvífica e santificadora. Por isso é que a Lectio Divina, desde o nascimento dos Institutos de vida consagrada, de modo particular no monaquismo, foi tida na mais alta consideração. Por meio dela, a Palavra de Deus é transferida para a vida, projectando sobre ela a luz da sapiência, que é dom do Espírito».[91]

A Palavra de Deus deve estar à disposição de todos em todos os tempos

53. A Igreja considera «necessário que os fiéis tenham largo acesso à Sagrada Escritura» (DV 22) [92], porque as pessoas têm direito a encontrar a verdade [93]. Hoje, é um requisito indispensável para a missão. Dado que, não poucas vezes, o encontro com a Escritura corre o risco de não ser um facto de Igreja, para se expor ao subjectivismo e à arbitrariedade, é indispensável uma promoção pastoral robusta e credível da Sagrada Escritura para anunciar, celebrar e viver a Palavra na comunidade cristã, dialogando com as culturas do nosso tempo, pondo-se ao serviço da verdade, e não das ideologias correntes, e incrementando o diálogo que Deus quer ter com todos os homens (cf. DV 21).

Para o efeito, é necessário difundir a prática da Bíblia com oportunos subsídios, criar o movimento bíblico entre os leigos, cuidar da formação dos animadores dos grupos, com especial atenção aos jovens [94], propondo o conhecimento da fé através da Palavra de Deus, inclusive aos imigrados e a quantos procuram o sentido da vida.

Porque «o primeiro areópago do tempo moderno é o mundo da comunicação que está a unir a humanidade […] o uso dos média tornou-se essencial para a evangelização e para a catequese […] A Igreja sentir-se-ia culpada diante do seu Senhor, se não recorresse a esses poderosos meios […] Neles, ela encontra uma versão moderna e eficaz do púlpito. Graças a eles, consegue falar às multidões»[95] (cf. IM 11). Dê-se, portanto, amplo espaço, com sapiente equilíbrio, aos métodos e às novas formas de linguagem e comunicação na transmissão da Palavra de Deus, como são a rádio, a televisão, o teatro, o cinema, a música e as canções, até aos novos média, como o CD, o DVD, a Internet, etc. Não se esqueça, porém, que o bom uso dos média exige dos agentes pastorais um sério esforço e competência. Há que integrar a própria mensagem na “nova cultura”, criada pela comunicação moderna, com novas linguagens, novas técnicas e novas atitudes psicológicas.[96]

É um dever, por fim, recordar que desde 1968 existe e opera a Federação Bíblica Católica Mundial (CBF), instituída pelo Papa Paulo VI ao serviço da difusão das orientações do Concílio Vaticano II sobre a Palavra de Deus.

CAPÍTULO OITAVO

A Palavra de Deus, graça de comunhão

A Palavra de Deus, vínculo ecuménico

54. A unidade plena e visível de todos os discípulos de Jesus Cristo é considerada pelo Santo Padre Bento XVI uma questão de primordial importância, que incide sobre o testemunho do Evangelho [97]. São duas as realidades que unem os cristãos: a Palavra de Deus e o Baptismo. Acolhendo estes dons, o caminho ecuménico poderá alcançar a sua meta. As palavras de despedida de Jesus no Cenáculo põem em grande destaque que esta unidade se manifesta no dar um testemunho comum da Palavra do Pai, transmitida pelo Senhor (cf. Jo 17, 8). Diz o Papa Bento XVI: «A escuta da Palavra de Deus é prioritária no nosso empenho ecuménico. Não somos nós, com efeito, que fazemos ou organizamos a unidade da Igreja. A Igreja não se faz a si mesma e não vive de si mesma, mas da Palavra criadora que sai da boca de Deus. Ouvir juntos a Palavra de Deus, fazer a Lectio Divina da Bíblia, ou seja, uma leitura unida à oração, deixar-se surpreender pela novidade, que nunca envelhece e nunca se esgota, da Palavra de Deus, superar a nossa surdez para essas palavras que não concordam com os nossos preconceitos e opiniões, ouvir e estudar na comunhão dos crentes de todos os tempos: tudo isso é um caminho a percorrer para alcançar a unidade da fé, como resposta à escuta da Palavra» [98].

Em geral, nota-se com satisfação que a Bíblia é hoje o maior ponto de encontro para a oração e o diálogo entre as Igrejas e as comunidades eclesiais. Tomou-se consciência de que a fé que nos une e as diferentes acentuações na interpretação da mesma Palavra são um convite a redescobrir juntos as motivações que provocaram a divisão. Mantém-se, por outro lado, a convicção de que os progressos alcançados no diálogo ecuménico com a Palavra de Deus podem produzir outros efeitos benéficos. É digna de realce uma válida experiência das décadas recentes, isto é, o reflexo positivo e reconhecido da Traduction oecuménique de la Bible (TOB) e a colaboração entre as várias Associações bíblicas cristãs, que promoveram a compreensão e o diálogo com diferentes Confissões. O fio condutor porém que liga o caminho ecuménico, do início do século passado aos nossos dias, é a oração comum de invocação a Deus, animada pelo Espírito Santo, que promove entre os cristãos o ecumenismo espiritual, de que o Concílio Vaticano II afirmava: «A conversão do coração e a santidade de vida, juntamente com as orações privadas e públicas pela unidade dos cristãos, devem-se considerar a alma de todo o movimento ecuménico» (UR 8).

