Uma das tendências protestantes que tem se infiltrado hoje entre os católicos é o puritanismo. Mas o que é o puritanismo? Ele consiste em considerar moralmente más coisas que são moralmente neutras.

Por isso é comum pessoas que tenham tendência puritana considerarem, em si mesmo, matérias de pecado coisas como:

– Tomar um copo de cerveja

– Uma mulher se enfeitar

– Usar uma arma de fogo

Esses três exemplos são de atitudes moralmente neutras, que tornam-se atitudes boas ou más dependendo do contexto e da finalidade.

Tomar uma cerveja é matéria de pecado se isso for feito com a intenção de se desinibir para “pegar todas” na noite, mas pode ser algo sadio e virtuoso tomar uma cerveja conversando com os amigos – se Nosso Senhor Jesus Cristo fosse puritano, Ele teria transformado o vinho em água, e não a água em vinho (Jo 2,1-12).

A mulher se enfeitar é matéria de pecado se fizer isso com a finalidade de levar pra cama um homem para adulterar com ela, mas pode ser algo virtuoso se ela se enfeitar com a finalidade de apresentar de forma sadia e equilibrada sua feminilidade diante dos outros.

Usar uma arma de fogo é matéria de pecado se isso for feito com a finalidade de assaltar, mas pode ser algo virtuoso usar a mesma arma como legítima defesa para atacar um agressor, com a finalidade de defender sua vida e a vida da sua família – ver Catecismo da Igreja Católica (Cat.), n. 2263-2265.

Poderíamos quem sabe citar aqui outros exemplos de comportamentos puritanos, mas como são situações que dependem do contexto e da finalidade e por isso muitas vezes não são objeto de uma avaliação moral tão objetiva e imediata, ficamos aqui apenas com estes três exemplos. Mas os princípios da moral católica são claros, e devem ser aplicados em cada situação.

Como o puritanismo traz uma visão distorcida da moral, é comum encontrarmos pessoas com tendência puritana que são rígidas quando é pra ser flexível e são flexíveis quando é pra serem rígidas. Pois a moral católica ensina que é necessário sermos rígidos para renunciar à atos que ela considera matéria de pecado, como:

– O uso de métodos contraceptivos artificiais em qualquer situação, ou o uso de métodos naturais sem razões justas para espaçar o nascimento dos filhos (Cat. 2368-2370)

– A recusa em obedecer às normas litúrgicas (creio que não é tão difícil encontrar pessoas com tendências puritanas relativizando as normas litúrgicas, dizendo que “o que vale é o coração”). Curiosidade: a mesma tendência “gnóstica” – logo explicaremos abaixo! – que pode estar por detrás do puritanismo, pode estar também por detrás da desvalorização dos atos externos do culto.

Este puritanismo traz diversos prejuízos:

– Traz consigo uma visão distorcida da moral (incompatível com a moral católica)

– Pode levar um fiel bem intencionado a viver uma vida espiritual demasiadamente pesada em suas práticas (o que em algum momento pode fazê-lo desistir do caminho da virtude)

– Atrapalha o testemunho dos católicos (“Ser católico é isso??? Então eu é que não quero ser…”)

Um comportamento puritano pode ter origem simplesmente em um excesso de rigorismo, que surge como uma reação (talvez bem-intencionada) contra o liberalismo moral da revolução cultural em que vivemos. Em termos de psicologia social, um extremismo tende a levar à manifestação de outro extremismo contrário.

Mas além disso, o puritanismo moderno é naturalmente reforçado por uma questão histórica, que diz respeito à concepção moral dos protestantes calvinistas e do que isso gerou.

Os protestantes calvinistas (que surgiram na revolução protestante do século 16) acreditavam que cada pessoa já era “predestinada” ao céu ou ao inferno. E na lógica deles, como reconhecer de qual lado cada um se encontra? Pelas atitudes. Isso naturalmente gerou uma ânsia em se desenvolver listas do que se pode e do que não se pode fazer. Sem a autoridade do Sagrado Magistério em matéria de moral (pois estamos falando de protestantes), foi natural que esta ânsia levasse a cair em um extremismo pessimista em diversas matérias morais.

