ARTIGO 6º – SE OS ANIMAIS BRUTOS E SEUS ATOS ESTÃO SUBMETIDOS À DIVINA PROVIDÊNCIA

Respondo dizendo que, a este respeito, houve dois êrros.

1. Alguns, de fato, disseram que os animais brutos não são governados pela providência, a não ser segundo que participam da natureza da espécie, que é por Deus provista e ordenada, e que a este modo de providência se referem todas as coisas que são encontradas nas Sagradas Escrituras que parecem indicar a providência de Deus acerca dos animais brutos, como quando diz o salmista: “Cantai ao Senhor na confissão, salmodiai ao nosso Deus na cítara, que dá aos jumentos o seu alimento e aos filhos dos corvos que o invocam” (Salmo 147, 9); e também: “Formaste as trevas e se fêz a noite, nela vagueiam todos os animais da selva; os leõezinhos rugem em busca da presa, e pedem a Deus o seu sustento” (Salmo 103, 21) e muitas passagens semelhantes. Mas este erro atribui a Deus uma máxima imperfeição pois, de fato, não pode dar-se que Deus conheça os atos singulares dos animais brutos e não os ordene, sendo Deus sumamente bom, difundindo por isto em tudo a sua bondade. Este erro, portanto, derroga a ciência divina, subtraindo-lhe a ordenação dos particulares enquanto particulares.

2. Outros disseram, por este motivo, que os atos dos animais brutos caem debaixo da providência do mesmo modo como os atos dos racionais, de tal maneira que não possa acontecer nenhum mal que eles padeçam que não seja ordenado ao bem deles próprios. Mas isto também está longe da razão, pois não se deve pena ou prêmio senão àquele que tem livre arbítrio.

3. Deve-se dizer, por isso, que os animais brutos e todos os seus atos, também enquanto singulares, estão submetidos à divina providência. Não, todavia, pelo modo segundo o qual os homens e os seus atos lhe estão submetidos, pois os homens, mesmo enquanto singulares, são governados pela providência por causa deles mesmos, mas os animais brutos não são provistos enquanto singulares senão por causa dos outros, assim como já dissemos das demais criaturas corruptíveis.

Por este motivo, o mal que acontece para o animal bruto não tem ordenação para o bem dele próprio, mas para o bem de outro, como a morte do asno que se ordena para o bem do leão ou do lobo. Mas a morte do homem que é morto pelo leão não se ordena apenas a isto, mas principalmente à sua pena ou ao aumento do seu mérito, que cresce pela paciência.

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