A Palavra de Deus, fonte do diálogo entre cristãos e judeus

55. Uma peculiar atenção deve ser dada às relações com o povo judeu. Cristãos e judeus são todos filhos de Abraão, radicados na mesma aliança, pois Deus, que é fiel às suas promessas, não revogou a primeira aliança (cf. Rom 9, 4; 11, 29).[99] Confirma o Papa João Paulo II: «Este povo é chamado e guiado por Deus, Criador do céu e da terra. A sua existência não é, portanto, um simples facto natural ou cultural, no sentido de que o homem, através da cultura, usa os recursos da própria natureza. Trata-se, ao contrário, de um facto sobrenatural. Este povo persevera, resistindo a tudo, porque é o povo da Aliança e porque, não obstante as infidelidades dos homens, o Senhor é fiel à sua Aliança» [100]. Cristãos e judeus partilham grande parte do cânone bíblico, as “Sagradas Escrituras” (cf. Rom 1, 2), que os cristãos chamam Antigo Testamento. Essa estreita relação fundada na Bíblia dá ao diálogo entre cristãos e judeus um cunho singular. A esse respeito, o importante documento da Pontifícia Comissão Bíblica, O povo judeu e as Escrituras Sagradas na Bíblia cristã [101], leva a reflectir sobre a íntima ligação de fé, já assinalada pela Dei Verbum (cf. DV 14-16). Para uma melhor compreensão da própria pessoa de Jesus de Nazaré, é necessário reconhecê-l’O como «Filho deste povo», [102] Jesus é judeu e é tal para sempre.

Há outros dois aspectos que merecem especial consideração. Em primeiro lugar, a compreensão hebraica da Bíblia pode ajudar os cristãos a compreendê-la e a estudá-la [103]. Por vezes, desenvolveram-se – e podem ainda desenvolver-se – formas de estudar as Sagradas Escrituras com os judeus e aprender uns dos outros, mesmo no rigoroso respeito das diversidades. Em segundo lugar, há que superar toda a forma possível de anti-semitismo. O próprio Concílio Vaticano II sublinhou que os judeus «não devem ser apresentados nem como rejeitados por Deus nem como amaldiçoados, como se isso fosse deduzido da Sagrada Escritura» (NA 4). Ao contrário, na tradição de Abraão, podemos e devemos tornar-nos fonte de benção uns para os outros e para mundo, como repetidamente sublinhou o Papa João Paulo II.[104]

O diálogo inter-religioso

56. Fazendo referência a quanto até aqui foi dito pelo Magistério da Igreja (cf. AG 11; NA 2-4) [105] e aos diversos contributos dados, recordam-se os seguintes pontos em vista de uma reflexão e avaliação. Enviada a levar o Evangelho a todas as criaturas (cf. Mc 16, 15), a Igreja encontra a multidão dos aderentes a outras religiões, tanto às chamadas religiões tradicionais, como às detentoras de Livros Sagrados, com a própria maneira de entendê-los; confronta-se em toda a parte com pessoas que procuram ou simplesmente esperam a Boa Nova. A todos a Igreja sente-se devedora da Palavra que salva (cf. Rom 1, 14). Em perspectiva positiva, procurar-se-á discernir as “sementes evangélicas” (semina Verbi) espalhadas entre os povos, que podem constituir uma autêntica preparação ao Evangelho [106]. Sobretudo as religiões e tradições espirituais que se impõem à atenção mundial pela sua antiguidade e difusão, como o hinduísmo, o budismo, o jainismo, o taoismo, devem ser objecto de estudo por parte dos católicos, em vista de um diálogo respeitoso e leal.

Em particular, «a Igreja olha com estima para os muçulmanos que adoram o Deus Único, vivo e subsistente, misericordioso e omnipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens» (NA 3). Comos os cristãos e os judeus, também eles se refazem a Abraão, procurando imitá-lo na sua submissão a Deus, a Quem prestam culto, sobretudo com a oração, a esmola e o jejum. Embora não reconheçam Jesus como Deus, os muçulmanos veneram-n’O como profeta e honram Maria, a sua mãe virginal (cf. NA 3). Aguardam o dia do juízo e têm em apreço a vida moral.

O diálogo dos cristãos com os muçulmanos e com os membros de outras religiões reveste-se de urgência e permite um melhor conhecimento recíproco e a colaboração na promoção dos valores religiosos, éticos e morais, contribuindo para a construção de um mundo melhor.

