28º DOMINGO DO TEMPO COMUM
11.10.2009: ANO B
Cor: Verde

“Concede-nos, ó Deus, a sabedoria do coração” (Salmo 89,12)

1ª LEITURA: SABEDORIA 7,7-11

7. “Orei e foi-me dada a prudência; supliquei, e veio a mim o espírito da sabedoria.
8. Preferi a sabedoria aos cetros e tronos e, em comparação com ela, julguei sem valor a riqueza;
9. a ela não igualei nenhuma pedra preciosa, pois, a seu lado, todo o ouro do mundo é um punhado de areia e, diante dela, a prata será como a lama.
10. Amei-a mais que a saúde e a beleza e quis possuí-la mais que a luz, pois o esplendor que dela irradia não se apaga.
11. Todos os bens me vieram com ela, pois uma riqueza incalculável está em suas mãos”.
– Palavra do Senhor.

Este fragmento foi extraído da parte central do Livro da Sabedoria. Seu autor, por uma ficção literária, passa-se por Salomão, o Rei sábio, que se apresenta com autoridade como alguém que implora e obtém o dom da sabedoria. A sabedoria, com efeito, não é fruto da habilidade ou de uma aquisição humana; somente pode ser recebida do alto.

O texto relê a famosa oração de Salomão em Gabaon (cf. 1Reis 3,6-13), onde o jovem soberano pede um coração “capaz de escutar” (assim, literalmente), ou seja, capaz de discernir para governar com retidão. Pois bem. Para obter este dom da sabedoria é necessário tomar algumas decisões. O autor diz que a antepôs, progressivamente, a sete bens: aos cetros, aos tronos, às riquezas, à pedra preciosa, à saúde, à beleza e à luz. Passa, assim, dos bens externos e materiais aos que têm a ver com a vida física do homem. No entanto, tampouco estes, inclusive a luz que vem aos olhos, resistem em comparação com a sabedoria, que deverá ser considerada, consequentemente, o verdadeiro e único bem do homem.

Se isto já era verdadeiro para os judeus que viviam na diáspora, na cidade de Alexandria, a fim de dar-lhes coesão e unidade enquanto estavam rodeados por uma sólida cultura helenística, acaba sendo ainda mais verdadeiro para nós, pois nos foi revelado, em Jesus, o verdadeiro rosto da sabedoria de que fala a Escritura.

* * *

SALMO RESPONSORIAL 89 (90)

R.: Saciai-nos, ó Senhor, com vosso amor,
e exultaremos de alegria!

1. Ensinai-nos a contar os nossos dias
e dai ao nosso coração sabedoria!
Senhor, voltai-vos! Até quando tardareis?
Tende piedade e compaixão de vossos servos! – R.

2. Saciai-nos de manhã com vosso amor,
e exultaremos de alegria todo o dia!
Alegrai-nos pelos dias que sofremos,
pelos anos que passamos na desgraça! – R.

3. Manifestai a vossa obra a vossos servos
e a seus filhos revelai a vossa glória!
Que a bondade do Senhor e nosso Deus (+) repouse sobre nós e nos conduza!
Tornai fecundo, ó Senhor, nosso trabalho – R.

* * *

2ª LEITURA: HEBREUS 4,12-13

12. A palavra de Deus é viva, eficaz e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes. Penetra até dividir alma e espírito, articulações e medulas. Ela julga os pensamentos e as intenções do coração.
13. E não há criatura que possa ocultar-se diante dela. Tudo está nu e descoberto aos seus olhos, e é a ela que devemos prestar contas.
– Palavra do Senhor.

No Antigo Testamento invocava-se a sabedoria para aprender a discernir o que era justo (cf. 1Reis 3,9); no Novo Testamento é apresentada como Palavra de Deus encarnada, dotada de um infalível poder de discriminação e juízo. Com efeito, o autor da Carta aos Hebreus nos oferece, em poucos versículos, uma teologia sugestiva.

Essa Palavra nos é apresentada em linha com a sabedoria, uma sabedoria de que Israel se afastara nesciamente (cf. Baruc 3,9-38; 4,1-4). É qualificada de “viva”, em condições, portanto, de conceder vida, de revigorar as opções da fé do fiel; “eficaz”, isto é, dotada da “dynamis Theú”, que equivale a dizer “poder de Deus” que torna felizes suas testemunhas (cf. Atos 19,20; 1Coríntios 1,18). Por fim, é considerada “mais cortante” que uma espada de dois gumes porque pode chegar a perscrutar o interior do homem em todos os seus componentes psicológicos e espirituais.

No versículo 13 se produz um salto gramatical brusco que nos mostra claramente como a Palavra coincide de fato com o próprio Deus, a cujo juízo ninguém pode absolutamente se subtrair. Sabemos, com efeito, que o Pai confiou este juízo ao seu Filho amado e que esse juízo é justo, embora também misericordioso para quem tem fé: “Aquele que crê nele não será condenado” (João 3,18).

