Esses dias fui procurado pela equipe de comunicação da PUC-PR, que faz o programa Falando Sério e é apresentado às terças-feiras pela Rede Vida para falar sobre o verdadeiro sentido do Natal.

Pelo telefone, a entrevistadora já foi me adiantando alguns pontos do programa e dentre outras idéias disse que o Natal infelizmente ao longo dos tempos perdeu o seu verdadeiro espírito dando lugar ao comércio que gira com força em torno dele. Mencionava ela que hoje já não se celebra mais a Missa à Meia-Noite.

Com alegria pude dizer que em Antonina desde o ano passado voltamos a celebrar a Missa do Galo à Meia-Noite com a Igreja repleta de fiéis mesmo com a chuva forte que só acabou uns minutos antes do começo da celebração.

Motivado por esta conversa resolvi escrever algo sobre o verdadeiro sentido do Natal ressaltando alguns símbolos relativos a esta grande festa dos cristãos e por fim alguns pensamentos tirados de São João de Ávila.

O primeiro símbolo a ser comentado é justamente o supracitado, a Santa Missa de Natal, também chamada Missa do Galo.

Diz o Frei Alberto Bechhäuser no seu livro Símbolos de Natal o seguinte sobre a Missa do Galo:

“Todas as comemorações do Natal, inclusive a ceia, recebem seu verdadeiro significado somente através da ceia eucarística, ou Ceia do Senhor, chame-se ela Missa do Galo ou não.

A solenidade do Natal apresenta três formulários de Missas: o da noite, chamada também popularmente de Missa do Galo, o da aurora e o do dia. Como já vimos, há consciência de que para os cristãos a Missa faz parte da festa de Natal. Constitui mesmo o seu ponto culminante. Ela dará sentido a todos os outros símbolos. Nela o Cristo Jesus nasce na comunidade humana através do encontro em assembléia, através de sua Palavra, através da presença sacramental. Deus preparou uma Ceia para a humanidade, onde ele mesmo é o alimento. É a Ceia do Senhor. A ceia de Natal será então uma complementação humana da Ceia divina, a Missa, onde Deus e a pessoa humana entram em íntima comunhão de amor e de vida. Natal sem a Celebração eucarística, sem dúvida, é incompleto, pois nela os cristãos participam da plenitude da Vida que nasce”.(1)

Sem sombra de dúvidas o cristão não pode deixar de lado a Missa do Natal pois ela é o centro da festa do Verbo de Deus que se fez carne.

A Missa Solene do Natal não é um complemento folclórico a esta festa mas é a celebração propriamente dita da natividade do Senhor. É a Santa Missa que dá sentido à toda a comemoração do maior presente que Deus Pai deu à humanidade: Seu Filho, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Outro símbolo da alegria que antecede o Natal é o envio de cartões aos amigos e parentes.

“É muito comum, por ocasião do Natal, enviarem-se cartões com mensagens de Boas Festas e de Próspero Ano Novo. A arte encarrega-se de dar forma aos portadores dessas mensagens. O uso de cartões de Natal pode ser uma bela forma de evangelizar, de proclamar as maravilhas de Deus operadas em Jesus Cristo. As mensagens de Natal ajudam-nos a compreender que Jesus Cristo continua a nascer entre os seres humanos, que ele é o Salvador e Senhor da humanidade, que ele é o Senhor do tempo e é nele que encontramos a verdadeira felicidade. Trata-se, portanto, da mensagem da boa-nova por excelência, do evangelho da Salvação, que é a vinda de Jesus Cristo a este mundo como nosso Salvador. Que as mensagens de Natal não sejam mera formalidade ou obrigação social, mas verdadeira boa-nova, incentivo de ajuda para tornar realidade o conteúdo da mensagem. Então é Natal! Cristo estará nascendo no mundo, tornando-o mais justo e mais fraterno”.(2)

O verdadeiro significado do Natal ultrapassa as obrigações sociais que por vezes são a razão das correspondências natalinas para dar espaço ao coração. É o coração que deve manifestar-se no Natal. É no coração que deve reinar a paz, a justiça, a fraternidade e o amor tão desejados nos cartões de Natal.