O encontro de Assis de 1986 recorda que a escuta de Deus deve levar à superação de toda a forma de violência, para que essa escuta se torne activa no coração e nas obras para a promoção da justiça e da paz [107]. Como disse o Santo Padre Bento XVI, «queremos procurar os caminhos da reconciliação e aprender a viver, respeitando cada qual a identidade do outro». [108]

Quando for o caso de se procurar confrontar a Bíblia com os textos sagrados das outras religiões, seria lamentável que se caísse em sincretismos, aproximações superficiais e deformações da verdade, até em consideração das diferentes maneiras de conceber a inspiração desses textos sagrados.

Especial atenção merecem as numerosas seitas, que actuam em diversos continentes e que se servem da Bíblia para fins impróprios e com métodos estranhos à Igreja.

A Bíblia não é propriedade exclusiva dos cristãos, mas é um tesouro para toda a humanidade. Através de um contacto fraterno e pessoal, pode tornar-se fonte de inspiração para os que não crêem em Cristo.

A Palavra de Deus, fermento das culturas modernas

57. No decorrer dos séculos, o livro da Bíblia entrou nas culturas, a ponto de inspirar os diversos âmbitos do saber filosófico, pedagógico, científico, artístico e literário. O pensamento bíblico penetrou de tal maneira que se tornou síntese e alma da própria cultura. Como afirmava o então Cardeal Ratzinger num comentário à Encíclica Fides et Ratio: «Já na própria Bíblia se elabora um património de pensamento religioso e filosófico pluralista derivado de diferentes mundos culturais. A Palavra de Deus desenvolve-se no contexto de uma série de encontros com a procura que o homem faz de uma resposta às suas perguntas últimas. Não caiu directamente do céu, mas é propriamente uma síntese das culturas». [109] As influências económicas e tecnológicas de inspiração secularista e potenciadas pelo amplo serviço dos mass-média exigem um diálogo mais intenso entre Bíblia e cultura, diálogo por vezes dialéctico, mas cheio de potencialidades para o anúncio, uma vez que é rico de pedidos de sentido, que encontram na Palavra do Senhor uma proposta libertadora.

Isso significa que a Palavra de Deus pede para entrar como fermento num mundo pluralista e secularizado, nos areópagos modernos, levando «a força do Evangelho ao coração da cultura e das culturas» [110] para purificá-las, elevá-las e torná-las instrumentos do Reino de Deus. Isso requer uma inculturação da Palavra de Deus, feita não com superficialidade, mas com uma adequada preparação para o confronto com posições alheias, de modo a emergir a identidade do mistério cristão e a sua eficácia benéfica para cada pessoa. Nesse contexto, deve-se dar especial atenção à busca da chamada “história dos efeitos” (Wirkungsgeschichte) da Bíblia na cultura e no ethos comum, que leva justamente a chamá-la e considerá-la o “grande código”, sobretudo no Ocidente. Afirmou o Santo Padre Bento XVI: «Hoje, mais do que nunca, a abertura recíproca entre as culturas é um terreno privilegiado para o diálogo entre os homens empenhados na procura de um humanismo autêntico, para além das divergências que os separam. Também em campo cultural, o Cristianismo tem para oferecer a todos a mais poderosa força de renovação e de elevação, ou seja, o Amor de Deus, que se faz amor humano» [111]. De tudo isto se ocupam com grande empenho e mérito os muitos centros culturais católicos espalhados pelo mundo.

A Palavra de Deus e a história dos homens

58. Durante o Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI descreveu a Igreja como «serva da humanidade» [112] para orientar o mundo ao Reino de Deus, segundo a medida de Jesus Cristo, o Homem perfeito (GS 22). A Igreja, portanto, vê o sinal de Deus na história, construída pela liberdade dos homens e apoiada pela graça divina.

Neste contexto, a Igreja é ciente de que a Palavra de Deus tem de ser lida nos acontecimentos e sinais dos tempos, com que Deus se manifesta na história. Diz o Concílio Vaticano II: «Para levar a cabo esta missão [de servir o mundo], é dever da Igreja investigar a todo o momento os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, para que assim possa responder, de modo adaptado a cada geração, às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida presente e futura, e da relação entre ambas» (GS 4). A Igreja, portanto, mergulhada nas vicissitudes humanas, deve «esforçar-se por discernir nos acontecimentos, nas exigências e aspirações, em que participa juntamente com os homens de hoje, quais são os verdadeiros sinais da presença ou da vontade de Deus» (GS 11). Assim, realizando através de todos os seus membros a sua função profética, poderá ajudar a humanidade a encontrar na história o caminho que a afasta da morte e leva à vida.