* * *

EVANGELHO: MARCOS 10,17-30

Naquele tempo,
17. Quando Jesus saiu a caminhar, veio alguém correndo, ajoelhou-se diante dele e perguntou: “Bom mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?”
18. Jesus disse: “Por que me chamas de bom? Só Deus é bom, e mais ninguém.
19. Tu conheces os mandamentos: não matarás; não cometerás adultério; não roubarás; não levantarás falso testemunho; não prejudicarás ninguém; honra teu pai e tua mãe!”
20. Ele respondeu: “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude”.
21. Jesus olhou para ele com amor e disse: “Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!”
22. Mas, quando ele ouviu isso, ficou abatido e foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico.
23. Jesus então olhou ao redor e disse aos discípulos: “Como é difícil para os ricos entrar no reino de Deus!”
24. Os discípulos se admiravam com essas palavras, mas ele disse de novo: “Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus!
25. É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus!”
26. Ele ficaram muito espantados ao ouvirem isso e perguntavam uns aos outros: “Então, quem pode ser salvo?”
27. Jesus olhou para eles e disse: “Para os homens isso é impossível, mas não para Deus. Para Deus tudo é possível”.
28. Pedro então começou a dizer-lhe: “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos”.
29. Respondeu Jesus: “Em verdade vos digo: quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos por causa de mim e do evangelho
30. receberá cem vezes mais agora, durante esta vida – casa, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições – e, no mundo futuro, a vida eterna”.
– Palavra da Salvação

O fragmento do Evangelho de Marcos apresenta “alguém” que se aproxima de Jesus para perguntar-lhe o que deve fazer para herdar a vida eterna. Trata-se de uma pergunta sensata em que escutamos o eco da voz dos “`anawfm” que perguntam nos Salmos: “Senhor, quem habitará na tua tenda?” (Salmo 15,1); e: “Quem subirá ao monte do Senhor? Quem poderá estar em seu santo recinto?” (Salmo 24,3). Com efeito, sabendo que na “vida eterna” encontram-se condensados a benevolência divina e o desejo de felicidade do homem, perguntavam como “herdar” as promessas de Deus. Jesus, interpelado, rejeita para si, enquanto homem, o atributo “bom”, e o aponta explicitamente ao único que é a Bondade absoluta; ao mesmo tempo, convida seu interlocutor a observar os Mandamentos – as dez palavras – que são o dom do Bom Deus dirigido àqueles que querem entrar em comunhão com Ele.

Pousa agora sobre esse “alguém” que pode responder que tem observado os Mandamentos desde a sua juventude o olhar admirado e amoroso de Jesus, que lhe dirige um convite preciso e claro: “Vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”. Contudo, há algo que impede ao seu interlocutor de acolher o amor de predileção do Mestre: possui “muitos bens”, porém não consegue compreender qual é o verdadeiro bem, o verdadeiro rosto da sabedoria que se lhe quer dar; e assim se afasta “cheio de tristeza”.

Jesus explica aos discípulos espantados como precisamente essas riquezas, que no Antigo Testamento eram consideradas sinal da benevolência divina, podem se converter no maior obstáculo para se acolher o Reino dos Céus. Apenas quem segue Jesus encontra com Ele e nele cem vezes mais aqui na terra – juntamente “com perseguições”, enfatiza São Marcos (versículo 30) – e a vida verdadeira, a eterna, que só pode ser recebida por aquele que, como o comerciante desperto [Mateus 13,45-46], vende tudo para adquiri-la.

* * *

HOMILIA PATRÍSTICA: “SE QUERES SER PERFEITO”

“Se queres ser perfeito”. Estas palavras pertencem ao Evangelho de Marcos, mas exatamente a mesma idéia aparece nos demais [evangelhos] sinóticos onde, com palavras às vezes um pouco diferentes, se extrai idêntica doutrina. E deveis estar plenamente convencidos de que o Salvador nunca se expressou de maneira puramente humana, mas que seu ensinamento sempre foi formado por uma sabedoria divina e mística. Assim, não devemos ouvir suas palavras carnalmente, mas sim indagar e aprofundar o sentido nelas oculto através de uma adequada investigação e colocando em jogo todo o cuidado e sagacidade da nossa inteligência.

“Se queres ser perfeito”: Portanto, não era ainda perfeito, visto que não há nada mais perfeito que o perfeito. Ademais, as palavras “se queres” expressam de maneira contundente e divina a livre faculdade de escolha do seu interlocutor. Com efeito, no homem – em sua qualidade de ser livre – reside a livre escolha da vontade; em Deus – em sua qualidade de Senhor e árbitro – reside a capacidade de conceder. E concede aos que querem e rezam, e com o maior empenho se esforçam por obter sua salvação, pois Deus não obriga – a coação é, portanto, inimiga de Deus -, mas concede aos que a buscam, outorga aos que pedem, abre aos que chamam. Logo, se queres a perfeição, se verdadeiramente queres e não te enganas a ti mesmo, procura-te o que te falta.