Essa mentalidade abriu as portas para a infiltração de uma tendência “gnóstica” entre os protestantes. O que é a gnose? É uma heresia, fruto do paganismo antigo, que surgiu no primeiro século do cristianismo e considera a matéria como má em si mesma. Para a gnose, o objetivo da vida humana é libertar-se da matéria.

Tudo indica que foi como resposta à gnose que o apóstolo São João, por inspiração divina, escreveu logo no início do Seu Evangelho dizendo: “O Verbo se fez Carne.” (Jo 1, 14) Carne, logo matéria, é considerado algo mau pelos gnósticos. O Mistério da Encarnação (Deus se fez fez Carne em Nosso Senhor, assumindo nossa natureza humana!) é uma aberração para eles! Para um gnóstico, se Deus é bom, Ele não poderia tornar-se matéria, que seria má. Os Sete Sacramentos instituídos por Nosso Senhor, pelo qual Ele usa uma realidade humana e material (pão, vinho, água, óleo) para comunicar a graça divina, outra realidade incompreensível para eles. A Eucaristia (Presença Real e substancial de Nosso Senhor em Corpo, Sangue, Alma e Divindade!), uma aberração pior ainda!

A gnose foi em grande parte extirpada pela consolidação da cristandade, mas tendências dela continuaram presente em movimentos pagãos e heréticos (como entre os cátaros).

A distorcida moral calvinista, que mencionamos acima, foi uma porta aberta para a infiltração da mentalidade gnóstica entre os protestantes, através da visão pessimista daquilo que é humano e material. É comum ouvirmos protestantes (e mesmo católicos de alguns setores da Renovação Carismática) afirmar coisas como: “O meu humano me afastou de Deus” Ora, o que me afasta a Deus é o meu pecado, não a minha humanidade em si mesma! Ou então: “Senhor, eu renuncio à minha humanidade!” A pessoa é o que então? Deus? Anjo? Ou quer deixar de existir na hora que faz uma oração assim? Interpretando essas frases de forma literal, elas são um absurdo. E podem refletir uma mentalidade equivocada.

Outra situação que aparece muito nesses meios é o uso do termo “mundo”, “mundano”, “coisas do mundo” de uma forma pejorativa. Poderia-se argumentar que o próprio São João utilizou esse termo dessa maneira, e é verdade (IJo 2,15); mas São João o fez para referir-se aquilo que é pecado, aquilo que constitui parte de uma mentalidade vigente na cultura da época que não era compatível com a fé cristã. O problema é que alguns com tendência puritana usam o mesmo termo que São João usou para referir-se pejorativamente à realidade seculares que são boas e sadias, como os momentos e locais de lazer, músicas, esportes, a sexualidade em si mesma, e mesmo a vida profissional (que muitas vezes é vista como algo “adversário” ao serviço de Deus, enquanto a santificação do leigo se dá primeiramente, pelas coisas ordinárias, como a vida familiar e profissional – ver Lumen Gentium, n.31).

Tudo isso reflete uma tendência gnóstica, presente entre protestantes e hoje mesmo entre católicos, que muitas vezes está por detrás de um comportamento puritano.

É necessário que os católicos conheçam e dêem a conhecer a moral católica e seus princípios, ao invés de ficar cada um “criando” sua própria moral segundo suas impressões e “achismos”, ora caindo em um liberalismo moral (sendo flexível no que é para ser rígido), ora para um puritanismo (sendo rígido no que é para ser flexível).

O Sagrado Magistério da Igreja é, pois, o guardião da moral. Ele é infalível quando define algo em matéria de moral (Cat. 2035), pois disso depende que os homens realizem o projeto de Deus.

“Não te afastes dela (da lei de Deus), nem para a direita, nem para a esquerda.” (Josué 1,7)

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