Para o efeito, o Espírito Santo chama toda a Igreja a anunciar a Palavra de Deus como fonte de graça, de liberdade, justiça, paz e salvaguarda da criação, cumprindo a Palavra do Senhor segundo as diferentes competências e em colaboração com pessoas de boa vontade. São ponto de referência e de encorajamento as primeiras palavras ditas por Deus na Bíblia a respeito da criação do mundo e da pessoa humana: «Deus viu que […] era uma coisa boa […] muito boa» (Gen 1, 4.31), e sobretudo as palavras e os exemplos de Jesus. Da Bíblia, portanto, recebem inspiração e motivação, não sem uma necessária mediação cultural, o efectivo empenhamento em prol da justiça e dos direitos humanos, a participação dos católicos na vida pública, o cuidado do ambiente como casa de todos.

Deste modo, a Palavra que Jesus semeou como semente do Reino faz o seu curso na história dos homens (cf. 2 Tes 3, 1) e, quando Jesus voltar na glória, ecoará como convite a participar plenamente na glória do Reino (cf. Mt 25, 24). A esta segura promessa, a Igreja responde com uma ardente oração: «Marana tha» (1 Cor 16, 22), «Vem, Senhor Jesus» (Ap 22, 20).

CONCLUSÃO

«Habite em vós com abundância a palavra de Cristo, para vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros com toda a sabedoria; e com salmos, hinos e cânticos inspirados, cantai de todo o coração a Deus a vossa gratidão. E tudo o que fizerdes, por palavras ou por obras, seja tudo em nome do Senhor Jesus, dando graças, por Ele, a Deus Pai» (Col 3, 16-17).

A Palavra de Deus, dom à Igreja

59. Na sua grande bondade, Deus Uno e Trino quis comunicar ao homem o mistério da sua vida escondida nos séculos (cf. Ef 3, 9). No seu Filho Unigénito Jesus Cristo, Deus Pai pronunciou, na graça do Espírito, a sua Palavra definitiva, que interpela todo o homem que vem a este mundo. A condição fundamental para que o homem encontre Deus é a escuta religiosa da Palavra. Vive-se a vida segundo o Espírito na proporção em que se é capaz de dar espaço à Palavra, de fazer nascer o Verbo de Deus no coração humano. Não é, de facto, o homem que pode penetrar na Palavra de Deus, mas é só esta que pode conquistá-lo e convertê-lo, levando-o a descobrir as suas riquezas e os seus segredos e abrindo-lhe horizontes de sentido, propostas de liberdade e de plena maturação humana (cf. Ef 4, 13). O conhecimento da Sagrada Escritura é obra de um carisma eclesial, que é posto nas mãos dos crentes abertos ao Espírito.

Diz São Máximo, o Confessor: «As palavras de Deus, se são simplesmente pronunciadas, não são escutadas, porque não têm como voz a prática dos que as pronunciam. Se, ao contrário, são pronunciadas juntamente com a observância dos mandamentos, têm com essa voz o poder de fazer desaparecer os demónios e levar os homens a construir o templo divino do coração com o progresso nas obras de justiça».[113] É questão de se entregar ao louvor silencioso do coração num clima de simplicidade e de oração adoradora como Maria, a Virgem da escuta, uma vez que todas as Palavras de Deus se resumem e devem ser vividas no amor (cf. Dt 6, 5; Jo 13, 34-35).

60. A Igreja, como comunidade dos crentes, é convocada pela Palavra de Deus. Ela é o âmbito privilegiado em que os crentes encontram Deus que continua a falar na liturgia, na oração, no serviço da caridade. Por meio da Palavra celebrada, de modo especial na Eucaristia, os fiéis inserem-se cada vez mais na Igreja comunhão, que tem a sua origem na Trindade, mistério da comunhão infinita.

O Pai, que no amor do Espírito Santo cria tudo o que existe por meio do Filho e em vista d’Ele (cf. Col 1, 16), continua essa sua obra originária naquilo que o próprio Filho opera (cf. Jo 5, 17) sobre a terra. A sua obra é a sua Igreja, Igreja do Verbo incarnado, caminho que de um lado é descendente – de Deus para o homem – e do outro é ascendente – do homem para Deus (cf. Jo 3, 13). Nesta Palavra viva e eficaz (cf. Heb 4, 12), a Igreja nasce, edifica-se (cf. Jo 15, 16; Actos 2, 41s.) e encontra a plenitude de vida (cf. Jo 10, 10).

Por mandato do Senhor Jesus ressuscitado, a Igreja, comunidade dos seus discípulos, guiada pelos Apóstolos, é convidada a anunciar a salvação, sempre e em toda a parte, na fidelidade à Palavra do Mestre: «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura» (Mc 16, 15).


Notas

[1] Cf. Synodus Episcoporum, Relatio finalis Synodi episcoporum Exeunte coetu secundo: Ecclesia sub verbo Dei mysteria Christi celebrans pro salute mundi (7.12.1985), B, a), 1-4: Enchiridion del Sinodo dei Vescovi 1, EDB, Bologna 2005, pp. 2316-2320.

[2] Benedictus XVI, Adhort. Apost. post-syn. Sacramentum caritatis (22.2.2007), 6; 52: AAS 99 (2007) 109-110; 145.

[3] Ioannes Paulus II, Litt. Enc. Redemptoris missio (7.12.1990), 56: AAS 83 (1991) 304.

