– “Houve mesmo na série dos Papas uma Papisa?” (Miro Santos – Rio de Janeiro-RJ).

1) Duas são as versões da História, ou melhor (como se depreenderá abaixo), da lenda da Papisa Joana.

A mais divulgada refere que uma jovem da Mogúncia (Alemanha), vestida de homem, foi por seu amante levada a Atenas, onde granjeou grande erudição: transferiu-se para Roma, aí exerceu o magistério, chegando finalmente a se tornar Papa com o nome de João Ânglico, logo depois de Leão IV (falecido em 855). Aconteceu, porém, que um dia, caminhando de São Pedro para a Basílica do Latrão, deu à luz e morreu… Teria governado a Igreja durante dois anos e meio.

Eis outra forma da mesma lenda, também consignada nos manuscritos medievais: uma mulher, cujo nome não é indicado, ter-se-ia apresentado em público como varão, tornando-se sucessivamente escrivão da Cúria Romana, Cardeal e Papa. Um dia, porém, quando andava a cavalo, teria dado à luz, morrendo então apedrejada pelo povo. A data deste «pontificado» é diversamente indicada pelos manuscritos: depois de Urbano II (falecido em 1099), dizem uns; depois de Sérgio III (falecido em 914), referem outros.

Nos séculos XIV e XV a história gozava de crédito mais ou menos geral: no domo de Sena, por exemplo, em cerca de 1400, foram erguidos os bustos dos Papas, entre os quais o da Papisa Joana. No Concilio de Constança (1414-1418), o herege João Huss citou a Papisa Joana sem sofrer contestação alguma. Humanistas e adversários da Igreja muito exploraram a narrativa.

2) Apesar das ligeiras dúvidas sobre a veracidade dessa história proferidas desde o século XIII, somente a partir de meados do século XVI se reconheceu o caráter lendário da mesma, devendo-se citar, entre os que a desmascararam e denunciaram, o autor protestante D. Blondel (“Familier esclaircissement de la question, si une femme a esté assise au siège papal de Rome entre Léon IV et Benoit III”, Amsterdam, 1647) e o erudito Ignaz von Dellinger (“Die Papstfabeln des Mittelalters”, Stuttgart, 1890), o qual não era muito amigo do Papado, pois se separou de Roma por não querer reconhecer a infalibilidade pontifícia definida em 1870.

As razões por que não se admite mais a «história» da Papisa Joana são:

a) As incertezas e vacilações das diversas versões, principalmente ao assinalarem a data do pretenso episódio;

b) O fato de que até meados do século XIII, a extraordinária e interessante história da Papisa Joana (que teria vivido no período dos séculos IX, X ou XI) é totalmente ignorada pelos cronistas medievais. Os primeiros que a referem, são o dominicano João de Mailly, na sua «Chronica universalis Mettensis», redigida por volta de 1250; e seu confrade Martinho Polono (+1279), autor de «Chronicon pontificum T imperatorum». Averiguou-se que os relatos da lenda encontrados em documentos mais antigos do que estes foram interpolados depois do século XIII;

c) A série dos Papas, como hoje é conhecida, não admite interrupção entre Leão IV e Bento III (séc. IX), como tão pouco a admite entre os Pontífices dos séculos X/XI.

3. Como então se explica o surto e a propagação da lenda de Joana?

Julga-se que a historieta é uma alusão às tristes condições em que se achava o Papado no século X: vários pontífices caíram então sob a influência de três mulheres prepotentes em Roma — Teodora, esposa de Teofilacto, e suas filhas Teodora e Marócia. Na mesma época, houve sete Papas com o nome de João: João IX (898-900), João X (914-929), João XI (931-935), João XII (955-964), João XIII (965-972), João XIV (983-984), João XV (985-996), sendo que a respeito de João XI escreveu um cronista seu contemporâneo:

– «Foi subjugado em Roma pela prepotência de uma mulher» (Bento de S. André de Sorate, Chronicon, in: «Monumenta Germaniae Historica» 3, p.714).

Tal fase difícil da História do Papado terá sido ilustrada de maneira muito eloquente pela narrativa fictícia de que uma mulher chegou a subir ao trono pontifício…

A lenda foi reforçada pela existência de uma estátua de mulher com uma criança nas mãos, que na Idade Média se achava junto à igreja de São Clemente em Roma. Essa estátua seria, conforme os cronistas medievais, a da Papisa Joana; estaria acompanhada de uma inscrição, da qual quatro variantes nos são referidas pelos historiadores da Idade Média:

– «Parce pater patrum papissae prodito partum»,

– «Parce pater patrum papissae prodere partum»,

– «Papa pater patrum papissae pandito partum»,

– «Papa pater patrum peperit papissa papelluim.

Ora, os arqueólogos admitem que a estátua mencionada é a que se encontra hoje no Museu Chiaramonti de Roma; seria uma estátua de origem pagã a representar talvez Juno que amamenta Hércules.

As diversas formas da inscrição acima parecem não ser mais do que tentativas medievais para reconstituir uma frase fragmentária assim encontrada:

– P.., PATER PATRUM P P P

Sabe-se que “Pater Patrum” era título característico dos sacerdotes de Mitra (justamente debaixo da igreja de São Clemente foi encontrado grandioso santuário de Mitra). Mais ainda: sabe-se que a abreviação “P P P” é frequente na epigrafia latina, significando muitas vezes “propria pecunia posuit”, ou seja, “construiu à custa própria”. Donde se conclui, com verossimilhança, que a «estátua da Papisa Joana» não é senão uma efígie em uso no culto de Mitra, custeada e colocada no santuário respectivo pelo sacerdote pagão P… (talvez “Papirus”), em inícios da Era Cristã. A inscrição abreviada e mutilada pela injúria dos tempos, prestando-se a interpretações diversas, teria dado lugar às conjecturas dos poetas medievais que corroboravam a lenda da Papisa Joana.

  • Fonte: Revista Pergunte e Responderemos nº 3 – mar/1958
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