“Só uma coisa te falta”: O que te resta fazer e que é bom, porém está à margem da lei, não te é dado pela lei, não se enquadra dentro da lei, é próprio dos que possuem a verdadeira vida. Em outras palavras: ele [=o jovem rico], que havia cumprido toda a lei desde pequeno e que havia dito de si coisas tão grandes e soberbas, com todas elas não pôde adquirir essa única coisa, que é privativa do Salvador, para obter a vida eterna, cujo desejo lhe havia movido a dar aquele passo. Foi-se embora pesaroso, abatido pelas exigências de uma vida acerca da qual tinha vindo suplicar ao Mestre. Realmente, não ambicionava de verdade a vida, como parecia deduzir-se das suas palavras; a única coisa que buscava era granjear uma reputação de boa vontade: podia, com certeza, ufanar-se por fazer uma multidão de coisas, porém era incapaz de fazer aquela única coisa, aquela obra de salvação que o conduziria à perfeição. Para esta obra era fraco e indolente.

O mesmo disse o Senhor a Marta quando esta, preocupada com uma multidão de afazeres, andava inquieta e nervosa para dar fim ao serviço, chamando sua irmã de negligente pois, tendo abandonado o serviço, sentou-se aos pés do Senhor, prestando a atenção de uma discípula: “Andas inquieta com tantas coisas. Porém, Maria escolheu a melhor parte”. O mesmo também não se excluirá deste: Manda que, deixando de lado toda ocupação preocupante, se centralize apenas em uma só e se sente aos pés da graça daquele que pessoalmente lhe propõe a vida eterna.

(Clemente de Alexandria; Da Salvação dos Ricos 5.10 [PG 9,610.614])

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MEDITAÇÃO

Há no homem uma ineludível necessidade de vida, plenitude e felicidade. O homem sensato é aquele que encontra a maneira de responder a esta pergunta que a maior parte das pessoas nem sequer sabe fazer ou que responde de fato com uma busca frequentemente obcessiva de prazeres efêmeros e sempre novos. A Palavra de hoje convida a nos situarmos na atitude justa para discernir, antes de mais nada, qual a verdadeira sabedoria, a qual nos indicará, a seguir, como recebê-la; porque, na verdade, é um dom: o dom de uma Pessoa que nos ama infinitamente.

No Antigo Testamento ia-se perfilando a sabedoria através de um crescente progressivo de realidades exteriores alheias aos bens espirituais. Mais tarde, próximo do Novo Testamento, [a sabedoria] foi personificada como alguém cuja “alegria era estar com os homens” (Provérbios 8,31), embora seja em Jesus onde se revela o rosto [da sabedoria]. E Jesus chama cada um valorizando o empenho que demonstrou em sua busca por esse bem. A nós cabe não nos determos, não nos deixarmos enganar pelas falsas riquezas, não nos lançarmos para trás diante de suas exigências. Se Ele nos pede, com apremiantes imperativos, que deixemos tudo por Ele; devemos fazê-lo e renovar continuamente esta decisão, pois já não poderemos ser felizes se afastarmos os nossos passos de Jesus.

Nenhuma das falsas e presumidas riquezas poderão jamais resistir à comparação com sua pobreza, nem saciar nossa fome de amor, verdade e beleza. Seu olhar continuará a nos seguir, de uma maneira silenciosa, com um respeito infinito à nossa liberdade e não teremos paz até que não tenhamos encontrado nele a nossa paz.

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ORAÇÃO

Sou eu, Senhor, Bom Mestre, esse alguém que olhas com um amor intenso. Sou eu, eu sei, esse alguém que chamas a um desprendimento total de si mesmo. Trata-se de um desafio. Assim é e também me encontro todo dia diante desse drama: da possibilidade de rejeitar o amor. Se às vezes me encontro cansado e sozinho, não será talvez porque não sei te dar o que me pedes? Se às vezes estou triste, não será talvez porque tu não és tudo para mim, porque não es verdadeiramente o meu único tesouro, o meu grande amor? Quais são as riquezas que me impedem de te seguir, de saborear contigo e em ti encontrar a verdadeira sabedoria que concede a paz ao coração?

Tu saís todo dia ao caminho ao meu encontro para olhar-me nos olhos, para dar-me outra oportunidade de responder-te de uma maneira radical e ingressar na tua alegria. Se a mim me parece impossível dar esse passo, concede-me a humilde certeza de crer que a tua mão sempre me sustentará e me guiará até ali, além de todo confim, além de toda medida, até ali onde tu me esperas para dar-me nada menos que a ti mesmo, único Bem supremo.

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