[4] Cf. Benedictus XVI, Litt. Enc. Deus caritas est (25.12.2005), 1: AAS 98 (2006) 217.

[5] S. Irenaeus, Adversus Haereses IV, 34, 1: SChr 100, 847.

[6] Cf. S. Bernardus, Super Missus est, Homilia IV, 11: PL 183, 86.

[7] Origenes, In Johannem V, 5-6: SChr 120, 380-384.

[8] Benedictus XVI, Ad Conventum Internationalem La Sacra Scrittura nella vita della Chiesa (16.9.2005): AAS 97 (2005) 957. Cf. Paulus VI, Epist. Apost. Summi Dei Verbum (4.11.1963): AAS 55 (1963) 979-995; Ioannes Paulus II, Udienza Generale (22.5.1985): L’Osservatore Romano (23.5.1985), p. 6; Discorso sull’interpretazione della Bibbia nella Chiesa (23.4.1993): L’Osservatore Romano (25.4.1993), pp. 8-9; Benedictus XVI, Angelus (6.11.2005): L’Osservatore Romano (7-8.11.2005), p. 5.

[9] Cf. Catechismus Catholicae Ecclesiae, 825.

[10] Benedictus XVI, Ad Conventum Internationalem La Sacra Scrittura nella vita della Chiesa (16.09.2005): AAS 97 (2005) 956.

[11] S. Hieronimus, Com. In Is., Prol.: PL 24, 17.

[12] Cf. Catechismus Catholicae Ecclesiae, 120.

[13] Cf. Pontificia Commissio Biblica, L’interprétation de la Bible dans l’Église (15.4.1993), IV, C 3: Enchiridion Vaticanum 13, EDB, Bologna 1995, p. 1724.

[14] Cf. Pontificia Commissio Biblica, Le peuple juif et ses Saintes Écritures dans la Bible Chrétienne (24.5.2001), 19: Enchiridion Vaticanum 20, EDB, Bologna 2004, pp. 570-574.

[15] S. Augustinus, Quaestiones in Heptateucum, 2, 73: PL 34, 623; cf. DV 16.

[16] S. Gregorius Magnus, In Ezechielem, I, 6, 15: CCL 142, 76.

[17] Cf. Catechismus Catholicae Ecclesiae, 83; Ratzinger J., Commento alla Dei Verbum, L Th K, 2, pp. 519-523.

[18] Cf. S. Bonaventura, Itinerarium mentis in Deum, II, 12: ed. Quaracchi, 1891, vol. V, p. 302s. Cf. Ratzinger J., Un tentativo circa il problema del concetto di tradizione: Rahner K. – Ratzinger J., Rivelazione e Tradizione, Morcelliana, Brescia 2006, pp. 27-73.

[19] Cf. Pontificia Commissio Biblica, L’interprétation de la Bible dans l’Église (15.4.1993), IV, A-B: Enchiridion Vaticanum 13, EDB, Bologna 1995, pp. 1702-1714.

[20] Cf. ibidem, I, A-F, pp. 1568-1634.

[21] Cf. Catechismus Catholicae Ecclesiae, 115-119; Pontificia Commissio Biblica, L’interprétation de la Bible dans l’Église (15.4.1993), I, F: Enchiridion Vaticanum 13, EDB, Bologna 1995, pp. 1628-1634.

[22] Cf. Catechismus Catholicae Ecclesiae, 117.

[23] Pontificia Commissio Biblica, L’interprétation de la Bible dans l’Église (15.4.1993), II, B 2: Enchiridion Vaticanum 13, EDB, Bologna 1995, pp. 1648-1650.

[24] Ibidem, I, pp. 1568-1628.

[25] Cf. Catechismus Catholicae Ecclesiae, 109-114.

[26] Benedictus XVI, Discorso ai Vescovi della Svizzera (7.11.2006): L’Osservatore Romano (10.11.2006), 4; cf. Ratzinger J., Gesj di Nazaret, Rizzoli, Milano 2007, pp. 7-20.

[27] Missale Romanum, Ordo Lectionum Missae: Editio typica altera, Libreria Editrice Vaticana, Città del Vaticano 1981: Praenotanda, 8.

[28] Pontificia Commissio Biblica, L’interprétation de la Bible dans l’Église (15.4.1993), II, B 2: Enchiridion Vaticanum 13, EDB, Bologna 1995, p. 1650.

[29] Cf. ibidem, III, B 2, pp. 1672-1676.

[30] Cf. Benedictus XVI, Ad sacrorum alumnos Seminarii Romani Maioris (19.2.2007): AAS 99 (2007) 254.

[31] S. Ambrosius, De officiis ministrorum, I, 20, 88: PL 16, 50.

[32] Benedictus XVI, Litt. Enc. Deus caritas est (25.12.2005), 41: AAS 98 (2006) 251.

[33] Isaac De Stella, Serm. 51: PL 194, 1862-1863.1865.

