Anos de interpretações fantasiosas e confusas contaminaram o nosso olhar diante desta pintura, a qual, na realidade, o autor se atém com fidelidade ao Evangelho de João. É como um fotograma do momento mais dramático, quando Jesus diz aos apóstolos: “Um de vós me trairá”.

Com que olhos vemos a mais famosa Última Ceia pintada em toda a história? É uma pergunta legítima, depois de anos de interpretações fantasiosas e confusas terem contaminado o nosso olhar diante da obra-prima de Leonardo da Vinci. O sucesso do romance de Dan Brown, com suas chaves de leitura esotéricas, passou como uma espécie de verniz deformador sobre essa obra. Reduziu-a a receptáculo de símbolos indecifráveis, ou a conteúdo de um teorema absolutamente improvável e, de qualquer forma, decididamente anticristão.

Na realidade, nessa grande pintura Leonardo se atém, como nunca lhe aconteceu outra vez na vida, a uma fidelidade profunda ao texto evangélico. Sua Última Ceia é como um fotograma, que se prende com exatidão a João, capítulo 13, versículo 24. Como todos sabem, estamos no refeitório de um convento; e, como pedia a tradição, sobretudo em Florença, os refeitórios muitas vezes eram adornados por grandes representações da Última Ceia: basta lembrar as maravilhosas pinturas de Andrea del Castagno, do Ghirlandaio ou de Andrea del Sarto.
Chamado a Milão por Ludovico, o Mouro, Leonardo exporta essa tradição para o refeitório da igreja dos dominicanos de Santa Maria das Graças, que era também a igreja que o duque havia escolhido como “templo” de sua família e na qual desejava ser sepultado com a esposa, Beatrice d’Este. Os andaimes foram montados em 1495 e Leonardo trabalhou com prazos e estilos próprios, fugindo do afresco que o obrigaria a um ritmo bem diferente e usando, em vez disso, a têmpera, com os resultados catastróficos que todos conhecem bem.

Leonardo cria um ambiente grande e espaçoso, que prolonga e dá respiro àquele local que ainda se ressente de um aperto tardogótico. Mas nesse ambiente, que parece temperado por um admirável equilíbrio, Leonardo insere uma das representações mais tensas e dramáticas de que a história da arte se recorda.

De fato, o grande artista se atém, com a tenacidade de um cronista, aos elementos do relato do evangelho de João. E, no fluxo desse relato, escolhe um instante, o instante mais embaraçoso e angustiante. Jesus, sentado à mesa, acabou de fazer o anúncio que vai gelar o sangue dos comensais: “Em verdade, em verdade vos digo, um de vós me trairá”. São palavras que caem como uma pedra sobre a mesa e explicam a confusão que transtorna os apóstolos. Muitos deles, como molas, saltam de suas cadeiras. Olhares incrédulos e também cobertos de suspeita percorrem a mesa. “Os discípulos entreolharam-se, sem saber de quem falava”, escreve João. Leonardo ecoa essas palavras, quase como se estivesse presente e agisse como cronista daquele instante de embaraço, para ampliar o relato do evangelista com uma panorâmica da mesa inteira. O artista anota no famoso códice Forster II, conservado no Victoria and Albert Museum de Londres: “Um, que estava bebendo, deixa a caneca em seu lugar e volta a cabeça para o que acabara de falar. Outro junta os dedos e, com o olhar fixo, dirige-se ao companheiro a seu lado. […] Outro fala ao ouvido do companheiro, e o que ouve se inclina para ele e lhe é todo ouvidos, segurando uma faca numa das mãos. […] Outro, ao voltar-se, […] derrama com a mão uma caneca sobre a toalha. Outro pousa as mãos sobre a mesa e olha. Outro cospe a comida. Outro se inclina para ver o que acabara de falar. […] Outro puxa para trás aquele que se inclina e vê o que acabara de falar entre a parede e o inclinado”.
Leonardo então aproxima ainda mais o seu zoom, para se concentrar num momento ainda mais preciso. Aquele que o evangelista narra no versículo 24. “Estava à mesa, ao lado de Jesus, um dos seus discípulos, aquele que Jesus amava”: João se lembrava bem desse detalhe, pois, na realidade, estava falando de si mesmo. Entre os apóstolos, ninguém sabe como se dirigir a Jesus, ninguém sabe como arrancar dele o segredo daquelas palavras terríveis. Tomé não sabe, ele, que com o dedo estendido (o que depois da Ressurreição usará para “tocar” o corpo do Senhor) parece implorar um pouco de clareza. Tiago de Zebedeu não sabe, e com os braços abertos parece fincado em seu espanto. Filipe não sabe, e um pouco covardemente põe as mãos sobre o peito, como que para tornar claro que não tem nada a ver com isso.

Só Pedro, o mais prático e mais esperto, sabe qual é a única coisa a ser feita para sair daquela situação angustiante. Assim, chama João para perto de si e pede-lhe que se informe: tem consciência de que era ele o apóstolo mais amado por Jesus. Pois Leonardo toma exatamente esse instante, respeitando de modo surpreendente as psicologias dos personagens: Pedro chama João a si e sussurra alguma coisa ao seu ouvido. E, se a pintura fosse um filme, na seqüência seguinte veríamos a famosa cena de João inclinando sua cabeça para o peito de Jesus…

O mesmo Pedro, na outra mão, que aparece atrás da figura de Judas, já aperta uma faca. É um Pedro lúcido e impetuoso, pronto a tudo para defender Jesus, como demonstraria algumas horas depois, no Horto das Oliveiras, quando aquela faca arrancaria a orelha de Malco, um dos soldados enviados para capturar o Senhor.
O terremoto que Jesus desencadeou com seu anúncio, porém, já produziu uma ordem precisa: na corrente dos apóstolos, Judas aparece excluído, implacavelmente sozinho, com o punhado maldito de moedas apertado na mão. Está presente, mas é como se já estivesse longe, irremediavelmente estranho, inimigo.
Dessa forma, revivida fragmento por fragmento, essa imagem de Leonardo que já vimos tantas e tantas vezes torna-se de novo o que realmente é: uma reconstrução extremamente fiel de um dos momentos mais dramáticos da história humana. Uma reconstrução precisa, como a de um cronista; mas, sobretudo, uma reconstrução exata dos dinamismos humanos, como só a consciência intuitiva de um gênio poderia realizar. E, depois de tê-la enxergado com olhos finalmente desembaraçados, é difícil pensar que tudo não tenha acontecido verdadeira e simplesmente assim…

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