O último símbolo de Natal que gostaria de citar é o sino.

“Curiosamente, os sinos, na consciência do povo, têm a ver com o Natal. Perguntando a um sobrinho-neto meu de 11 anos o que fazia lembrar o Natal, ele lembrou os sinos. Perguntando por quê, ele disse: ?Porque eles chamam para a Missa?. Não deixa de ser interessante, mas também preocupante. Por que o sino lembra apenas a Missa de Natal? Parece que o Natal ainda está muito ligado à Missa, chamada de Missa do Galo. Como o sino, também o galo anuncia. Anuncia o nascimento de Cristo, que teria acontecido pela meia-noite, e chama para prestar-lhe homenagem, como os anjos de Belém. É o que faz também o sino, chamado até de sino de Belém.

Dever-se-ia aproveitar pastoralmente dessa consciência da Missa de Natal para uma mensagem mais profunda sobre o mistério da Encarnação e suas exigências em relação à Comunidade. O Natal, experiência profunda de reconciliação e confraternização em Cristo Jesus, desperta nos cristãos mesmo ocasionais a necessidade de participar da Celebração eucarística, onde o Senhor se faz presente na humilde aparência de pão, conforme diz São Francisco de Assis”.(3)

Os sinos nos lembram a eternidade. A eternidade que nasceu no tempo: Cristo Jesus. Em palavras de poesia capelista * poderíamos dizer que o som do sino é:

“Um eco eterno infinito,
que a nossa alma seduz…” (4)

Estes símbolos servem de sinais para nos indicar o caminho do verdadeiro sentido do Natal.
Natal, nascimento de um menino Deus. Nascimento do Verbo de Deus. O Verbo de Deus, a Palavra eterna do Pai que se fez Homem. Veio até nós para nos mostrar o caminho do céu. Quem trilhar este caminho descobrirá o verdadeiro sentido do Natal.

“Já vistes, quando há muita neve, como é difícil acertar com o verdadeiro caminho, e como é perigoso alguém dele se perder, e quanto agradeceríamos a quem fosse adiante de nós, mostrando o caminho com pegadas que fossem tão certas que não pudéssemos desviar-nos? A Verdade de Deus vem ao mundo e a partir desta noite começa a caminhar. E se virdes como estão obstruídos os caminhos das virtudes que levam ao céu e quão grande é a vaidade e mentira que se usa no mundo, a vossa cabeça se confundirá e a virtude dos vossos olhos se turvará, como acontece quando vedes muita neve. E não tendes outro remédio para acertar com o caminho senão pôr os olhos no lugar onde este Menino pisa e caminhar por ali. Olhai a sua humildade, a sua mansidão, a sua caridade, a sua obediência, virtudes que já põe em prática e que virá a pregar quando crescer”. (5)

Seguir os passos de um Menino. Não um Menino qualquer, mas um Menino Deus. Este Menino, repleto de Sabedoria e Graça, tem muito, tem tudo a nos ensinar. Ele nos ensinará o verdadeiro sentido do Natal.

Ele nos fará aprender que o verdadeiro sentido do Natal é andarmos pelo caminho das virtudes tão anunciadas nos cartões de Natal e tão lembradas pelos toques solenes dos sinos da noite santa do seu nascimento.

Ele, este Menino-Deus, nos ensinará o caminho não só da Missa do Galo, mas da Missa dominical ou até da Missa diária, pois afinal de contas Cristo nasce todos os dias no coração daqueles que dignamente o recebem no Santíssimo Sacramento da Comunhão.

Que tal desde hoje você seguir os passos deste Menino que tem resposta para todas as suas questões?

1.Frei Alberto Beckhäuser. Símbolos de Natal. Petrópolis: Vozes, 1992, p. 49-50.
2.Id., p. 27-28.
3.Id., p. 33-34.
4.Octávio Secundino, Os Sinos do Pilar.
5.São João de Ávila. O Mistério do Natal. São Paulo: Quadrante, 1994, p. 52.

* Capelista é o termo utilizado para designar os que são nascidos em Antonina – PR.

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