[34] Cf. S. Ambrosius, Evang. secundum Lucam 2, 19: CCL 14, 39.

[35] Ioannes Paulus II, Epist. Apost. Rosarium Virginis Mariae (16.10.2002), 1; 3; 18; 30: AAS 95 (2003) 5; 7; 17; 27.

[36] S. Gregorius Magnus, Registrum Epistolarum V, 46, ed. Ewald-Hartmann, 345-346.

[37] Pontificia Commissio Biblica, L’interprétation de la Bible dans l’Église (15.4.1993), IV, C 3: Enchiridion Vaticanum 13, EDB, Bologna 1995, p. 1724.

[38] Cf. Catechismus Catholicae Ecclesiae, 115-119.

[39] Pontificia Commissio Biblica, L’interprétation de la Bible dans l’Église (15.4.1993), I, F: Enchiridion Vaticanum 13, EDB, Bologna 1995, p. 1630.

[40] Cf. Ioannes Paulus II, Discorso sull’interpretazione della Bibbia nella Chiesa (23.4.1993): L’Osservatore Romano (25.4.1993), pp. 8-9.

[41] Missale Romanum, Ordo Lectionum Missae: Editio typica altera, Libreria Editrice Vaticana, CittB del Vaticano 1981: Praenotanda, 9.

[42] Petrus Damascenus, Liber II, vol. III, 159: La Filocalia, 3, Torino 1985, p. 253.

[43] Cf. Congregatio pro Clericis, Directorium generale pro catechesi (15.8.1997), 47-49: Enchiridion Vaticanum 16, EDB, Bologna 1999, pp. 662-664.

[44] Cf. Euchologion Serapionis, 19-20, ed. Johnson M.E., The Prayers of Serapion of Thmuis (Orientalia Christiana Analecta 249), Roma 1995, pp. 70-71.

[45] Ioannes Paulus II, Epist. Apost. Dies Domini (31.5.1998), 41: AAS 90 (1998) 738-739.

[46] Waltramus, De unitate Ecclesiae conservanda: 13, ed. W. Schwenkenbecher, Hannoverae 1883, p. 33: «Dominus enim Iesus Christus ipse est, quod praedicat Verbum Dei, ideoque Corpus Christi intelligitur etiam Evangelium Dei, doctrina Dei, Scriptura Dei».

[47] Origenes, In Ps. 147: CCL 78, 337.

[48] Cf. Benedictus XVI, Adhort. Apost. post-syn. Sacramentum caritatis (22.2.2007), 44-46: AAS 99 (2007) 139-141.

[49] S. Hieronymus, Commentarius in Ecclesiasten, 313: CCL 72, 278.

[50] Ioannes Paulus II, Litt. Apost. Novo millennio ineunte (6.1.2001), 36: AAS 93 (2001) 291.

[51] Cf. Benedictus XVI, Adhort. Apost. post-syn. Sacramentum caritatis (22.2.2007), 44-48: AAS 99 (2007) 139-142.

[52] Cf. ibidem, 46: AAS 99 (2007) 141.

[53] Pontificia Commissio Biblica, L’interprétation de la Bible dans l’Église (15.4.1993), IV, C 2: Enchiridion Vaticanum 13, EDB, Bologna 1995, p. 1718.

[54] Cf. Ioannes Paulus II, Adhort. Apost. post-syn. Pastores dabo vobis (25.3.1992), 47: AAS 84 (1992) 740-742; Benedictus XVI, Incontro con i giovani romani (6.4.2006): L’Osservatore Romano (7.4.2006), p. 5; Messaggio per la Giornata Mondiale della Gioventù (22.2.2006): L’Osservatore Romano (27-28.2.2006), p. 5.

[55]   Ioannes Paulus II, Litt. Apost. Novo millennio ineunte (6.1.2001), 39: AAS 93 (2001) 294.

[56] Benedictus XVI, Ad Conventum Internationalem La Sacra Scrittura nella vita della Chiesa (16.9.2005): AAS 97 (2005) 957.

[57] Benedictus XVI,  Incontro con i giovani romani (6.4.2006): L’Osservatore Romano (7.4.2006), p. 5.

[58] Benedictus XVI, Messaggio per la Giornata Mondiale della Gioventù (22.2.2006): L’Osservatore Romano (27-28.2.2006), p. 5.

[59] Benedictus XVI, Ad Conventum Internationalem La Sacra Scrittura nella vita della Chiesa (16.9.2005): AAS 97 (2005) 957. Cf. DV 21.25; PO 18-19; Catechismus Catholicae Ecclesiae, 1177; Ioannes Paulus II, Adhort. Apost. post-syn. Pastores dabo vobis (25.3.1992), 47: AAS 84 (1992) 740-742; Adhort. Apost. post-syn. Vita consecrata (25.3.1996), 94: AAS 88 (1996) 469-470; Litt. Apost. Novo millennio ineunte (6.1.2001), 39-40: AAS 93 (2001) 293-295; Adhort. Apost. post-syn. Ecclesia in Oceania (22.11.2001), 38: AAS 94 (2002) 411; Adhort. Apost. post-syn. Pastores gregis (16.10.2003), 15: AAS 96 (2004) 846-847.

[60] Cf. Ioannes Paulus II, Adhort. Apost. post-syn. Vita consecrata (25.3.1996), 94: AAS 88 (1996) 469-470.

[61] Pontificia Commissio Biblica, L’interprétation de la Bible dans l’Église (15.4.1993), I, E 1: Enchiridion Vaticanum 13, EDB, Bologna 1995, p. 1622.

[62] Benedictus XVI, Litt. Enc. Deus caritas est (25.12.2005), 22: AAS 98 (2006) 234-235.

[63] Benedictus XVI, Litt. Enc. Spe salvi (30.11.2007), 2: AAS 99 (2007) 986.

[64] Ratzinger J., Gesj di Nazaret, Rizzoli, Milano 2007, p. 19.

[65] Cf. ibidem, p. 275.

[66] S. Ambrosius, De officiis ministrorum, I, 20, 88: PL 16, 50.

[67] S. Augustinus, Enarrat. in Ps. 85, 7: CCL 39, 1177.

[68] Cf. Origenes, In Genesim homiliae, 2.6: SChr 7 bis, 108.

[69] Cf. Ioannes Paulus II, Litt. Enc. Redemptoris missio (7.12.1990), 33: AAS 83 (1991) 277-278.

[70] Cf. Ioannes Paulus II, Litt. Apost. Novo millennio ineunte (6.1.2001), 40: AAS 93 (2001) 294.

[71] S. Augustinus, De doctrina Christiana, I, 35, 39 – 36, 40: PL 34, 34.

[72] Cf. Benedictus XVI, Litt. Enc. Deus caritas est (25.12.2005): AAS 98 (2006) 217-252.

[73] Ioannes Paulus II, Litt. Apost. Novo millennio ineunte (6.1.2001), 39: AAS 93 (2001) 293.

[74] Congregatio pro Clericis, Directorium generale pro catechesi (15.8.1997), 94: Enchiridion Vaticanum 16, EDB, Bologna 1999, pp. 738-740; cf. Ioannes Paulus II, Adhort. Apost. Catechesi tradendae  (16.10.1979), 27: AAS 71 (1979) 1298.

[75] Cf. Congregatio de Cultu Divino et Disciplina Sacramentorum, Direttorio su pietB popolare e liturgia (9.4.2002), 87-89, Libreria Editrice Vaticana, CittB del Vaticano 2002, pp. 81-82.

[76] Cf. Congregatio pro Clericis, Directorium generale pro catechesi (15.8.1997), I, 2: Enchiridion Vaticanum 16, EDB, Bologna 1999, pp. 684-708.

[77] Ibidem, 127, p. 794; cf. Ioannes Paulus II, Adhort. Apost. Catechesi tradendae (16.10.1979), 27: AAS 71 (1979) 1298.

[78] Ioannes Paulus II, Const. Apost. Fidei depositum (11.10.1992), IV: AAS 86 (1994) 117.

[79] Cf. Ioannes Paulus II, Adhort. Apost. post-syn. Pastores gregis (16.10.2003), III: AAS 96 (2004) 859-867.

[80] Benedictus XVI, Allocutio In inauguratione operum V Coetus Generalis Episcoporum Americae Latinae et Regionis Caraibicae (13.5.2007), 3: AAS 99 (2007) 450.

[81] Cf. CIC can. 757; CCEO can. 608; 614.

[82] Cf. Missale Romanum, Institutio generalis, 66, editio typica III, Typis Vaticanis 2002, p. 34.

[83] Cf. CIC can. 766, CCEO can. 614, § 3; 4.

[84] Cf. Ioannes Paulus II, Adhort. Apost. post-syn. Christifideles laici (30.12.1988), 8.14: AAS 81 (1989) 404-405; 409-411; CIC can. 204; CCEO can. 7, 1.

[85] Ioannes Paulus II, Adhort. Apost. post-syn. Christifideles laici (30.12.1988), 14: AAS 81 (1989) 411.

[86] Paulus VI, Voti e norme per il IV Congresso Nazionale Francese dell’insegnamento religioso (1-3.4.1964): L’Osservatore Romano (4.4.1964), p. 1.

[87] Ioannes Paulus II, Adhort. Apost. post-syn. Vita consecrata (25.3.1996), 94: AAS 88 (1996) 469.

[88] Cf. S. Ambrosius, Epist. 49, 3: PL 16, 1154 B.

[89] Cf. Benedictus XVI, Allocuzione in occasione della Giornata Mondiale della Vita Consacrata (2.2.2008): L’Osservatore Romano (4-5.2.2008), p. 8.

[90] Cf. Ioannes Paulus II, Adhort. Apost. post-syn. Vita consecrata (25.3.1996), 94: AAS 88 (1996) 469.

[91]   Ibidem

[92] Cf. CIC can. 825; CCEO can. 662 §1; 654.

[93] Cf. Congregatio pro Doctrina Fidei, Nota dottrinale su alcuni aspetti dell’evangelizzazione (3.12.2007): L’Osservatore Romano (15.12.2007), pp. 4-5.

[94] Cf. Benedictus XVI, Messaggio del Santo Padre per la XXI Giornata Mondiale della Gioventù (22.2.2006): L’Osservatoro Romano (27-28.2.2006), p. 5.

[95] Congregatio pro Clericis, Directorium generale pro catechesi  (15.8.1997), 160: Enchiridion Vaticanum 16, EDB, Bologna 1999, p. 844; Cf. Paulus VI, Adhort. Apost. Evangelii nuntiandi (8.12.1975), 45: AAS 68 (1976) 35; Ioannes Paulus II, Litt. Enc. Redemptoris missio (7.12.1990), 37: AAS 83 (1991) 284-286; CIC can. 761; CCEO can. 651 § 1.

[96] Cf. Congregatio pro Clericis, Directorium generale pro catechesi (15.8.1997), 161: Enchiridion Vaticanum 16, EDB, Bologna 1999, p. 846.

[97] Cf. Benedictus XVI, Pontificatus exordia: Sermo ad S.R.E. Cardinales ad universumque orbem catholicum (20.4.2005), 5: AAS 97 (2005) 697-698.

[98] Benedictus XVI, Allocutio Il mondo attende la testimonianza comune dei cristiani (25.1.2007): L’Osservatore Romano (27.1.2007), pp. 4-5.

[99] Cf. Ioannes Paulus II, Allocutio Mogontiaci ad Iudaeos habita Veteris Testamenti Haereditas ad pacem et iustitiam fovendas trahit (Mainz, 17.11.1980): AAS 73 (1981) 78-82.

[100] Ioannes Paulus II, Ai partecipanti all’incontro di studio su Radici dell’antigiudaismo in ambiente cristiano (31.10.1997), 3: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, 20/2, Libreria Editrice Vaticana, CittB del Vaticano 2000, p. 725.

[101] Cf. Pontificia Commissio Biblica, Le peuple juif et ses Saintes Écritures dans la Bible chrétienne (24.5.2001): Enchiridion Vaticanum 20, EDB, Bologna 2004, pp. 506-834.

[102] Ibidem, 2, p. 524; cf. Ratzinger J., Gesj di Nazaret, Rizzoli, Milano 2007, pp. 127ss.

[103] Cf. Pontificia Commissio Biblica, Le peuple juif et ses Saintes Écritures dans la Bible chrétienne (24.5.2001), 22: Enchiridion Vaticanum 20, EDB, Bologna 2004, pp. 584-586.

[104] Cf. Ioannes Paulus II, Messaggio agli Ebrei polacchi in occasione del 50º Anniversario dell’insurrezione  (6.4.1993): Insegnamenti di Giovanni Paolo II, 16/1, Libreria Editrice Vaticana, CittB del Vaticano 1993, p. 830: «Come cristiani ed ebrei, seguendo l’esempio della fede di Abramo, siamo chiamati ad essere una benedizione per il mondo. Questo P il compito comune che ci attende. O dunque necessario per noi, cristiani ed ebrei, essere prima una benedizione l’uno per l’altro».

[105] Cf. Congregatio pro Doctrina Fidei, Declaratio Dominus Jesus (6.8.2000), 20-22: AAS 92 (2000) 761-764.

[106] Cf. Congregatio pro Clericis, Directorium generale pro catechesi (15.8.1997), 109: Enchiridion Vaticanum 16, EDB, Bologna 1999, pp. 764-766.

[107] Cf Benedictus XVI, Nuntii ob diem ad Pacem fovendam Nella veritB, la pace (8.12.2005): AAS 98 (2006) 56-64; La persona umana, cuore della pace (8.12.2006): L’Osservatore Romano (13.12.2006), pp. 4-5.

[108] Benedictus XVI, Allocutio Ai rappresentanti di alcune comunità musulmane (20.8.2005): L’Osservatore Romano (22-23.8.2005), p. 5.

[109] Ratzinger J., Allocutio Fede e Ragione in occasione dell’incontro su “La Fede e la ricerca di Dio” (Roma 17.11.1998): L’Osservatore Romano (19.11.1998), p. 8.

[110] Ioannes Paulus II, Adhort. Apost. Catechesi tradendae (16.10.1979), 53: AAS 71 (1979) 1320.

[111] Benedictus XVI, Allocutio Al Pontificio Consiglio della Cultura (15.6.2007): L’Osservatore Romano (16.6.2007), p. 1.

[112] Paulus VI, Homilia ad Patres conciliares (7.12.1965): AAS 68 (1966) 57.

[113] S. Maximus Confessor, Capitum theologicorum et oeconomicorum duae centuriae IV, 39: MG 90, 1084.

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